The Project Gutenberg EBook of A Casa do Saltimbanco, by Madame de Stolz

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: A Casa do Saltimbanco

Author: Madame de Stolz

Illustrator: mile-Antoine Bayard

Release Date: December 28, 2009 [EBook #30777]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DO SALTIMBANCO ***




Produced by Pedro Saborano






BIBLIOTHECA ROSA ILLUSTRADA

A CASA DO SALTIMBANCO




[Ilustrao pg. 2. A Casa do Saltimbanco.]




                                  A CASA

                                    DO

                                SALTIMBANCO

                                    POR

                               MADAME DE STOLZ

                           Obra ornada com gravuras



                                   PARIS
                         GUILLARD, AILLAUD & C.ia
 Livreiros de Suas Magestades O Imperador do Brasil e El-Rei de Portugal.
                     47, RUA DE SAINT-ANDR-DES-ARTS.




BIBLIOTHECA ROSA ILLUSTRADA


*Que amor de criana!* pela Exma Sra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.

*Os Desastres de Sophia*, pela Exma Sra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.

*As Ferias*, pela Exma Sra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.

*Infancias celebres*, por Mme LUIZA COLET, traduco de MANOEL PINHEIRO
CHAGAS 3 fr.

*As Meninas exemplares*, continuao dos Desastres de Sophia 3 fr.

*Thesouro da mocidade portugueza*, ou a Moral em aco, escolha de
factos memoraveis e anecdotas interessantes, proprias para inspirar o
amor da virtude, e para formar o corao e o espirito 2 fr. 70

*Thesouro das meninas*, ou Lies d'uma me  sua filha cerca dos bons
costumes e da religio 3 fr.

*Thesouro de meninos*, obra dividida em tres partes: moral, virtude,
civilidade! fr. 50







Paris.--Typ. GUILLARD, AILLAUD & Cia.--1886.




CAPITULO I

Adalberto era feliz.


Seria difficil imaginar uma vivenda mais linda do que aquella em que
corriam os primeiros annos de Adalberto; era o campo da Normandia com
seus vallados, seus arbustos, extensos prados, campos dourados, com
todos os seus perfumes e flres. D'estes thesouros participava Adalberto
com todas as outras crianas do logar, porque para todos tinha Deus dado
aquellas felicidades; mas, do que s aquelle rapazinho gozava, com seus
irmos e sua irm, era d'uma bonita e grande casa, cujas janellas
deitavam para um lindissimo jardim, onde se podiam admirar as mais
formosas rosas.

Por todos os lados arvores verdes, alamos, sobreiros, carvalhos,
ormeiros, por entre as quaes se viam ora ruas caprichosas, ora limpidas
aguas onde viviam lindos peixes. No fim do parque havia um labyrintho
formado por lilazes e clematites onde a gente se perdia; tantas voltas
elle dava. Esse labyrintho parecia feito de proposito para jogar as
escondidas; e era um dos grandes divertimentos de Adalberto andar
procurando seus irmos Eugenio e Frederico, e sua irm Camilla.

A cincoenta passos do castello via-se n'um grande lago um barco pintado
com as mais vivas cres. Este barco era o encanto de todos os pequenos.
Um passeio sobre a agua, ao luar, era o mais desejado de todos os
divertimentos de Valneige, talvez porque este favor s se obtinha quando
se era premiado, e a troco dos _muito bem_ e _optimamente_.  que no ha
maior prazer do que aquelle que alcanamos pelo cumprimento do dever.

Perto do lago havia um bonito casal pertencente aos paes de Adalberto, e
alli, uma duzia de vaccas em uma grande arribana, e mais um toiro que
mettia medo, apesar do seu olhar bem meigo. Mais longe, n'uma grande
estrebaria, sete ou oito cavallos de lavoura, grandes e robustos.
Defronte quatrocentos carneiros chegando-se uns para os outros, vivendo
felizes e tranquillos. No pateo, na estrebaria, nas mangedouras, na
estrumeira, sob os telheiros, por toda a parte gallinhas, frangos,
gallos, gansos, patos, uma multido de pequenos seres esvoaando,
banhando-se, brigando e escarnecendo de todos com uma incrivel sem
ceremonia.

A tia Barru era a rainha d'este pacato imperio, ou por outra era a
caseira; sendo muito razoavel, s perdia o seu bom humor em duas
occasies: quando um criado se embriagava, ou quando uma gallinha ia
esconder longe os ovos. N'estes casos, que ella reputava merecedores da
forca, ralhava do criado e da gallinha durante muito tempo; se no
tinham emenda; punha-se o criado na rua e a gallinha na panella.

Pode imaginar-se quanto eram agradaveis os primeiros annos de Adalberto
passados entre brinquedos e estudos nada difficeis, sob as vistas de
paes extremosos. Eugenio e Frederico, ambos mais velhos do que elle, iam
entrar no collegio com grande desgosto de Adalberto, que muito gostava
d'elles, apesar das suas continuadas questes. _Os grandes_, como diziam
em Valneige, sabiam que se no deve abusar da fora, e como teriam de
certo vencido Adalberto, to pequeno e delicado, estes bons rapazinhos
consentiam, seguindo os conselhos de sua excellente me, em ceder nas
questes de todos os dias a proposito d'uma pella ou d'um peo.

Camilla era toda doura, e, ainda que tivesse perto de quatorze annos,
entretinha-se a jogar as damas com o seu manosinho, a quem os oito annos
faziam muitas vezes confundir as suas tabulas com as do adversario. Era
dotada de toda a paciencia de sua me e da seriedade de caracter de seu
pae. Os senhores de Valneige tinham-lhe dado uma grande prova de
confiana, permittindo-lhe que cuidasse da primeira educao de
Adalberto, que lhe chamava _mamsinha_. A querida menina, graas aos
verbos e aos themas, tratava-o s vezes por _meu filho_, tomando um ar
serio, que fazia rir immenso o senhor de Valneige.

Tudo estava regulado no campo; as horas da comida, as do estudo e as do
recreio. Como a regularidade , em tudo, uma excellente coisa, havia no
palacio dois relogios; um de _dar horas_ outro _vivo_. O primeiro estava
dependurado no vestibulo; o segundo subia e descia a escada trinta ou
quarenta vezes por dia, entrava nos quartos, ia, vinha, girava, ralhava,
sabia tudo, via tudo. Ah! que relogio! chamava-se Rosinha; tinha-lhe a
madrinha posto este lindo nome julgando que a afilhada nunca
envelheceria; mas como havia j setenta annos, a afilhada tinha rugas,
as mos magras, e as faces encovadas.

[Ilustrao pg. 9. Meu filho! (Pag. 8.)]

Era uma boa mulhersinha, bem activa, um pouco impertigada, mas muito
bondosa e inteiramente dedicada  familia, e  casa. Estava alli havia
tanto tempo que ninguem fazia idea do que seria Valneige sem Rosinha,
nem Rosinha sem Valneige.

A boa da velha tinha conservado as saias curtas d'outro tempo, as toucas
chatas com folhos encanudados, o leno do pescoo branco com flres
vermelhas, emfim o que ella chamava o _trajo da sua terra_. Rosinha era
de uma tal exactido que chegava a ser minuciosa; conhecia a hora pelo
cantar do gallo, pela sombra das arvores, pelo grito das aves, pelas
fraquesas de estomago que tinha em certos momentos, e pelas caimbras nas
pernas, que sentia um pouco mais tarde: era, por consequencia, d'uma
inexcedivel exactido no cumprimento de toda a regra estabelecida. Se
Rosinha governasse o mundo, os que se queixam por elle andar torto
tambem se queixariam; to direito elle andaria!

Graas a este espirito de exactido chamavam-lhe o _relogio vivo_ de
Valneige, e na realidade ter-se-hia bem dispensado o outro, que s sabia
dar horas, como uma machina que era. Um olhar de Rosinha mandava para o
trabalho os pequenos preguiosos, que se entretinham na escada s horas
da lio; um gesto seu chamava do fim do parque os mais traquinas;
emfim, nas circumstancias importantes, a sua voz imperiosa obrigava cada
um a entrar no seu dever, fosse qual fosse a distraco presente.

Em vez de se dizer; o relogio vae dar horas; dizia-se, Rosinha vae
passar, e o regimento desfilava em boa ordem sem dar palavra. Os
senhores de Valneige approvavam muito esta vigilancia que tornava mais
facil a sua, e as proprias crianas, temendo um pouco os ares srios que
a velha sabia tomar, gostavam comtudo d'ella porque era justa, porque
fazia os dces, e porque era sempre ella quem da melhor vontade se
prestava aos seus caprichos, comtanto que esses caprichos no se
lembrassem de vir uma hora mais tarde ou mais cedo do que devia ser. O
relogio primeiro do que tudo.




CAPITULO II

Adalberto tinha um grande defeito.


Adalberto era um bom rapazinho, d'olhos vivos, sorriso fino, corpinho
bem feito, delgado como uma gazella, habil, agil e capaz de todas as
galanterias. Era dotado d'uma physionomia feliz, quer dizer, tinha,
quando no era mau, aquella expresso de frescura e de amabilidade, que
previne os estranhos a favor d'uma criana.

Todos eram bons com elle, todos tinham empenho em lhe dar gosto, e
comtudo, quando se conhecia bem, via-se que tinha um grande defeito, um
muito grande defeito... Era desobediente!

Em vez de se lembrar que todas as pessoas que o rodeavam sabiam mais do
que elle, tomava ares de sabicho, e suppunha que podia sem
inconveniente fazer isto ou aquillo, tendo-lhe sido prohibido.
Enganava-se com certeza, porque, mesmo quando no resulte nenhum
prejuiso apparente, o mal da desobediencia  real, e vale a pena
evital-o por causa dos grandes desgostos a que ordinariamente d logar.

J se viu um rapazinho que foge das vistas de seus paes? que vae
justamente para onde no deve ir? que mexe n'uma e n'outra coisa,
unicamente porque lh'o prohibiram? que s parece divertir-se bem nas
horas destinadas para o trabalho? Se alguem viu um rapazinho, que se
parea com este retrato, pode dizer:--Era assim Adalberto.--Pobre
Adalberto! Eu vou contar as suas terriveis aventuras; terriveis, sim,
porque os cabellos se me pem em p, quando penso nos perigos, que esta
criana correu por se ter habituado a desobedecer.

[Ilustrao pg. 15. Havia um gymnasio. (Pag. 14)]

E comtudo, diro, havia muitos divertimentos em Valneige? Sim, havia
muitos, sem se alcanarem pela desobediencia. Podia-se correr de roda
das casas, das alamedas adjacentes e no pequeno bosque. Quando as
crianas se mettiam nisso andavam bem uma legua. Havia um gymnasio, onde
o corpo se exercitava a ser agil e desembaraado; subiam  escada de
corda, balouavam-se, divertiam-se; emfim Adalberto tinha um gosto
particular por este genero de entretenimento.

Mas, sobretudo, aquando se lhes juntavam os seus amiguinhos, era ento
que os pequenos se divertiam. Todos ns conhecemos estes divertimentos:
pem-se em commum o bom humor, as invenes, as espertezas; faz-se
d'isto um grande lote, e cada um participa d'elle sem prejudicar
ninguem. Chega-se por este meio a novos resultados.

Em Valneige gostavam d'estas reunies de crianas, e, como a visinhana
o permittia, viam-se chegar na quinta feira de tarde tres ou quatro
diabretes, que s queriam divertir-se. Davam-se ento mil saltos,
fazia-se um barulho de ensurdecer, e toda a especie de coisas muito
innocentes, mas muito aborrecidas para o publico.  quinta feira Rosinha
tinha saudades da sua terra, da sua aldeia e at do seu bero, porque
passava os seus ultimos annos a lamentar a desgraa de se ter dedicado
com todas as vras da sua alma a estes travessos pequenos, dizia ella,
que a faziam enraivecer, e que ella no deixaria por um imperio. Rosinha
experimentava, como muitas vezes nos succede, duas sensaes oppostas;
por um lado a necessidade de se dedicar; por outro, a de lamentar, desde
pela manh at  noite, a sua dedicao. Quando qualquer d'aquelles
queridos pequenos tinha algum desgosto, se cahia, por exemplo, e
esfollava o nariz, a velha chorava e curava-o o melhor que sabia, mas
depois, zangava-se com aquelle mesmo nariz por se ter feito mal, porque
era fazer-lhe tambem mal a ella.

