The Project Gutenberg EBook of O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco

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Title: O que fazem mulheres
       Romance philosophico - Quarta edio

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: July 18, 2009 [EBook #29435]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES ***




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                                  OBRAS

                                    DE

                          CAMILLO CASTELLO BRANCO

                              EDIO POPULAR

                                   LVII

                            O QUE FAZEM MULHERES




    VOLUMES PUBLICADOS

    N. 1--Coisas espantosas.
    N. 2--As tres irmans.
    N. 3--A engeitada.
    N. 4--Doze casamentos felizes.
    N. 5--O esqueleto.
    N. 6--O bem e o mal.
    N. 7--O senhor do Pao de Nines.
    N. 8--Anathema.
    N. 9--A mulher fatal.
    N. 10--Cavar em ruinas.
    N.os 11 e 12--Correspondencia epistolar.
    N. 13--Divindade de Jesus.
    N. 14--A doida do Candal.
    N. 15--Duas horas de leitura.
    N. 16--Fanny.
    N.os 17, 18 e 19--Novellas do Minho.
    N.os 20 e 21--Horas de paz.
    N. 22--Agulha em palheiro.
    N. 23--O olho de vidro.
    N. 24--Annos de prosa.
    N. 25--Os brilhantes do brasileiro.
    N. 26--A bruxa do Monte-Cordova.
    N. 27--Carlota Angela.
    N. 28--Quatro horas innocentes.
    N. 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico!
    N. 30--A filha do Doutor Negro.
    N. 31--Estrellas propicias.
    N. 32--A filha do regicida.
    N.os 33 e 34--O demonio do ouro.
    N. 35--O regicida.
    N. 36--A filha do arcediago.
    N. 37--A neta do arcediago.
    N. 38--Delictos da Mocidade.
    N. 39--Onde est a felicidade?
    N. 40--Um homem de brios.
    N. 41--Memorias de Guilherme do Amaral.
    N.os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.
    N.os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.
    N.os 47 e 48--O judeu.
    N. 49--Duas pocas da vida.
    N. 50--Estrellas funestas.
    N. 51--Lagrimas abenoadas.
    N. 52--Lucta de gigantes.
    N.os 53 e 54--Memorias do carcere.
    N. 55--Mysterios de Fafe.
    N. 56--Corao, cabea e estomago.
    N. 57--O que fazem mulheres.




                         _CAMILLO CASTELLO BRANCO_

                                O QUE FAZEM

                                  MULHERES


                            ROMANCE PHILOSOPHICO


                                QUARTA EDIO


                                   1907
                      PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
       Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernao
                          Movidas a electricidade
                          _Rua Augusta--44 a 54_
                                  LISBOA




1907
OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAO
MOVIDAS A ELECTRICIDADE
Da Parceria Antonio Maria Pereira
_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1. e 2. andar_
LISBOA




A TODOS OS QUE LEREM


 uma historia que faz arripiar os cabellos.

Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros,
anjos e demonios.

 um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!

Isto sim que  romance!

No  romance;  um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em
que o sol esconde a cara.

    Como da seva mesa de Thyestes
    Quando os filhos por mo de Atreu comia.

Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me
cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que
espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.

Tenebroso e medonho!  uma dana macabra! um tripudio infernal! cousa s
semelhante a uma novella pavorosa das que aterram um editor, e se
perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.

Ha ahi almas de pedra, coraes de zinco, olhos de vidro, peitos de
asphalto?

Que venham para c.

Aqui ha cebola para todos os olhos;

Broca para todas as almas;

Cadinhos de fundio metallurgica para todos os peitos.

No se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos
peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.

Os dias actuaes so melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente,
sria e sisuda, se compra um romance,  para dar treguas s
despoetisadas e pcas realidades da vida.

Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para
espairecer de meditaes serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.

Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso,
se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas,
salitrosas, travando bem  malagueta, nos beios de toda a gente, afra
os seus.

Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.

Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; no leia o resto, que
est ahi adiante uma, ou duas so ellas, as scenas das que se no levam
ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.

Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma
lampada.

Alfredo de Vigny no diz que escreveu um drama, s escuras, em vinte
dias? E Frederico Souli no se rodeava de esqueletos e esquifes?

E outros no se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror?
Menos o do subterraneo... este  meu, se me do licena.

Pois foi l que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.

No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns tomos de
oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.

Almas plebeias! no sabem o que  a fidalguia do talento, que tem
alcaar nos astros, e nos antros lobregos da terra; no entendem este
fadario do genio, que elles chamam excentricidade, como se no
houvesse um nome portuguez que dar a isto.

O leitor sabe o que isto ? J sentiu na alma o apertar de um caustico?
Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspirao corrosiva, como
duas onas de _sublimado_?

Se no sabe o que isto , estude pharmacia, abra um expositor de chimica
mineral, e ver.

No cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais
conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a
inspirao, que  uma cousa que dispensa tudo, at o siso e a
grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;--e,
se no bastar esta, valha-se da resignao.

Ora, est dito tudo.

Leiam isto, que  verdadeiro como o Agiologio de Ribadaneira, como as
Peregrinaes de Ferno Mendes, como todos os livros legados de
gerao a gerao com o sinete da crena universal.




A ALGUNS DOS QUE LEREM


No ser uma aco meritoria amoldurar em frmas verosimeis a virtude,
que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Ho de s crer
nas faanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as
perfeies do espirito, descrr o que ultrapassa as balisas de uma certa
virtude convencional, que no custa dores a quem a usa?

Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as
impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no
arcano immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de
Ludovina, se me dizem que a este inferno do mundo no podia baixar tal
anjo, sabem o que  esse descrer?  apoucamento de alma para idear o
bello;  o regelo do corao que rebate as imagens ainda aquecidas do
halito puro da divindade.

Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria
mais que Deus.




CAPITULO AVULSO

PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZER


Francisco Nunes...

Que nome to peco e charro! _Francisco Nunes!_

Pois se o homem chamava-se assim!?

Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste _Nunes_. O rapaz
tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas.
Pois nunca escreveu por que no queria assignar-se _Nunes_.

Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.

Um escriptor _Nunes_ morre ao nascer.

Bem o sabia elle.

Houve em Portugal um escriptor chamado _Antonio Jos_. Se a inquisio o
no queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.

Francisco Nunes s poderia viver na memoria da posteridade, se S.
Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos
do theatro de D. Maria.

Outros l soffrem tractos agora, mas  em cima, no palco... Se, ao
menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...

No escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, ssinho, em casa,
e na rua. No incommodava ninguem; era um anjo; tinha s a perversidade
de chamar-se _Francisco Nunes_.

Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de
Cedofeita, falando s, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o
escuta, se no eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de
borracha.

Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro  marginada por
um comprido muro de quintaes que pertencem s casas da rua parallela.

Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos
sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com
o p com sanha, e prorompe na imprecao interrompida, do seguinte theor:

Arado pelo fogo do inferno seja o torro maldito onde nasceu a folha
d'este charuto!

A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do
carrasco que nascer no terreno que te produziu!

Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!

O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!

As mos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se
como as das mumias de Memphis.

E para vs, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do
contracto do tabaco, para vs o inferno illimitado, a regio tenebrosa
dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!

Para vs, Borgias, para vs, raa de Locusta, e de Brinvilliers, para
vs, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu
espavorida a vergonha e a justia; e as caudaes de sulphur em combusto
eterna nas furnas tartareas, onde  de f que d urros medonhos um
condemnado chamado _Nicot_, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a
impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de
Frana.[1]

Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as
substancias organicas, como o acido sulphurico.

So amargos e causticos como o acido nitrico.

Calcinam os beios como o acido hydrochlorico.

Queimam a laringe como o acido phosphorico.

Laceram o esophago como o acetato de chumbo.

Fulminam e despedaam como o acido hydrocianico.

Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rlo de erva-santa (que
blasfemia! _santa!_) faamos tremendas reflexes:

Um manual de chimica para uso dos leitores de romances  instantemente
reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella  um
extendal da sciencia humana; e esta pde, sem immodestia, graduar-se assim.

Quando se escreviam bacamartes para as geraes soffredoras, que os
lram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que
ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes
esboroados das bibliothecas.

O in-folio era uma crena, uma religio, uma faculdade d'aquellas gordas
almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.

No vos faz melancolia vr a lombada d'esses enormes volumes aprumados
n'uma estante? No ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz
crer que o in-folio chora pelo frade?

Agora no se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais
vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o
romancista, que  o successor do frade, na ordem das intelligencias
productivas.

Ora, o romancista ha-de, por fora de sua natureza scientifica, despejar
no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e
o romance, assim, deixar de ser lido, se o conselho superior de
instruco publica no organisar os estudos de modo que as sciencias
transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o
espirito-charneca de muito leitor sandio, que no pde entender a
iracundia chimica de Francisco Nunes.

O qual continuou assim:

Ha cinco seculos que a raa proscripta de Israel soffreu em Pariz uma
perseguio sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas,
porque a calumnia, infamando a religio do Messias, disse que o povo
judaico tentra envenenar as fontes e poos de Frana.

E vs, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno 
luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preo de vossas
carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nao, que asfixia
s mos dos velhos: a vs, que alimentaes o vicio alheio com o crime
proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem?

Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os
melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros
extorquidos  pobre raa, que to caros pagou os trinta dinheiros que
Judas no comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nao de cafres, e ds
refrescos, e condecoraes, e honrarias, e montes de ouro aos
envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a
alma n'um rlo de fumo negro.

Que  dos vestgios da civilisao christ? Que  da egide que protege
o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide est escripta a lei
que assegura a vida do homem?

A Roma pag era o sanctuario da justia. Ahi os propinadores de venenos
eram clandestinos. A mo cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo
das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. Lucius Cornelius
Sylla, a tua lei de supplicio para os empeonhadores vale s de per si
uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da
algibeira 1$960 ris diarios, por cabea.

Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros,
o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo
da pieira laringea, os deliquios da cabea atordoada, a podrido dos
dentes, as fendas carboniformes dos beios, os abcessos pulmonares, as
hemorrhagias de sangue apostemado:--ha tudo isto, debaixo d'este co
impassivel, na presena do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a
electricidade por arames, onde se comem _omelettes sucres_ e
_souffles_, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudar
BENEFICENCIA Mentira! Mentira e escarneo!

Se quereis beneficiar este paiz, no mandeis l fra, oh parvos
governadores da Barataria, no mandeis l fra estudar o processo do
bem-fazer.

Vde-me este moo, que apenas tem vinte e dois annos, e j precoces
sulcos da doena lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam
vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e
cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoo,
expedindo das glandulas salivares um pus granuloso, pardo, e
alcalino. As faculdades intellectuaes esto entorpecidas n'esse mancebo.
Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino,
bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres
tolices cerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando
o corpo enervado  banca dos licores incitantes.

Sabeis quem reduziu esse vegetal a to quebrantado estiolamento?

Foi o charuto!

O contracto do tabaco empeonhra a seiva d'esse moo, que os fados,
menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o
magisterio do folhetim, maximo esforo de intelligencia, n'uma poca, e
n'um paiz, cujo amor s letras no vale a correspondencia de uma local
bem poetica como a do baile do sr. fulano.

Voltae para esse corpo achacadio e apodrentado o vosso animo
beneficente, Sanchos-Panas lerdos, pantales administrativos!

Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que
o faz tolhio para tudo.

Fazei a autopsia de um charuto como este--proseguia Francisco Nunes,
parando e contemplando as nervuras negras do rlo de folha, que
semelhava uma rolha de cortia queimada--e vereis que ha aqui dentro um
talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma
casca de bolota, e tres grositos excrementicios de rato ou coelho.

Horrivel, e sujamente infernal!

Senhores deputados! no se mata assim impunemente um povo![2]

As naes tyrannisadas, quando a oppresso requinta, erguem-se como um
s homem, e fogem para o Aventino.

Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o
charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o
musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!

O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o
cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a regio dos
suicidas. Morte ao conselho!

No ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha
charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia no est nos canos,
senhores; est n'estes canudos, por onde os contractadores cospem
affronta e morte na face do povo!

Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no
Oriente!

Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, ser negra
como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes...
Vae-te, infame!

E, assim rugindo, n'uma como inprecao do moribundo atormentado,
arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.

    [1]  para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de
    tamanha angustia! Aquella nesga de historia destoava da virulencia
    da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono.

    [2]  ordinario este estylo; aqui no ha unidade; o impeto afrouxa,
    e desce na vulgaridade tacanha do artigo de fundo.  defeito de
    todos os nossos oradores de inspirao: remontam-se; a gente est a
    ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se precata, v-os cahir,
    a disputarem a presa do escaravelho que se rola no cho. Francisco
    Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.




I


--Ludovina, j pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?

Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presena, quarenta
annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior
Pimenta, empregado na alfandega do Porto.

Ludovina respondeu:

Como hei-de eu responder, se ainda no vi o homem?

-- um homem como os outros;--replicou D. Angelica--so todos o mesmo,
menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem  quem melhor conhece outro
homem. Se elle te disse que achou um bom marido, no pde enganar-se.

Ora essa, me! E se eu antipathisar com elle?

--Deves casar, como se sympathisasses.

Bravo!... e depois?

--E depois, vir a sympathia. Imaginas l com que repugnancia eu casei?
Casaram-me, deixei-me levar porque era uma creana, vivia na aldeia, e
sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu
pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem
saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que no
invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e
chegar onde as mais ricas no podiam chegar. Via homens elegantes,
reconhecia a differena que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo,
nunca me passou pela cabea a loucura, a ingratido, o crime da
infidelidade.[3] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as
outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. No ha
homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.

Mas a me sabe que eu... amo outro homem.

--Eu no sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre
namorar e amar est o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda
romances e cartas entre as paginas... (no te inquietes, que sei tudo, e
tudo pouco vale...) esse rapaz quem ? Um filho-familia, sem posio,
sem modo de vida, que te ama, que ser teu marido, se tu quizeres; que
viver das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhar da sua
dependencia, quando o amor obedecer  razo; que se enfastiar dos teus
carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao bero de teu
filho. Se quizesses exemplos, dava'-tos. Tens ouvido censurar duas
ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?

Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir
pela fortuna de estupidas creaturas...

--Lste? De quem era o folhetim? Se o auctor fr rico, e tiver quarenta
annos, o auctor  insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu
destino  determinao do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e
conta-lhe que s uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de
espirito. Offerece-lhe o teu corao, e promette que has-de levar-lhe a
felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao
santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista  um talento raro, um
elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo
offerecimento, prevenindo-o de que s to pobre como elle. Se o
folhetinista te vier pedir,  um dia de festa n'esta casa...

Aprende, creana. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam
ahi ambies, que uma menina sem riqueza no satisfaz. Pois no os
conheces tu, Ludovina? No os vs no baile e no theatro namorando um
dote como quem namora uma mulher? No s tu a mesma que censuras a
indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas,
e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de
casarem ricos, ainda  custa de vergonhas? V l se entre os
folhetinistas aspirantes ao casamento de especulao se te depara o
nome que hontem lste... Talvez ainda no reparasses em outra injustia
que se faz s mulheres pobres, se a fortuna lhes d maridos ricos. No
ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura,
em casamento meninas virtuosas e pobres? No. Procuram-nas ricas, e
fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de aces do
banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que
dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignao ao amor do sexo: no
dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecaes contra a mulher,
que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.

Olha, filha, se te no fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por
paixo, como se diz, com o primeiro moo pobre que te encantasse.
Depois, quando sasses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho
de chita, por no poderes levar um de _glac_. Os taes censores de
folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: pobre
rapariga, fez um casamento infeliz! Ao teu lado passaria uma das tuas
amigas, ricamente vestida, pelo brao de um velho com quem a casaram as
conveniencias. Os mesmos censores diriam: Que mal empregada mulher em
semelhante alarve! J vs que o estimulo da compaixo, que fizeste, era
o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era
o vestido de seda.

Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu
corao?

--Isso  romance, menina. Nunca  feliz com um vestido de chita a mulher
que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinio publica,
Ludovina, no  a consciencia de cada um. O agente principal do espirito
de uma mulher  a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando s
netas a melhor eleio de um talhe de vestido, que faro as solteiras?

Basta de razes insignificantes, que devem humilhar a tua razo,
Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o
Ricardo de S, por saber que nunca seriam tardias as reflexes que te
fao agora. No pdes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e
grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se
soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova
de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que
vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo
at dos teus caprichos de formosa; porm, nada mais podemos. Se tivesses
um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de
S, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de
dizer a esse cavalheiro que a tua vontade no  livre, ou que a tua
escolha foi outra.

No diga tal, mam. Se casar com o homem que me destinam, a escolha no
 minha. Deixem-me, ao menos, este desforo... Fique a responsabilidade
da aco a quem me obriga.

--Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.

O dialogo rematra assim, quando se fez annunciar Ricardo de S.

D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante,
disse  me que no podia ir  sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D.
Angelica receber a visita.

Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a
sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mo, beijando-a ao
estylo da Frana, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes
distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a mesa-redonda
dos hoteis onde estiveram. Ahi vo  pressa dois traos d'este Ricardo
de S.  um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz
requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino
em que se dispensa vocao, faz cartas de namoro com letra ingleza, e
timbra em comprar no _Mor_ os mais anilados _enveloppes_, e o melhor
papel-setim de fimbria dourada.

L, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das
paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a
catastrophe merece ser corrigida.

Alm d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito
bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das
graas, outra o das musas, e a mais embrincada  uma Suzana a sar do
banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel.
Ricardo de S consome as manhs, que principiam para elle s onze
horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um
d'elles com um cylindro de cera. Agua, quanto possivel, as guias do
bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo
nono frasco da terceira serie. Depois, o lao da gravata, e a collocao
symetrica do pseudo camapheu  obra de flego que lhe d tempo de
assobiar dois actos do _Trovador_, a aria valida do _Rigoletto_, e o
acto final da _Lucia_. De seguida, a compostura airosa das lapellas do
fraque, a ultima demo de escova, e o aprumo do chapo onde no ha um
fio erriado, tolhem muitas vezes a sada do peralta, que se encontra
com a terrina da sopa do jantar.

O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O
pae, homem rolio e respeitador das immunidades do estomago, suppe que
seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e no se
assusta da inappetencia.

Ricardo cr que o seu estomago destacou tecidos para o corao,
reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o
_quantum satis_ das compleies sylphidicas. Convicto da excrecencia
espiritual, cr-se dotado de fluidos nrveos, magnetismo, electricidade,
etherisao. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim
tudo o mais que no se entende.

No ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante.
Algumas vezes, tem a piedade de as no encarar para as no abysmar.
Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho
carregado de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que
elle sabe, e, no ha que vr, o somnambulismo  prompto, a attraco 
irresistivel como a da cobra-cascavel do Canad apoz o tangedor da flauta.

Cr tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da
crena, e lhe no receitam um curativo de causticos.

D. Ludovina Pimenta  uma das suas somnambulas, e a menos victima de
todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigao cavalheirosa de
corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida no
tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura
com a me, toma uma chavena de ch sem assucar, e despede-se s onze
horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspirao
matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA.

 o que podemos esquadrinhar cerca do bacharel Ricardo de S.

Os homens assim no se pintam; a zombaria no os enxerga na profundeza
da sua toleima... so o Rubicon do folhetim, a desesperao da comedia
desde Aristophanes at Molire.

O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina
photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.

    [3] Perdoem-lhe a mentira pela inteno boa com que a diz...




II


Ludovina fica hoje no quarto--disse D. Angelica, respondendo  pergunta
admirada do bacharel.

--Doente?

--Sim, passageiramente doente; mas  to debil a pequena, to melindrosa...

-- um corpo que no pde com o espirito... Eu comprehendo o que so
esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex. tem uma organisao
muito semelhante  minha. As minhas enfermidades so sempre quebrantos,
estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos
anceios do corao. Compleies infelizes, no acha, minha senhora?

--Oh! infelicissimas, de certo...

--Se, todavia, v. ex. tivesse a bondade de dizer a sua filha que
fizesse um esforo para me vir contar os seus padecimentos, talvez que
uma medicina toda espiritual...

--A curasse?... talvez...

--Sorriso de incredulidade, no  assim? V. ex.  sobejamente
espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre
outra, quando as correntes magneticas...

--No lhe d treguas a sua paixo magnetica, sr. S!... A Ludovinasinha
queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos
caseiros... Talvez que uns sinapismos...--proseguiu ella, rindo, sem
ferir o orgo maniaco do bacharel--dispensem uma descarga electrica.

--V. ex. no quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposio
das minhas convices.

-- clarissimo sempre, sr. S; mas desconfio da inefficacia da sua
vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convm-nos que ella
esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.

--Tenho razes para suspeitar que minha filha no  indifferente a v. s..

--De certo, no.

--Pde dizer-me at que ponto me devo lisonjear com a affeio que
Ludovina lhe merece?

--Voto  sr. D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...

--S?

--Uma affeio nobre e desinteressada...

--Amor?

--De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...

--Uma paixo verdadeira, no  verdade?

--Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto  possivel
apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado j pelas
desilluses, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos
revezes da alma...

D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais
destra simulao, dizendo:

--Minha filha tocou a campainha... As creadas no a ouvem de certo, eu
volto j...