Ai! repetia ella muitas vezes, que desgraa ter eu conhecido estas
crianas! Que preciso tinha eu quando morreu meu amo de ficar com o
filho, para me fazer de fel e vinagre? Podia bem, com o que tinha, ir
socegadamente para a minha terra, ter a minha pequena casa, o meu
jardimsinho, as minhas gallinhas, o meu gato e as minhas commodidades. E
em vez d'isto fico aqui! Mas para que? pergunto eu. Ah!  de mais; j 
tempo de descanar; tenho parentes que me querem; a minha resoluo est
tomada, j o disse ao senhor, e, logo que a neve se derreta, metto-me na
diligencia e vou-me embora.

Isto dizia ella no inverno, mas quando a neve se derretia, se algum dos
pequenos lhe perguntava: Ento, Rosinha, quando parte? Respondia segundo
as circumstancias: Ora! o que quer? Frederico tem muitas dres de
dentes!  preciso que eu lhe ponha todas as noites no ouvido algodo com
oleo de amendoas dces. Pobre-pequeno!... ou:--Socegue, que me no faria
rogar para me ir embora, se os dois mais velhos estivessem n'um
collegio; mas emquanto estiverem em casa... ou:--Ah! logo que eu veja
que a menina Camilla anda bem direita, farei a minha trouxa; mas tenho
tanto medo que fique defeituosa... ou ento:--Assim que este marotinho
d'Adalberto deixar de ser desobediente, vou-me embora; mas d'aqui at
l, preciso tomar conta d'elle como se fosse leite ao lume.

Respondia assim a pobre velha, e a neve derretia-se, as arvores
rebentavam, as folhas amarelleciam, cahiam, e Rosinha ficava, presa pelo
lao mais forte que ha no mundo: uma antiga e verdadeira affeio.

Na quinta feira, isto succedia cincoenta e duas vezes por anno, Rosinha
julgava mesmo que j no gostava de Valneige, nada, nada. Porque? Porque
as horas no eram destinadas como de costume, e estava convencionado
brincar-se desde o meio dia at ao jantar. Ora as brincadeiras so uma
excellente occasio para se rasgar as calas e tudo mais, para se
quebrar todas as coisas, at a cabea.

Eis a razo porque a boa mulher passava toda a quarta feira a dizer:

Que pena que manh seja quinta feira!

Ns, que no andamos atraz das crianas, podemos achar que taes
brincadeiras so muito divertidas. A senhora de Valneige punha 
disposio de todos raquetas, volantes, pees, balles, pellas, arcos, e
no sei que mais ainda!

Comeava-se ao meio dia este alegre regabofe, e a boa me apparecia de
vez em quando como um poder protector, que faz todo o bem possivel e
evita todo o mal, e dizia com a sua voz grave e meiga:

Vamos, divirtam-se, faam, o que quizerem, s lhes peo uma coisa,
obedeam, meus queridos filhos.

No tenha receio, querida mam, dizia rindo o bom Eugenio, de cara
esperta, faces rosadas, sorriso franco; veja, ns divertimo-nos tanto
que nem tempo temos para desobedecer.

Dito isto Eugenio tomava o freio nos dentes, se fazia de cavallo, ou
dava estalos com o chicote, se fazia de cocheiro.

Apenas sua me tinha tempo de lhe deitar um olhar de confiana e j elle
estava longe. Quanto a Frederico, a seriedade, que lhe era natural,
mesmo quando brincava, socegava a senhora de Valneige. Mas havia um
sujeitinho, loirinho e muito galante que nunca respondia  doce
admoestao de sua me; chamava-se Adalberto, est entendido, e tinha
por alcunha _o desobediente_. Quando uma palavra atacava o seu defeito
capital, tomava um ar distrahido, tratava de apanhar uma mosca,
arranjava as coisas de modo que ouvisse o menos possivel o que se dizia,
e, comtudo, percebia-o muito bem.

Obedecei, meus filhos. Isto queria dizer; No vo brincar para ao p
da agua, sobretudo no mexam no bote. No quero que vo  estrebaria sem
serem acompanhados por Felippe, nem que passem por detraz dos cavallos,
que podem atirar algum coice; que nenhum se lembre de querer montar a
cavallo, a no ser que Filippe tenha tempo e condescendencia para se
prestar a essa brincadeira. No se debrucem do poo, nem saiam fra da
grade que separa o pateo da estrada, no corram para longe durante o
passeio, nem se aproximem muito do moinho de vento, etc.

Adalberto sabia de cr estas prohibies e muitas outras. Quando ouvia
sua me resumir tudo n'estas simples palavras: Obedecei, meus filhos,
quizera tapar os ouvidos com medo de perceber mais uma vez tudo o que se
no devia fazer, pois era justamente do que elle tinha vontade, e
veremos bem depressa o que em consequencia d'isso lhe aconteceu.




CAPITULO III

Adalberto havia desobedecido


Quaesquer que sejam os encantos da vida quotidiana, d sempre gosto
quebrar a monotonia mesmo nos nossos prazeres.  facil imaginar os
transportes de alegria, que houve na familia, quando o senhor de
Valneige declarou um bello dia, ao almoo, que ia pr em pratica um
lindo projecto, formado havia muito tempo, e to depressa aceito como
combatido e adiado.

Esse plano reunia todas as condies para agradar, no s por ser
encantador, mas porque era esperado com anciedade; havia um anno que os
pequenos perguntavam uns aos outros em voz alta ou em segredo: quando
ser a grande viagem, quando veremos Paris, Strasbourgo, Vienna, Praga?
lagos, montanhas?... Bastava esta ida para fazer dar um pulo na
cadeira, mesmo quando se estava acabando uma pagina de escripta, o que
dava em resultado um grande borro.

Estava, finalmente, decidido; ia-se partir para a Allemanha; ia-se
viajar com socego, sem fadiga, sem outro fim mais de que a instruco
sem livros e o divertimento.  verdade que a senhora de Valneige, que
desejava particularmente esta viagem, tinha uma outra razo que no
dizia; dava-lhe cuidado a saude de seu marido, e os medicos julgavam que
o melhor remedio seria a mudana d'ar e da maneira de viver; esperavam
combater assim uma especie de melancolia nervosa, de que soffria o
senhor de Valneige, e que de tempos a tempos era acompanhada de
crescimentos.

Sua extremosa esposa disfarava, cuidadosamente, para no aggravar o
mal, todas as suas inquietaes. Quanto s crianas, como seu pae no
estava de cama e se vestia como toda a gente, achavam-no optimamente.

Quando se soube da deciso deram-se palmas s palavras do querido pae, e
quando elle disse:

Partimos d'aqui a oito dias; saltaram-lhe ao pescoo...

Oito dias depois estava a caminho toda a familia; o fiel Gervasio,
criado de confiana, acompanhava os viajantes e todos estavam
contentissimos, excepto a velha Rosinha que tinha chorado boas lagrimas
vendo partir os seus queridos filhos, como ella lhes chamava. Em os no
vendo, julgava-os perdidos... pobre velha! se ella podesse adevinhar...
mas no, no digamos nada.

Demoraram-se dez dias em Paris. As crianas admiraram sobretudo os
passeios. A differena das idades e de instruco fazia-se sentir na
diversidade das apreciaes. Por exemplo, em frente do palacio das
Tulherias, Adalberto quasi que no olhava para o monumento historico,
mas no se cansava de vr os peixinhos encarnados que nadavam nos
tanques, e os magestosos cysnes, cuja raa viu passar tantos
acontecimentos, sem que por isso saiba a historia de Frana.
Surprehendeu-o tambem muito o comprimento dos Campos Elysios, a
multido, as carruagens; mas o que sobretudo o impressionava, e d'uma
maneira desagradavel, era a ordem, que lhe tinham dado, de no passear
sem ir pela mo d'alguem. Isto pareceu-lhe insupportavel, e fez
desmerecer consideravelmente, na sua opinio, os esplendores da capital.
Pois elle to independente em Valneige no teria vindo a Paris seno
para ser tratado como uma pequenita? Que vergonha! um homem! Coitado!
pobre pequeno! Se elle podesse imaginar... mas no, ainda no  tempo.

Depois de ter visto em Paris o que mais podia agradar s crianas, o
senhor de Valneige tomou o caminho de ferro de Leste, e, parando sempre
nas principaes estaes, chegaram a Strasbourgo, onde admiraram a
cathedral, esse grandioso monumento que attesta o desenvolvimento
successivo da architectura gothica, desde a sua origem derivada dos
cimbres at ao acabado que se nota na nave principal.

O grande relogio astronomico, cujas horas so marcadas por figuras, que
apparecem e desapparecem; espantou e maravilhou os nossos viajantes
muito mais do que o cruzeiro e a fachada. Quanto ao pequeno Adalberto, a
despeito dos famosos architectos, e at de Vauban e da sua cidadella em
pentagono, s viu em Strasbourgo uma unica coisa, o gallo que canta
sobre a torrinha lateral, no momento em que o maravilhoso relogio d
meiodia e em que todos os apostolos apparecem juntos. Um gallo fingido e
que canta como se fosse verdadeiro!  incrivel!

O pequeno ficou pois espantado, no propriamente de Strasbourgo, mas do
gallo que para elle era tudo em Strasbourgo. Comtudo, esta bonita e
magestosa cidade tinha tambem um grande inconveniente... era preciso
andar pela mo!

Partiu-se para Vienna, parou-se pelo caminho, como se tinha feito de
Paris a Strasbourgo. O senhor de Valneige tendo resolvido demorar-se
pelo menos oito dias na capital da Austria, houve tempo de vr muitas
coisas e de passear com vagar na grande alameda do Prater e n'outras
mais. As crianas no se cansavam de admirar o que se chama o Prater
selvagem, parte do qual  uma antiga floresta, onde pastam veados e
cabritos montezes. Estes, lindos animaes, juntando as vantagens da vida
domestica aos encantos da liberdade, ouvem, todas as noites o som da
buzina, e dirigem-se para junto da casa de campo, onde os espera uma
distribuio de rao.

Eugenio e Frederico achavam isto uma bella ida, e tinham razo.

O chefe da familia levou seus filhos ao arsenal e fel-os visitar as
differentes officinas, onde se fabricam armas. Passaram alli tres horas
e decidiram depois seguir para S. Cyro.

A senhora de Valneige tendo mostrado desejo de conhecer os arredores de
Vienna, seguindo em caminho de ferro a margem direita do Danubio, todo o
rancho se pz a caminho. Viu-se primeiro Schonbrunn, castello imperial,
acabado no tempo de Maria Theresa. N'este castello nota-se o quarto onde
Napoleo assignou o tratado de Schonbrunn em 1809, e onde vinte e tres
annos depois, pela instabilidade das coisas humanas, morreu seu filho o
duque de Reichstadt. Adalberto, pela sua pouca idade, reparou menos
n'este contraste historico do que nas trinta e duas estatuas de marmore,
que ornam a linda fonte, que d o nome ao castello, e sobretudo no leo
e nos outros animaes que se vem nas jaulas.

Visitaram tambem o castello de Luxembourgo. De todas as recordaes
austriacas, as que mais prenderam a atteno de Adalberto, foram as
velhas carpas doiradas, que viu no lago, quando voltaram do castello
para a estao do caminho de ferro; deu-lhes po, que ellas se dignaram
aceitar, como tinham feito os peixinhos encarnados das Tulherias. V-se
que Adalberto era bem recebido no s em Frana mas na Austria.

Passaram-se rapidamente estes oito dias e os viajantes emcaminharam-se
para Praga, parando sempre nas grandes estaes. Adalberto deixou Vienna
sem saudade; achava que havia na capital da Austria uma coisa muito
aborrecida, um verdadeiro e muito grande inconveniente--era preciso
andar pela mo. No se pode fazer ida do espirito de independencia
d'este sujeitinho. Obedecer era para elle um supplicio. Pobre, pobre
Adalberto!

Estavam todos muito contentes por entrar na Bohemia. Este nome, dizia
Camilla, tinha seu que de extraordinario, de interessante e mesmo um
pouco de assustador; parecia-lhe que n'este paiz s devia haver gente,
que lsse a sina e deitasse _as cartas_.

O senhor de Valneige, que no perdia occasio de instruir seus filhos,
contou-lhes em poucas palavras a historia d'aquelle terreno elevado, que
est como fechado por uma cinta de montanhas e cortado pelas
ramificaes das mesmas montanhas.

Ensinou-lhes a no confundir os Ciganos com os Bohemios. Estes so os
habitantes do paiz, que vivem como todos ns; os Ciganos, aos quaes
tambem algumas vezes se chama Bohemios, formam um povo  parte, que
conserva os traos caracteristicos de uma nao errante, que no seculo
quinze se espalhou pela Europa, e principalmente na Hungria, na Italia,
em Frana, e em Hespanha. Ha d'estas tribus nomadas em todas as naes;
o nome muda, mas os costumes no. Em Frana chamam-lhes _Bohemios_; em
Hespanha _Gitanos_; em Italia _Zingari_; em Inglaterra _Gypsies_; em
Portugal _Ciganos_.

Este povo offerece um espectaculo muito singular no nosso velho mundo:
desprezado, perseguido durante trezentos annos, e, apezar d'isso, sempre
de p, sempre errante, roubando por onde passa e lendo o futuro.
Percebe-se que justamente pelos seus exquisitos costumes casem entre si,
e assim se prepetua esta raa independente, temida no sem razo, e
vivendo no meio do povo sem nunca se misturar com elle, a no ser para
lhe recitar as suas loucuras e embustes, divertil-o um momento e tirar
d'elle o pouco de que precisa para prover as suas mui limitadas
necessidades. Comtudo, em certos paizes, os Ciganos no so errantes; os
de Hespanha, os Gitanos, habitam em Cordova e Sevilha bairros separados;
mas fallam em toda a parte a mesma lingua; esta lingua  doce e
harmoniosa, e deriva do slavo.

 notavel o profundo respeito que estes homens independentes teem ao seu
proprio chefe. A sua teima, a sua obstinao cede ante a authoridade
d'aquelle que os governa, e  preciso convir que, ao menos n'isto, so
melhores do que ns.

Julga-se que a sua origem remonta aos antigos Persas, que vieram
estabelecer-se no Egypto, quando Cambyses, o indigno filho de Cyrus, se
apoderou d'aquelle lindo paiz; sabe-se que o conseguio servindo-se de
ces e gatos, que pz na frente do seu exercito, e sobre os quaes os
Egypcios no ousaram lanar frechas, porque, a seus olhos, estes animaes
eram sagrados.  a favor d'essa opinio, sobre a origem d'este povo, a
physionomia bella e expressiva da maior parte dos Ciganos, que faz
lembrar o typo persa. Certos cantos antigos, que se teem conservado
n'esta raa, fazem tambem suppr, que o Egypto os viu antigamente; entre
outros uma especie de cantiga em que celebram as bellezas do Nilo e lhe
enviam saudosos queixumes.

Os ciganos so geralmente fortes e bem feitos e dotados d'uma grande
flexibilidade de corpo. As mulheres teem a cintura delgada, flexivel, os
movimentos graciosos, e, devemos dizel-o em seu louvor, tem persistido
entre ellas, apesar de serem semi-selvagens, um respeito admiravel pela
sua honra: so notaveis, sobretudo em Hespanha, pela severidade de seus
costumes.

Eil-os pois na Bohemia, os nossos viajantes.

Praga encantou-os pelas suas casas todas com terraos; tanto nas
planicies como nas collinas, pelo seu palacio real, torres, mirantes,
campanarios, e pelas alturas que dominam as duas margens do Moldau.

Esta vista  realmente d'um effeito surprehendente, e, quando nos
achamos em frente d'estas bellezas, sentimos quanto se est longe do
Sena, o que sempre agrada aos francezes que viajam, apezar de
regressarem ao seu paiz com verdadeira alegria.

Adalberto estava sobretudo enlevado por no perceber nada da conversa
dos passeantes quando passava por elles. Mais de metade fallava bohemio
e os outros allemo.

Estou contente, dizia este homemsinho, meio a srio, meio a rir, estou
contente porque viajo em paiz estrangeiro.

Mais uma razo para andar pela mo,--respondia Camilla que, por
instincto feminino, participava da constante inquietao de sua me a
respeito do pequeno desobediente. Mas, por mais que dissesse, elle no
fazia caso, e era preciso uma ordem bem positiva de seu pae ou de sua
me para o obrigar a dar a mo; mesmo assim escapava-se muitas vezes
para vr isto ou aquillo, e estas maldades causavam uma especie de
pequena guerra, na qual as armas nem sempre eram cortezes.

A vista da ponte dos dezeseis arcos lanada sobre o Moldau chamou a
atteno dos nossos viajantes. Com effeito, com as suas torres antigas,
suas estatuas de pedra e as suas sanguinolentas recordaes, parece um
velho guerreiro, que defendeu bem a sua bandeira. Como se poderia deixar
de prestar homenagem  estatua de bronze d'aquelle nobre padroeiro da
Bohemia, generoso martyr do segredo inviolavel da confisso? Tomou-se
cuidado em indicar a todos os seculos o lugar exacto onde o padre, para
no perder a alma, antes quiz perder o corpo do que faltar ao segredo do
sacramento. Foi afogado no Moldau pela barbara ordem do Imperador
Wenceslu. Os christos do seu tempo admiraram-n'o e os de hoje vo
ainda todos os annos aos milhares, no dia do anniversario do seu
supplicio, vr este sitio do Moldau, que recordar sempre S. Joo
Nepomuceno.

Visitaram o bairro occupado pela nobreza bohemia, e toda a parte da
cidade que limita ao norte o palacio archiepiscopal. Depois foi-se vr a
cathedral. O senhor de Valneige, que tinha visitado alguns annos antes a
de Colonia, achou grande analogia entre estes dois monumentos, que datam
um e outro do seculo decimo quarto. A cathedral de Praga  muito mais
vasta; por isso o senhor de Valneige dizia rindo que os dois templos lhe
faziam o effeito de dois gemeos, dos quaes um tivesse crescido mais do
que o outro. Foi com grande devoo que a senhora de Valneige fez
ajoelhar seu filho mais novo deante das reliquias de Santo Adalberto,
que esto na pequena capella octogona da entrada. Pobre mulher! emquanto
que o pequeno distrahido, como se  n'aquella idade, olhava para a
direita e para a esquerda, ella, inclinada sobre a sua cabea loira,
orava commovida, como se presentisse a desgraa que ia ferir-la...

Na nave da cathedral, admiraram o mausoleo real, de marmore e alabastro,
que data do fim do seculo dezeseis, e sob o qual teem vindo por sua vez
repousar os grandes da terra.

Uma bala de artilheria suspensa por uma cada a um pilar e cahida n'esta
Igreja durante a guerra dos sete annos, excitou a atteno de Eugenio e
de Frederico, e mesmo a do seu atrevido e pequeno irmo. Camilla
aproveitou a occasio para dizer mais uma vez que detestava a guerra,
que era uma coisa abominavel; e o terno olhar de sua me encontrou o
d'ella.

Em presena de taes recordaes bellicosas  natural ao homem pensar na
gloria, mas a mulher pensa no soffrimento;  que a sua misso no  a
mesma: a um cabe-lhe defender;  outra consolar.

Desde o primeiro dia, a familia percorreu a cidade de Praga, para ter
d'ella uma idea geral, fazendo comtudo teno de se demorar ao menos uma
semana, depois da qual se pensaria na volta. A estao ia adiantada,
fazia j frio, os dias eram pequenos, era preciso regressar ao seu paiz
e ao seu lar, thesouro do rico e do pobre.

 noitinha, o senhor de Valneige, s com seus filhos (porque as senhoras
estavam canadissimas), fez uma excurso ao bairro de Carolinenthal, ao
nordeste de Praga. Este sitio  o centro d'uma grande actividade
industrial. Era a hora em que uma multido de operarios sahia das
fabricas: o espectaculo d'esta populao laboriosa enchendo as ruas
direitas e bem construidas era curioso d'observar; o senhor de Valneige
fazia-o notar aos dois mais velhos, e Adalberto, durante este tempo,
reparava, como fazem todas as crianas, para os incidentes do caminho:
um cavallo que cahe, um co em que batem. Quando sua me e sua irm no
estavam presentes tinha um pouco mais de liberdade; seu pae no pensava
sempre em lhe fazer dar a mo, ainda que esta recommendao tivesse sido
terminante desde que andavam viajando. Quanto a seus irmos, confessavam
baixinho que esta ordem, cheia de razo, devia ser muito aborrecida, e,
por consequencia, eram muito desleixados sobre este artigo da lei.
Adalberto, n'essa tarde, estava mais do que nunca tentado a desobedecer;
cedeu  tentao e ficou de proposito para traz, emquanto seu pae estava
distrahido, e mostrava a seus filhos um vasto quartel, onde cabe um
regimento completo.

Havia n'este sitio um homem que vendia passaros; era muito mais
divertido do que o quartel; Adalberto parou:

Como so bonitos! oh! este encarnado! E este verde! oh! que bonitas
pennas!

Infelizmente dois lindissimos passarinhos acabavam de declarar guerra um
ao outro; o nosso futuro militar, sem ter estudado a questo politica do
momento, tomou o mais vivo interesse no combate. Um tinha uma pupa, o
outro no; pareciam de fora, eguaes, e, como nenhuma potencia
estrangeira intervinha, o negocio podia durar muito tempo e custar a
vida a um dos combatentes, talvez a ambos. No era preciso mais para
encantar o nosso pequeno official; declarou-se inteiramente pelo de
pupa, e poz-se a julgar gravemente as bicadas que choviam sobre o campo
da batalha. A pupa foi por um momento victoriosa, mas, no tendo sabido
conservar a defensiva, tornou-se victima d'uma retirada simulada e ficou
litteralmente vencida, porque cahiu, coitadinha! sobre a areia fina da
gaiola, e Adalberto, lembrando-se de repente, em vista d'esta gloria
decahida, que tinha ficado ssinho, afastou-se precipitadamente do lugar
da tentao.

O vendedor, porm, occupava a entrada d'uma encruzilhada; qual das ruas
tomar? O pequeno seguiu pela da direita, e, no avistando logo seu pae e
seus irmos, voltou para traz e entrou n'uma rua proxima, sem comtudo
ter melhor exito. Quiz ento dirigir-se aos que passavam para lhes
perguntar o caminho... Mas como? Chegado n'aquella manh nada notou e
no se lembrava mesmo do nome difficil, que tinha o seu hotel. N'este
embarao interrogava os operarios das fabricas que, mais felizes do que
elle, voltavam para suas casas; esta boa gente no o comprehendia.
Lembra-se com verdadeira inquietao, que est n'um paiz estrangeiro,
perfeitamente estrangeiro! Aperta-se-lhe o corao, tem vontade de
chorar e no pde; anda, anda at que emfim, morto de cansao, encontra
um homem d'uma estatura elevada, que repara muito n'elle, se aproxima e
lhe falla baixo em mau francez. Este homem ouve a sua resposta, e v-se
a criana olhar para elle com confiana e dar a mo ao desconhecido, que
o leva depressa, depressa, depressa.



Durante este tempo o senhor de Valneige, victima d'uma horrivel
inquietao, percorria as ruas adjacentes; teria logo achado Adalberto,
se este no tivesse tomado uma direco completamente opposta. O
desgraado pae ia, vinha, procurava. Seus filhos ajudavam-no com uma
anciedade facil de comprehender. O senhor de Valneige sabia pouco
allemo, apenas o necessario para as necessidades previstas de qualquer
viagem; mas que difficuldade para fallar doutra coisa e sobretudo para
trocar com rapidez estas meias palavras, que podem fazer encontrar uma
criana perdida!  fora de inquietao quiz acreditar que seu filho
teria sabido fazer com que o conduzissem ao hotel, onde estaria
tranquillamente sentado entre sua me e sua irm. Encaminharam-se para o
hotel a passos largos e em silencio.

Uma vez chegados o senhor de Valneige no ousou subir a escada; no
sabia como havia de apresentar-se diante de sua mulher... Ella
levantou-se quando seu marido, pallido e transtornado, abriu a porta do
quarto, e, comprehendendo a pergunta antes de lhe ter sido feita,
respondeu com a expresso d'um desespero subito; Perdeu-se!

Ha momentos na vida, que no podem descrever-se.  preciso ser pae, 
preciso ser me, para se fazer ida da dr profunda, immensa, causada
pela desappario d'um filho, quando no foi Deus que o arrebatou do lar
paterno. Ao menos aquelles que o vem morrer, sabem onde devem
procural-o pela lembrana; todo o desgosto  para os que ficam, mas elle
no pde soffrer; seus paes sabem-no bem e as suas lagrimas no so sem
consolao; mas perdido, e perdido sobre a terra! sobre a terra onde ha
o mal e os malvados... oh!  horroroso.

[Ilustrao pg. 37. D a mo ao desconhecido que o leva depressa. (pag.
35.)]