Ricardo de S fez mentalmente o seguinte monologo:

--D. Angelica vae propr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma
crise imprevista! Est explicado o enygma da carta que Ludovina me
escreveu hoje. Receia que eu me esquive  proposta; e tem razo. Eu no
caso. Esta mulher est abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante,
mas no pde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... 
horrorosa a minha posio!... Sei que fao uma victima... de certo a
mato... Estudemos uma evasiva, no obstante...

O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua
me, se collocava atraz de uma vidraa da alcova immediata  sala.

D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora j admirou a
eloquencia persuasiva com que ella abalou o corao da filha; j disse,
de si para si, que, com tal me, no ha filha que rejeite o casamento de
um brasileiro rico; j leu as paginas que ahi ficam  mesinha para que
ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em
casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica,
ha de tambem admirar-lhe as obras.

D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o
desenvolvimento da conversao, e quiz dar  filha o mais rude, mas
tambem o mais proveitoso desengano.

--Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s. estava--disse a
matreira esposa do sr. Pimenta.

--E ella como est agora?

--Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha crou...
Era talvez o claro da descarga electrica, seria?

--V. ex. sempre fazendo espirito com os axiomas da sciencia... Ha de
convencer-se... A experiencia lhe apontar as evidencias...

--A mim? ora essa! Ter v. s. a infausta ida de me magnetisar?
Adormecer-me... isso  facil; bastam os livros que tratam da sciencia,
no  precisa a aco... No fao mais espirito como v. s. diz...
Vamos  nossa pratica interrompida que  muito sria:

Disse o sr. S que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente
respeitador, uma affeio nobre e desinteressada, um amor reflectido e
bem intencionado, e finalmente uma paixo, que no era bem uma paixo,
por quanto desilluses, revezes, _et coetera_, lhe haviam... no me
recordo...

--Esterilisado a alma...

--Foi isso... Em toda a sua resposta s ha de desagradavel essa
esterilidade de alma; todavia, eu creio que to boa alma ha de sempre
florescer e fructificar, quando a cultura fr confiada a uma mulher de
bom corao, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que no inveje as
boas qualidades de minha filha.

--De certo... assim o penso, minha senhora--balbuciou o bacharel,
forado pelo silencio interrogador de D. Angelica.

--Minha filha ama-o, sr. S. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer
ser sua ou da sepultura, no acceita admoestaes nem esperanas
tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas j, j, seno... diz
que, mais tarde, ser victima da sua paixo. Sabia v. s. que era
tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?

--Sabia... desgraadamente sabia.

--_Desgraadamente!_... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o
orgulho de ser assim amado o alegra?

--Sim, minha senhora--tartamudeou o bacharel, afagando as guias do
bigode--tenho orgulho de ser assim amado... _Desgraadamente_ disse eu,
porque me doem os soffrimentos da sr. D. Ludovina...

--Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? 
singular!

--Ainda assim... ha situaes na vida...

--Sei o que quer dizer--atalhou a zombeteira senhora--ha situaes em
que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa
causa. Isso  assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade
da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s. sabe, no tem dote.  pobre,
supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade.
Em riquezas de espirito  millionaria. Nas do corao, sabemos ns o
que ella . A fortuna porm,  muitas vezes a inimiga da verdadeira
felicidade, no  assim?

--De certo, minha senhora...

--V. s. tem uma habilitao, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe
expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas;
agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na
certeza de que nunca me ser turvado o prazer d'este instante de
expanso maternal pelo arrependimento da minha leviandade. D-me um
abrao, que j comeo a consideral'-o meu filho.

--Minha senhora--disse o enfiado bacharel, extendendo a mo a D.
Angelica--eu estou cordealmente penhorado pela confiana que mereo a v.
ex.. Cumpre, porm, reflectir n'um passo to momentoso. Eu amo em
extremo a sr. D. Ludovina, toda a minha ambio  identifica'-la ao meu
destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu no posso dispr da parte
de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo,
porque dependo d'elle, em quanto no entrar na carreira da magistratura,
e o cabedal dos meus estudos no me abona tanto quanto v. ex. imagina
que pde proporcionar-me a intelligencia.

--Pensa mui judiciosamente--redarguiu D. Angelica formando com a
prolongao dos beios, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui
sisuda approvao--e qual conjectura v. s. que seja a resposta de seu pae?

--No sei, minha prezada senhora...

--Se fr negativa?

--Se fr negativa...

--Obedece?

--Como filho dependente; mas os dias da minha existencia sero poucos, e
attribulados...

--Mas isso  horrivel, sr. S! Minha pobre filha succumbe... V. s. mata
a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um
anjo que no viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma me
consternada, sr. S?

--Minha senhora... a nossa posio  desgraadissima.

Remedeie-a, que pde. Se seu pae o no acceitar casado, tem a casa de
sua mulher, onde ser recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o
senhor no ama Ludovina!

--Se a no amo! Isso mata-me, snr. D. Angelica!

V. s.  que mata uma santa, uma martyr...

--Segui'-la-hei na morte...

Pois o melhor  viverem ambos!--disse D. Angelica, desafivelando a
mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que
imaginardes, leitores phantasiosos--V. sr. tem sido logrado
desapiedadamente, snr. Ricardo de S. Peo-lhe que viva muito tempo,
porque uma pessoa como v. s. no deve morrer, em quanto a tristeza, que
foge ao riso, andar por este mundo. Snr. S,  preciso dizer-lhe que
minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo
no operou a approximao. Eu comecei a falar-lhe em minha filha
para pedir ao seu cavalheirismo que no a inquietasse, porque vae
esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s. alumiou-me o
entendimento, deu-me um alegro inapreciavel; e voltou as minhas idas
para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao
espectaculo do corao de v. s., e dei-lhe um bello espectaculo. Snr.
S, a sua posio  desagradavel, e faz-me pena, por no dizer tedio. Um
homem como v. s. nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta.

D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do
throno.

O auctor possivel do SECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor
momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a sar do banho, e caminhava
atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito
desconhecido ao bacharel.

--l, por c, snr. S?

 verdade, snr. Pimenta.

--Ninguem lhe falou?! estava ssinho?!

Saiu da sala, n'este instante, a snr. D. Angelica.

--E Ludovina?

Est de cama, creio eu.

--De cama!? ella ficou boa quando eu sa... Alguma dr de cabea...

Creio que sim... D-me as suas ordens, snr. Pimenta?

--Saude, meu amigo, apparea  noite, que lhe quero dar o
conhecimento d'este meu amigo, que ser provavelmente o marido de minha
filha...

Sim?... estimo muito conhecer... s suas ordens, meus senhores.

Sau; e o snr. Joo Jos Dias (que  o tal), franzindo a testa, disse ao
pae da esposa promettida:

--Que diabo de cousa  isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os
galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo no fr
um patarata!

 um pobre diabo que l novellas, e no  mau rapaz--respondeu o snr.
Melchior, limpando o suor da testa.

--Novellas!... hum!--este _hum_ do snr. Joo Jos Dias  uma cousa
semelhante a um grunhido roufenho; aquelle _hum_  a these de uma
dissertao que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura
immoral dos romances--A sua filha l novellas, snr. Melchior?--continuou
elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado.

Entretem-se com a me, s vezes, n'essa leitura; mas l smente as que
a me j tem lido.

--Pois no faz bem. As novellas so a perdio das mulheres. L no Rio
est aquillo mal de religio e virtude desde que pegaram a ler romances
as moas. Em minha casa  sujidade que no entra. Eu j uma vez, para
ver o que era aquillo, puz-me a lr uma novella, chamada... chamada...
era de um tal... d'um tal _Kocles_, ou _Koques_, e, meu amiguinho, era
maroteira de ferver bicho.

A snr. D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de Joo Jos
contra os romances.

Aqui t'o apresento--disse Melchior.

D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No
rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas
palavras: _Minha pobre filha, que impresso vaes receber!_




III


Joo Jos Dias devia orar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de
estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares,
essencialmente pansuda, porque Joo Jos tinha uma serie descendente de
panas, desde a papeira cr de rosa at s buchas das canellas ventrudas.

Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da
concha de um cgado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de Joo
Jos. As palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava,
enviezavam-se para dentro, formando  raiz das pestanas um rebordo
purpurino. O nariz, sem base nem ossos, nem cartilagens, devia ser a
desesperao de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe d'entre os olhos as
ventas j formadas, com a ponta arregaada e as azas convexas,
dilatando-se at s alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas
gordurentas. Os beios eram bicolores; nacarinos no centro, e rxos para
as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos
limitrophes. Joo Jos tinha quatro dentes incisivos de brilhante
esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum accordo as
saliencias irregulares de um pedao de crystal bruto. Os dentes laniares
ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os
vinte malares estavam no goso das suas funces triturantes, com quanto
amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.

Joo Jos no tinha pescoo: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da
garganta, alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da
mesma cr, e no sei que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de
coral.

Disse-se que era todo barriga o homem, j que Buffon e Cuvier asseveram
que  homem, feito  imagem e semelhana de... no ousamos escrever a
blasphemia. O que se no sabe  que a barriga lhe marinhava peito acima,
at levar de assalto o campo onde fra pescoo.

As pernas de Joo Jos eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera
armilar. To curtas eram ellas, e to desmesurados os ps, que me no
seria difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de
travessura, fez da poro de materia, destinada para perna e p, duas
partes eguaes, juntou-as e o ponto de junco denominou-o calcanhar.

As botas de Joo Jos tinham incriveis expanses de couro: eram um
oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do p direito formavam
um archipelago. No remanescente das milhas despovoadas, o p era raso e
cho como uma lousa de mercieiro.

Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem no conhece o snr.
Joo Jos Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil,
aqui o confesso, envergonhado do meu descredito.

Vamos  biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este
hediondo envolucro.

Joo foi cachpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados,
onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraava uma talha de
azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem
impar. Levantava do sobrado para o balco o peso das tres arrobas com os
dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaa, e levava  bca, sem gemer,
um barril de dois almudes, com o brao testo na aza. Isto constou na rua
dos Pescadores, e, ao terceiro anno, Joo era alliciado por varios
patres, que disputavam o lano.

No pertencem  alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de
Joo Jos formou-se ento. A probidade, a lisura, a honradez do boal
caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patro. Os convites,
feitos  sua cubia de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo
que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de po. O
augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patres: podendo
inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca Joo Jos se queixou
dos pequenos ganhos.

Os paes de Joo eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se
desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do
rapaz. Joo no esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira
no rosto da me, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro
embrulhado em seis camadas de papel.

Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus
paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas
mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.

Joo Jos, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da tera parte
do negocio. Pudera ento retirar-se com haveres sobejos para viver
descanado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidao,
continuou na sociedade.

Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e,
deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao
Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e
compromettida a compra que fizera na terra.

Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.

Aconselharam-no que intentasse aco judiciaria contra os socios.
Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes
creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze
annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de ris
fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, no
havia cinco ris adquiridos deshonrosamente.

Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a me octogenaria estava
entrevadinha, pedindo ao Senhor que a no remisse das penas d'este
mundo sem ver seu filho.

Joo Jos Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua me,
adoados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos
braos do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moa pobre, casando
com ella j que Deus lhe dra a riqueza.

Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na
alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno servio na brevidade
de uns despachos.

Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa
menina pelo brao, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato
foi  praa, e colheu de alguns negociantes informaes cerca da filha
de Melchior.

Todos  uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinio; mas
tinha s o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos
negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os
tafets, as rendas, e as pellias da filha do empregado da alfandega no
pagavam direitos.

Esta mordedura dos malevolos no magoou Joo Jos Dias.

Fez-se encontradio com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da
teno que tinha de mudar de estado, at para cumprir uma promessa que
fizera a sua me. Disse-lhe Melchior que era acertada a resoluo, e
muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe
indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o
capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua
escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr.
Melchior Pimenta, que no cabia n'um sino.

--Isto  um modo de falar...--observou Joo Jos--Sem que sua filha d o
sim, nada feito. Eu sei que estou no calado velho, e no trajo c 
moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha  muito nova, e
querer um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei l se o
senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se no quiz, ficamos amiguinhos
como d'antes.

--A minha filha  docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi
educada por uma me, que teve melhores principios que eu, e faz com que
ella lhe obedea, tractando-a como irm. Posso dizer-lhe que minha filha
ser sua esposa; mas bom  que o senhor nos d o prazer de frequentar a
nossa casa, para conhecer o corao da minha Ludovina.

 este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentao do sr.
Joo Jos Dias a D. Angelica.

      *      *      *      *      *

No querendo eu, nem por sombras, indispr contra os meus fieis
escriptos o imperio do Brazil, peo ao meu sisudo editor que faa
estampar o seguinte epilogo d'este capitulo:

Joo Jos Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.

Foi bom filho.

Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos
socios que o roubaram a elle.

Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o
tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.

Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude,
e deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro
de bem-estar.

Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei Joo
Jos Dias feio, no  d'elle a culpa, nem minha. Joo Jos Dias era
realmente muito feio.

Do Brasil vem muita gente galante.

Tenho na pasta um esboo de romances onde figuram quatro brasileiros
bonitos.

Ho-de ver com que iseno de animo se escreve n'esta provincia das
lettras.

Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.




IV


--Ento a pequena est incommodada?--perguntou Melchior a sua mulher,
que no declinava os olhos do cepo informe do sr. Joo Jos Dias.

--Um pouco incommodada.

--Vaes dizer-lhe que venha  sala, menina?

--Irei.

--Estou boa, pap--disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o
hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.

--Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?--disse Melchior ao acanhado
brasileiro, que mal pudera gaguejar um creado de vossa senhoria que
corrigiu bruscamente em vossa excellencia.--Minha filha, quando hontem
te disse que a Providencia me deparra para ti um digno marido, era
d'este senhor que te falava.

--Tenho muito prazer em conhece'-lo--atalhou Ludovina com uma
affabilidade e desembarao que espantou a me, alegrou o pae, e
lisonjeou o noivo.

--Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro--continuou
Melchior-- preciso que tu digas se acceitas livremente a minha
escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.

--Acceito muito de minha livre vontade--respondeu com firmeza D. Ludovina.

--No lhe restam escrupulos?--tornou Melchior inclinando-se para o
brasileiro.

--No, senhor--disse elle--Estou satisfeito; o que eu no queria era que
a menina viesse um dia a arrepender-se... e...

--No espero tal desgraa...--interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos
no brasileiro.

--Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe no dar desgosto,
porque o meu natural  bom, e ninguem, at hoje, se deu mal comigo.

Ludovina ergueu-se, e pediu licena de retirar-se por um instante. D.
Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no
quarto, afogada em soluos, curvada sobre o leito.

--Que  isto, filha?

--Nada, minha me...

-- muito, Ludovina; que tens?

--Preciso de desabafar assim. Estas lagrimas no fazem mal a ninguem. 
uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que
vida, que futuro, meu Deus!

--Ludovina, no chores, e escuta-me. Eu no imaginava que teu pae te
dera a semelhante homem. Tens razo...  repugnante, e horroroso. No
casars com elle, menina.

--Hei-de casar, minha me. Mal o vi ainda; no tive ainda tempo de
sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas no d'elle;  do
outro que me matou.

--Isso  que  cobardia, Ludovina! Pois no te fez nojo esse miseravel?

--Fez, fez; mais que nojo...  preciso que elle se no persuada que
minha me lhe mentiu, quando lhe disse que a sua inteno era dar-lhe
parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja
possivel.

--Casar por vingana?... Isto  um desforo desgraado...

--No caso por vingana, que elle no vale o odio. Caso para salvar a
nossa dignidade, minha me. Hei-de simular quanto possa o contentamento
da mais feliz mulher. No tenho j corao para sentir desgostos. Ser
tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dir que eu
amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse
infame, diro que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar
com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a
calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam  riqueza.
O que nunca ninguem dir  que eu infamei o homem que me comprou...
nunca, meu Deus!... Pois a me est chorando agora, depois de me ter
ensinado a ver o mundo como elle ? No se arrependa, minha boa me.
Deu--me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem
disse... palavras de tanta afflico como vergonha para mim... Fiquei
bem, estou desopprimida... v? j no choro.

D. Angelica abraou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a
creancinha de peito, e sau, enxugando as lagrimas. Entretanto,
conversavam assim, na sala, os snrs. Joo Jos Dias e Melchior Pimenta:

--Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?

--Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella no
olhava direita para mim!

--Recato de moa, pejo, e acanhamento, no acha que  muito natural?

--Isso sim; mas dava aquellas respostas to... to... to desenganadas,
que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...

--Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...

--No duvido.

--E ento quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.

--Ora, olhe; o senhor no se lhe d que eu tenha com sua filha, c em
particular, uma conversasita?

--Pois no, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que
sonde o corao de Ludovina, e reconsidere a sua teno, se vir que ella
o no merece. Eu vou manda'-la.

--Faa-me esse favor.

Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu
que os no percebia. Dizendo-lhe que viesse  sala, accrescentou:

--Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem
no ser s teu marido, ser um protector de todos os teus, e far a tua
independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de
alcanar fortuna, e a fortuna como um meio de se alcanar tudo.
Entendeste-me, filha?

--Entendi, meu pae.

Ludovina entrou jovialmente na sala.

--Minha senhora,--disse o brasileiro, gaguejando--Eu fui toda a minha
vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como
ellas me vem  ida. Ora bem; a menina est resolvida a ser minha
companheira de toda a vida?

--Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.

-- verdade que disse; mas pde ser que o dissesse para contentar seu
pae, e l no interior sentisse outra cousa.

--Disse o que sentia, e repito o que disse.

--Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que l por eu
ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?

--No, senhor, eu no tenho affeio a alguem.

--Porque depois eramos ambos desgraados; e eu devo dizer-lhe, que tudo
o que eu mais tenho estimado n'este mundo  a minha honra; at hoje,
louvado Deus, ninguem lhe pz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar
que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a
conservar, cheguei at esta edade sem ser offendido, e assim d'estes
cabellos brancos que me v, se alguem me atacasse a minha honra,
tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?

--Creio que entendi, e sinto que v. s. me esteja offendendo com as suas
supposies injuriosas.

--Isto  um modo de falar, sr. D. Ludovina, e perdoar se a offendi.
Tudo o que lhe digo  em bem seu, e meu. Eu sou o que est vendo; a
menina  nova e linda; se v que se ha de arrepender, diga-me a verdade
do seu corao, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se
queixe de mim e no da senhora.

--J disse a v. s. que desejo ser sua esposa; no sei que mais deva
dizer-lhe. No me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua
estima e confiana; mas tenho um favor a pedir-lhe.

--Diga l, seja o que fr.

--Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.

--Ficaremos; e quando formos passar algum tempo  nossa casa de
Celorico, a nossa familia ir comnosco. Era s isso?

--No tenho outra ambio.

--Isso pouco ... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graas a
Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades.
Agora, se quizer dizer a seu pae que j lhe disse o que tinha a dizer,
v l, que eu fico  espera d'elle e de sua mesinha para me despedir,
at  noite.

D. Ludovina chamou o pae, sem sar da sala. Melchior, lendo o bom
resultado das suas reflexes na cara jubilosa do radioso
capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. Joo Jos
disse que jantra tres horas antes, e jantaria segunda vez com to
amavel companhia. Estava inspirado!

E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais
solenne que fez foi o seguinte:

_ saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha
comadre!_

Melchior Pimenta agradeceu.

D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos
labios.

D. Ludovina crou at s orelhas.

A leitora faa o que quizer.

Eu no ri, nem crei: deu-me para chorar como uma vide, quando me
contaram isto.




V


Inventou-se uma lua para os casados.

Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que . Mas o
aluarem-se,  fora, os casados,  uma ida ingrata  decencia, feia, e
deshonesta.

Uma senhora innocente que diz: lua de mel suja os labios, se preza a
pureza n'elles; se, porm, sabe o que diz, se sabe o que  o favo, o
_mel_ da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.

Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que
desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim
um casamento:


Hontem s nove horas da manh, contraram o sacramento do matrimonio o
ill.mo sr. Joo Jos Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro,
com a ex.ma sr. D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo
Melchior Pimenta. O sr. Dias deve  fortuna a escolha de uma noiva to
rica de prendas moraes como de formosura angelica. A gentil menina
encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos
que a briosa reputao que tem. Os esposos vo passar a LUA DE MEL  sua
quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manh
acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o
sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar
a sua residencia. Damos os parabens  cidade invicta por to valiosa
acquisio.


A local est redigida a primor, como l se faz sempre nas gazetas; mas
aquella LUA DE MEL indigna-me.

Se querem que haja por fora uma lua para os que se casam, faamos umas
poucas de luas:

Lua de mel;

Lua de cicuta;

Lua de laudanum;

Lua de tartaro emetico;

Lua de mostarda ingleza;

Lua de oleo de ricino;

Lua de fel da terra;

Lua de salsa-parrilha;

Lua de raspa de veado;

Lua de jalapa;

Luas tnicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas,
luas drastricas, etc.

Convm, de seguida, observar, que a lua no influe por egual nos dois
noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por
paixo reciproca.

Tal marido  aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.

Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem
enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes
lhe lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.

Qual d'essas luas influiria em Joo Jos Dias, e qual em D. Ludovina da
Gloria?

Eu no decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia
judiciaria. Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.

Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico
de Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar
terreno, e contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o
palacete, a toda a pressa.

Os cavalheiros de Basto receberam carto do casamento. Esta usana das
familias de bem, desconhecida a Joo Jos Dias, fra lembrana da
previdente D. Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias
mais tractaveis de Basto, para que estas visitando-a, segundo o
ceremonial, a distrahissem das melancolias do noivado.

Tudo lhe sau ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha
no desdenhou as relaes do capitalista. O carto enviado s senhoras
dizia:


         D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA
                     PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
                 TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.
                     O CASAMENTO DE SUA FILHA
                           A EX.MA SR.
      D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA
                   PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
                         COM O ILL.MO SR.
                          JOO JOS DIAS


Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella
fidalguia de travesso que por alli enxama.

Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera at aos
fabulosos milhes do Joo da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que
d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.

Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos,
esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um
seu tio-visav sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na
nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paos de Gailo, d'onde
era oriunda a av de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina
achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico,
Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.

Joo Jos Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para
si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se  socapa da parentella. A
lingua no se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos
Ciprestes, aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que
frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da
sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas.

Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e
contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.

D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava
em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus
enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para
projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas.

Annuia o conjuge, folgazo no rosto, e zangado por dentro. O bom siso
dizia-lhe que sua mulher era uma creana, vezada a bailes, e ainda verde
para gostar da quietao domestica. Bem via elle a innocente alegria com
que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se
no desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.

D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que
elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella
lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia
as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse
em fim por algum dito menos delicado  mulher, quiz ella prevenir o
desgosto de ambos, dizendo uma vez  filha:

Convm conformarmo-nos um pouco aos costumes de teu marido,
Ludovina. Teu homem no foi assim educado, e os annos extranham esta
transio.

--Que quer a me que eu faa?

Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que
tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.

--Que hei de eu dizer-lhe?!

O que has-de tu dizer-lhe?!...

--Sim, mam. Temos occasies de estar duas horas juntos sem trocarmos
tres palavras. Sou amiga d'elle; mas no sei como hei-de mostrar-lh'o de
outro modo. Se querem que eu no receba visitas, nem v a casa de quem
me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os
castanheiros; mas eu no creio que se possa viver assim na aldeia. Se
elle ainda me no disse nada, porque ha de a minha me censurar-me este
desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situao, e a me
a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, me, est persuadida que eu
devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?

No creio que te devas extasiar, mas tambem no approvo que te
arrependas. Como explicas tu a considerao, o respeito com que s
tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos
olhos d'esta gente, que lhe chama parente?

--E a felicidade  isso, me?!

A felicidade no  cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe c, 
a que d  consciencia da mulher casada o prazer de no envergonhar seu
marido.

--Que palavras! Isso que quer dizer, minha me?

No t'as applico, Ludovina: respondi  tua pergunta. A felicidade no
amor  um creancice dos quinze annos, e s vezes dos quarenta; mas o
desengano vem com todos os homens e com todas as edades. No te
persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um
marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo
como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o
afflictivo amor da mulher que enfastia, que se v cada vez mais
aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a
fria sequido dos que traz o cansao. Poupaste-te ao maior dos
infortunios, que  esse para a mulher que no quer curar a chaga do amor
a seu marido com a peonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina?
Eu no consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres
casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a
adorao de outros, como vingana, e fazendo do crime uma necessidade.
Lembra-te s d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que
doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de
felicidade para toda a vida. No te recommendo paciencia, Ludovina,
porque ninguem te d causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este
homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, vivers da melhor
affeio, da que mais dura n'este mundo; ters o bem que raras vezes
fica de um amor ardente.

Estas e outras palavras modificaram a fora motriz de D. Ludovina.
Os passeios rarearam-se, os convites para reunies foram esquecendo 
mingua de estimulo e as massas amollecidas do sr. Joo Jos Dias
recobraram vigor, com no menos gaudio do velho macho que as caminhadas
traziam desmedrado e manhoso.

Estava j a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando
para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto no alugavam
casa provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.

Joo Jos Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.

Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos
recamos de brilhantes, que seu marido lhe dra na vespera do casamento,
Joo Jos Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao
quarto n'uma bandeja, viu uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva
de prata um collar com a cruz da ordem de Christo, pendente de um
vistoso lao de fita.

--Que diabo  isto?--disse elle ao creado no requinte do pasmo.

 um presente que faz a v. exc. o sr. Melchior.

--Diz-lhe que venha c, e pega l para cigarros--dizendo isto, o
commendador lanou  salva... sete centos e vinte.

No vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor
estimulo  munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que
desbancam Joo Jos Dias.

Ahi vo de passagem dois exemplos:

Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a
cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz
que,  custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a
cautela fra premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o
alviareiro moo e traz-lhe umas calas de cutim sem fundilhos.

Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e
mergulha; passados instantes, emerge  tona d'agua resfolegando, e
pedindo soccorro. Travam-no os braos robustos do barqueiro que, em
risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo  familia, mandam-no
esperar  porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos
seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um
dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente,
setecentos e vinte em cobre.

Isto  publico e notorio; mas no estava em chronica. Receio maguar a
modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta
edio d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, sero postos
em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo  profuso da
presente raa.

O commendador no era fona. Esse canho feito no desluz os bizarros
presentes que fazia  esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da
casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada
exposio do theatro lyrico, um vestido no visto, s comparavel aos
que trajra antes, e inferiores aos que trazia depois.

Os _lees_ sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma
gloria to productiva, que faz lembrar a dos dominios da cora
portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os lees honorificos do Porto,
se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o
mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: --viam-na por um
oculo.

Joo Jos Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu
ver, seria elle homem bastante para realisar, j no com um, mas com
todos, a fabula do leo espinotado pelo orelhudo.

O commendador tinha em sua mulher inteira confiana, nada lhe alterava o
conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos
bailes, andava o pobre homem sempre assustado. No tinha socego, nem
pro que no estilasse o suor da apoquentao. As affabilidades mais
triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par
danante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de
atteno a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um
adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador.

N'um d'esses bailes, em que Joo Jos Dias emagreceu duas polegadas na
circumferencia, appareceu Ricardo de S, que nunca mais vira Ludovina
desde a vespera da sua derrota.

Audacioso at ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se diante de
Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o brao
a uma amiga e sau d'aquella para outra sala. O commendador no fra
extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os
berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico
de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual,
estacou diante d'ellas, e montou a luneta.

D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas.  cabea do
commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas
fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.

D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de
Ricardo de S, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:

--O senhor  um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma
cousa, no me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de
responder s suas provocaes.

--Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois--disse Ricardo, dando 
perna direita o costumado repuxo dos elegantes.

O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:

--Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, no  um homem que eu
encontrei em sua casa a primeira vez que l fui?

--.

--Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?

--J reparei n'essa aco repetida. Eu lhe conto, d um passeio
comigo--E tomando-lhe o brao, D. Angelica continuou:--Este homem foi
uma afeio innocente de minha filha, e  hoje um ente desprezivel para
ella e para mim.

--Escreviam cartas um ao outro?--interrompeu o commendador, bufando.

--Escreviam, sim...

--Porque me no disse isso a senhora?!

--Porque no merecia a pena dizer-lh'o. Que  escreverem-se cartas?

--No  pouco, acho eu... E como acabou isso?

--Acabou, dizendo eu a esse homem que no voltasse a minha casa.

--E que quer elle agora?

--Vingar-se da unica maneira que pde: affligir minha filha... Ella ahi
vem... no falemos n'isto.

D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:

--Vamos embora? eu estou incommodada.

--Vamos, disse a me.

--N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho
j--disse o commendador.

As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina
arquejava em ancias, e falava aceleradamente a sua me.

Entretanto, Joo Jos Dias entrou na sala onde se danava, e viu na
porta fronteira Ricardo de S encostado, com a luneta em aco, e o
cotovello direito apoiado na mo esquerda.

Foi ao p d'elle e disse-lhe:

--O senhor sabe quem eu sou?

--Creio que j o vi em alguma parte.

--Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.

Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um
patamar deserto:

--Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemec insultou l dentro.

--Essa  muito boa! Eu no insultei senhora alguma!

--Se insultou ou no, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr. Ludovina tem
um marido de quarenta e tantos annos, isso  verdade, mas capaz de pegar
n'uma orelha dos pandilhas como vocemec, e dar-lhe com a cabea n'uma
esquina, tem percebido?

O commendador desceu as escadas, e Ricardo de S, estupefacto e
aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas.

Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua me. O commendador
no lhes disse palavra com referencia ao desforo solenne que tirra do
bacharel.

Isto, se eu o no contasse, era cousa que morria ignorada porque o
auctor embrionario do SECULO PERANTE A SCIENCIA nunca a diria.




VI


Esta inquietao damnificou a vida menos m do commendador, e o socego,
apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porm, como a
serenidade presagiosa de trovoada.

O marido recebia os convites para bailes, e queimava,  surrelfa, as
cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta.
Estes rebuos so a desgraa das familias, e o rastilho de polvora que
espera uma faisca.

Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia
da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaa, sem preciso.
O seu achaque postio era uma inflammao intestinal.

D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para no
dar anso  filha de romper em queixumes, que abafava com a esperana de
melhor vida, ou desafogava em carpir-se ssinha. Melchior Pimenta achava
que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperanosa appario de
um neto que a irritao de entranhas do capitalista.

Acabra-se o palacete, e fez-se a mudana. O commendador no convidava
os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia
simulada disse que no saa da casa onde nascera, sem levar seus paes.
Joo Jos acreditou na resoluo, e disfarou o intento, dizendo que
nunca tivera outro.

Ludovina queixava-se  me da recluso em que vivia cheia de
aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o
dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de
cincoenta vestidos que se traavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia
que ninguem admirava.

D. Angelica, j aborrecida tambem, prometteu  filha entender-se com o
genro, e muda'-lo por meios suaves.

--Que motivo ha, snr. commendador--disse D. Angelica--para se encerrar
n'esta casa, cortando as suas relaes com a sociedade que to bem o
tratava?

Eu vivo assim melhor.

--Viver!... no creio. O senhor, quando estivemos em Celorico,
divertia-se nas sociedades, e j no Porto parece que folgava de que o
vissem com sua mulher em toda a parte...

Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammao de
entranhas no me deixa. A saude est em primeiro logar.

--Tem razo; mas n'este mundo s se vive bem, sacrificando-se a gente
uma  outra. O senhor  casado com uma menina habituada aos
innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me d licena, dir-lhe-hei
que no consentiria um casamento entre genios to contrarios, se
previsse o que est acontecendo.

Ento que ?

-- que minha filha no pde assim viver contente.

Agora no! ella no se queixa: a senhora  que toma as dres por ella.

--No se queixa porque  muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O
peor ser quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude
de vida, confie em sua mulher que  um anjo de virtude, incapaz de
offender a sua dignidade.

No duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem no est mal, acho
eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de
andar de bailarico em bailarico  bom para as raparigas solteiras que
andam  pesca de marido. At parece mal uma mulher casada a saltarilhar
com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao p da
d'ella. Nada de bailes, sr. D. Angelica. Minha mulher, se quer passear
tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.

--Pois bem, no se frequentem os bailes, mas conservem-se as relaes da
nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada
que ella passa. Porque no ha-de sua mulher visitar e receber as visitas
de suas amigas?

E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras no dizem
cousa boa. O melhor  cada um em sua casa.

--Que razo essa to... to singular!

A final de contas, sr. D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo
que fao bem. No se lucra nada em apparecer. O mundo est uma pouca
vergonha. Eu j sei como est o Porto, e como se vive por ahi. No quero
que minha mulher ande nas bcas do mundo. Se Ludovina no fosse ao
baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, no tinhamos
todos a zanga com que sahimos de l. Em casa, em casa  onde se est
melhor.

--Eu no me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem
brios e pundonor; se ella desconfia que v. s. a encerra em casa, por
suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e no terei
poder para accomoda'-las.

Eu no desconfio de minha mulher; se no vou aos bailes,  porque no
quero que os outros desconfiem, e acabou-se.

O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra 
intelligencia equivoca de Joo Jos. Merecem ter segunda edio de
versaletes:

EU NO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NO VOU AOS BAILES  PORQUE NO
QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.

Isto  uma grande ida, das quatro idas grandes que apparecem em cada
seculo, e que, por engano, entrou na cabea inhospita do commendador.

Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou Joo Jos, e vero
que as melhores d'este livro so ellas.

O marido, que me est lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte
de sua mulher, atravs do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu
caro, no deve j agora perder a esperana de dizer, no auge do seu
ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.

A indignao fazia os versos de Juvenal; porque no ha de o ciume fazer
as prosas toleraveis dos maridos?

A ida de Joo Jos, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo
aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de
remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:

_Ha maridos que no desconfiam das mulheres; mas no vo aos bailes para
que os outros no desconfiem;_ escrevam por baixo--_O commendador_ JOO
JOS DIAS.

As pessoas que melhores idas engendraram, no teem sido as mais
felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores.
Os fados, os estupidos fados ho de castiga'-lo por essas poucas
palavras com que elle arranjou um nicho, pdre de barato, no templo da
memoria.

O castigo comea.




VII


Ludovina disse um dia a sua me:

--Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. At aqui obedeci como
creana, a minha me, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa
familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil,
docil at  pusillanimidade. Se a violencia no fosse tamanha, este
homem que chamam meu marido, teria feito a escravido da minha alma para
sempre. Assim no pde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de
creana; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso ho de
soffrer-me agora emancipada.

--Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?

--Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppresso 
custa de tudo.

--Ludovina! que linguagem  essa?

-- a da desesperao, e da justia. No pratiquei sombra de mau acto,
por onde merea este amargo viver que me do. Quero saber porque vivo
apartada das minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputao
sau sempre sem mancha.

--A quem o perguntas, a mim?

--Sim,  me, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao
dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a
minha liberdade  o preo d'essas cousas, deixo-lh'as, e peo a meu pae
a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirar o
destino que me convm. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto
tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.

--Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas s prudente;
vence-o com razes moderadas, por no dizer humildes.

--E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das
minhas intenes?

--Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.

Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca to achamboada e trombuda
se mostrra a lerda physionomia do personagem. N'essa occasio, o
achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era
o ideal da fealdade, ento, o sr. Dias!

D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixra-os ss.

-- a primeira vez--disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braos
estofada, com a formosa face encostada  palma da mo direita, e uma
perna sobre a outra balouando-se, deixando ver o p de fada,
atravs do rendilhado da saia que a velava.-- a primeira vez que
falo a meu marido como se deve falar a um marido. At aqui tratei-o como
se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se
no tem muita confiana.

O snr. Dias abriu a bca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:

--Poucas filhas ha to respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade
de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria,
se eu aqui no fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita  sua
generosidade. A sua vontade  o movel das minhas aces. Em quanto o
senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam,
acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso to natural como
absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a
causa da sua mudana, de repente me afastou da sociedade, como se faz s
pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o
captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a
culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua
mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito 
minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar
outro. Disse  sociedade que no tinha bastante confiana em mim para me
levar onde ha o bom e o mau.

Ests enganada, menina, eu no disse isso a ninguem--interrompeu o
commendador, que andou s aranhas muito tempo antes que traduzisse
para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela.

--No o disse com a palavra; mas disse-o com as aces. Privando-me de
ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de
collegio, e as relaes de minha familia, o que diria a sociedade?

L o que ella quizer, menina...

--O que ella quizer, no, snr. Dias! No consinto que se faam de mim
conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo
d'esta separao injusta a que me fra.

No te zangues, Ludovina... Foi tua me que te metteu na cabea essas
palavras? Bem diz l o ditado: Livra-te da sogra, que eu te livrarei do
diabo.

--Respeite minha me, senhor! Eu no falo pela bca de minha me; o meu
silencio at hoje no era estupidez nem insensibilidade: era amor
proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor no entende. Vamos
ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razo para me privar de viver como
vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?

No, j disse que no. A cousa  outra...

--Qual  essa outra cousa?

As boas pagam pelas ms, e no ha mulher honrada para certa gente que
vae aos bailes e aos theatros.

--Pois eu no estou disposta a sacrificar-me s mulheres indignas. A
minha consciencia  o meu juiz. No me importa o que se diz de mim.

Essa  de cabo de esquadra! Pois no se te importa o que se diz de ti?

--Que se diz, snr. Dias?

No sei; mas... elles l sabem o que dizem.

--Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem;
tenha a coragem de calumniar-me, se lhe  preciso inventar os meus crimes.

Tu ests fra de ti, Ludovina! Isso no  assim! Ahi anda
espirito-santo de orelha... O teu genio no  esse...

--O meu genio  a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a
sua honra?

No, j disse duas vezes que no.

--Faltei aos meus deveres de esposa?

E ella a dar-lhe!

--Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa
unio. Quero ir ao theatro, aos bailes, s visitas, como ia em solteira.
Quero receber as minhas relaes, como as recebi antes de ter metade da
sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento
para comsigo. Quero...

Ento isto, pelos modos,  ns, el-rei, e justia de Fafe! Aqui no
ha rei nem roque n'esta casa?  quero, e mais nada?

--Quero, sim, porque  de justia o que j no tenho a baixeza de pedir;
mas quando no, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e
sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que
o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu corao, rejeito, porque
no acceito o preo porque fui vendida.

Ludovina, j de p, com o rosto inflammado, e os bellos olhos
coruscantes de clera, sahiu de um impeto, deixando o commendador
attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;

--Excedeste-te, Ludovina--disse ella--mas fizeste-me orgulhosa de ser
tua me. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas
palavras, seja ella qual fr.

Joo Jos Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro
havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. s sete horas
e meia mandou pr os cavallos  sege, e disse a seu marido se a
acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou
as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude
imperiosa de Ludovina, que apertava o boto da luva, e enroscava no
collo as marthas.

--Vem, ou no?--repetiu ella.

Espera, que eu visto-me--disse o commendador, tomado d'uma especie de
susto irreflectido, que em muitos maridos  o corollario de demorados
raciocinios.

Fez impresso o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os
amadores do pallido. O vio da florescencia tinha murchado ao lento
deseccar da melancolia. Ficra a pelle assetinada, com as alvuras do
desmaio, realando o vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da
cr-violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os
analystas que os tecidos cellulares do commendador estavam cada vez
mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, cerca das medranas d'elle,
pilherias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.

Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de
riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos 
Stuart, e despeitorada  Aspasia.

Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do
_Trovador_, e aguando-lhe a compunco nas lamentaes finaes da Ponti,
que o commendador denominava uma comedianta de mo cheia. O ar de
felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo
da maledicencia desapontada.

Seguiu-se um baile. A carta de convite no ficou, d'esta vez, no
escriptorio do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites.
A inflammao deu treguas s entranhas de Joo Jos Dias. Era para ver
como elle se tornava, sadio e durazio, aos prazeres do mundo.

Mas o interior de Joo Jos? Era um incendio para que a philosophia
humana no inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de
Veneza chorriscando aquelle humano torresmo!

Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, danava j
danas de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanas acceitava.
Os cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos
de seu pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos pela sisudez e
gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa
grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capello incognito.

Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava
 sorte de pessoas to conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?

Batei n'esta sphara, entendedores do corao humano, esmerilhadores do
intimo dos _predestinados_ e _minothauros_ e _Sganarellos_ ao alcance da
sciencia humana.

Canar-vos-heis sem achar a razo da cousa. O axioma foi proferido ha
quatro annos, e j tem tres edies com esta:



_Ha maridos que no desconfiam das mulheres; mas no vo aos bailes,
para que os outros no desconfiem._

_O commendador_ JOO JOS DIAS _(passim)_.




VIII


Raivando contra si proprio, o baro de Celorico...

_O baro de Celorico!_ Personagem novo no conto?

Novo! pois eu no disse j que Joo Jos Dias dera cinco mil cruzados s
urgencias do Estado, e seiscentos mil ris ao official maior da
secretaria onde se fabricam os bares, e cincoenta moedas ao agente
secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?

Se no lram isto j, perderam-se na typographia quatro tiras de
composio a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de
linguagem, com recheio de idas substanciosas, e gordura de pensamentos!

Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular
estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos,
que o felicitaram da merc.

Esse baile correra amargurado para o baro de Celorico.

Ao car da noite, recebera elle uma carta anonyma, da qual no pude
haver copia, e, podendo inventar uma, no o fao, que m'o veda o
proposito de fidelidade.

 certo, porm, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina,
meiga creatura, organisao melindrosa, que tanto a pesar meu hei de
nomear baroneza de Celorico.

No se pde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do
baro, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso
Amphitryo, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os
encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se
quizesse vasar nas frmas de Joo Jos para enganar-lhe a esposa? Esta
pergunta fao-a aos que leram Plauto, Molire, e Cames. Nem ella, com
tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vs, leitores
sedentos, acceitar a transfigurao hedionda.

O baro tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois,
rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler
a torpe carta.

D. Angelica disse conhecer a mal disfarada letra de Ricardo de S;
convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir quella infamia;
appellou da calumnia para a consciencia do baro; obrigou-o a confessar
que nunca sua mulher sara de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o
pestilencial tumor que ameaava, n'aquella noite, uma supurao
escandalosa.

Raivando contra si proprio, (c estamos na cabea do capitulo) o baro
de Celorico, no podia transigir com as razes da sogra. Terminado o
baile, duas ou tres vezes amaxucra a carta na mo convulsa, para a
lanar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranas e o pescoo.