Sem se deixar succumbir um s instante, o senhor de Valneige,
acompanhado de Gervasio, tornou a percorrer a cidade; apoderou-se d'elle
uma especie de febre, que o impedia de sentir o cansao, e o bom
Gervasio suspirava, pensando no pobre pequeno, que vira nascer.

O senhor de Valneige apressou-se a recorrer s authoridades.

Ah! como aquelle desgraado pae sentia o corao afflicto, quando
descrevia os signaes exteriores, que podiam fazer reconhecer seu filho;
era loiro, a pelle branca e rosada, uma covinha por baixo da face
esquerda, a barba um poucachinho dividida, os olhos castanhos e vivos,
uma voz argentina como a de uma rapariga, o que contrastava com os
movimentos d'uma bravura inteiramente masculina. A sua figura era,
quando muito, d'uma criana de sete annos, apesar d'elle ter perto de
oito.

Trajava um fato de panno azul escuro e um collarinho liso, que no
momento de sahir tinha sujado de tinta, um pequeno borro apenas visivel
na parte de diante do lado esquerdo. Ao pescoo tinha suspensa, desde o
baptismo, uma medalha de oiro, representando a Santa Virgem, com os
braos abertos e a cabea inclinada. Tinha-lh'a dado sua me, pedindo 
Rainha do Co que o livrasse do peccado e da morte, em quanto ella fosse
viva. Pobre mulher! tinha perdido o seu filho querido, o seu filho mais
novo! Pode ser, oh! pode ser que fosse levado por homens crueis, que o
fariam participar d'um viver miseravel, que maltratariam o seu corpinho,
e que tentariam perverter sua alma innocente com maus exemplos e
blasphemias. A esta ida, que no a deixava, a me sentia-se
desfallecer. Teria preferido antes vel-o morrer sob as suas vistas do
que entregue a gente infame, que faria da sua infancia um longo
martyrio, e que talvez o encaminhasse na senda do vicio.

O Senhor de Valneige, completamente desanimado, voltou para o hotel;
ninguem tinha visto a criana; nenhuns esclarecimentos se tinham obtido;
continuava o mysterio mais profundo sem se saber o que se havia de dizer
nem pensar a tal respeito. Iam empregar-se todos os meios possiveis para
descobrir Adalberto: mas para os desgraados paes s restava esperar.
Esperar quando se ama um filho mais do que a si mesmo, esperar sem saber
se elle ainda respira, se soffre, se chama, esperar n'estas condies, 
morrer todos os dias! Passou-se uma semana, uma outra, ainda outra; um
mez, dois mezes, tres mezes, nada... Nenhum indicio, nenhuma esperana
proxima. Foi preciso voltar para Frana, depois de se ter estabelecido
todos os meios possiveis de correspondencia com Praga; mas toda a gente
estava convencida de que o pequeno tinha sido levado para longe, e que
s um acaso providencial o poderia fazer achar.

A primavera voltou, Valneige readquiriu a sua belleza, frescura; os
passaros cantavam, tudo se reanimra no campo, e s tres coraes bem
infelizes no quizeram tomar parte n'esta felicidade. Uma velha
agitava-se, inquieta, perturbada, irascivel, accusando todos de
negligencia, e accusando-se a si mesma de no ter sabido prever e
impedir o mal; era a pobre Rosinha, que tinha emmagrecido por causa
d'isto! Um homem tinha-se tornado grave e sombrio; j no tinha
animao; a melancolia da doena, a que era sujeito, tinha-se tornado o
seu estado habitual; os seus negocios estavam descurados, os seus planos
futuros abandonados, temia-se que a sua saude, j muito melindrosa, se
alterasse profundamente; era o pae. Uma mulher ia e vinha vagarosamente,
tratava de seu marido, de seus filhos, da sua casa e dos pobres; mas no
seu corao no entrava alegria; tudo n'ella era triste, at o bondoso
sorriso com que acompanhava as suas aces para esconder a sua pena; uma
energia verdadeiramente christ era o que fazia com que essa mulher no
descurasse o mais pequeno dever. A sua vida era uma continua orao.
Pensando, girando, andando, chamava! Chamava seu pobre filho por todas
as aspiraes do seu corao, pela sua coragem, pela sua dedicao, pela
sua caridade para com os desgraados, com todas as vras da sua alma. E
 noite, chamava ainda mais por elle, e as suas lagrimas corriam com uma
amarga esperana; e ao p do altar, quando estava s com Deus, no
podendo abafar os soluos, dizia unicamente, sabendo que o Senhor a
comprehenderia:

Meu Deus! Adalberto!




CAPITULO IV

Adalberto estava bem longe.


Na aldeia tudo  um acontecimento, at a gallinha que canta como o
gallo, e que logo  condemnada  morte porque isso se toma por agouro.
Pde imaginar-se o effeito, que produziu em Valneige o desapparecimento
do pequeno Adalberto.

No se fallava d'outra coisa e no tinham fim as conjecturas, nas quaes
havia uma parte maravilhosa, devida  credulidade e superstio
d'aquella boa gente. Um dia veio uma mulher ter com Rosinha e disse-lhe:
Oua, senhora Rosinha, olhe que o seu pequeno no est perdido.

A estas palavras, a velha criada levantou os oculos at ao meio da
testa, o que para ella era uma maneira de vr melhor. Se lhe tivessem
dado o conselho de os fechar n'uma gaveta no teria querido. Havia
quinze annos, pelo menos, que usava oculos, e punha-os no nariz logo de
manh. Pelo dia adiante, servia-se d'elles para ir ao jardim, para subir
e descer a escada; mas quando se tratava de dar atteno, de distinguir
as cres ou as physionomias, bem depressa os oculos subiam para o meio
da testa. A pobre mulher queria-lhes tanto como aos seus proprios olhos.

A Tia Godinette puxou uma cadeira porque o discurso promettia durar.

--Pois  verdade, senhora Rosinha, vou dizer-lhe uma coisa, que ainda
no disse a ninguem.

Todos os discursos de Godinette, que fallava muito vagarosamente,
comeavam do mesmo modo, e sabia-se at que ponto se podia contar com a
sua discrio. Quando a boa da mulher no dizia os seus negocios a toda
a gente, era porque estava s.

--Oua, senhora Rosinha, aqui tem o que me succedeu, a mim que lhe estou
fallando. Sonhei a noite passada... Primeiro devo dizer-lhe que me doam
as pernas, mas doam-me como nunca. Olhe, era exactamente nas barrigas
das pernas, como uns canitos que me mordessem. Eu dava voltas na cama,
como um frito na frigideira, e esfregava, esfregava...  necessario
sempre esfregar quando doem as pernas; s vezes  o sangue que para.
Diga-me uma coisa, senhora Rosinha, o que faz quando lhe doem as pernas?

[Ilustrao pg. 45. O seu pequeno no est perdido. (pag. 43.)]

--Ora essa! esfrego. Mas vamos, vamos  historia.

--Eil-a; emquanto eu estava s voltas na cama, disse commigo: que horas
sero? Deve ser tarde, com certeza. Estou convencida que  mais de meia
noite; no sabia as horas, eu, e quem no sabe, a senhora Rosinha ha de
ter ouvido dizer,  como quem no v. N'isto ouo dar horas na
freguezia. Ponho-me a contar pelos dedos, uma duas, tres, quatro, cinco,
seis, sete, oito, nove, dez...

--Onze, doze, accrescentou precipitadamente Rosinha que estava sobre
espinhos.

--Justamente, dez, onze, doze. Olhem como adivinhou!  fina como um
coral.

--Vamos l, dizia que o nosso pequeno...

--Espere, senhora Rosinha, isto no vai a matar.

-- que assim temos para peras.

--Ento, quando eu vi que era meia noite, disse commigo: ora esta!
julguei que era mais tarde. A noite foi feita para dormir, toca a
dormir. Tanto peior para as minhas pernas! Custou-me a pegar outra vez
no somno; muito me custou! Abria os olhos, fechava-os, tornava a
abril-os, tossia, assoava-me, cuspia, esfregava-me, era um nunca acabar!

--E depois!

--Acabei por adormecer, e sonhei que passeava n'um lindo jardim, onde
havia um grande tanque, mas grande, grande, como no  possivel, como s
vezes a gente sonha; a tia Rosinha sabe.

--Sim, sim, e depois tia Godinette?

--Depois? era comprido o tal tanque, mas comprido como d'aqui  cruz da
estrada. Que digo eu?... Como d'aqui ao... ao...

--Ao fim do mundo. Ande l tia Godinette.

--Justamente! sempre tem idas! Vi ento do outro lado do tanque uma
raposa.  verdade, uma raposa e ao mesmo tempo o seu menino, que tinha 
cabea um cesto, _vossemec_ bem sabe, d'estes cestos em que se pe...

--Sim, sim, estou a vl-o.

--Est mesmo a vl-o, no  assim? Mette-se nos taes cestos, mette-se...

--Mette-se tudo o que se quer.

--Tem _vossemec_ raso. Com effeito, sendo um cesto, mette-se-lhe o
que se quer. De mais no fim de contas, isto no faz nada para a minha
historia.

--N'esse caso saltemos isso, quer?

--Depois, elle v a raposa, tem medo, deixa cahir o cesto, e prega
comsigo no tanque de cabea para baixo.

--Coitado do pequeno!

--Qual pequeno? Foi o cesto.

--Ah! bom! mas _vossemec_ dizia de cabea para baixo.

--Era a brincar. Eis que a raposa vem ter commigo com uma pata no ar.
Pobre animal! Foi talvez ferida por algum caador... ah! a proposito de
caador, _vossemec_ sabe?

--O que?

--Dizem que ha dois caadores, que vinham no outro dia pelo matto e
encontraram um co vadio, que mordeu os ces que os acompanharam.

--Pobres animaes!

--Que est a dizer senhora Rosinha? Dos homens  que eu fallo.

--Ah! ento pobres homens!

--Mas tambem mordeu os ces.

--Pois sim, pobres homens e pobres ces. E o pequeno?

--Espere ahi. Viu-se ento na escurido uma grande bola amarella como
uma pequena lua, que corria o mais que podia no co; chamam-lhe um
_metaloro_... um _metoro_... no sei bem o nome, mas isso nada faz ao
caso.

--Felizmente; mas o que tem a bola com o nosso pequeno?

--O que tem? Est bem claro. Uma bola amarella que corre no co, no 
qualquer coisa. E depois, oua mais esta, ainda no acabei: como elle
andava para traz, a raposa...

--O que! ainda a raposa! Tornamos outra vez ao sonho?

--Mas com certeza; a raposa  brincadeira.

--E o co damnado?

--Esse  srio.

--Ah! peior  essa.

--Ento a raposa...

--Olhe, faa-me o favor de deixar a raposa aonde est; fallemos antes do
nosso pequeno loirinho. Diga-me o que sabe d'elle.

--D'elle? Ora essa! no sei nada d'elle. Que quer _vossemec_ que eu
saiba d'elle? No o perderam na Allemanha?! Mas  o mesmo; podem dizer
que est longe; quando se vem signaes no co, pode-se estar certo que o
pequeno no est perdido.

Estava-se n'este ponto de to insipida conversa, quando o senhor de
Valneige passou, sempre pensativo e inquieto; reparou no ar azafamado da
tia Godinette, e a fiel Rosinha, notando a sua preoccupao, julgou
dever repetir-lhe as palavras da boa mulher, saltando a parte da
insomnia, do relogio, das pernas e da raposa. O amo respondeu com
tristeza que no havia, infelizmente, relao alguma entre este meteoro
e a pobre criana; que o facto de que se tratava nada tinha de
prodigioso, sendo devido a um phenomeno atmospherico muito conhecido, e
sobre o qual eram desarrazoadas as suas supersties. Godinette um pouco
despeitada, mas nem por sombras convencida, fez a sua mesura e foi
contar a outros o seu sonho e a sua bola amarella.

Quanto  boa Rosinha, vendo terminada a conversa, desceu tranquillamente
os seus queridos oculos sobre o nariz e continuou a fazer meia.




CAPITULO V

Adalberto sabe emfim at onde pode levar a desobediencia.


Em quanto a familia de Valneige estava triste e consternada, em quanto
se procurava por todos os lados, em Praga e nos arredores; onde estava o
querido pequeno Adalberto? Ninguem o sabia, excepto a infame creatura
que o tinha roubado ao amor de seus paes. Habituada a desobedecer, no
podia mais tarde ou mais cedo deixar de succeder grande desgraa quella
criana. No dia em que desapparecra, havia desobedecido oito vezes! e
como ninguem tinha dado por isso, no fra castigado. Deus v tudo que
os paes e as mes no vem; foi Elle quem se encarregou de castigar por
uma vez, com um castigo terrivel, todas as desobediencias que o
rapazinho commettera, desde que sabia o que fazia; e bem cedo tinha elle
tido intelligencia.