--Que tens, meu amiguinho?--disse ella, que o vira, no espelho, fazendo
esgares com os beios--parece-me que est agitado!

Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.

--Que modo  esse de responder?--tornou ella, voltando-se de subito para
o baro, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com
achavascada impetuosidade.

Est bom; deixe-me, que eu no estou bom, e qualquer dia dou um estoiro
como uma castanha.

--O senhor est disparatando! explique-se.

Foi o diabo o nosso casamento, sr. D. Ludovina.

--Nada de exclamaes; clareza e franqueza, meu amigo! Que  isso?

 os meus peccados;  o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a
senhora no quer crer que a sociedade do Porto est corrompida, e quem
aqui estiver no pde dar boa conta de si.

--Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?

Ahi tem o que .

E arremeou-lhe ao regao a carta amarfanhada, que parecia uma pela.

A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal
de inquietar-se.

Diz-se aqui que eu tenho um amante--disse ella sorrindo--que se
corresponde comigo. O senhor cr isto? Responda, senhor; cr que eu
tenho um amante?

--No, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com
isso.

Como soffreria com a verdade do aviso?

--Que ? no entendi.

Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, no soffreria mais?

--Matava-a, sr. D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a
matava, e tiraria os figados pela bca ao proprio diabo do inferno, e
tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao p de si!

Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do baro. No teve remedio se
no sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como
folle de forja.

Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mo, e com a outra
enxugou-lhe a face.

Soffre porque me no ama, porque me no cr...--disse ella.

--No faas caso d'isto, no  nada... no  nada--regougou elle.

Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. No lhes d o
prazer da vingana. A pessoa que lhe escreve,  um miseravel inferior ao
meu desprezo.

--J sei tudo... no falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de
tomar ar.

Onde vae?

--Vou ao jardim.

Eu vou comsigo... espere um bocadinho.

--No venhas c, deita-te, que est fria a madrugada.

Foi.

Eram tres horas e meia da manh. As trevas descondensavam-se. A nebrina
do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O claro da
lua ia-se descrando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica
das vinte e quatro da rotao d'este planeta, onde s tres horas e meia
da manh, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.

O baro de Celorico no dava f das bellezas matutinas que o rodeavam.
Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu
jardim, at parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua 
justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando
imprecaes garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia
uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O baro abriu
machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuado,
que lhe disse:

--Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?

--O que ?--exclamou o baro atordoado.

O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia
escurido.

Longo tempo, agarrado s grades, o baro de Celorico, parecia ter
perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que
recolhia ao quartel, vendo aquelle immovel espectaculo, atravs das
grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando
attentivamente, ouviu o sussurro da respirao cavernosa, e decidiu que
estava alli um homem.

--Ol!--disse um soldado.

Que ?--respondeu o baro, espertando da lethargia.

-- d'ahi d'essa casa?

Sou o dono d'ella.

--Ento perdoar. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias
que vimos sar s quatro horas da manh um encapotado d'aquella porta
que alli est abaixo, chamamo'-lo, elle deu  canella, e sumiu-se-nos l
em baixo na travessa.

D'esta porta que est na parede d'este jardim?--exclamou o baro.

-- como diz.

A que horas?

--A estas horas, pouco mais ou menos.

Um homem de capote?

--Tal e qual.

E no viram mais ninguem?

--Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com leno
branco na cabea.

Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.

O baro arremessou as portadas, e, levando as mos  cabea, atirou-se
com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que ce em cheio, v ao
p de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil
fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojra para dentro.

O baro contempla o charuto na mo convulsa, e desentranha um rugido
fremente, apertando-a, rbido e sanhudo.

--Eis a prova da minha deshonra!--exclama, e ergue-se vacillante e
cambaio. Entra em casa, e v correr um vulto de mulher atravs de um
passadio. Corre impetuoso, e j o no alcana. Tresvariando, grita que
ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os
cantos inutilmente. Ludovina e sua me acodem espavoridas, e encontram o
baro, debatendo-se nos braos de dois creados, com um ataque de nervos.
Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o  cama, querem vr o que elle
fecha na mo direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um
charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que  aquillo, e o
desgraado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:

 a nossa morte!

Instam na explicao das respostas, e elle troveja:

--No quero aqui ninguem!

Pasmam; e retiram-se, atemorisados.

Estar elle doudo, meu pae?--dizia a baroneza, tremula de medo,
apoiando-se nos braos do espavorido Melchior.

--Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos j. Este homem deve ter
demasiado sangue.  ameaa de doudice, no pde ser outra cousa.
Que sorte a minha!--disse Ludovina lagrimosa. E foi para o p do leito
de seu marido.

      *      *      *      *      *

--Se se verificar a demencia--dizia Melchior a D. Angelica, de modo que
s todos ns pudemos ouvir--a administrao da casa passa immediatamente
para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem sau muito outro do
que eu imaginava. Ainda me no disse que deixasse o logar da alfandega,
nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os
possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma
creatura to perfeita como a nossa Ludovina!

D. Angelica no respondeu.

Ainda te doe a cabea, Angelica?

--Bastante.

J estavas a dormir, quando o baro gritou?

--Dormitava.

Mas eu fui ao teu quarto, e j te no encontrei l!

--Tinha corrido sobresaltada.

Ento pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...

-- verdade, nem foras tive para desapertar os colchetes.

Porque me no chamaste, filha?

--No quiz incommodar-te.

Ora essa!...

--At logo, filho, vou ver se descano um instante

Vae, vae, menina.

..........................................................................
..........................................................................
..........................................................................

Ha reticencias que no dizem nada.

A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as
carreiras de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da
mercearia.

Eu abri loja, e vou com os outros.

No me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borro
n'este painel de bons costumes.

A sr. D. Angelica  excellente me, no meu conceito; e, no conceito do
sr. Melchior Pimenta,  excellente esposa.

Pde morrer, que o necrologio j no coxeia.




IX


No averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois
medicos chamados s sete horas da manh para examinarem a supposta
demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrra o baro
febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou
que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram;
e lhes mandra pagar a visita, com recommendao de o darem por curado.

s nove horas j o baro tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu
destino, nem acceitar o almoo.

Sara pela porta principal, e entrra na rua para onde olhava a janella
do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava
com escriptos uma casa terrea. O baro perguntou, na vizinhana, quem
era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa,
e recebeu a chave.

D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de ferragem, e
comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e,
n'outra parte, as munies de fogo.

Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoo, e comeu  tripa frra. A
baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoo, e no conseguiram
arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhra
do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raa. O baro chamou-o no
fim do almoo, e disse em segredo:

Esta chave  d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da
janella do jardim. Vae  loja de ferragem no largo de S. Bento, com este
bilhete. Ho-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo
isso, de modo que ninguem c de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e
entrega-me a chave depois.

O baro foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas
reflexes.

Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe.
Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matra
sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao
almoo, ao jantar,  ca, a toda a hora, em todas as situaes, at que
a matou. Esta historia entalhra-se na memoria do baro com indeleveis
traos. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se
dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que no desculpou a victima,
mas reprovou a fereza do verdugo. Joo Jos Dias fez a apologia do
verdugo, e disse que a honra de um homem s assim se vingava. Ludovina
fitou-o com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de
desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.

Era aquella historia o ponto convergente das meditaes que o
reconcentraram, por espao de tres horas. D'esta longa e dolorosa
encubao do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma
faanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiao da adultera.

Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa  parte com sua
mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal
exquisitice.

--No dou satisfaes--respondeu--Quero jantar, e almoar ssinho comsigo.

--Isso  o mesmo que...

--No me replique! tenho dito.

Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as
ventas fumegavam soluando; testa e palpebras, tinham o escarlate da
penca do per assanhado.

Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, ssinha. Recura
para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o baro lhe
disse:

--Olhe, senhora!

A baroneza voltou-se, e viu o brao do baro erguido em attitude
prophetica; e l em cima no cucuruto da mo cebcea... o CHARUTO!...

--Que  isso?!--perguntou ella com mais curiosidade que espanto.

--No sabe o que isto ? chegue-se c!

Ludovina, indo receosa, disse:

-- um charuto... pois no ?!

-- um charuto!  um charuto! mulher traidora!--ululou o bordalengo com
a grenha irriada.

Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O baro crescia sobre
ella, com o brao no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as
furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a me.

Acudiu D. Angelica, j quando o baro, mettendo as mos nas portinholas
da japona,  laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.

--Isto que ?!--exclamou D. Angelica.

--Est doudo rematado, minha me!--disse, a meia voz, a baroneza.

--Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Ns no podemos viver com um
demente...

--Janta-se, ou no se janta?--disse o baro, caminhando para ellas com
socegado semblante.

--Que desordem foi esta, sr. baro?

--Desordem! ora essa  fresca! Aqui, que eu saiba, no houve desordem
nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa 
d'ella.

--Que viste, Ludovina?

--Eu vi um charuto na mo d'este senhor; mas gritei porque elle me deu
berros medonhos, e correu para mim com ares ameaadores.

--Deixe-a falar, sr. D. Angelica--replicou o baro, sorrindo de um modo
que confirmava a demencia--A cousa  outra... Vamos jantar, e, se minha
mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos  mesma mesa.

Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que
entrava em casa. D. Angelica, com um s dedo, fez-lhe dois gestos: um ao
longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que
as protegesse de um doudo furioso.

Sentaram-se  mesa, espionando os menores movimentos do baro. Viram-no
tirar a mo da algibeira, extender o brao por sobre a mesa, e deixar
car, ao p do prato da baroneza o charuto.

Ludovina lanou-o ao cho com a faca, dizendo:

--Olhem que porcaria!--E voltando-se para o creado que servia a spa:

--Atire isto l fra!

--No atires!--bradou o baro.

--Porque no ha de atirar?!--Disse Melchior Pimenta.

--Porque no quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero
despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?

Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas
pollegadas acima da superficie: tamanho fra o murro que o baro baixra
sobre a mesa.

Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por
outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue,
antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher,
colorindo a retirada com a prudencia.

O baro embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:

--Senta-te ahi, Simo; janta ao p de mim, que s o unico amigo que eu
tenho.

Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.

O baro no come, apesar do esforo. O bocado entala-se-lhe na garganta,
comprimida pelos soluos. Depe o garfo, e desce o rosto, coberto de
lagrimas, sobre as mos. O preto, que no ousra sentar-se, vendo chorar
o amo, cujo po comera em liberdade, no espao de vinte annos, chora
tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflico. Responde-lhe em
gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os
sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o
baro, um momento indeciso, pede o chapo e sae.

As angustias d'este homem condemnam Ludovina?

No. Ludovina  innocente como os anjos.

A peonha mortal, que espedaa o corao d'este homem, tem-na elle na
algibeira:  o charuto de Francisco Nunes.




X


 meia noite e um quarto no relogio da Lapa.

A casta lua d a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o
escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e  bem posto o
epitheto. S ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de
corrupo. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos
bardos que a namoram; e, se no  a distancia,  a impertinencia das
cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua,
teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, so uns
puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e
nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um
viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus
um absurdo. No andariamos travados em permanente lucta, nem a
exuberancia da propagao assustaria os economistas. Havia s o risco de
nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que
esforar a guerra  prosa que inventou os cereaes, o boi cozido, as
aces do banco e a troca de um romance por quinhentos ris.

Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.

Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como
de dia.

s dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um
vulto sinistramente rebuado: era o baro de Celorico de Basto. A casa
tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo,
depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, cando
sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do baro, dando-lhe
o colorido de uma cidra avelada.

Sora o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade
do jardim se abriu cautelosamente.

Um objecto branco sobresaa na sombra: devia ser o leno de uma mulher.

Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto
encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura
da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da
lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao
avizinhar-se o vulto.

A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de
uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que
elle viu foi o lampejo da detonao de um tiro, e levou a mo ao hombro
esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do baro fra da janella, a fuga
precipitada do vulto, e um segundo tiro, que redobrou a fora
motriz do fugitivo.

Apitra uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas
apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um
homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o baro
ouvira:--parece que est morto.

O baro, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta 
chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos
arbustos, contiguos  casa, perpassar um vulto, e sumir-se.

Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das
casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram
os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se
uma bucha ainda fumegando, no meio da rua.

--Quem est ahi n'essa janella?--bradou um soldado ao baro, que
estivera calado.

--Sou eu, sou o dono d'esta casa.

--E quem  o senhor?

-- o senhor baro--responderam os vizinhos.--No, d'alli de certo no foi.

--Os tiros?--perguntou o baro.

--Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.

--Eu tambem, os ouvi, e por isso c vim. Mataram alguem, ou foi patuscada?

--No foi m a patuscada! Est alli adiante um sujeito extendido nas
pedras, e, se no est morto, pouco lhe falta.

--Quem ? conhecem?

--Esto l dois camaradas que o conhecem. Dizem que  um doutor de uma
casa rica, chamado... lembras-te, 38?

--Acho que elle disse... Almeida.

-- isso, Almeida. O sr. baro conhece-o?

--No me lembro d'esse nome. Elle ainda l est? Eu vou l ver se o
conheo...

O baro seguiu a patrulha, at parar n'um grupo de soldados e paizanos,
que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de
cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!

--Eu conheo este sujeito--disse o baro com admiravel placidez.--E elle
tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Ol, sr. doutor! Est aqui o
baro de Celorico, conhece-me?

O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,

--Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle  perto d'aqui, acho eu.

--Ns sabemos--disseram os soldados.

--Pobre homem!--proseguiu o baro em tom compadecido.--Ainda a noite
passada elle esteve n'um baile que eu dei...

Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o baro entrou em casa. No
ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.

Parou ao p do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma
gargalhada estrondosa. A baroneza acordou, sentou-se no leito
estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.

O baro tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao p dos olhos, e
bradou:

--O tal patife no fuma outro.

--Que diz?--exclamou Ludovina.

--Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra
est vingada. Agora que digam o que quizerem.

E sau do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um
terceiro ataque de loucura.

Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da me.

Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face
cada sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao p d'ella, chamou-a,
ergueu-a, agitou-a com a fora da afflico, e cau com ella sobre a cama.

D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas
mos, exclamando:

--Jesus, meu Deus!

--Que teve, mesinha, isto que foi

--Nada, infeliz; foi um accidente...

--Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?

--No, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me
ver se consigo chorar, seno estalo... mas no chores tu, filha, no
quero que nos ouam...  preciso que eu te salve, antes que a morte me
leve com o encargo da tua reputao infamada...

--Eu no a entendo, minha me!

--No pdes entender-me, Ludovina, no pdes... ai! deixa-me respirar,
que eu no vivo uma hora assim...

A baroneza amparou a me at  janella, que abriu. D. Angelica rasgava
com as mos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os
cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se,
comprimindo a respirao, para escutar as vozes que vinham da rua
contigua ao muro do jardim.

Uma dizia:

--Ia morto.

Outra:

--A bala entrou-lhe no peito.

Outra:

--Pobre familia, que bocado to amargo!

--Aquillo que ?--perguntou D. Angelica espavorida.

--Eu no sei, me!

--Esse malvado que te disse?

--Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife
no fumava outro; e que lhe resasse por alma...

D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio
arremessa de si, como se n'esse esforo expellisse um espinho arrancado
ao corao.

Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.

N'este intervallo de silencio a lastimavel me concebeu um designio
atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada
nos braos da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a
para o interior do quarto, com a fora miraculosa da angustia.

Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:

--Entre quem .

Abriu-se a porta, e surgiu o baro.

D. Angelica lanou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um
repello, aos braos da filha; correu para elle com a sanha de uma
possessa, e atirou-o fra do quarto com o choque dos punhos furiosos,
exclamando:

Assassino! assassino!

Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia,
n'este conflicto, o baro de Celorico. Eu tambem me no cancei em
averiguaes, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras
despicientes um quadro de angustias, que no  novo na vida, mas
afouto-me a dize'-lo que  novo no romance. Melchior Pimenta no
apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher.
Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual s podia emergir,
quando a ultima molecula de tres gros de morphina se perdesse atravs
dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega
explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. V sem reticencias.

Para ns  mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo
para ella o desespero de sua me. Se a pobre senhora suspeitasse que a
demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha
afflio, descompostura tal de contorses, de gemidos, de
arremessos para a janella, chamando a morte, no podia ser procedente do
amor maternal exaltado at  ira da lea.

Ludovina ajuizava assim; mas no atinava com a razo possivel de
effeitos to extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de
sua me.

Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica
apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia
dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima
palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confisso de que dependia o
credito de sua filha.

Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos;
esse raio de luz, porm, queimou-lhe o corao. Se Angelica reparasse na
pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudana. A
parte da sua dr, que at alli fra remorso, seria depois vergonha, e
vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura
do remorso para a que soube ser me, e affrontou os deveres de esposa.

A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao
p da me, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.

A me precisa descanar--disse ella com affectado gesto de
carinho--Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao p da sua cama.

--No, filha; eu no tenho descano n'este mundo, nem no outro. Se ainda
tenho algum direito  tua obediencia, deixa-me s; preciso de
chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu corao as chore. No
pdes respeitar esta agonia, porque no a comprehendes, innocente
martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres
depois.

Sei, me.

--Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraando-a convulsivamente.

O meu silencio responde-lhe, me... No soffra pela minha deshonra.
Deus sabe tudo; no me importa o mundo; a Providencia far vr a verdade
a meu marido, sem que o nome de minha me seja sacrificado. Cale-se, por
quem . No diga nada ao baro, e poupe meu pae. Eu sinto-me com foras
para no vergar a um peso de infamao que me no ce sobre a
consciencia. Se o meu amor a pde consolar, no diga o seu segredo a
ninguem; no diga porque eu no sei qual dos dois descreditos  mais
afflictivo para mim...

D. Angelica resvalou dos braos da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos ps.

Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.

Era o baro de Celorico.

--Ouvi tudo--exclamou elle--Perda-me, Ludovina, pelas cinco chagas de
Christo. E foge d'essa mulher, que  a causa de eu ser um matador.

--Tem razo; vae, minha filha--disse D. Angelica, afastando-a de si.

--Sr. baro--disse Ludovina--eu no deixo uma me culpada para
seguir um assassino. Saia da minha presena, que o detesto. Apenas
romper a manh, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba
n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. baro, um homem que no
conhecia; matou-o a sangue frio, e ser capaz de praticar uma crueldade
menor matando-me a mim.

D. Angelica arrancou-se aos braos da filha com furioso impeto, e
postou-se terrivel diante do baro, exclamando com uma toada de voz
soturna e tremula:

--Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?

O baro tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.

--Responda  amante do homem que matou;  mulher que acceita
voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir
contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mos tintas
de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que s to estupido
como sanguinario!

Ludovina, cingindo a cintura da me, arrastou-a para longe do baro, que
parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.

A vehemencia da ira decau subitamente em syncope. D. Angelica encostou
a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braos, e
deitou no leito.

E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os
pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de clera mal reprimida, disse:

--O senhor no ha de ser mais feliz que as pessoas a quem deu a
morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdo? eu j lhe havia
perdoado as suspeitas, as desconfianas, os insultos, as vergonhas a que
hontem me expoz na presena dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em
quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e
que no tenho quem me defenda das suas mos pde matar-me, que o no
chamarei  presena de Deus para ser julgado.

--Ludovina--balbuciou o baro, com o rosto coberto de lagrimas--eu matei
esse homem cuidando que era elle o teu amante...

--Era a mim que devia matar-me, senhor.

--No podia ainda que quizesse, porque a minha teno era matar-me e
deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena,
quando j me no visses n'este mundo. Esse homem ainda no morreu,
Ludovina; pde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos ps d'elle a
pedir-lhe perdo, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdo a tua me.

--No fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a
deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de
Almeida, diga, se quer que eu o no amaldie, diga que esse homem era o
meu amante; mas no fale em minha pobre me...

Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui
deshonrado por ti?

--Deshonrado est o senhor, desde j, desde que matou, ou quiz matar por
uma suspeita um vulto desconhecido...

Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua me estava na
janella...

--Cale-se! isso  mentira! minha me estava deitada na sua cama...

No estava, Ludovina...

--Estava, snr. Dias; no me contradiga, que eu juro contra as suas
palavras em toda a parte.

Ento quem estava na janella, seno tua me?

--Era eu; j lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era
o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou
eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou,
portanto, uma infame mulher que deve sar debaixo d'estas telhas.
manh, manh ha de fazer-se uma separao eterna entre ns. A sua
honra fica assim completamente desaffrontada. Todos diro que meu marido
me expulsou com a ponta do p de sua casa. Todos ho de admirar os brios
do snr. baro que matou o rival, e no desceu  cobardia de matar uma
mulher... Esta resoluo  inalteravel; acabou-se tudo entre ns, menos
a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um
espectaculo para a irriso de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui
a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da
responsabilidade...

D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos
que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante
instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina
ministrava-lhe a agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu
estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mos;
depois, cau de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo
palavras inintelligiveis.

O baro tinha sado imperceptivel. D. Ludovina debruou-se, debulhada em
lagrimas, sobre o leito.

Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiando-se fazia com os
abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.

Abenoados quatro gros de morphina que lhe povoastes o somno de
deleitosas vises!

Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado,
lembras-me tu.

Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se
despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras
existencias, que se reputam inteiras, d-me vontade de lhes perguntar se
j experimentaram a morphina.

Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.

Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que
repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este
paraizo terreal, onde as cobras inam como em matagal bravio, recebe uma
carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de
peccadilho to corrente em gente fina. O marido acceitra a correco e
a mulher incorrigivel. Melchior ria at car.

Outro, amante da paz caseira e fricasss acirrantes, conhece no aspecto
carrancudo da mulher, e no aguado dos molhos, os desvios do amante:
inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar
campestre.

Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheo-o a elle, e mais dez
exemplares que Brantome no archivou,[4] todos aporfiando em
delicias sublunares.

Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque
despertador, o _momento_ da predestinao cumprida, esse  um s no meu
catalogo.

Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses
tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a
morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeioou o
processo da extraco.

Sem a morphina, no serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que
Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem
vergonha, apparecer diante de outros no menos sabios, e grandes
senhores da christandade.

Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!

    [4] Veja _Vies des dames galantes_, por le Seigneur _de
    Brantome--Discours premier_.




XI


Mulheres so os melhores juizes de mulheres.

Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e
outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher  um ser exuberante
de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.

D'ahi vem o denegarem-lhes accesso s sciencias abstractas, s
politicas, aos parlamentos, ao magisterio, s regies intellectivas do
machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.

Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher 
um ente inepto para exercitar a razo, com que direito as julgamos e
sentenciamos, segundo a razo, sendo as suas culpas demasias de sentimento?

A injustia  flagrante e odiosa.

Privam-nas de razo para as excluirem das funces que a requerem;
sentenceiam-nas pela razo, se o sentimento, seu dom essencial, as
desvia do piso demarcado por ella.

Isto  uma tyrannia, uma inquisio, uma crueza turca.

A mulher no pode ser julgada por ns. Somos os senhores feudaes da
razo. A nossa alada respira a prepotencia do barao e cutello. Estamos
em insurreio permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que
baixou seu divino brao por igual sobre o homem e mulher.

No podemos superintender no fro do corao, porque a nossa
jurisprudencia  toda de cabea, e o nosso codigo em pleitos da alma 
estupido ou hypocrita.

Quem  o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lanou
o amor, ao abysmo do opprobrio.

 o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira
o beijo da perdio.

O altar onde se adora uma mulher  ao mesmo tempo a ara onde ella se d
em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando
nos abre cos e cos de alegria e gloria, abrimos-lhe ns o inferno dos
desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo no as exila,
mas affronta-as; o corao no as encrimina, mas agonisa na horrivel
soledade para onde a razo o desterra.

E somos ns os juizes, porque entramos n'uma herana usurpada pela fora
primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.

A mulher foi escrava do brao, antes de o ser da superioridade moral.

Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua
primazia, a mulher, quebrantada pela escravido do brao, no pde
remir-se com as foras do espirito.

Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipao, fez em redor da escrava
as trevas da ignorancia, para que a razo da mulher no pudesse conceber
da luz o germen que a rehabilitasse.

Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde
o sol no podia coar uma restea reanimadora.

Esta machinao arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os
fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei,
nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o
resgate moral da mulher.

O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o
co o segredo da sua emancipao.

Ficamos ns c, os aambarcadores do entendimento escrevendo livros, que
sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles
demarcamos a profunda raia que extrema RAZO de SENTIMENTO. A razo para
ns, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos
preceitos da razo pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa
de se deixar perder na escuridade,  mingua de uma lampada que lhe
negramos.

..........................................................................

No sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me
assegura que entre vinte mil leitoras (ora por isto o numero das
senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as
vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando
muita saude e graa para servir a Deus, no rasgo as paginas, embora os
homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.

Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer,  quarta linha, que,
cerca de culpas de mulheres, j mais consulto homens.

Mulheres so os melhores juizes de mulheres.

A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, to
virtuosa como indulgente; mas virtuosa--no me afiram l a palavra pelo
elucidario caseiro--virtuosa amando muito e com muito despego de pecos
empecilhos, atravancados pela impostura.

Disse-me ella o seguinte:

D. Angelica  das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um
titulo ao respeito das mulheres que sentem o corao pela dr.

--Ao respeito!--atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato,
onde por desventura me encontro.

Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem,
juro-lhe que no teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez
para sacrificar o corao ao repouso da consciencia.

--Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o baro
de Celorico arcobuzou?

Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do
Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro.
Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um
filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida,
que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o
amor immenso das sympathias contrariadas.

O doutor descobriu a affeio do filho, e impoz-lhe um violento termo,
prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.

As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao
cabo de dois annos de ausencia, com paixo cada vez mais entranhada.

O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico.
Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a
herana paterna, com a certeza do vencimento.

Angelica sau do recolhimento sem saber para que fim saa. Friamente
avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou
como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentra tres annos.

Quando o corao reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao
pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar
com seu filho. Que innocencia!

Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que no podia dar-lhe
o corao.

O doutor, se ella lhe conviesse te'-la a. Angelica era pobre.
Melchior Pimenta no respondeu  carta, nem deminuiu as instancias.

O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia,
e accelerou o desfecho.

Angelica no soltou um gemido na presena do pae; sei que apenas lhe
disse: A historia de muitas mulheres desgraadas comea como a minha.
Disse, e pz a cabea no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou
se recebera uma carta d'ella...

Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que no
acreditava a infamia emquanto a perfida no tivesse o cynismo de lh'a
dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as  minha amiga.
Ella soluou nos meus braos muito tempo, e disse com vehemente
resoluo: Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e
offerecer-lhe a minha casa. Que fazes tu, menina?--repliquei eu, longe
de suspeitar a resposta: Fao  prepotencia de meu pae o sacrificio da
minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.

Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os
conselhos que os meus vinte e cinco annos, j apalpados por amarguras de
corao, podiam dar-lhe.

Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa
de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a
favor de antecipaes que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.

Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois. As suas
cartas no eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a
sua sorte, chagas de consciencia que s a morte podia cicatrisar.
Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga:
consolei-a na queda, como a aconselhra  beira do abysmo. Disse-lhe que
mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o corao. No lhe
falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, no
havia que vr com cousas sobrehumanas.

O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe
o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a
ousadia da desobediencia. Choveram maldies s duzias, abriram-se os
cancellos do inferno aos ps do obstinado moo. Peor que tudo isso, o
castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem po, nem habilitaes
promptas para ganha'-lo.

Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a
responsabilisava pela desgraa do filho. Vendeu algumas joias que tinha
de sua me, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a
Almeida. O brioso moo, no sei como, soubera onde as joias paravam.
Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a
Angelica.

Duas almas assim nunca se separam. As ligaes mais duradouras so as do
crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se
da sua m origem.

Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, at ser um advogado de fama.

Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a
demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou s suas primeiras
necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica
soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a
delicada generosidade do seu amigo.

Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a
vida de Angelica ao amor a sua filha,  adorao mais intima do amante,
e aos respeitos affectuosos por seu marido.

Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos
para melhorar-lhe a vida, que ella no desejava melhor. Conseguiu fazer
despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por
alto preo.

Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a
corrupo, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta,
no. Esse perguntava se os seus merecimentos no eram demasiada
recommendao para o despacho.

Sabe agora a vida de Angelica?

Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pr em romance esta
historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para
visitar o bero da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas.
Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na
sala, e j receoso de algum successo triste, procurando-a, ia
encontra'-la ajoelhada ao p d'esse bero. E, depois que Ludovina se
lanava aos braos de Almeida, com fervor mais de filha que de
creana affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de
pejo, como se o affecto e a virgindade do corao travassem peleja.

Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou
repetir faa uma maxima, por minha conta; mas no a enfileire a par da
do commendador Joo Jos Dias:

HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TTULO AO RESPEITO DAS
MULHERES QUE SENTEM O CORAO PELA DOR.

D. Angelica est julgada e punida.........................................
..........................................................................

Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:

..........................................................................

Ento lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fra
apanhada em adulterio: e a puzeram no meio.

E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.

E Moiss, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?

..........................................................................

Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.

E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes:
O que de entre vs est sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.

E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.

Elles, porm, ouvindo-o, saram um a um, sendo os mais velhos os
primeiros; e ficou s Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em p.

Ento ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde esto os que te
accusavam? ninguem te condemnou?

Ninguem, Senhor;--respondeu ella. Ento, disse Jesus: Nem eu to pouco
te condemnarei: vae e no peques mais.

O SANTO EVANGELHO DE JESUS CHRISTO, SEGUNDO S. JOO--Capitulo VIII.




XII


Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre,
a baroneza despertou o pae, chamando-o  ante-camara.

Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da
morphina, extranhou  filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o
baro fizera alguma nova loucura.

--No podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae--disse Ludovina,
sem saber ainda como sahir-se bem de lance to perigoso para sua me.

Ento que houve? esse alarve que fez? ser necessario amarra'-lo?

--O necessario  sahirmos; mas a me est muito incommodada...

Que tem ella?!

--Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que est ardendo em
febre, e no sei se poder transportar-se.

Vamos v'-la.

--Pois sim vamos, mas no perca tempo. Um medico  o mais urgente
agora. Veja-a; se ella estiver descanando, no a desperte, e v dispr
as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?

Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfao
 opinio publica? No vs que esta saida precipitada auctorisa a
maledicencia a calumniar-te como o baro te calumnia?

--No tratemos agora da opinio publica, nem do baro. O pae saber
tudo. Venha ver a me, e v depressinha, sim?

Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que
transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos
dos olhos, e murmurou:

Isto  doena sria, Ludovina!...

--Talvez no, meu pae... So afflices que se curam com o socego da
nossa casa. No se demore. V por casa do medico e mande-o j. Se vir o
baro no lhe diga nada, promette-me?

Eu sei c o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me no
codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte
contos de ris...

--Pois sim, meu pae, esses negocios no so para agora. O que eu quero 
a saude de minha me. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser
feliz... Se  meu amigo, no se demore; tire-nos d'este purgatorio.

Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o
baro lhe surgiu na extremidade do corredor.

--Bons dias, sr. Melchior.

Bons dias, sr. baro.

--Isso hoje foi madrugar!

Assim  preciso.

--Se no tem muita pressa, d-me aqui uma palavra.

No posso, sr. baro, vou com pressa.

--Olhe c, sr. Melchior,  preciso que nos entendamos.

A que respeito?

--A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vo.

Que chama o senhor poucas vergonhas?

--Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o no sabe,
saiba-o, e tome tento na sua vida.

O sr. baro  que j perdeu o tento da sua. Essa cabea est desmanchada.

--Desmanchada est a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre c, e
ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.

A minha honra no pde ser offendida nem vingada pelo sr. baro.

--Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe
tudo.

Que ha de o senhor contar?!--disse Melchior entrando na sala.--Quer
contar-me a historia do charuto?

--O charuto! o charuto agora j me no serve a mim;  ao senhor; veja l
se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.

 para isso que me chama, sr. baro? De que me serve a mim esse
ridiculo instrumento com que o senhor est representando perfeitamente o
papel de doudo?!

--Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu...
Sente-se ahi, e d-me atteno, que o caso  muito serio...

Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O baro de Celorico proseguiu,
cerrando a porta da sala:

--O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.

O que?

--Tenha mo, no se atrigue, sr. Melchior. As desgraas so para os
homens, e o remedio  atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher no lhe
tem sido fiel.

O senhor est doudo, e, se no est doudo,  um infame
malvado!--exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.

--Sente-se, homem; eu no lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho.
Oua, e faa o que quizer; creia ou no, saiba ou no saiba, o que eu
lhe digo  que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro
n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.

O sr. baro sabe o que est dizendo? Se tem algum resto de juizo,
desdiga-se da affronta que fez  minha honra.

--Affronta?! essa no  m! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que
fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor 
que me parece doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este
charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela
porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.

Quem, sr. baro? diga quem, quando no um de ns ha de morrer.

Ludovina entrou precipitadamente na sala.

Quem?! ento no diz quem  o amante de minha mulher--repetiu Melchior,
em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente
desfigurado do marido.

--Que indecentes palavras escuto, meu pae!

Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!

--A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. baro
no disse taes palavras com inteno de offender os pais de sua mulher,
no  verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexo, no foi
meu amigo? D uma satisfao a meu pae, que est afflicto como v, ou
ento crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presena que
minha pobre me est infamada.

Tens razo, Ludovina--murmurou o baro, com as lagrimas nos olhos--Eu
estou doudo; o que disse  uma mentira; se fr necessario, eu peo
perdo ao sr. Melchior, e  sr. D. Angelica.

--Ouviu, meu pae? V, agora v. Assim fez o que lhe pedi?

Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. baro? O
senhor o que deve fazer  recolher-se a um hospital, antes que as
auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame s suas faculdades
intellectuaes...

--Meu pae!--murmurou afflictivamente Ludovina--pelo amor de Deus lhe
peo que se retire, quando no, v-me cahir aqui morta.

Eu vou, menina.

E sahiu, reatando a meditao no divorcio e nos vinte contos.

--No lhe disse eu j, sr. Dias--continuou Ludovina baixando a voz com
maviosa brandura, e assumindo ares de penitente--no lhe disse eu j que
o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do
jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou
do seu desprezo  sua mulher?

Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua me te disse no quarto.

--Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra
mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de
certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o
senhor disser contra minha me, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em
mim as nodoas que o senhor puzer na reputao d'ella. De maneira que meu
marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o
escarneo do publico. V quaes so as minhas tenes, meu amigo?

Tu no fazes isso, Ludovina!--rugiu iracundo o deploravel homem--Se
fazes tal... Ludovina, se fazes tal...

--Que se ha-de seguir?

Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra,
que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em
liberdade, torno para o Brazil; mas no digas que me foste infiel; no
digas que esse homem era teu amante. Peo-te isto de joelhos, Ludovina.

Era feio o espectaculo, mas fazia d a postura humilde do baro.
Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pz-lhe as mos nas
espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que no estivesse assim.

E continuou:

--Entre ns ha s uma reconciliao possivel. Vou fazer-lhe uma
proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um
contracto; se a no acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias
no dir a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; no far
suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido,
quando entrava no jardim d'esta casa; no proferir o nome de minha me,
contando ou ouvindo contar essa desgraa acontecida esta noite. Estas
so as suas obrigaes do contracto que lhe proponho; as minhas so as
seguintes: sairei de sua casa, com minha me, porque o amor que tenho a
minha me  incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira;
sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de
que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu
marido diga s pessoas admiradas da nossa separao que o meu genio
era intractavel, que a minha educao era pessima, que as minhas
impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe
lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei
alguma desconfiana injuriosa que possa haver. Eu no levo d'esta casa o
valor de um ceitil. Os meus bahus iro como saram do meu guarda-roupa
de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de
uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu,
sr. Dias, porque o no amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o,
d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou
creou-me nos braos, foi o primeiro rosto extranho que vi ao p do meu
bero, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha
ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das
alegrias e maguas da minha familia, no ia grande distancia. Eu choro
esse homem, sr. Dias, no  s a minha desgraada me que o chora. Se
ella era amante d'elle, eu, como filha, no tenho direito a censura'-la;
como mulher de corao creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que
devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por
outras palavras o que disse?

--No  preciso... entendi bem...

--Qual  a sua resposta?

-- necessario pensar, Ludovina.

--No lhe dou tempo a demoradas reflexes. Eu hei-de sair d'aqui logo
que meu pae volte.

--N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte
que Antonio de Almeida era o amante de tua me.

--E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder
dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se
elle no tiver morrido. O sr. Dias ser tido na conta de assassino, e
assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera
sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos no podiam ser
vencidos por um rival.

--Tu s uma serpente, mulher!--bradou o baro, fazendo com os braos e a
cabea as azas d'um alambique--s um drago! foste o demonio que me
appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e
nunca descano tenhas noite e dia em quanto me no vieres pedir perdo
de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e
carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres,
ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de
tudo isto que  teu, porque o que vocs querem todos  acabar comigo,
para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!

Ludovina voltra as costas ao berreiro virulento de Joo Jos Dias.

Entrou no quarto de sua me, que no resurgira ainda do torpor febril. A
creada, que lhe assistia, entregou  baroneza uma carta, sobrescriptada
a D. Angelica. Era-lhe conhecida a letra de Antonio de Almeida.
Alvoroada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu
a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel Angelica,
simplesmente Angelica, estremeceu, caindo em si. Era uma carta do
amante, do amante de sua me. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade
instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.

Leu o seguinte:


Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa.
O segredo do meu assassino morrer comigo. O meu ferimento dizem ser
mortal. No importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua
honra, minha amiga? No bastar a minha vida para salva'-la? D um beijo
a tua filha, ao nosso anjo que eu no verei jmais. Sacrificamo'-la
ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, at ao
co dos desgraados.--_A. de A._


Ludovina rompeu em gemidos, e cau de joelhos orando com o fervor da
desesperao. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle
quarto! No  preciso grande corao e poder de phantasia para acceitar
um quinho de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a
este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina
bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no corao humano. J
imaginastes uma vida com este immenso horto de agonia? Na previso
de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella me, e da
filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da
esperana e de Deus, cobrae alento nas dores com que no podeis,
agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais,
pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o
succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de
uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creao dos
astros, do mar, e do homem.

A minha grande prova de Deus, da justia, e da condemnao  este
inferno. O outro...  inferior  Omnipotencia que deixou, no seio da
creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a
devorar-se.




XIII


Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e
leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e
exemplar submisso. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que
estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz
inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as
excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os
desatavios da frma em que me descuido, se a imaginao desfila comigo
pelos prados floridos do inverosimil.

To atilado  o arrolamento que fao dos meus arbitros, que raro de
entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeies que
me escorregam do bico da penna, com primores de fundio esmerada. Esse
raro, porm, se encalha em elegancia que no percebe e deturpa, c o
inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu
talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega at
este ponto, e no ha ahi que ver mais lhano e brando do que eu sou
 opinio cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da
rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou
dar-lhes  sua admirao faminta.

Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros
do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve
a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:

--Os teus romances do meio em diante adivinham-se.

--Ora essa!

--Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista  o
invento da surpresa. A concatenao logica e natural dos successos
damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.

--O leitor  que no  capaz de entender-te essa linguagem
assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado
pelo orgo da opinio publica, o orgo que eu mais respeito, o meu
editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil,
amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo
da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade,
amoldurando-se nas frmas costumeiras e exequiveis.

--Enfreia l os impetos, modesto escriptor! no soltes a parlenda
inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido
da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos
advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.

--Acceito a correco, e tu acceita a aposta. Se adivinhares o
enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de
Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em
diante. Se no adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que
has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabea um d'esses
lobinhos cerebraes que chamam genio os galiparlas da nossa terra.

Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos
essenciaes: D. Angelica pde morrer de uma congesto cerebral, ou de um
typho. No questiono a morte;  certo que a matas brevemente, e a fazes
pedir, na hora derradeira, perdo do escandalo  filha, e da traio ao
marido. Antonio de Almeida j nos disse que morria, e elle que o diz 
porque o sabe, e tu j o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a
casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes
caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em no
querer nada do abominado marido. O baro de Celorico, atassalhado pelo
remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de
Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos,
solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sbo
corporal, e v'-lo que morre boalmente, sem deixar nada ao _Hospital do
Tero_, nem s _Velhas da Cordoaria_! A tua crueldade para com este
homem ir ao extremo de lhe negares at um necrologio na gazeta,
ignominia posthuma com que rematars a biographia de um homem que teve o
infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras ossos
por todos os pros. D. Ludovina toma conta da herana, e...

--E, sabendo que tu s um portento de esperteza--atalhei eu--digno de
substituir Joo Jos Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para
tomar ch s quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor 
padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te
da promessa do elogio; j nem genio quero ser  custa do teu estylo
assoprado. Eu j disse em mais de um livro que no escrevo de phantasia.
A verdade e a observao dispoem-me as situaes como tu as no
inventas. A natureza, que tu conheces,  tla, meu amigo.

Disse.




XIV


Antonio de Almeida esperava em ancias a appario de D. Angelica. No
lhe pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor
de vinte e dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mo, expirar nos braos
d'ella, egualar o escandalo ao flagello de lance tal, isso
alvoroava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a unica viso aprazivel
e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte.

As irms de Almeida ignoravam tudo o que se passra, excepto o ferimento
mortal de seu irmo. A denuncia do baro de Celorico fra segredada ao
enfermo pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia
devassra do crime, e nada averigura das respostas concisas e obscuras
de Almeida. Suspeitavam as attribuladas irms que seu irmo tivesse
tentado um suicidio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre
para occultar a fraqueza, e obviar a presumpes nocivas  honra de
alguem, e  propria memoria.

N'estas conjecturas, annunciou-se o baro de Celorico de Basto.
Almeida recebeu a parte d'esta visita com excitamento prejudicial ao seu
estado. Os facultativos conheceram a exaltao inconveniente, e
perguntaram-lhe se a presena do baro lhe era penosa.

--No --disse elle--que entre, e venha s, porque  necessario assim.

Entrou o livido baro, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo,
e estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim
instantes, ergueu as mos, e ajoelhou sem proferir palavra.

--Que  isso, senhor?--disse Almeida.

 um desgraado que vem pedir perdo, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro
foi este malvado infeliz que aqui est diante da sua vista. Eu cuidava
que minha mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que
me avisavam d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a
patrulha que do meu quintal sara um homem fra de horas. Tentou-me o
demonio a tirar vingana de quem me deshonrava. Vi-o a v. sr., e, sem
pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia;
minha mulher est innocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e est
ferido por mim. Se me quer entregar  justia, aqui estou, snr. Almeida;
chame toda essa gente que est em sua casa para ouvir a confisso.

--Levante-se, snr. baro--atalhou Almeida--No diga a ninguem que me
feriu; fique entre ns esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei
com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia
que o meu assassino fra o senhor. Se quer mitigar o seu remorso,
respeite... a me de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus
favores, faa-lh'os como os faria  viuva do homem que matou. Agora, v
em paz.

O baro retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e
escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo  porta de um
alquilador.

A carta, que escrevera, era sobrescriptada  baroneza; da qual carta se
d o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correco
ortographica:

Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo j no est no
Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, at que o
remorso d cabo de mim!!!! que no tardar!! Fica n'esta casa, que 
tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde
enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim ento
perdoars a teu infeliz e desgraado marido!! Fui j pedir perdo ao
Antonio de Almeida, e oxal que eu morresse ao p d'elle. Pela tua honra
e vida te peo que trates tua me com todo o amor e carinho. Faz com que
ella me perde o mal que lhe fiz. No tive animo de ir onde a ella,
pedir-lhe que fosse to boa como foi para mim aquelle honrado homem, que
Deus permitta no morra. Adeus Ludovina, desgraada Ludovina!!! para
sempre, adeus! No me tenhas odio; tem antes compaixo de teu marido,
que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o corao
acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!

Afra a sobejido de pontos admirativos, que so talvez signaes
symbolicos da dr indizivel do baro de Celorico de Basto, o que se nos
depara n'essa carta  a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma
verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo at
que romancista, no escreveria cousa mais pathetica e pungitiva.

Ludovina leu esta carta ao p de sua me, que authomaticamente se
deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia
para onde.

Melchior Pimenta trouxera de fra a noticia do perigoso ferimento de
Antonio de Almeida, e vendo que sua filha no se espantava da nova,
porque no era ento mar de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no
caso alguns minutos.

Uma ida, entre muitas idas (se o leitor concede que Melchior tivesse
muitas idas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua
filha, e o baro, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a
conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que no podia
fazer-se a mudana n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua me.

Vem c, Ludovina--disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada
de cuidados--fallemos de espao, e desembrulha-me este novello. O baro
disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o
amante de tua me. Acabo de saber que Antonio de Almeida est ferido.
Contei-te este acontecimento, que te no espantou. Vejo tua me doente.
Lembra-me o que teu marido me disse... Quero explicaes d'este
mysterio.

--So muito dolorosas para mim as explicaes, meu pae.

Como dolorosas?!

--E muito, meu pae; vergonhosas at para que uma filha se atreva a
dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa
que no seja eu...

Porque no has de ser tu?

--Porque sou criminosa.

Criminosa! mas o baro disse que estavas innocente.

--Foi a minha querida me que me salvou  custa da sua dignidade.

No entendo...

--Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.

Tu! pois tu!...

--No me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram
com este homem, obedeci cegamente; mas o corao negou-se ao sacrificio.

E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve
a ingratido e a infamia de te fazer a crte, sendo tu casada?! Foi bem
dado o tiro! Bem hajas tu, baro, que me desaffrontaste, e procedeste
como homem de bem!

--Isso  improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa  minha s. Amei
desde creana Antonio de Almeida, era amiga d'elle at o julgar superior
a todos os homens. Pedi-lhe a felicidade do corao, que s elle
podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu
que o matei. J que me forou a esta confisso, dir-lhe-hei mais que, na
posio em que estou, considero-me responsavel das minhas aces ms
perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na
desgraa que lhe devo. Minha me foi mais generosa comigo. Fez, no sei
de que modo, convencer-se o baro de que a amante de Antonio de Almeida
era ella. Aqui tem a explicao das palavras que meu marido lhe disse, e
no poude sustentar na minha presena. Minha pobre me, depois de
victimar a sua honra  minha salvao, succumbiu  vergonha de si, e 
dr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicaes, meu pae.
Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra
reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me no quer perdoar,
amaldioe-me, mas no profira na presena de minha me o nome de Antonio
de Almeida. Mereo isto  sua compaixo?

No falarei mais n'esse homem por minha honra propria.

--Assim o deve  sua dignidade.

Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a
vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e
gestos de quem delira.

Onde quer ir, minha me?

--Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...

No ha de sair d'aqui; supplico-lhe que no saia, minha me.

--No me ds esse nome... Eu no quero j ser me nem esposa...

Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.

No quer ser me nem esposa?

--No. Sou amante de um homem que est moribundo ou morto. Quero que
todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, no ha para
mim deveres nem respeitos agora. Se elle est vivo, quero dar-lhe os
meus ultimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao p do seu
cadaver.

Fale baixo, por misericordia, minha me!

--Podem todos ouvir-me, no me escondo d'alguem, agradeo as affrontas,
os desprezos, as injurias, agradeo tudo que fr martyrisarem-me, com
tanto que me matem depressa.

Mas, minha me, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me
escuta... Sente-se, e oua-me...

--Diz, anjo, diz...

Antonio de Almeida no morreu, e talvez no morra. O baro escreveu-me
uma carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe pea o
perdo para elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae est convencido
que sou eu a amante de Antonio de Almeida...

--Jesus! exclamou D. Angelica.--Como tu me castigas, Ludovina!

Como eu a castigo, me?! por quem , deixe-me ser boa para o meu
corao, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas
d'este meu procedimento!... isto  Deus que me premeia, minha me, 
Deus que me d em consolaes do co as amarguras, que o mundo me possa
dar. Ora, se a me me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser
senhora de uma parte do seu corao e da sua vida. Obedea-me, sim? no
saia de casa; no saia, que talvez me no encontre viva quando voltar.

Ludovina abraou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os
rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da me desafogava de
angustias soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de
animo para arcar com a ignominia do seu descredito.

D. Angelica recau no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe
assistirem, e executarem as prescripes dos medicos. Melchior Pimenta
esperou que a filha sasse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e
sombrio, ao p do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a
com os maviosos epithetos do carinho. Angelica abria os olhos pvidos,
encarava-o por momentos, e recaa na somnolencia.

Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A
trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com
um vo negro impenetravel  vista, a baroneza de Celorico, ssinha,
subiu as escadas do amante de sua me.

Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo.
Respondeu-lhe que havia esperanas de salva'-lo. A noticia feliz
alvoroou-a. Receberam-n'a as irms de Almeida, maravilhadas de tamanha
prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o
apparelho do curativo, e chamou-a com ancia.

Ludovina entrou no quarto, s, que assim o pedira s amigas. Almeida
apertou-lhe a mo, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:

 a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do
meu corao.

A baroneza ficou muda e convulsa. _Filha do meu corao_ foram palavras
que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porm, que, de
repente, se mudra em sensao de intima doura. Passados minutos de
mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:

--A me est muito doente; mas sem perigo. A sua carta no lh'a
entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a no matar.

--O baro denunciou tudo?

--Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, s eu sei que ella o
estima tanto como eu.  necessario que o nosso amigo concorra quanto
puder para lhe dar allivio. Tem esperanas, no tem?

--Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento no  mortal. J
no morro, minha... minha querida amiga, no quero morrer...

--Escreva a minha me, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. No
fale em mim, no diga que eu vim c.

Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e
disse soluando:

Ser o beijo de um moribundo?

No diga tal, sr. Almeida.

Se fr... e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam,
proseguiu se fr... Ludovina... lembra-te sempre da situao em que te
deu o seu ultimo beijo... teu pae.

A baroneza tremeu uma sezo de instantes. Quiz sar, mas o abalo
quebrantou-lhe as foras, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a
perda quasi dos sentidos.

Almeida tocou a campainha, e disse  irm que primeiro chegou:

--O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e v
uma das manas acompanha'la.

Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na
Lapa.




Cinco paginas que  melhor no se lerem


Este capitulo mira a alvo transcendental.

Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador
Justiniano--corpo de leis que uma falsa piedade chama Digesto, sendo
elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes--quer provar,
digo, que o Digesto, entre muitas que no conheo, traz, uma lei de
tamanho absurdo e insensatez, quanta  a indignao com que para aqui a
traslado:

_Pater is est quem nupti demonstrant._

Em portuguez comezinho:

_O pai  aquelle que se diz pae no assento do baptismo._

A verso  de christo catholico, entenda-se.

Aquella regra de jurisprudencia pag no fala em assento baptismal. Se o
legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei no saa assim.

Contra a qual lei temos a articular:

1. Que o pae  uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica,
e circumspecta. E demonstra-se:

Quem leu a physiologia da gerao sabe que ha cinco phenomenos
caracteristicos d'essa funco de mysteriosa origem. O primeiro d'esses
phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lr nas fontes
respectivas,  influido pela aco de um ser directo e immediato, que os
latinos denominam _pater_, os inglezes _father_, os allemes _watter_,
os francezes _pre_, os hespanhoes _padre_, e ns, com mais suavidade
que todos os outros idiomas, _pae_.

_Pae_ quer dizer productor, gerador _Parens qui aliquem genuit_--isto
a meu vr,  claro como tudo o que se diz em latim.

Concluso: Pae  aquelle que  pae.

2. Ha paes postios, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes
_in mente legis_, na presumpo da lei, e na f dos padrinhos de quem
so compadres, por obra e graa de um sacramento.

Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia
como ella s vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pr-lhe
mascara.

E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saa  gente com
as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores
corrigir os aleijes d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do
assento baptismal, o pae da arvore de gerao escripta em pergaminho, o
pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem
tudo que  paternal, mas no  pae.

Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa que o incitou
deturpa a humanidade, e opprime agramente os coraes dos individuos
virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades
deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da
quina se tolera para combater a sezo. Os paladares mais melindrosos
affazem-se  peonha, e estomago ha ahi de pae postio, que disputa a
Mithridates a invulnerabilidade.

Eu no applaudo a _Sandice_ como Desiderius Erasmus; mas observo que o
famoso theologo chamava sandice o que ns c, gente bemaventurada da
civilisao, denominamos Cultura.

Erasmus no deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz
d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:

Grande Jupiter! O que ahi no iria de divorcios, e peor do que
divorcios, se a unio do homem e mulher no fosse corroborada pela
lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulao, que
formam o meu cortejo! Que raros no seriam os matrimoniamentos, se o
homem de ante-mo esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva!
Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, no cegassem o
bom do marido, para no enxergar os tregeitos e os feitios da
companheira querida! Dizem que  toleima isto; deixa'-la ser; mas o
grande caso  que marido e mulher vivem s mil maravilhas, que reina a
santa paz em casa, e os vinculos da alliana esto rijos. Isto  que  o
essencial. Se ao pascacio do nomes feios, que se lhe d elle
d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe
sorve as lagrimas enternecidamente. Qual  melhor, ser assim bom, ou
andar atormentado pelas furias do ciume?

 boa a pergunta do theologo! O melhor  ser assim bom, ser assim
illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que
obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um
porque a sua lhe no respondeu a todas as cartas enviadas do exilio,
outro porque a d'elle teve a impudicicia de sar um dia, sem coifa,  rua.

Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como
pondera Juvenal, j no morava nas primitivas cavernas onde os dois
sexos se luravam sobre colches de folhagem.

    _Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam_
    _In terris_...

j quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das
pseudo-paternidades que se enxertavam,  sombra d'elle, nos illustres
troncos de Roma:

    _Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum._
    _Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri._

 Postumo!--exclama o poeta--pois tu eras, at aqui, escorreito e
atilado, e vaes casar

    _Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!_

Por esses tempos, a balbuciante civilisao dos espiritos engendrou a
lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae:
_pater is est quem nupti demonstrant_. Agora, em pleno seculo de luz,
somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo
fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho
sacramental da lei nova.

Como quer que seja, pae  aquelle que  pae, apesar do Direito Romano, e
das Instituies de Direito Civil de Coelho da Rocha.

No se adduzem os 3., 4. e 5. artigos da refutao, porque ninguem
supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com
quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso,
seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade.


COROLLARIO

Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na inteno do _Digesto_, na
lei citada, do L. 5. _de in jus voc_, e C. da Rocha no cap.
_Paternidade e filiao legitima_.




XV


D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido
que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os
creados, que francamente lhe disseram que a senhora baroneza sara na
sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo
degrau da desenvoltura, visitando o amante  hora do dia, no momento em
que seu marido a abandonava aos terriveis juizos da sociedade. Com as
mos agarradas  cabea, entrou o consternado pae no quarto da mulher,
abafando de vergonha, como elle dizia.

D. Angelica, receosa de que tudo j fosse notorio a seu marido,
apavorou-se, e quiz fugir do quarto.

Que queres tu fazer agora, santa mulher?!--exclamou elle, sustendo-a
com meiga brandura.--Deixa'-la perder-se de todo, j que ella assim o
quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua
dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que o procedimento
d'ella te ha de desmentir, Angelica...

--Que dizes?--atalhou a perplexa senhora.

Que digo? pois eu no sei j tudo? No me contou ella o que tu fizeste
para capacitar o baro de que Antonio de Almeida era teu amante, e no
d'essa desgraada que to mal aproveitou as tuas lies? O que tu
fizeste, no devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar
verdade, se corresse o boato de que o escandalo era cousa tua, a minha
honra soffria tanto como a de minha mulher. O que vale  que o baro no
dir nada, e o falatorio ha de acabar como acabam todos os escandalos,
quando os faladores se canarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde est esta
mulher que nos anda envergonhando por l?

Estou aqui, meu pae--disse a baroneza com angelica serenidade, e
sorriso de meiguice para sua me.

--Minha filha, minha santa filha, minha providencia!--exclamou D.
Angelica abraando-a com arrebatamento.

Isso no  assim, Angelica!--disse carrancudo Melchior
Pimenta.--Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, j que to boa moral
lhe ensinaste em solteira.

--Silencio, meu amigo. Vae...--atalhou com azedume D. Angelica--vae, e
deixa-nos ss.

No tem geito nenhum!--accrescentou o austero pae.-- preciso saber-se
para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdo, perdo, antes
que a sociedade saiba que elle te abandonou.

--Irei, meu pae.

Irs; mas entretanto ses de carruagem, e no dizes onde vaes... Onde
foste tu, diz?

Ludovina abaixou os olhos, e no respondeu.

Vs, Angelica?--proseguiu com virulencia Melchior--No respondeu; j
sabes d'onde ella vem... J se viu no mundo um descaramento assim?

--Nem mais uma palavra a minha filha!--exclamou com impetuosa arrogancia
D. Angelica--Nem mais uma palavra, porque se no, Melchior...

Se no, o que?--interrompeu elle.

--Minha me, pelo seu amor lhe peo...--murmurou a baroneza, apertando-a
ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no corao.

Pimenta sahiu, como entrra, com as mos agarradas  cabea. D.
Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluando:

Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste
sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu
proprio descredito. No, filha, isto no pde continuar assim. Deixa-me
ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura.
Esta expiao  a maior de todas, Ludovina. O meu corao est cheio de
fel. Tu queres salvar tua me e matas-me, anjo do meu corao. -me
muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o
mundo todo me culpe, mas perda-me tu, filha!

--Me, por piedade... no me turve a satisfao d'esta pequena virtude.
Olhe que no  heroismo isto, no,  a crena, a esperana de que a
felicidade ha-de vir para todos ns, se me no desviarem do caminho por
onde eu a busco...

Para todos ns, filha! que innocencia, que illuso a tua! D'esta queda
ninguem mais se ergue, e menos eu.

--Ergue, me. Ver que o desenlace d'este desgraado enredo no ha-de
ser o que a me espera.

Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...

--Ninguem morreu, minha me. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida;
escreveu-a elle com o proprio punho; est livre de perigo... Veja, veja
o que elle diz...

D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguido, e leu o seguinte:

Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste
acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do
nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convena d'esta verdade, para
ser mais suave a cura. De v. exc. amigo verdadeiro.--_Antonio de
Almeida._

Isto  verdade, Ludovina?--exclamou ella erguendo as mos, e apertando
a carta ao corao--Isto  verdade, minha filha?

--, juro-lhe que ...

Como podes tu jura'-lo? quem o viu?

--Eu, me.

Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha? Que
inspirao tiveste de o visitar? O corao impellia-te? era o corao?
diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre
alma! No me respondes, filha! No queres dar-me a alegria completa! Foi
s por caridade, por compaixo, que o visitaste?

--Foi por amor de minha me que o visitei.

E elle? que fez quando te viu? abraou-te? beijou-te? chorou nos teus
braos, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a
tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha  toda minha. A
reserva j agora  impossivel entre ns, filha. Que te disse? responde...

--Nada, minha me...--balbuciou a baroneza.

Nada?

--Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava
ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao p
de minha me... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons
conselhos que me deu sempre, das consolaes affectuosas com que
alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como
isto era sobejo estimulo  minha pena. E, depois, vr quanto a me
soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...

Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras
terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes
tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu
marido... No me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por que ha em ti
fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que
quizeres de mim; eu obedeo-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de
ti como do meu anjo da guarda.

--Eu no a aconselho, minha me... pelo contrario, supplico-lhe que me
advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz
que estou agora. Toda a minha confiana est posta em Deus, que protege
a innocencia e  misericordioso com a culpa. O mundo ser cruel
comnosco; seja, muito embora; ns supportaremos as cruezas do mundo, sem
nos curvarmos aos seus juizos. Minha me ha de ajudar-me a vencer os
dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez
mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa
sorte, espero que vir, mas os meios no os sei. Hei de a este respeito
consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.




XVI


Consta-me que  geral o cuidado que est dando aos leitores o baro de
Celorico de Basto.

Como este homem captou a benevolencia publica, mrmente a dos maridos,
isso no sei eu.

Caprichos.

Commiserao, lastima e d, no a faz decerto o marido de Ludovina. Eu
de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre
historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da
linguagem o travor das informaes insuspeitas. Faz-me zanga a
felicidade d'este marido, se o confronto com outros minotaurisados
iniquamente.

No transijo com o estupido acaso que travou as relaes de Joo Jos
Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem
que a Providencia entregra de mo beijada a rara joia de entre as
mulheres a Joo Jos Dias.

Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo
latrocinio, pelo talisman do buril, pelo fornecimento dos aougues
humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as;
porm, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeio,
creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal
repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e
atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a
Providencia, mas to sublime, to ao longe das pequenezas d'este ponto
do mundo, que no cura de saber se o zoupeiro Joo Jos casa ou no casa
com a sylphidica Ludovina.

No vou de encontro s crenas de ninguem; Deus me livre. Todavia,
raciocinemos, em quanto a razo de si apoucada, no contender com os
dogmas indisputaveis da f.

Saibamos, pois, o que  feito da sympathica personagem do baro de
Celorico de Basto.

Pesquizei miudamente o itinerrio de s. ex., e colhi as seguintes
informaes, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades
intellectuaes de muitos bares, no primeiro periodo do seu desmancho.

Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro.
Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura,
cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo.

Simo, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da
terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos
com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando
que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico baro.
Baldado empenho, perdidos desvelos, mas no perdidos ovos, que os comeu
o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os
anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel.

Reparou o preto, em quanto encovava o almoo, que o baro, de vez em
quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom
soturno:

--Foste a minha desgraa, tio negro do inferno!

E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com
frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!

Que diabo  isto, senhor?--perguntra timidamente o preto.

--No vs?  um charuto, que me ha de matar!

Pois v. ex. fuma isso! Bote-o fra, que tem m cara esse demonio!

N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que no prestam para a
tragedia, nem para a fara, chegaram  villa de Torro, onde o nobre
viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na
qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que no lhe
era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava
deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu
remorso. Pedia novamente perdo a D. Angelica, e rogava a sua mulher que
tornasse a supplicar em nome d'elle o perdo de Antonio de Almeida.
Outro sim, pedia  baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma
do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle testador,
quando Deus fosse servido leva'-los  sua presena. O principal da carta
guardava as frmas testamentarias: faltava-lhe, porm, a condicional
prescripta do perfeito juizo e claro entendimento, posse de que o
preto duvidava muito, e os da estalagem no duvidaram menos, quando o
baro entrou a gritar que era um assassino, e estava j vestido e
calado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o
em conta de possesso, e, se o baro no se, era filado pelo padre
Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da
estalajadeira chamra para resar os exorcismos ao demoniaco.

O baro foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um
romancista que sabe do seu officio.)

O cirurgio da villa, chamado por deliberao do preto para ver o amo,
receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manh, e esfregaes de
oleo de amendoas na circumferencia do abdomen.

O baro mandou-o  fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro
folhas de papel almao, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do
aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabea febril,
apavorada de vises sangrentas, que o foravam a estropiar a syntaxe de
um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no
invento da orthographia.

No dia seguinte, s onze horas da manh, chegou o baro  sua quinta de
Celorico, onde, creio que j se disse, viveram frades n'outro tempo. A
entrada do proprietario nos seus dominios foi assignalada pelo
primeiro accesso de loucura formal.

 entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu
habito venerando.

O baro soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de
Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para
convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando
aquelle em conduzi-lo pela mo ao p da imagem, afim de convence'-lo com
o tacto, o baro assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma,
com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.