Eis aqui como as coisas se passaram: Perdemos de vista Adalberto, no
momento em que um homem d'uns cincoenta annos, embrulhado num capote de
l grossa, o levou, depressa, depressa, depressa... Este homem tinha, 
verdade, cara de poucos amigos, e o olhar sombrio; mas fallava um pouco
francez. Na sua grande afflico, a criana, que no suspeitava uma
traio, seguiu-o em silencio. Andou muito tempo, tanto tempo que as
suas perninhas fraquejaram, e que de repente, desanimado pela fadiga,
pelo medo, pela fome e pelo sangue frio d'aquelle que o conduzia comeou
a chorar.

Tu choras? disse-lhe o desconhecido com um tom de falsa bondade, e,
repetindo-lhe que sabia onde estavam seus paes, e que os iam encontrar,
o homem trigueiro, do qual um grande chapeu escondia quasi toda a enorme
cabea, fl-o entrar em uma casa suja e meia escura, onde lhe disse que
esperasse um instante. A criana estava morta de fome e de sede; o
desconhecido fl-a comer e beber, beber, beber tanto, que, sob as vistas
do malvado, o querido pequeno sentiu-se como sobrecarregado por um peso
extraordinario; os olhos fecharam-se-lhe, j no tinha medo; uma especie
de indifferena e quasi de bem estar succedra a toda a emoo triste...
emfim, adormeceu profundamente. Era o que o homem do chapeu grande,
tinha preparado; e tomando nos braos a sua innocente victima,
dirigiu-se precipitadamente para a estao do caminho de ferro, deixando
a cidade, e tendo o cuidado de embrulhar Adalberto no grande capote de
l, afim de o fazer passar por uma criana doente.

Desde ento, o que succedeu? Onde foram? O pequeno dormia; quando, sahiu
d'esta especie de lethargo, no obteve resposta alguma s suas
perguntas, e viu passar na sombra uns homens que se pareciam com aquelle
que o levava. Estava morto de susto. Depois de mil voltas avistou uma
grande carruagem, uma especie de casa ambulante, tendo janellas com
taboinhas: o homem trigueiro deu uma grande pancada na porta, e disse
algumas palavras na lingua particular dos Ciganos; depois, com uma mo
de ferro, agarrou o pequeno francez, e levantou-o: um rapaz abriu a
porta fazendo chacota, e Adalberto achou-se no meio de um corredor
estreito, que dava communicao para miseraveis compartimentos... a que
chamavam quartos.

Uma mulher muito velha, feia, negra, e secca, dirigindo-lhe a palavra em
mau francez, fallou-lhe como ordinariamente se falla aos ces. Elle no
comprehendeu bem; desejou smente descer os degraus que acabava de subir
para entrar na carruagem: mas a porta tinha-se fechado. O pequeno
imprudente olhou para a velha e disse-lhe imperiosamente:

--Abra!

--No, no, no, respondeu a terrivel velha; uma vez que se sobe  para
sempre.

--Para sempre? repetiu Adalberto com indignao, e, comprehendendo o
horror d'estas palavras, levantou os braos e comeou a gritar!

Uma mo suja, horrenda, decrepita, collou-se-lhe sobre a bocca, em
quanto aquella furia soltava horrorosas blasphemias.

A criancinha estava cheia de susto sem saber o que havia de pensar: era
como a destruio completa de toda a sua vida, e, no s por medo como
tambem por surpreza, perdeu os sentidos.

Quando fechou os olhos, a mo suja e m, que o tinha obrigado ao
silencio, despregou-se-lhe dos beios; mas, aquella mo, como se
estivesse resolvida a fazel-o soffrer, foi buscar um pucaro d'agua bem
fria e deitou-lh'a sobre a cara. O querido pequeno abriu os olhos, olhou
de roda de si como para procurar sua me, e disse lavado em lagrimas e
muito humildemente:

--Senhora, deixe-me voltar para casa da mam, se faz favor.

Uma gargalhada formidavel acolheu esta supplica de criana, e, juntando
a ironia  crueldade, a velha Praxedes exclamou:

--Vai para casa de tua mam, vai, corre, anda vai!

O prisioneiro viu bem que tudo estava acabado, que o crime estava
consummado; que o tinham roubado!

A velha furia, que parecia uma bruxa, era a sogra do homem do chapeu
grande, a av, no de Gella, a filha do amo, mas de seu irmo Karik, e o
chamado Mentor de duas pobres crianas, Natchs e Tilly, um pequeno e
uma pequena, cahidos como Adalberto nas mos dos ladres. O desgosto do
captivo foi to profundo, que cessou de se queixar achando-se
horrivelmente desgraado.

Dotado de grande fora moral, a sua dr tornou-se em desespero, e
inspirou-lhe a firme vontade de se evadir: mais tarde ou mais cedo.

Tinha uma incrivel energia, e ainda que o seu corpo fosse magro e
pequeno, sentia-se capaz de vencer grandes obstaculos. Por em quanto
nada havia a dizer nem a fazer.

Se ests doente, deita-te, disse-lhe bruscamente a velha Praxedes,
mostrando ao recem-chegado um monte de trapos e de fato velho no canto
do seu horroroso quarto. Elle no esperou que lh'o repetissem, julgando,
com raso, que o melhor era obedecer. Como no lhe deram cobertores no
se despiu; estendeu-se sobre os trapos, tendo o cuidado de puxar para os
ps alguns pedaos de fato velho para evitar o frio, e pz a mo debaixo
da cara para no se encostar a esses farrapos.

Uma vez deitado, fechou os olhos, no fez movimento algum, e bem
depressa o julgaram a dormir. No percebeu uma s palavra do que se
dizia, porque os Ciganos entre si s fallam o seu dialecto; comtudo
julgou vr que Gella mostrava benevolencia para com elle e que tratava
de apaziguar a colera de sua av. Quando a rapariga fallava alto, tinha
um som de voz que o habito de gritar ao ar livre tornava duro; e em
geral tinha modos d'homem. Adalberto, que de vez em quando abria um
olho, podia vr aquelle todo atrahente.

Gella tinha vinte annos, era bonita, mesmo com os seus vestidos pobres,
mas d'uma belleza um pouco selvagem; estatura elevada, flexivel como um
vime, os movimentos bonitos, a cara queimada pelo sol, os cabellos
pretos com reflexos azulados; a bocca bastante mal desenhada, mas franca
e com um sorriso de bondade; os olhos doces quando estava socegada,
atrevidos quando se tratava de resistir, muita fora de corpo e de
bondade.

Era filha do homem do chapeu grande e da sua primeira mulher, que tinha
morrido logo depois do nascimento de sua filha. O Cigano, contra os
costumes da sua raa, tinha casado com ella por capricho, apesar de no
ser Cigana, mas uma pobre rapariga de Lyo. Achava-se orph e na
miseria; e a miseria e a inexperiencia dos dezeseis annos tinham-na
levado a aceitar esta exquisita unio; uma irm mais velha, no deixando
de a condemnar, interessava-se comtudo pela criana nascida d'aquelle
imprudente casamento, e dava de tempos a tempos uma lembrana a Gella.

Assim como era, esta robusta e trigueira rapariga produziu no
prisioneiro uma impresso de temor e de confiana. A maneira de fallar
depressa, os olhos to pretos, as sobrancelhas carregadas, tudo isto o
intimidava; e, comtudo, aquelles lindos braos deviam ser carinhosos;
era impossivel que uma criana infeliz se lanasse n'elles sem que a
rapariga a apertasse contra o corao, porque, emfim, devia ter um
corao.

Adalberto tinha tanta necessidade de o acreditar que dava esperana a si
proprio, e disse comsigo:

[Ilustrao pg. 59. Gella tinha 20 annos. (Pag. 57.)]

--Um dia dir-lhe-hei que me quero ir embora, e ella ha de consentir em
me deixar fugir. Se no deixar, fugirei sem ninguem me ajudar... Depois
lembrava-se das suas caminhadas em Praga, e da difficuldade que se
encontra quando se no sabe para onde se deve ir e quando no se falla a
mesma lingua da outra gente. Este primeiro dia passou-se pois n'um
profundo desgosto. O mau vinho tinha-lhe feito tanto mal que elle no
quiz comer.  noite ouviu dizer a velha s crianas que se deitassem, e
admirou-se comsigo mesmo de que Karik, que no tinha mais de quatorze
annos, recusasse obedecer; uma boa bofetada decidiu-o. Adalberto ficou
vexado de encontrar o seu grande defeito n'um garoto to mal creado.
Quanto aos outros dois, foram mansos como cordeiros, e promptamente
cumpriram o que mandou Praxedes; mas o pequeno de Valneige notou, que
nem a velha nem Gella disseram como Rosinha sempre dizia:

--Vamos, meus meninos, ponham-se de joelhos e digam a sua reza.

--No, pensou elle, ninguem aqui reza a Nosso Senhor;  sem duvida
porque o no conhecem.

Emquanto Natchs e Tilly se deitavam, um na estreita enxerga que
partilhava com Karik, e a outra aos ps da cama de Praxedes, Adalberto
lembrou-se que no tinha rezado a sua orao da noite, elle que conhecia
Nosso Senhor. Mas o seu terror era tal que no ousou pr-se de joelhos.
No fundo do seu corao teve um grande enternecimento; todo o seu
pequenino ser se prostrava pelo pensamento diante d'esse divino
protector que vla por ns, e, em vez de comear a sua orao pelas
palavras do costume, o querido pequeno apenas repetiu muito baixo, muito
baixo, para s ser ouvido no Co:

--Perdo, meu Deus! perdo por ter desobedecido!

Ah! como elle era desgraado! Ssinho, separado da sua familia, sem
saber o que fariam d'elle; tendo medo do homem brutal, da velha, de
Karik, que tinha m apparencia, e do velho co, que tinha os dentes
enormes.

A noite adiantava-se; a fadiga e o desgosto fizeram-lhe fechar os olhos;
adormeceu, e sonhou que Filippe, o cocheiro, lhe fazia dar a volta do
parque de Valneige em tilbury, por ter tido muito juizo; que a sua mam
o tinha abraado duas vezes, e que Rosinha lhe tinha concertado a redea
do seu cavallo de balouo com um cordel novo; depois a scena mudava
bruscamente; estava sentado a uma meza, bebia e tudo andava de roda; mas
de repente seu pae vinha ter com elle! Como vem, Adalberto, mesmo
dormindo, tinha ainda esperana.




CAPITULO VI

Adalberto scismava se Gella tinha corao.


No dia seguinte um ar frio e saudavel dava aos habitantes da Bohemia
vigor e animao. Quando Adalberto acordou teve medo; depois,
lembrando-se do que se tinha passado, pensou que este tempo de miseria
no duraria muito, e que depressa sahiria d'aquella maldita casa.

No era o que se chama uma criana estragada pelo mimo; tinha sido
educado sem pieguice e por isso havia contrahido habitos energicos.
Comia de tudo, supportava o frio sem se queixar, sabia resignar-se,
esperar, e tinha muita coragem. Quando em Valneige lhe acontecia
magoar-se, s chorava por grandes coisas, porque seu pae quando o via
chorar por bagatellas, no deixava de lhe dizer:

--Que tens tu, minha pequenina?

S esta palavra valia um grande discurso, e lembrava-lhe que era um
_homem_, como elle dizia.

O nosso amiguinho, tendo em si a fora de caracter e de energia physica
que d uma boa educao, no se deixou vencer pela desanimao, que de
nada serve a no ser para tornar os males insupportaveis. De mais, tinha
todas as illuses da juventude e parecia-lhe impossivel que fosse
infeliz por muito tempo. Sendo elle s um estorvo, como dizia a velha
Cigana, deixaram-no socegado; mas tendo acordado cedo, fingiu que estava
dormindo e no se mexeu, ganhando assim tempo, e reparando
disfaradamente n'algumas scenas intimas.

A velha Praxedes parecia apenas respirar; mas, as poucas foras que lhe
restavam, eram misturadas com uma agitao que a atormentava, e aos
outros tambem.

Azedada pela fadiga, pela miseria, e pelos incommodos da idade, era o
verdadeiro typo de tyranno da companhia. Praxedes queria mal a todos.
Embirrava com seu genro a quem chamava _o homem de ferro_, e que ella
detestava; com Gella, que no lhe tinha respeito algum; com seu neto
Karik, que lhe resistia praguejando j como seu pae. Quando todos tinham
gritado mais do que ella, e lhe provavam que a consideravam mais como
criada do que como me, ia embirrar com o co, o horroroso Wolf.