Os primos circumvizinhos comearam a visitar o genro de D. Angelica, e
saam espantados do disparatar do baro, que descaa de uma conversao
atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que
fra convento.

Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos
estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre  baila nas
apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco
Nunes.

Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o baro
pediu de comer a altos brados, e comeu pores incriveis de carneiro
guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados
picheis do verdasco, predilecto seu.

Emergindo de uma especie de lethargia de leo sazonatico, o baro urrava
como d'antes, recuando ao phantasma, que j no era S. Francisco
smente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejo como elle
a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente  porta do
quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido  gritaria
rouquenha de seu amo.

Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de
demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios
persuasivos para o levarem  cama nada conseguiram; os da fora seriam
inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da
sua cabea confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria
arriscar ao perigo certo de um murro secco do baro.

Contava elle a toda a gente a historia do charuto que j trazia meio
desenrolado n'um canudo de papel...

Se porm acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulses, e
no acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os
ouvintes. Aquelle charuto fra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua
alma. O charuto infernal obedecia  sua vontade, e despejava uma bala
como uma clavina, em consequencia do que, elle baro, matra um homem,
desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as
larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de ccoras atraz dos
circumstantes.

Entenderam os cavalheiros de Basto que o baro fugira doudo  sua
familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o
passarem a Rilhafolles, antes que a demencia se tornasse incuravel.
Chegou o aviso j quando Ludovina, avaliando pelas cartas a
desorganisao mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.

Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O
pae (_Pater is est etc._) queria acompanha'-la, receoso de que a
presena d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a proteco do
pae, e respondeu  me com palavras que a fizeram crar, posto que
adoadas pelo respeito filial.

Quando me casaram com este homem--disse ella--no se estipulou a
condio de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os
meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da
minha boa me manda-me ir; o corao deseja que eu no v. Devo obedecer
 sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu corao.




XVII


Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As
melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma
outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o
anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da
morte com as suas lagrimas.

Almeida, porm, no lhe escrevia, no lhe dizia, ao menos, que o seu
amor no succumbira  terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos,
venceria todos os estorvos.

Que mal te fiz?

Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.

Uma grande desgraa aconteceu; mas essa desgraa foi de ns ambos,
Almeida.

A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve,
queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.

Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer, se ainda posso
deixar-te de mim uma lembrana triste, meu amigo!

Este teu silencio de-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado
na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que no
pdes vir a esta casa,  casa de minha filha; mas que no faria eu para
te encontrar, Almeida?

Pois  possivel este desfecho de uma paixo que tantas lagrimas me ha
custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os
tormentos e os remorsos que me empeonharam a mocidade, para agora assim
ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas at que ponto sou
culpada no teu infortunio?

Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos
inventaria o inferno para me fazer deixar-te!

Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos--se tinha!...
vs o sabeis, Deus meu!--e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me,
Almeida, sentia-te mais dentro do meu corao, mais senhor da minha alma!

Conspirassem todas as foras d'este mundo contra mim, fosse eu chamada
para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho,
offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era
amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!

E tu pagas-me to cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas
os meus cabellos se fizeram brancos? Assusta-te a presumpo de que
a minha face envelheceu? No pdes j ver em mim signaes desvanecidos da
Angelica dos dezoito annos? Tens razo, Almeida; estou velha, mas o
corao, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha
vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeioou-se atravs de vinte
e dois annos, est hoje como no estava quando te assenhoreaste d'elle,
aperfeioou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de
amor que o ha-de matar, porque j no tenho peito que possa conter tanto
fel!

No estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. No imagines o que
fui, nem repares no que sou. Lembra-te s do perdido amor que te dei,
mova-te s a lembrana do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na
velhice uma amizade, que te no ser pesada agora, nem embaraosa para
tua felicidade. Diz-me s que o teu silencio no  desprezo nem
esquecimento. Poupa-me  horrivel morte que me faz tremer. Se tudo
perdi, resta-me o recurso da tua commiserao. Imploro-a de joelhos.
Amor, esse sei eu que se no supplica; mas engana-me, Almeida,
engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicao de tantos annos no
pde acabar com o desprezo.

_Ingrato homem!_  a exclamao natural com que as leitoras sensiveis
exprimem o seu d.

Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustia. Antonio de
Almeida  to digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte
carta que Ludovina lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico:

Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo,
anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de corao e de
astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer
cousa que o meu amiguinho me no sabia negar.

A creana fez-se mulher, j no sabe ameigar antes de pedir; mas essa
falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia
ento. O corao  bom como era, a affeio maior e mais entranhada, a
confiana de ser bem recebida em meus rogos  mais solida: o que me
falta, como j disse,  o tom carinhoso, a meiguice seductora da
innocencia.

No importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho
para alcana'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as
recordaes doces que o trazem desde o bero de Ludovina at estes dias
tristes que vamos vivendo.

Peo-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as foras que o corao
no tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.

Seja mais forte que a minha pobre me. Se vir que ella ce, sustente-a.
Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se no
descubra  curiosidade infamadora do publico. No peo que lhe d
consolaes frivolas. Lies de virtude, suspeito que no aproveitam a
minha me, sendo dadas pelo meu amigo. A razo est muito longe do
corao. Penso que minha me tomaria como esquecimento, ou
desamparo os seus conselhos.

Conhece bem a situao de minha me, sr. Almeida? Siga o que a sua
honra lhe inspirar. Veja que novas desgraas podem seguir-se. Avalie o
que eu tenho feito por ella, e medite na extenso da minha dr se tudo o
que fiz e fao fr perdido.

No sei dizer o que me est na alma. Pode ser que eu dissesse o mais
confusamente que  possivel o meu pensamento. L est o seu nobre
espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras.

 necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra
comigo. Olhe que me ha de abenoar, e gloriar-se do seu sacrificio.

Eu parto hoje para Celorico. Meu marido  digno de pena. Vou ajuda'-lo
a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.

Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a
paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amiga _Ludovina_.

Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com
o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como
admirao. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e
violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de
deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliana que fizera com
a que elle, no intimo de seu corao, chamava filha.

Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa escola, no
costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razo. Estas
cousas, como ahi se contam, so naturaes e observadas, e sentidas; por
isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom  o inverosimil, e o
que mais captiva  o que mais repelle o corao bem formado.

Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por
imaginao de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a
elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha
ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras,
entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica,
e semi-desfallecido nos braos d'ella, dar largas  parlenda, e
vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o
genero humano, contra a instituio do matrimonio, e contra os deveres
conjugaes! Agora se me afigura vr Melchior Pimenta assumar no limiar da
porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos,
injurias, investidas, at que alfim, levados  puridade para um recanto
da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha
figurao me avulta agora na imaginao de emprestimo Melchior Pimenta,
aps a detonao de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mo ao
seio que espirra golfos de sangue, pe os olhos annuviados no co
impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito,
nos braos dos padrinhos.

Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que dava esta
parvoiada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas,
afra o subsidio das reticencias, que, na minha opinio d'outro tempo,
foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinio d'agora,
inventou-as o primeiro litteratico co de idas.

Ora, que fiquem com Deus os mestres que to vistosos de zarandalhas nos
embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos
entrar na ultima jornada d'esta historia.




CONCLUSO


O baro de Celorico parecia uma creana atemorisada ao p de Ludovina.
Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e l ia o pobre
homem gritando, at se acocorar ao p d'ella, escondendo-se com a roda
do vestido.

Bastava a presena de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura,
manifestados em exclamaes desatadas, quasi sempre seguidas da
appario do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor
ridiculo que j lhe ouvimos.

Acudia Ludovina com o inutil remedio da razo, despersuadindo-o da morte
de Almeida. O baro abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de
entender e acreditar; o desfecho, porm, do silencio sereno com que a
escutava, era ver um novo avejo, que o vinha aterrar por cima do hombro
da mulher.

Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam  baroneza o
emprego dos meios violentos para o curarem. A grande ida therapeutica
era o caustico e a sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua
parte, fez-lhe at carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O baro
replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia  mulher que no o
deixasse morrer s mos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe
roubarem a esposa.

Resolveram empregar a fora. Dois robustos camponios tomaram a peito a
ardua empresa. O cirurgio armado de lanceta esperava o ensejo propicio.
O officioso abbade da freguezia encarregra-se de cingir-lhe um leno
sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam
o corpo de reserva, e a baroneza fugira para no presenciar os
extrebuxamentos do infeliz.

--Agora!--disse o facultativo.

 palavra _agora_ o baro estava entalado entre quatro braos
cabelludos, e o abbade,  rectaguarda do preso, lanava o leno com mo
certeira. O baro arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos
braos. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules
da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros
simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario
infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo
contra elle os athletas: cara lhes foi a faanha, porque apararam um
choveiro de scos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na
lombada do cirurgio. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os
homens de pga, parte dos primos, e o cirurgio coaram-se
cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada.

N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas
contundentes, os braos iteriados que vibravam o ar como duas
mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro,
ouviu-lhe as reprehenses com o tremor do medo, e cahiu prostrado da
lucta sobre uma cadeira, apegando-se  saia da baroneza.

Aqui est o viver da deploravel senhora, no espao de um mez, em
Celorico de Basto. Aquella vida, e as dres profundas de outras causas,
eram o preo por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da
sociedade, que, ainda assim, a invejava.

O baro desmedrra a olhos vistos. Do antigo Joo Jos Dias restava o
arcabouo proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, to rubida
de nediez chorumenta, chupra-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima.
Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica
viuva. J dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e
porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras,
iam dando os parabens  baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram
resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.

A ida que dominava o baro era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina
perdera a esperana de afugentar o phantasma, empregando razes to
convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas
d'elle, que o baro ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de
nova berraria.

A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido no a
percebia, foi a seguinte:

Minha amiga.  j bastante o numero dos infelizes que pem os olhos
lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos j muitos os
desamparados da esperana e da alegria. D'aqui at ao fim da vida 
soffrer, e chorar de modo que o mundo nos no veja as lagrimas: 
preciso que o corao as verta e as absorva;  necessario suffocar os
gemidos, e entreter as dres, cavando a sepultura.

Curta ser a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude
alquebrada, e o corao feito pedaos,  um bom agouro, no ? Mas, para
Ludovina ser extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha
amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e
ahi se lhe ho de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre
anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio?

A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a f, a
religio dos desgraados, ensina que o premio das grandes virtudes no
pde ser dado n'este mundo porque no ha mos puras que possam tecer a
cora do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no co, e a mo sobre
o seio para esmagar os impetos do corao, que tem accessos de raiva
blasfema.

Obedeci-lhe, Ludovina.

Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida, o sentir que m'a
fazia preciosa. Sou para sua me uma memoria. D'ella tenho s o nome
escripto no corao, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado.

Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro,
offerea-m'o; toma'-lo-hei de joelhos.

Pergunta-me qual  o meu viver?

 isto, minha amiga. No sei dizer-lhe que turbao afflictiva me
embaa o animo. Em redor, todos os meus horisontes so tenebrosos. A
mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que
 o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego.

Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha
imaginao canada de soffrer? Vejo dois vultos em p, taciturnos,
sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mos com a gelida
immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes.
Uma tremenda agonia lhes despedaou a maior parte do corao; o
remanescente so fibras de ferro que resistem ao veneno e  morte. Ao p
d'elles est a sepultura de ambos, e o anjo da consolao, sentado
n'ella, alimenta ahi a alampada da esperana.

Adeus, minha santa amiga.

Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor
no traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem.
A alliana de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra
to melindrosa, no podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas
as partes. Entende-se o melancolico debuxo que attribulava o
espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe
dava as mos  borda da sepultura. A alampada da esperana alimentada
pelo anjo da consolao, era o fito da morte d'onde ambos no desfitavam
os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um
rochedo salvador.

Ludovina entendeu o viver de sua me, e pungidas lagrimas essa carta lhe
desentranhou do corao. Chamou-a para si com grandes demonstraes de
saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz  qual j no
bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao p do
baro que noite e dia bramava contra os espectros, e j dava aos
facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes.

D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia
de Almeida adivinhra. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a
cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que
estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos
de quem quer que fosse.

Nunca mais escrevera a Almeida, e  filha eram mais as lagrimas que as
lettras. No era a sua uma d'essas dres que desabafam. Sentia-se tomada
de vergonha, se o corao a mandava abrir-se em desafogados prantos com
Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se no odio, quando o
marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolaes frivolas de
quem no comparte as penas.

 saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que j
no tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que
lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse
como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe
estavam desfazendo o corao fibra por fibra.

No entanto, disseram os medicos  baroneza que a appario d'esse homem,
que o baro julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razo,
desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.

Ludovina communicou a Almeida as esperanas dos medicos, sem pedir-lhe o
sacrificio de se verem.

Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao p da baroneza Melchior
Pimenta.

Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o
sobresalto em que a puzera a appario do amante.

Melchior Pimenta, forte da sua indignao, insultou Almeida,
exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaando-o com a morte, se
elle no sahisse immediatamente d'aquella casa.

Ludovina cobrando foras, disse que s ella tinha direito de expulsar
alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando
injurias contra a filha, e provocaes ao hospede silencioso. E sau
escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem
assomos de colera, nem proposito de vingana. Impediu-o Ludovina com
lagrimas e gemidos que irritavam as iras paternas. Bem se via que
no estava ali um pae; e, se estava, no era por certo Melchior Pimenta.

Este conflicto atalhou-o o baro. Seguiu-se uma scena de effeito
dramatico. O baro recuava diante de Almeida que lhe extendia a mo.
Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliao
que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua
estima, e o esquecimento da passada offensa. O baro, ora espavorido,
ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.

O leitor j sabe como no theatro se recupera o juizo. Se  mulher a
douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas
para traz, e d frices seccas s fontes com frenesi; se, homem, abre a
bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede
o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e est pessoa de juizo, capaz
de casar, que  quasi sempre a peor das doudices em que os auctores
fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razo.

Pois o baro de Celorico no se curou por esse theor. Os ditos da razo
estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaa'-los. A
continua assistencia de Almeida ao p do leito, e as continuadas
insinuaes de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas
vagarosamente. O baro parecia emergir d'um pesadello atroz quando
reconheceu Almeida. No houve exclamaes nem abraos de p atraz,
_secundam artem_. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento
desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda nas
suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a
demencia fizera no corpo do baro. Foi longa a convalescena. Almeida
quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mos supplicantes pedindo-lhe
que o no deixasse.

Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo
que presencera. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em
face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presena de
testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com
auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera.

D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:

--A adultera sou eu!

--Que dizes, Angelica?!--bradou Melchior.

--Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude.
Os nomes insultuosos que lhe ds, repara bem, Melchior, e ve'-los-has
estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas,
arranca-m'o do seio!

E assim falando, tirava o leno que lhe velava os hombros, offerecendo o
peito.

--Endoudeceste, minha querida Angelica?--exclamou Pimenta--Faltava-nos
esta desgraa! Ests douda! maldita seja tua filha que te levou a esta
situao!

No estou douda, Melchior! no estou douda! Estou moribunda, e no
quero deixar infamada a teus olhos a minha filha. Se eu te pedisse
perdo do meu crime, acreditar-me-ias?

--No, no. Tu s uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para
salvar Ludovina, que eu no te creio. Reprovo essas demasias de amor,
que ella te est pagando com o amante ao p de si.

Melchior!--disse Angelica com firmeza e gravidade--A tua filha est
innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! No me perdes, vinga
em mim a tua deshonra, porque o perdo no t'o peo. Sabias, quando me
acceitaste como tua, que eu no podia pertencer-te. Collocaste ao meu
lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se
era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo  tua
commiserao que me deixasses. A mulher que fez isto, no pede perdo.
Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o
crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdo
quella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.

Melchior Pimenta sau do quarto de sua mulher.

Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragana, e do infante D. Joo?

Para se dar um tiro no ouvido?

Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?

Para scismar e endoudecer?

No, senhores.

Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no hotel de Miss
Mery, e jogou o voltarete at s onze horas na Assembla Portuense.

No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um
passeio no jardim que estava o dia agradavel. s tres horas procurou-a
para jantar ao p d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma
cadeirinha, e deixra uma carta para seu marido.

No vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.

D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licena de seu marido
para entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a
sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o
trabalho no bastava para as suas pequenas necessidades.

Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licena para visitar
sua me, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a
o marido e deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.

So decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda no sahiu do
convento. O baro soffre resignado a certeza de que sua mulher no
sahir jmais.

A opinio publica diz que Ludovina merece louvores por no ter o
descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no
mesmo peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, me amorosa que
deixa a sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.

Melchior Pimenta est bom, e  commensal do baro.

Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde no
voltou ainda.

O bacharel Ricardo de S comprou mais tres bengalinhas, e d a ultima
demo ao seu SECULO PERANTE A SCIENCIA.

So hoje 15 de fevereiro de 1858.

O unico personagem morto d'esta historia  Francisco Nunes. Expirou ao
cabo de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue
com o epitheto mais fulminante que a sua clera lhe suggeria. Matou-o o
contracto do tabaco.


FIM




SUPPLEMENTO


PREFACIO

O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que
eu regalra com a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado,
com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a
rescender perfumes de deleitosa aspirao para as almas. Um d'esses,
cujo voto muito respeito pela _massa_ de conhecimentos que _amassou_ em
Frederico Souli e Alexandre Dumas, accrescentou que o romance _O que
fazem mulheres_ era a flor do meu talento. Cheio de encantadora
modestia, perguntei se a virtude da minha heroina precisaria de mais
tres ou quatro capitulos para ser vista a toda a luz celestial com que a
Providencia lhe irradira o espirito. Disseram-me,  uma, que no
escrevesse mais uma s linha, que deixasse  perspicacia das leitoras o
desvelarem mysterios do corao, que eu no saberia illuminar sem
profana'-los, que deixasse s lagrimas das almas sensiveis o fecho
d'esta historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para ento
escrever a segunda parte da biographia da baroneza de Celorico de
Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das
educandas.

Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de
ser este um livro cuja decima edio apenas bastaria para aquietar as
ancias d'um tero do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que
uma virtude em duzentas paginas por quinhentos ris era, pequena de mais
para o comprador que prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com
argumentos de grande calibre logico e moral, que a unidade da aco era
inatacavel no romance.

_Item_: que o estirar uma ida para avolumar a lombada de um livro era
chatinar a mercancia litteraria.

_Item_: que muitas capacidades largas e agudas, s quaes eu submettera o
meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a quinta
essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde
Sancta Agatha at s Virgens do Thirol.

Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que
eu no conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias
do meu trabalho de chronista no podiam transpr as da realidade. Por
quanto:

No  inventada esta historia;

No quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto
verdadeiro;

No tolera um leitor sisudo que se lhe encampe  credulidade enfadonhas
narrativas que agorentam a verosimilhana, ou enfastiam a atteno
benevola.

Aps uma renhida desavena da qual ia resultando a perda do manuscripto,
que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos
ao accordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes
entrelinhas, exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos
meus amigos que serviriam de indigitar ao leitor em que paginas esto as
bellezas que elle no viu.

Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu
fiz uma excurso ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro
que me contra o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de
janeiro proximo passado.

A nossa conversao de algumas horas vae ser trasladada em paginas
supplementares.

Antes, porm, de entrar n'essa tarefa que realmente me de, seja-me
permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocra
Ludovina, onde ella se collocra, e de onde se me afigura que...

No dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a
virtude perfeita no  uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais
de duzentas paginas.

Cumpre dizer quem  a pessoa, destinada pela providencia dos romances a
figurar n'este supplemento.

V. ex.as de certo a conhecem. Viram-na j muitas vezes no theatro, nos
bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em
todas as missas classicas em que se v tudo, e se ouve tudo, menos o
padre e a missa.

Eu dou os signaes do homem.

Tem uma bella cabea, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... J
conheceram?

De vinte leitoras, dez esto na duvida. Se v. ex.  uma das dez
perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traos:

O nariz  a feio mais caracteristica d'este homem. Na base tem um
promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o
bico de um passaro. Chamam-se estes narizes _Bourbons_. Agora
conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem
significaes espantosas.  um nariz que individualisa um homem;  um
livro aberto;  o porta-voz dos segredos da alma;  em summa, uma
biographia.

Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe dsse a elle um
nariz vulgar, o leitor no se decidiria na leitura d'este romance. Vejam
de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de
vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.

Fascinou-me, e fui eu que me offereci  sua amizade. Achei-o um homem
raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as
virtudes que v. ex.as escondem, todas as perfeies que a sociedade no
v, sem lh'as explicarem.

 provinciano o sr. Marcos Leite: d-se-lhe este nome. Visita o Porto
duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estao do theatro
italiano.

Consta que nunca teve namoro que o entretivesse nas duas estaes.
O nome da mulher, que adora, at  demencia, no carnaval, quasi sempre
lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensao, as mulheres rejeitadas,
quando o leo volta das suas selvas nataes, apenas do f que Marcos
est no theatro das suas faanhas pelo estrupdo extraordinario do
cavallo, que elle atira em arremettidas e saces pelas ruas mais sonoras
da cidade eterna. A no serem as mulheres o que providencialmente so,
Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. No ha
uma s das esquecidas damas, que lhe no incendiasse no mais intimo do
peito um amor eterno... de tres semanas.