Wolf costumado s pancadas e a toda a especie de maus tratos, nunca se
deixava intimidar. A cada ameaa da velha, respondia rosnando, e quasi
que lhe mordia, quando ella lhe dava um pontap. Respeitava-o at um
certo ponto, porque era obrigada a temel-o. Mas havia n'esta mesquinha
habitao dois entes, que ella no temia, porque no tinham defesa, e
era sobre elles que recahia ordinariamente o seu mau humor. A pobre
Tilly era to pallida e to fraca, que no ousavam bater-lhe com medo
que ella adoecesse e que fosse preciso tratal-a. Praxedes contentava-se
de lhe fallar brutalmente, como se no falla a um animal. Exigia, d'esta
criana de oito annos uma atteno constante para obedecer ao menor
gesto. Quando a pobre pequena tinha commettido alguma falta de
vigilancia ou de promptido, davam-lhe por castigo menos de comer.

Natchs era uma victima. Esta bonita criana de dez annos, cuja robusta
natureza havia triumphado dos maus tratos, tinha uma vida digna de
compaixo. Praxedes sobretudo no cessava de lhe fazer sentir, que ella
no era mais do que um ganha po. A sua natural docilidade tornada
inercia pela sujeio, no a desarmava e muitas vezes a irritava.
Batiam-lhe pelo mais pequeno descuido, batiam-lhe por ter respondido e
batiam-lhe por estar callada. Adalberto, da sua cama de trapos, assistiu
a uma das injustas provocaes, que lhe faziam a proposito de tudo.

Na vespera tinha tido a desgraa de quebrar uma gamella rachada, na
qual, havia annos, se dava de comer ao co. Era mais do que o preciso
para que a velha se enfurecesse, porque queria mais  sua loia do que a
tudo. Chamou Natchs com voz spera e disse-lhe:

--Foste tu que quebraste a gamella?

--Sim, disse-lhe o pequeno, que no tinha mesmo a ida de mentir; fui
eu, mas no o fiz de proposito.

-- o que faltava! exclamou a velha, vermelha de colera; ah! tu vais
pagar-m'a, mandrio! deixa estar! Canalha! Vibora!

Dito isto uma chuva de bofetes cahiu sobre o pequeno desgraado.
Praxedes, em vez de foras vitaes, tinha uma fora nervosa que o furor
redobrava; era incrivel a agilidade d'aquellas malditas mos. Os
movimentos ageis e dextros do rapazinho conseguiam felizmente evitar a
maior parte das pancadas; mas, vendo isto, a furia pegou n'uma corda
para lhe chegar com mais certeza.

Ento a pallida e adoentada Tilly deitou-se sobre a pobre criana a quem
chamava irmo, por causa da sua desgraa commum.

--Perdo, perdo! gritou ella, oh! no lhe faa mal.

Mas a velha, como se no ouvisse esta supplica afflictiva, batia 
vontade para vingar a sua gamella. E Gella? Gella tratava da casa,
tomando conta da panella do almoo, na especie de cosinha microscopica
armada fra n'um cotovello da escada. Como! Pois Gella, uma rapariga,
no acudia em soccorro de Natchs? No; estas horrorosas scenas
repetiam-se tantas vezes, que j estava habituada, e s intervinha em
casos excepcionaes. O seu corao tinha-se endurecido vivendo com gente
m, e, ainda que houvesse n'ella uma bondade natural, como o seu sorriso
o provava, raras vezes se commovia.

Quem fallar pois em favor de Natchs? O homem da mo de ferro, fuma em
silencio o seu cachimbo; o horrivel Karik faz escarneo. Gella no diz
palavra, e a meiga Tilly chora e supplica sem obter nada. Quem defender
a victima? Ha de ser Adalberto, em quem se acham gravadas em caracteres
indeleveis as tradies de familia, a justia e a piedade. Levantou-se
com resoluo e cobriu com o seu corpo o pequeno, e recebendo por elle
algumas pancadas, gritou com todas as suas foras:

--_Voc_ no tem direito de lhe fazer mal, e Deus ha de castigal-a.

Se Adalberto no estivesse no primeiro dia do seu triste desterro, 
fra de duvida que se teria arrependido da sua nobre ousadia; mas, logo
no principio, a interveno audaz do infeliz pequeno encheu de admirao
aquelles espiritos grosseiros. O homem de ferro lanou para o ar uma
baforada de fumo e com uma tremenda gargalhada, quebrou a furia de sua
sogra.  gargalhada seguiram-se graas de Karik e algumas boas palavras
de Gella, que no desgostou de vr Natchs em liberdade, apesar de no
dar grande importancia a tudo aquillo.

Uma palavra dita por Adalberto produziu o effeito mais singular. Tinha
dito: Deus a castigar.

--Onde est o teu Deus? perguntou o homem do chapeu grande, dirigindo-se
pela primeira vez a Adalberto.

--Est em toda a parte, disse orgulhosamente o pequeno de Valneige,
excitado pela indignao.

--Sim, senhor, no  mal respondido; querem vr que tambem est na minha
barraca?

--Est, sim, respondeu o pequeno; est e v tudo.

Envergonhado do seu atrevimento, Adalberto abaixou os olhos, e viu a boa
Tilly assentada no cho e olhando compadecida para o pobre Natchs, de
quem gostava mais desde que lhe batiam. O mestre voltou-se para o nosso
amiguinho e disse-lhe sem colera:

--Ouve, meu rapaz, por uma vez passa, mas no caias n'outra. Quando a
me d pancada,  preciso deixal-a, isso  com ella.

Estas palavras fizeram pensar a Adalberto que, nos detalhes da vida
ordinaria, aquelle homem era talvez menos mau do que a velha.

O que mais o espantava, era a frieza de Gella, a quem os gritos de dr
no tinham feito chorar. Lembrava-se das lagrimas de sua irm Camilla,
por causa d'um co que julgaram damnado e que fra preciso matar.
Tinha-se Camilla resignado  ordem do pae, mas n'esse dia, como tinha
ouvido os gritos do co, no poude jantar!

Lembrava-se ainda que sua me, vendo um pequeno camponez ferido por uma
ferramenta de que imprudentemente se servira, tinha curado a criana
como se fosse sua, dizendo, pallida de emoo: Chego a estar doente!

Portanto,  natural ter pena de vr soffrer os outros, quando se tem
corao, pensava Adalberto. Porque seria que Gella no soffria quando
maltratavam Natchs? Porventura o habito de vr o mal d cabo do
corao?

Quando lhe passou a furia a av pensou que era tempo de occupar o
recem-chegado, e de lhe dar nome e fato, isto , uma alcunha e
miseraveis farrapos. Era com visivel aborrecimento que cuidava d'elle,
no cessando de dizer a seu genro que bem podia tel-o deixado aonde
estava, porque lhe parecia que elle no servia para nada. Quem sabe?
respondia o homem de ferro inclinando a cabea sobre seus largos
hombros. N'aquella posio, que muitas vezes tomava, parecia-se com as
estatuas de Hercules descanando dos seus trabalhos. Como elle raras
vezes fallava, a sua presena no augmentava as questes; parecia pelo
contrario que diante d'elle estavam menos zangados uns com os outros
n'aquella maldita barraca.

O caso  que o Hercules era temido por todos, se no era respeitado;
chamavam-lhe pae, e muitas vezes mestre; a sua palavra fazia a lei,
porque representava uma authoridade absoluta; mas tinha nos detalhes a
longanimidade que acompanha muitas vezes a certeza de ser obedecido. No
fallava sem necessidade; comtudo a sua vontade impunha-se, assim como
uma barreira; no se podia passar alm, nem fazel-a recuar. Sombrio rei
d'aquella triste habitao, ordenava s com a sua presena, e 
provavel, que se alguma vez tivesse empregado a fora, redrobada pela
colera, teria esmagado tudo.

Por isso a velha, para no o descontentar, tratou, resmungando como
sempre, de dar ao pobre Adalberto o vestuario que d'ali por diante devia
ser o seu. Procurou no fato velho de Karik e de Natchs, e achou umas
calas muito curtas e um casaco muito comprido, o que para ella era um
vestuario completo.

--Vamos l, gritou ella muito zangada, anda c maroto.  verdade, 
preciso, pr-lhe um nome; ora, como te chamas tu?

--Hei de chamar-me sempre Adalberto de Valneige, disse o pequeno
levantando a cabea.

--Ta, ta, ta, fazes favor de te calar? Se tornas a repetir esse nome,
corto-te em bocados, piso-te n'um gral, e dou-te a comer ao co!...

Adalberto sentiu talvez menos o horror d'esta ameaa, do que a maldade
d'aquelles olhos pequenos e pardos, fitos nos seus com uma expresso,
exquisita. Cahiram-lhe os braos, e, em attitude d'uma desanimao
absoluta, ouviu a velha gritar-lhe ao ouvido:

--Hasde chamar-te Mustaph.

--Sim, senhora, respondeu humildemente Adalberto.

--E a mim, hasde chamar-me av.

Estas palavras fizeram ferver o sangue ao joven Valneige. Tinha
conhecido sua av, a me de sua me, to boa, to respeitavel, que uma
tarde tinha adormecido para acordar no Co, segundo lhe tinham dito, e
teria de dar o seu nome a uma creatura infame?

--No! exclamou elle com horror.

--Que dizes tu?

--Digo que no.

Immediatamente duas grandes bofetadas estalaram sobre a face do
prisioneiro, que pela fora da pancada, perdeu o equilibrio e foi rolar
aos ps de Gella, que lhe disse em voz baixa:

--Aqui nunca se deve dizer que no, meu pequeno.

Quando fallava baixo, a rapariga tinha a voz sympathica. Adalberto
sentiu-o, e comeou a ter esperana n'ella, sobretudo quando ella,
levantando-o e cobrindo-lhe a cabea com as suas trigueiras e lindas
mos disse sorrindo e graciosa:

--Pois sim, av, elle no torna mais.

--Melhor para elle, respondeu Praxedes, que comeou o horroroso
vestuario da criana, tirando-lhe o fato simples, mas fino e limpo, que
podia fazer conhecer a sua origem.

O desgraado pequeno olhava para a sua jaqueta de panno azul escuro, e
para as suas calas da mesma cr. Olhava tambem para o collarinho com um
borro de tinta; fra a brincar com Eugenio, que tinha feito aquella
maldade. Viu-se despojado de tudo quanto usava; teve de vestir uma das
grossas camizas de Natchs, as feias e curtas calas, e aquelle casaco
sujo e ridiculo, que lhe dava o ar d'um velho que no cresceu.

[Ilustrao pg. 73. O mestre fez signal para lhe no cortarem os
cabellos. (Pag. 72).]

Quando acabou este feio vestuario, Praxedes metteu uma grande tesoura no
cabello loiro e fino de que a senhora de Valneige tanto gostava.
Adalberto estremeceu; mas, por um feliz capricho, o mestre fez signal
para lhe no cortarem os cabellos naturalmente annelados e que tanto
contribuiam para dar  criana uma belleza insinuante. Comtudo, como
aquella carinha era muito distincta para o papel que ia representar,
pozeram de roda da cabea d'Adalberto uma feia fita d'ouro avermelhado,
e logo perdeu aquella graa natural, que tinha por tanto tempo feito o
justo orgulho de sua me.

Karik, o filho de Hercules, era mau por instincto e por educao; foi
buscar o espelho diante do qual se enfeitava sua irm mais velha nos
dias de representao, quando danava e seu pae a acompanhava, ao mesmo
tempo que Karik batia com fora sobre o seu grande tambor e que Natchs
agitava as campainhas.

Adalberto, quando viu o espelho, sentiu dolorosamente o procedimento do
joven saltimbanco. Vendo quanto o captivo soffria com o seu feio trajo,
Karik quizera que elle podesse saborear a humilhao vendo o seu retrato
desfigurado.

Tilly sentiu tambem a offensa, apesar da sua infancia. Quando o espelho
passou por ella, a boa pequena bafejou-o com o seu halito para o fazer
bao, ao menos n'um bocado. Adalberto comprehendeu a bondade d'esta
aco, e olhou amigavelmente para Tilly que no ousava dar palavra nem
mexer-se. Mas Gella em tres passos chegou-se a seu mau irmo,
arrancou-lhe bruscamente das mos o espelho e foi pl-o no seu logar.

Adalberto ficou-lhe grato por esta delicadeza, no meio da sua grosseria
masculina e popular; voltou-se para ella com um sentimento de esperana,
e disse comsigo mais uma vez:

-- ella, sim, ella  que ha de livrar-me!

Uma coisa o affligia; era vr a velha Praxedes cortar com a grande
tesoura a roupa branca e o fato que acabava de lhe tirar.

Era sem duvida para que no ficasse na carruagem um unico objecto que
podesse causar suspeitas.

Tinha instinctivamente mettido na algibeira um feio boto cosido pela
Rosinha na algibeira das suas calas de panno azul, no momento de deixar
Valneige; na sua precipitao, no achando um que dissesse bem, a boa
mulher tinha posto aquelle que dizia mal e que, apesar d'isso, tinha
ficado, como muitas vezes succede ao que no  seno provisorio. Pelo
mesmo instincto de exilado apanhou o pequeno bocado do collarinho em que
tinha deitado o borro brincando com seu irmo. Na sua dr infantil,
eram para elle duas imagens do passado, de que fazia dois thesouros. Ah!
como elle apreciava agora todas as felicidades de Valneige: a familia, a
casa, um agasalho em tudo, sem fallar da polidez, da boa educao. Aqui,
tudo era grosseiro!

Foi um momento bem penoso aquelle em que elle pela primeira vez teve de
comer a sopa dos ladres. O prisioneiro morria de fome; como j disse,
no jantra na vespera; o seu estomago soffria, e quando a velha lhe
trouxe uma sopa de batatas n'um prato rachado, experimentou ao mesmo
tempo um nojo e uma irresistivel necessidade de alimento.

Tomou pois aquella sopa que, na verdade, no era muito m, e que pelo
menos devia ser substancial, porque uma colher de ferro mettida n'ella
ficava em p.

Emquanto almoava, parecia-lhe vr a casa de jantar do castello; quatro
pratos de porcelana muito branca, postos sobre a linda mesa de pau
santo, e Rosinha servindo a sopa s crianas. A querida me, passando
para ir dar as suas ordens, e vendo a porta entre aberta, dizia
jovialmente: Bom appetite! e riam; e elle, Adalberto, corria para a
abraar, mas Rosinha conservando o seu espirito de exactido
gritava-lhe:

--Faz favor de ficar aqui, pequeno lambusado; quem  que se levanta da
meza antes de acabar? No so horas de dar abraos, so horas de comer.

Em presena d'este quadro que lhe offerecia a sua imaginao, Adalberto
sentia as lagrimas nos olhos, e, comtudo, no queria chorar; mas ser
forte, corajoso, e conseguir fugir, era, o seu unico pensamento.

Tilly vendo que a sua tristeza augmentava julgou que elle no tinha
comido bastante e apresentou-lhe delicadamente o seu prato, dizendo-lhe
familiarmente:

--Se tu quizesses acabar a minha sopa? eu quando no como bastante no
me faz mal.

--O que! disse Adalberto com um gesto de reconhecimento, quando se no
come bastante soffre-se.

--Oh! eu soffro sempre.

--De que?

--De tudo.

Taes foram as primeiras palavras que estas duas crianas trocaram s
escondidas, e o rapazinho cheio de illuso dizia comsigo:

--Pobre pequena! Que pena no poder eu leval-a commigo quando fugir!

Passada a manh comeava o trabalho. O que era o trabalho na casa do
saltimbanco? O trabalho era todo o exercicio que pde tornar o corpo
flexivel. O mestre collocava em linha Karik, Natchs e Tilly; faziam
passos de dana, davam pulos e cambalhotas. O Hercules punha sobre os
seus robustos hombros os bonitos psinhos de Tilly e andava, levando-a
como em triumpho. Era preciso que ella estivesse direita, que a cintura
se conservasse flexivel, e que se ensaiasse a sorrir e a atirar beijos.
Desde muito tempo Tilly no tinha medo, to forte e dextro era o mestre;
o que lhe parecia difficil n'este exercicio era unicamente sorrir e
mostrar-se feliz.

O bom Natchs tinha chegado ao ideal da flexibilidade e da graa.
Tinham-lhe batido tanto desde a sua infancia que previa as ordens do
mestre, applicando-se de todo o corao e fazendo maravilhas.

Era uma bella criana cheia de saude, mas o moral tinha fraquejado; o
seu olhar tinha um tanto de servil; e quando obedecia ao menor signal,
parecia-se com o co de caa que se chega arrastando-se muito humilde, e
felicissimo por lhe no baterem. Adalberto lamentava-o, no tanto pela
sua desgraa como por no sentir a miseria da sua sorte. A natureza
energica do pequeno de Valneige no comprehendia esta natureza fraca e
completamente domada.

Quanto ao feio e mau Karik, exercia o seu rude officio imitando seu pae
nas posies herculeas, nos seus olhares sombrios e nas suas terriveis
juras. Era d'um caracter ligeiro, e juntava a isto chalaas triviaes que
repetia a si mesmo, estudando debalde tornal-as finas.

Asseguravam que tinha um futuro, que se faria d'elle alguma coisa! No
se prestando o seu exterior aos papeis graciosos, dedicava-se s foras.
Esperavam vel-o como seu pae, andar de roda de uma praa publica,
sustentando entre os dentes uma grande pedra presa a uma corda; o
pescoo inchado, as veias quasi a arrebentarem, a cara a escorrer; era a
este genero de proezas, que se destinava aquelle rapaz.

Para descanar, torcia os membros da maneira mais grotesca, deitando-se
para traz e levantando uma cadeira com destreza, engulindo pedras,
comendo fogo... que sei eu? Adalberto estava espantado!

S tinha, comtudo, um pensamento, vendo trabalhar a companhia; era achar
meio de se evadir. Mas como? s vezes pensava em implorar Gella; mas
conhecia-a elle bastante? Se ella mangasse com elle, ou fosse repetir as
suas palavras ao mestre, e redobrar por consequencia a sua desconfiana?
Nada; era impossivel aceitar esta ida. Todas as vezes que pensava em
fugir, lembrava-se que a fuga era impraticavel e perigosa em um paiz
onde elle no conhecia a lingua. Viu-se forado a adiar a execuo do
seu projecto, porque fallavam de deixar as montanhas e de viajar
lentamente na direco do Rheno; ora o Rheno era uma esperana para
elle; sabia que mesmo antes de l chegar encontraria muitos homens que
fallariam francez. A pobre criana tornara-se de repente medrosa,
submissa, e paciente; no fallou a pessoa alguma e resignou-se a
esperar, para no lhe falhar o seu projecto.




CAPITULO VII

Adalberto ouvia nas trevas o bater do relogio.


Quando os Ciganos se pozeram a caminho, depois de terem passado muito
tempo nas montanhas, Adalberto viu com susto, que era objecto de grande
e nunca interrompida vigilancia. O mestre, a velha, Karik, e mesmo a boa
Gella, eis os espies que dia e noite o rodeavam. Mais terrivel do que
elles todos, o velho co rosnador olhava-o com olhos chamejantes, e
parecia querer engulil-o se tentasse fugir. Decididamente a occasio
ainda no chegra; e quando chegaria ella? Paravam em toda a parte;
acampavam nos arredores das cidades, a maior parte das vezes sem entrar
n'ellas, a no ser que houvesse alguma festa popular; o pobre pequeno
figurava, coitado! n'estas festas! Quanto  velha cigana, horrenda
creatura, ia por alli fra lendo a sina a quem queria ouvil-a,
examinando attentamente a palma da mo das pessoas supersticiosas, a
quem pregava absurdas mentiras, que a faziam rir s gargalhadas, quando
estava em familia. Adalberto, apesar de haver j um anno que via todos
estes manejos, no se habituava a elles, indignava-se d'essa conducta e
tinha horror quella furia.

 sua pena juntava-se o receio de nunca achar maneira de pr em execuo
o seu projecto. De que servia atravessar terras onde o prisioneiro podia
fazer-se entender se nunca o perdiam de vista?

Comtudo fallava-se sempre no Rheno, e tratava-se de parar um pouco ao
sul da Alsacia, depois do que se encaminhariam talvez para os lados do
Lyo, onde Gella veria sua tia, respeitavel mulher que, em memoria de
sua irm, que morrera to nova e to desgraada, gostava da pobre cigana
e lhe queria bem. Estas palavras, que Adalberto apanhava ao acaso e que
Gella lhe repetia de boa vontade, davam coragem ao prisioneiro, e,
guardando s para si o seu segredo, fazia teno de aproveitar
vidamente a primeira occasio favoravel.

Depois que passaram o Rheno, o rapazinho respirou um pouco mais
livremente; no duvidava da sua proxima liberdade, e tardava-lhe saber
onde primeiro parariam.

Viu com grande alegria, que pararam logo na primeira noite defronte
d'uma pequena cidade, cujo nome ignorava. Uma cidade, uma multido,
outras tantas rases para ter esperana. Fugir d'alli, era o seu unico
pensamento; quanto ao que se seguiria estava convencido que nenhuma
situao podia ser peior do que a sua.

Quando chegou a noite, as mulheres cuidaram em renovar as provises.
Ordinariamente era Gella que, com o cabaz no brao, ia comprar o pouco
que era preciso, ou pelo menos o pouco que podiam arranjar; porque o
Hercules comia e bebia nas tabernas que encontrava no caminho,
empregando no servio do seu vigoroso estomago uma boa parte do dinheiro
que ganhava a companhia, e no deixando aos outros seno muito pouco.
Feijes, repolhos, batatas, era a comida ordinaria; um caldo da carne s
por extraordinario.

Como era impossivel queixar-se diante do despotismo do mestre, cada um
se contentava com amaldioar em voz baixa a fora poderosa, que
governava sem bondade.

N'aquella noite, o Hercules declarou que tinha negocios na cidade, e que
ahi acompanharia Gella e as crianas, emquanto que Praxedes, com o seu
neto e o horrendo Wolf, guardariam a casa.

Adalberto, vendo-se de partida, sentiu redobrar-lhe a esperana. Olhava
de longe para a cidade e para as ruas tortuosas, e pensava na
possibilidade de fugir.

-- to grande e eu sou to pequeno! No me vero. E de mais a mais as
ruas so to mal illuminadas!

Acostumado  prudencia o Hercules fez signal a Gella para dar a mo ao
recem-chegado; desconfiava que aquelle espirito corajoso e atrevido s
se domaria pela fora, e pensaria sempre na fuga. Gella deu pois a mo
ao rapazinho. Quanto ao pacato Natchs, estava to mortificado, que a
sua escravido parecia-lhe uma necessidade, e que a ida de se libertar
no chegra a passar-lhe pela cabea. Caminhava em perfeita liberdade ao
luar, correndo adiante de Tilly, que nunca corria, to fraca e doente
era! O seu abatimento e a sua juventude escondiam-lhe sem duvida em
parte a vergonha e a miseria da sua posio; comtudo, quando encontrava
nos seus raros passeios uma pequenita bem vestida, a quem fallavam com
doura, achava-se de repente bem desgraada.

Partiram, e, sem que o mestre dissesse uma s palavra pelo caminho,
entraram na cidade. Ali, separaram-se: o Hercules tomou  direita e
Gella, com as tres crianas, tomou  esquerda, emquanto seu pae lhe
dizia n'um tom que, para ella, era a expresso d'um poder absoluto:

--Cuidado com o garoto; tu  que s responsavel por elle; v o que
fazes!

--Sim, meu pae, disse Gella baixando os olhos. Esta rapariga, meia
selvagem, educada nos theatros das feiras, s baixava os olhos diante de
seu pae. Temia-o, e esse temor conservava entre elles uma especie de
acordo, porque ella obedecia cegamente. Elle sabia-o, e mandava-a com o
gesto. Resultava d'este systema de intimidao que a rapariga nunca se
afastava do que para ella era o dever. Natureza honesta, teria sido
superior, se lhe no faltasse toda a educao. Sem reflexo, sem nenhuns
principios, conduzia-se honestamente temendo sobretudo a colera de seu
pae, que a obediencia passiva conservava inoffensivo e silencioso.

Era por isso que se no via Gella andar vadiando pelas ruas. Trabalhava
sempre, ora na casa, ora na costura, ou nos exercicios que lhe
conservavam a flexibilidade e a ligeireza.

Se o seu corao era frio, no devia isso causar admirao; nunca coisa
alguma o tinha desenvolvido; s via o mal, e sem duvida Deus tinha
grande compaixo da sua ignorancia.