Algumas possuem cartas de uma paixo to frenetica, que as exclamaes
de Werther, comparadas com ellas, so frias e chatas como um rol de
roupa suja.

Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me
contou o essencial da historia do baro de Celorico, accrescentando que
tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho,
proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e
ainda juvenil physionomia de D. Angelica.

Por essa occasio, lhe perguntei eu se traava alguma rede  virtude
heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que no ousava escalar uma
fortaleza em cujo assalto era foroso triumphar, ou morrer.
Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal
convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeio, que,
desprezada, se tornaria em loucura furiosa.

Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroar
aquelle corao, que eu imaginava esmagado sob a presso de uma virtude
exaltada?

Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias,
surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.

Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da
serra, e aquella fresca alameda que est tapetando a entrada para a _me
d'agua_? Foi alli que o encontrei, encostado  mesa de pedra, lendo LES
REVERIES de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que
precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lrpa em que
vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religies.

Quando me viu, Marcos Leite correu a abraar-me, exclamando:

O meu corao tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres
me apparecessem aqui, menos tu, e ella...

--Temos ELLA!

E tu vieste para este sitio com o corao vazio?!

--Graas a Deus, no, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas,
ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu corao est
funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro
desafogadamente, e completo a digesto de uns succulentos pedaos de
boi, que triturei _sub tegmine fagi_.

Se vens assim, melhor fra que no viesses. Eu queria que me
entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da
floresta. Escuta! V tu se este ermo, se este sussurro, que parece o
echo esvaido de um mundo remoto, no te est dizendo que o amor  a
vida, que a esperana  a felicidade, que debaixo do co ha s tres
cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para
ambos! No digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e  um
sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos d isto, esta fontinha, a
fresquido d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do co,
l em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que
repercute na alma...

Marcos Leite tinha razo. No pude contrafazer, por mais tempo, a minha
indole triste. Entrou-me a saudade no corao, aninhando-se no pequeno
recinto no tomado ainda pela desesperana. Lancei os olhos ao livro em
que lia Marcos, e recolhi  alma as seguintes linhas:

_La paix jointe aux lumires sera le partage d'un homme dans toute une
province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espre mme;
peut-tre l'obtiendrait-on, si la mort ou la dcrpitude ne survenaient
auparavant... La vie tait bonne, et on lui trouve encore des douceurs
que la raison ne saurait mconnatre. Mais il importe que l'imagination,
renonant aux carts, et servant elle-mme d'asile contre les peines,
anime seulement le repos que l'me peut conserver quand elle est reste
pure._

Que  isto?--perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a
lapis.

--Versos, meu caro; linhas,  melhor dizer linhas. O corao mais poeta
creio que  o menos metrificador.

Pde saber-se que anjo te roou a fronte com a aza?

--No adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma s mulher n'este mundo.

A baroneza?

--Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...

L os versos.

Marcos declamou com as mais maviosas modulaes do sentimento a seguinte
poesia:

           A LUDOVINA

    Quem ha ahi que possa o calix
    De meus labios apartar?
    Quem, n'esta vida de penas,
    Poder mudar as scenas
    Que ninguem pde mudar?

    Quem possue n'alma o segredo
    De salvar-me pelo amor?
    Quem me dar gotta de agua
    N'esta angustiosa fragua
    D'um deserto abrasador?

    Se alguem existe na terra
    Que tanto possa, s tu s!
    Tu s, mulher, que eu adoro,
    Quando a Deus piedade imploro,
    E a ti peo amor e d.

    Se soubesses que tristeza
    Enlucta meu corao,
    Terias nobre vaidade,
    Em me dar felicidade
    Que eu busquei no mundo em vo.

    Busquei-a em tudo na terra,
    Tudo na terra mentiu!
    Essa estrella carinhosa
    Que luz  infancia ditosa
    Para mim nunca luziu.

    Infeliz desde creana,
    Nem me foi risonha a f;
    Quando a terra nos maltrata,
    Caprichosa, acerba, e ingrata,
    Co e esp'rana nada .

    Pois a ventura busquei-a
    No vivo anceio do amor.
    Era ardente a minha alma;
    Conquistei mais d'uma palma
     custa de muita dr.

    Mas estas palmas taes eram
    Que, postas no corao,
    Fundas raizes lanavam,
    E nas lagrimas medravam
    Com fructos de maldio.

    Em ancias d'alma, a ventura
    Nos dons da sciencia busquei.
    Tudo mentira! A sciencia
    Era um signal de impotencia
    Da v razo que invoquei...

    Era um brado, um testemunho
    Do nada que o mundo .
    Quanto a minha mente erguia
    Tudo por terra cahia,
    S ficava Deus e a f.

    Lancei-me aos braos do
    Eterno Com o fervor de infeliz;
    Senti mais fundas as dres,
    Mais agros os dissabores...
    O proprio Deus no me quiz!

    Depois, no mundo, cercado,
    S de angustias, divaguei
    De um abysmo a outro abysmo
    Pedindo ao louco cynismo
    O prazer que no achei.

    Tristes correram meus annos
    Na infancia que em todos 
    Bella de crenas e amores,
    Terna de risos e flores,
    Santa de esperana e de f.

    Assim negra me era a vida
    Quando,  luz d'alma, te vi
    Baixar do co, onde, outr'ora,
    Te busquei mo redemptora
    Procurando amparo em ti.

    Sers tu a mo piedosa,
    Que se estende entre escarcos
    Ao perdido naufragado?
    Sers tu, ser adorado,
    Um premio vindo dos cos?

    E eu mereo-te, que immenso
    Tem j sido o meu quinho
    De torturas no sabidas,
    Com resignao soffridas
    Nos seios do corao.

    Que ternura e amor e afagos
    Toda a vida te darei!
    Com que jubilo e delirio,
    Nova dr, novo martyrio,
    De ti vindo, acceitarei!

    Se na terra um co desejas
    Como o co que eu tanto quiz,
    Se d'um anjo a gloria queres,
    Sers anjo, se fizeres,
    Contra o destino, um feliz.

    Faz que eu veja n'estas trevas
    Um relampago d'amor,
    Que eu no morra sem que diga:
    Tive no mundo uma amiga,
    Que entendeu a minha dr.

    Deu-me ella o estro grande
    Das memoraveis canes;
    Accendeu-me a extincta chamma
    Da inspirao que inflamma
    Regelados coraes.

    Os segredos dos affectos
    Que mais puros Deus nos deu,
    Ensinou-m'os ella um dia
    Que d'entre archanjos descia
    Com linguagem do co.

    Os mimosos pensamentos
    Que, de mim soberbo, leio,
    Inspirou-m'os, deu-m'os ella
    Recostando a fronte bella
    Sobre o meu ardente seio.

    Morta estava a phantasia
    Que o glo d'alma esfriou;
    Tinha o espirito dormente,
    S no peito um fogo ardente,
    Quando o co m'a deparou.

    Agora morro no gso
    D'uma saudade immortal.
    Foi ditosa a minha sorte;
    Amei, vivi: venha a morte,
    Que morte ou vida -me igual.

    Igual, sim, que o amor profundo,
    Como foi na terra o meu,
    No expira,  sempre vivo,
    Sempre ardente, e progressivo
    Em perpetuo amor do co.

    Assim, querida, meus labios,
    J moribundos, diro,
    Nas agonias supremas,
    Essas palavras extremas,
    Do meu ao teu corao.

    Sabes quem , n'este mundo,
    Quasi igual ao Redemptor?
     quem diz: Sou adorada
    Pela alma resgatada,
    Por mim, das ancias da dr.

Por ora, vejo que supplicas amor--disse eu.--A tua poesia  um
requerimento que pde ficar _esperado_ muito tempo no gabinete do despacho.

--Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graa. No  um
requerimento esta poesia, meu amigo,  uma expanso de reconhecimento. O
amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurana, a segurana que nos
d o corao, de que a alma de Ludovina me pertence.

Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...

--Como enganaste o publico?!

Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era
uma rocha inabalavel de virtude.

--E receias mentir?!

Eu j sabia que me no acreditavam... Pois tenho pena, palavra de
honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na
minha imaginao, como o eterno typo das duas formosuras enlaadas, a do
corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle no estivesse j no prelo,
e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo.  tarde para reivindicar
a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a
querer provar, que as onze mil virgens nunca de c sahiram.

--Pois que esperavas tu de Ludovina?

Que morresse abraada  sua cruz, que dsse o exemplo da esposa martyr,
da filha sacrificada ao bom nome de sua me; que sahisse apenas da sua
cella para redobrar de paciencia aos ps do altar; que nunca
consentisse que coraes degenerados como o teu, e o meu, concebessem a
esperana de profana'-la.

--Ests a fazer a alta comedia, ou crs sinceramente que Ludovina
degenera? Pe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do
ente pensante e racional,--e se tu e eu somos indignos de aspirar ao
amor da baroneza, crs que um outro, cahindo das nuvens determinadamente
por ella, a absolveria do crime horrivel de ter corao?

O corao de Ludovina estava cheio de sensaes, que o faziam
participante do amor divino. Que preciso tinha ella do amor dos homens?
Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e
apontada  posteridade como molde. Era uma virtude original;
converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu,
e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais
ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres
em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer
assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.

--Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?

--O que fez?!  boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem
de mais alma que tu s, vasaria a inspirao em versos endecasyllabos.
Uma mulher assim amada em redondilha maior!  horrivel e immoral!

--Bem! Ainda agora te comprehendi. Ests zombando com ella e comigo, e
no sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e
monotona, como deve ser o teu romance, se te no salvares com a rapida
narrao que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por
excellencia de Ludovina.

--Qual virtude?

--A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do corao, e...
no me responder a nenhuma.

--Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurana de que a alma de
Ludovina te pertence.

--E tenho.

--No te respondendo s tuas cartas? No entendo.

--No me respondeu a dez cartas...

--Bem.

--Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu  ultima.

--Ah! isso ento muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a
segurana de seres o proprietario do corao da baroneza!...

--Queres ver a resposta? Franqueza e confiana. L l.

Era um bilhete que rezava assim:


Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex. o
nome de amiga para que eu as aprecie. No me julgava na obrigao de
responder. Hoje, porm, que v. ex. me lembra esse dever, peo perdo da
falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas, de cuja
posse sou indigna, porque no soube corresponder-lhe.

Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.--_Ludovina
Pimenta_.


--Isto  lisongeiro!--disse eu sorrindo.--Com um documento d'estes, 
indispensavel a posse que tomaste do corao da baroneza. Eu creio que
podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...

--Espera l.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. J agora has-de
examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos sero
litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas!
Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um corao!

--Deixas ver a resposta?

--A resposta foram dez cartas.

--Incendiarias?

--Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como
foram!

--E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!

--No teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz
que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza.
Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me reflua
 cabea. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou
saber de mim duas vezes n'um dia.

--Oh! isso  muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...

--No fui, no podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado,
exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginao a ponto de delirar.
Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi 
baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a
morte sentada  cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria
por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do
muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os
rigores de uma alma que no quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a
mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me
restituir o corao na eternidade.

--Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.

--Ests ludibriando a minha angustia?--interrogou Marcos Leite com
ironico enfado.

--No ludibrio a tua angustia, fao a apologia da tua astucia. Tu no
tinhas febre, nem vias a morte  cabeceira do teu leito, fala a verdade.

Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me
persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho
tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que
tu sabes. O que vale  ser rapida e segura a convalescena.

--Convalesceste depressa? J vejo que o teu bilhete conseguiu...

Um triumpho!

--Como um triumpho?!

Uma gloria imprevista, um lance to arrojado de venturas, que ainda
agora me salta o corao no peito.

--Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.

Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fra de proposito medicar
D. Angelica.

--Consiste n'isso o triumpho?!

Que mais querias tu!

--Mais nada... A um doente a maior prova de estima que pde dar-se 
mandar-lhe um medico.

O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria.
Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a p, comer alimentos pouco
volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que
pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no corao; a isto redarguiu,
sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera,
entregasse ao estomago o exercicio das attribuies do corao. No sei
o que elle foi dizer  baroneza:  certo que os cuidados da parte d'ella
no esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que no precisava morrer
para ser amado. Logo que me ergui do leito...

--Da agonia, ou da dr para variar...

Nada de chacta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao
convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma virao
suavissima, que, sacudindo as urnas das flres, embalsamava a
atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...

--Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias
bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogo. Por mais que
phantasies no deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos est
dando aqui a natureza em primeira mo. Descarna as descripes, e diz o
que passaste no convento com a baroneza.

Ests materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico
dos romances. Vocs, os que trabalham no corao humano com o escalpello
sanguinario da analyse, tornam-se ridos, brutaes, e famulentos de
sensaes rijas...

-- assim; todavia, prefiro a descripo da tarde de maio  catilinaria
insolente que vaes disparar-me.

Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais
depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e
appareceu ssinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir
acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.

--Esse facto  profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir
um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... J
principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...

Sabers tu o que se passou?!

--Se sei o que se passou!?

Sim... dizes com to ironica zombaria o prospecto do dialogo...

--Nada, no:  que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo
principia a aquecer tambem.

Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto
grandes esperanas na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam
capazes de fazer amarello um camaro cosido. A primeira decepo, que
recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza:

Ninguem dir que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres
semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes no tinha.

--Como assim, sr. baroneza! Pois a minha pallidez...

Est enganado; pelo contrario, est cr de rosa, acredite. Eu chamo as
suas primas, e ver se ellas no dizem o mesmo.

--No chame as minhas primas, sr. baroneza. Eu preciso que v. ex. me
escute. Este  o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir
aqui a minha sentena. A pedra da sepultura j est erguida para mim; o
seu brao suspendeu-a; o seu brao ha-de afastal-a de sobre o peito, que
me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.

Que linguagem, sr. Marcos!--disse ella--Pelo amor de Deus, faa-me a
justia de me no julgar creana. O infortunio emancipou-me. No posso
ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetrao que
adquire o espirito  medida que a boa f do corao se perde. Com que
fim emprega tantos esforos baldados para inquietar-me?

--Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.

A inteno  generosa, e eu no sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr.
Leite; mas o amor no pde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser
a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se
diz de sublime e celeste cerca d'esse sentimento, o mais mavioso de
todos: mas sem corao essa flor no pde dar perfumes de uma hora. O
meu corao desfez-se em lagrimas, cuja historia no  nova para o sr.
Marcos Leite. Eu no o amo, no o posso amar, apenas lhe vejo todas as
boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta
affeio? quer-me para sua amiga? est decidido a acceitar deveras este
offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?

--Desprezei?

Sim; pois que outro nome se deve dar s suas cartas escriptas com um
fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia
respeitar a minha posio, compadecer-se dos meus infortunios, e
acolher-me  sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que
s os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? No  meu
amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do corao
capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraa, e quiz parti'-la.

Enganou-se; nem essa j tenho. Que mais quer que eu lhe diga?

--Mais alguma cousa: disse-me v. ex. que me no amava; agora diga que
me despreza.

--No posso. Sou sua amiga: no ha n'este mundo outro homem a quem eu
possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais
que posso ser... Agora, se me d licena, vou ao quarto de minha me,
que est doente e s.

O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de Joo
Jos Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razo porque
eu me no ria.

--Esses triumphos so parecidos com as minhas derrotas--disse-lhe eu.

-- que tu no sabes nada do corao humano!--replicou o singular
provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo
por quem no conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.

Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem  estrada real da terra
da promisso--proseguiu elle;--Josu est defronte das muralhas de
Jeric. A trombeta da anniquillao vae soar. A virtude de Ludovina est
abalada desde os alicerces, e desabar como todas as virtudes possiveis
no romance, e impossiveis na vida qual ella , e como bom  que ella
seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer at que o sol
refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com
esta nesga de estylo? At os olhos se te riem quando ouves tolices
euphonicas!... Vou concluir.

--J?!

--Achas que  cedo?

--Parece-me que o triumpho est muito longe ainda para concluires to
depressa.

--L esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do corao, dando
como infallivel a minha victoria.

Comecei a lr com vida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:


Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz,
esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de
minha me e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a
vida melhor que o principio.

Gosei alguns mezes, se no a realidade, ao menos a esperana d'estes
bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a misso de
inquietar-me at me affligir com a mortificao das suas instancias
impertinentes, perdoe-me a clareza da ida...?


--Que amabilidade!--disse eu, interrompendo a leitura.

--L, e no commentes por ora.

Prosegui, lendo:


Muito egoistas so os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como
eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha
solido por v. s. que me offerece o seu amor. Respondo-lhe que o
no posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel
aos prazeres dos affectos do corao. Conto-lhe a minha vida com aquelle
desabafo e confidencia que frma as amizades immorredouras. V. s.
escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dr 
para si to respeitavel que no ousar mais despertar-me o desejo de
alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma
carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo,
e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaa de
se matar, porque a sua mortificao  insupportavel.

Egoismo, e tyrannia!

Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem
me dera ser o que creio que se  no grande mundo, que eu no tive tempo
de estudar! L, as mulheres experimentadas nas tempestades do corao,
sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a
innocencia de crr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza,
que o no satisfao com o grande affecto de amiga que lhe dou.

Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois no conhece a minha posio?
No adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha me? Que
entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde no posso desviar-me
uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas aces que
pratiquei at hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas
virtudes, porque no tenho outro amparo que me sustente a coragem
para soffrer o pouco de vida que me resta.

Eu avalio o seu corao. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos
seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que
teriamos a bemaventurana na terra.

Agora, porm, no ha futuro para ns, nenhum futuro, meu amigo.

So as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga _Ludovina_.


--Que esperas agora, Marcos?--perguntei eu.

--Espero que ella se compadea da minha humildade.

--Humildade no entendo...

--Essa carta  um esforo extremo de quem se quer segurar  aresta do
abysmo. A baroneza  mulher.

--J sei.

--Cuidei que no sabias, e de certo no sabes o que  uma mulher.

--Ento, j no aprendo.

--Vou-te ensinar o que so todas, definindo-te Ludovina.

--Escuto, sem respirar.

--A baroneza ama-me.

--Isso  bem positivo e claro? V l...

--Tenho visto. Ama-me, e est sem foras para manter uma iseno
contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o
homem que a subjuga.

--E depois?

--Se esse homem acceita humildemente a revolta,  ella mesma a que se
revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.

-- pelos modos uma enfiada de revoltas, de _bernardas_ do corao...

--Ests hoje intractavel!!

--Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar 
grade do mosteiro para assistires  queima d'esta carta na pyra do amor?

--Talvez... Tu s uma creana velha. No sabes nada. Morres ignorante
dos segredos do corao feminino... Que lastima!

--No me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas
suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito
que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada
Napoleo d'estas conquistas incruentas. O teu  a baroneza de Celorico
de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.

--E a omnipotencia da vontade o que ? Hei de triumphar, ou Ludovina 
uma natureza superior  humanidade...

Sahi de Braga. O meu amigo ficou  espera da segunda revolta rimando a
quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma
elegia que elle intitulava o seu epitaphio.

      *      *      *      *      *

Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.

--Ento?--exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um abrao
homicida.

--A baroneza?

--Sim... diz-me alguma cousa da ultima revolta.

--A baroneza... cahiu miseravelmente.

--Cahiu?!

--No o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!

--Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia
posto! O que dir o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando
encontrarei eu outro para o throno que ficou vago?!

--E em que lodaal ella cahiu!...

--Creio...

--Esse _creio_  uma affronta...

--A ella...

--Querem ver o romancista com ciumes!...

-- compaixo d'ella, e de ti...

--De mim!--tornou elle soltando uma estridente risada--de mim! Pois
cuidas que o lodaal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na terrivel
torpeza que ella praticou.

--Depressa... que fez ella?

--Cahiu nos braos asquerosos de...

--De quem!

--Do marido! No te espantas da perversidade!? Ests corrupto!

--Por consequencia est coroada a virtude da minha heroina com o
extremo supplicio.

--Pelo que ouo, denominas resignao o que no meu vocabulario equivale
a baixeza de alma! So tantas as martyres que sorriem  sucapa da tua
compaixo... Confessa que Ludovina no podia dar mais insignificante
testemunho de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a Joo
Jos Dias!

--Cala-te, impio! no cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores
d'essa reconciliao. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...

--Qual? adivinha l...

--A morte de D. Angelica.

--Justamente: morreu ha tres semanas.

--Atormentada de saudades... pobre mulher!

--Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um
retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou.
Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram
ajoelhar Ludovina ao p do cadaver, e lhe ouviram dizer: A sua memoria
fica sem mancha, minha me!

--Isso  triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras?

--Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos
como exquisitices. Eu perteno a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom
no corao, e quero ter grande partilha no cynismo que elle d em
paga.

--No importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.

--Parece-me que o seria, se no sahisse de ao p do tumulo de sua me.
Se Joo Jos Dias avilta uma creatura que  s humana, com o seu
contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?

--E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como
provocaes  morte?

--Morrer estupidamente. Ser indigna d'um necrologio, e ter apenas uma
magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.

      *      *      *      *      *

Deixemos falar este homem sem alma, leitores!

Ludovina continua a ser a flr da creao, o espelho de infelizes, o lo
que prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os
anjos a levem d'este desterro.


FIM





End of Project Gutenberg's O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES ***

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