Adalberto, ainda que nada sabia analysar, presentia tudo isto vagamente,
e vendo a sua mosinha fechada na grande e trigueira mo de Gella, no
experimentou repugnancia alguma, mas antes um sentimento que se parecia
com a confiana misturada com a duvida.

Eis uma padaria; entram, compram dois grandes pes, de que se encarregam
Natchs e Tilly; depois passa-se para a salchicharia, e Gella manda
metter no cesto s coisas baratas;  sempre a condio das suas compras,
porque no conhece a abundancia.

D'ali  preciso ir buscar carvo.

Mettem-se pelas ruas estreitas e tortuosas, e, vendo grande multido de
homens, de mulheres e de crianas, Adalberto pergunta a si mesmo se no
chegou o momento de fazer uma tentativa? Gella j no lhe d a mo,
entra em primeiro logar na carvoaria, as crianas seguem-na. O nosso
amiguinho olha furtivamente para a direita, para a esquerda; hesita, o
seu corao bate com fora, est decidido, o seu partido est tomado,
vai fugir... que caminho escolher? E se encontrasse o Hercules? S esta
ida o faz tremer. E, comtudo, que espera elle? que melhor occasio se
pde apresentar?  uma cidade, a noite, a bulha, a multido... Fujamos.

Adalberto volta para o lado direito ao acaso, caminhando encostado s
paredes, e julgando que toda a gente olha para elle; depois animando-se
a si mesmo por este comeo de bom exito, vai, vai, sem saber o que faz,
a no ser que escapa ao homem silencioso,  velha Praxedes, ao mau Karik
e ao co que morde.

[Ilustrao pg. 87. Cuidado com o garoto! (Pag. 85.)]

 fora de andar sem outro fim seno fugir, canam-lhe as pernas e
pergunta com medo: onde estou? onde vou? A inquietao junta-se no seu
espirito ao desejo febril de se afastar da ambulante. Oh! miseria!
percebe que na sua carreira insensata, voltou pelo mesmo caminho, e est
outra vez na praa, que atravessou ainda agora para ir ao padeiro! Que
ha de fazer?

Olha para todos os lados com tal anxiedade, que as pessoas que passam,
por mais indifferentes que sejam, lh'a conhecem na cara. Uma boa mulher,
que vendia mas, fal-o parar, e diz-lhe com bom modo:

-- homemsinho, andas  procura do teu caminho?

--No.

--No? Pois parece bem que sim. Onde vais tu?

--Para ali.

--Para ali para onde? para o lado do carvoeiro?

--Nada, no.

--Mas ainda agora estavas l  porta; dize, anda, falla.

--Sim... No!

--Como te chamas tu?

--Adalberto, no... no!

--Ah! tu no sabes o que dizes!... Olhe tia Dubois, no v este pequeno
com um casaco que no foi feito para elle, e a fita doirada no cabello?
No ser este o que andam procurando acol?

-- possivel. Tem ar de vagabundo; mas seja o que fr, no me metto
n'isso; eu no me entendo com a canalha.

--No importa, um co que fosse, e que se perdesse quereria fazer-lhe
achar o dono; eu c sou assim...

Ao mesmo tempo, metade por bom corao, metade por gostar de emoes, a
boa vendedeira de mas pegou na mo de Adalberto para o levar para o
lado do carvoeiro. A criana resistiu, com grande espanto da boa mulher
que lhe repetia procurando arrastal-o:

--Mas vem d'ahi, tolinho! uma vez que eu te digo que tua irm mais velha
te procura, e que o teu pap anda em busca de ti por outro lado; olha,
vl-o? vem para aqui.

Adalberto viu com effeito o Hercules que caminhava a grandes passos,
olhando sombriamente em redor de si; parecia pedir um ponto de apoio
para a sua colera. Um medo inexplicavel se apoderou do desgraado
pequeno; teve um momento de incerteza, no sabendo se ia cahir ali
paralysado diante do seu perseguidor, ou se tentaria recuperar a
liberdade. A energia da sua natureza venceu. Escapando-se  vendedeira,
mette-se pela rua em frente e corre o mais que pde, at que se sentiu
sem folego.

Depois d'esta rua acha outra, depois ainda outra, e ao longe avista a
planicie, que era a extremidade da pequena cidade; se podesse correr
ainda chegaria ao campo, e esconder-se-ia em qualquer canto.

Adalberto faz um esforo supremo na direco da planicie... Quem v elle
aproximar-se por uma rua transversal? Gella, pallida, inquieta e
correndo atraz d'elle. A cabea da criana perturba-se, passa-lhe pela
ida deitar-se-lhe aos ps, supplicar-lhe que o deixe fugir... Mas, diz
comsigo, se ella tem com effeito o corao endurecido, estou perdido! E
de mais, ella deve estar muito zangada commigo?  preciso fugir-lhe.

O excesso do desespero d-lhe foras, parte como uma setta, no v, no
ouve nada; dir-se-hia que s lhe resta o poder de desapparecer, de se
subtrahir  mais horrivel desgraa.

Gella tambem  agil; vai apanhal-o; os seus ligeiros ps devoram o
espao.

Mas eis aqui o campo; a criana avista uma casa isolada; bater  porta,
gritar, tero d da sua desgraa e escondel-o-ho.

Ghega, arremessa-se  porta, bate, toca, chama, ninguem responde, parece
tudo morto; as portas das janellas esto fechadas,  absoluto o
silencio. O infeliz Adalberto ouve o respirar de Gella, e a bulha dos
seus passos que se aproximam com uma rapidez incrivel. Emfim... eil-a...
Elle d a volta da casa, e v diante de si uma fresta; ha pois alli uma
adga, uma casa de lenha, alguma coisa emfim que no  a casa do
Saltimbanco. E depois, se Gella o leva, prisioneiro fugitivo, no vai
elle levar pancadas do Hercules, ou da velha, ou de Karik, ou de todos
tres, e ser mordido pelo co? Vale mais a fresta!  o desconhecido, e o
desconhecido  a esperana!

Mette a cabea, depois os braos, agarra com a mo uma barra de ferro
que separa em duas a abertura, e volta-se com a destreza que d sempre
uma situao desesperada. N'este momento Gella com passo lento e
cauteloso comea a andar de roda da casa deserta. Elle deixa-se
escorregar, transido de medo, pelo muro abaixo, e vai cahir sobre no
sei que, d'onde, com o peso do seu corpo, faz levantar uma nuvem de
poeira acompanhada de um som desconhecido.

Onde est elle? a pobre criana no sabe, mas ouve o roar de um vestido
na barra de ferro da fresta; Gella parou, chama, escuta, falla:

--Pequeno, ests ahi? responde-me, dize-me se ests ahi?

Mais morto do que vivo, Adalberto fica mudo, espera mesmo para respirar
que a rapariga esfalfada, arquejante se afaste, perdendo talvez o rasto
do fugitivo.

Quando o silencio se restabelece, a criana conserva-se no mesmo
silencio, e agora, que Gella o no persegue, quereria ouvir ainda a
bulha dos seus passos; mas nenhum som lhe chega aos ouvidos a no serem
oito pancadas vagarosamente dadas por um relogio, a que um homem sem
duvida deu corda antes de deixar a casa.

Foi pois habitada, ou pelo menos visitada, no ha muito tempo esta casa?
Mas quando voltaro para ella? E elle como sahir d'ali? No lhe tinha
vindo esta ida quando Gella estava perto d'elle; agora comprehende a
sua desgraa, e essa desgraa assusta-o.

Victima de novo terror, torna-lhe a ida de que, com certeza, Gella
seria boa e o seu corao se commoveria, vendo uma criana abandonada.
No lhe tinha ella dado muitas vezes provas da sua natural bondade? Sim,
deveria ter-se fiado n'ella, e pode ser que ainda seja tempo?

Grita, chama!

--Gella! Gella!

Mas escutando, ouve gritar e repetir duas vezes:

--Gella! Gella!

Esta voz, que diz o que elle disse e parece a sua, fal-o tremer; os
cabellos molham-se-lhe de suor, as pernas vergam, os dentes batem; mas
lembra-se de repente que ha em Valneige um echo no parque, perto da
neveira, e que o seu pap escarnecia d'elle quando tinha medo do echo,
visto no ser um ente invisivel, mas uma bulha repetida por uma causa
muito natural.

Tendo-lhe passado mais o medo, cahe meio deitado e resigna-se a esperar.

--Que oito horas! diz comsigo, quanto tempo ser preciso esperar at que
o dia volte! E quando voltar o dia, como sahirei d'este buraco?

No ousava mover-se, temendo encontrar algum obstaculo no cho, ou
objectos que podessem feril-o. O somno no vinha interromper a sua
inquietao; pelo contrario, estava agitado, abria muito os olhos, e
cruzavam-se-lhe na cabea, n'aquella noite, mais idas do que
ordinariamente passavam por ella em todo um dia.

A luz da lua no descia at ao fundo da adga; um canto s estava
allumiado, e n'este angulo, Adalberto via uma coisa preta, to comprida,
como duas vezes a sua mo quando muito, mas seguida d'um trao preto
que, collado por assim dizer  parede, se inclinava comtudo algumas
vezes ora para a direita, ora para a esquerda.

Que  aquillo! perguntava a si mesmo Adalberto, cujos olhos inquietos
no largavam o objecto mysterioso, sem poder comtudo imaginar o que
havia n'aquelle canto. Esta nova preoccupao juntou-se s outras. Que
noite! A criana estava ssinha nas trevas, sem ao menos ter medido com
os seus passos a priso e dizendo comsigo:--Quando eu tiver fome, quem
me dar po? Algumas vezes pensava que nunca mais teria fome, porque era
muito desgraado.

Deram nove horas no meio d'esta grande tristeza. Como elle se voltasse
para o outro lado para descansar da sua incommoda posio sobre aquella
especie de cama empoeirada, avistou pela fresta uma linda estrella que
parecia estar ali s para elle. Viu essa estrella com verdadeiro
reconhecimento; era uma coisa consoladora para uma criana abandonada e
como que enterrada viva; e depois esta vista dava-lhe pensamentos mais
socegados do que os pensamentos da terra. Dizia ingenuamente:

--Foi Nosso Senhor ssinho que fez aquella estrella, e como sabe tudo
antes, sabia quando a estava fazendo que um pobre rapazinho a veria por
uma fresta quando tivesse perdido o seu pap, a sua mam e toda a gente.

Esta lembrana, junta ao enternecimento que lhe causava a bella e
solitaria estrella, fez-lhe chorar lagrimas, cuja doura elle ainda no
conhecia, e que alliviaram seu peito opprimido. Sentia-se uma creatura
abenoada que, por estar a oito ps debaixo da terra, no estava menos
presente aos olhos do Creador. Derramando, sem querer, lagrimas que o
consolavam realmente, dizia a Deus as palavras mais doces, de maior
confiana; era a sua orao da noite, e quando a acabou, continuou a
olhar para a estrella, e, apezar do frio que comeava a sentir, apesar
da tristeza que enchia o seu corao, teria talvez podido adormecer
defronte d'este cantinho de ceo azul, se no fosse como que forado a
voltar a cada instante os olhos para o canto para vigiar o objecto
negro, que estava sempre ali, e cuja extremidade mexia de vez em quando,
deixando ao prisioneiro uma duvida que lhe era insupportavel.

O relogio deu dez horas. Parecia  criana haver j muito tempo que
vivia n'aquelle subterraneo, e, a dizer a verdade, sem a estrella teria
desanimado; mas l estava bella e brilhante, como uma joia cahida da mo
do grande Rei, e Adalberto dizia-lhe:

Fica ahi, minha linda estrella, oh! fica no te vs, no me deixes s!
Tu s a minha estrella, bem minha; e, como os sabios do um nome a tudo
quanto brilha l em cima, eu, que no sou sabio, dou-te um nome, o
melhor que eu sei, chamo-te como a mam, _Adilia_, porque me fazes bem.
Emquanto eu te vir, terei coragem; e quando sahir d'aqui e tornar a
encontrar meus paes, procurar-te-hei ainda, e, tu vers, olharei para ti
toda a minha vida!

Fallando  sua nova amiga, volta-se para o canto da parede por um
movimento que se tornou nervoso e o que v elle?... o objecto mysterioso
tinha mudado de lugar, tinha andado e andava ainda; vinha para o lado do
pequeno. No havia duvida, era um grande rato preto, um d'aquelles que
Gervasio se esforava por fazer cahir na ratoeira, dizendo que aquelles
animaes mordiam.

Adalberto no viu mais a sua estrella, nem o co azul, nem as suas
bellas esperanas, mas unicamente o gordo rato preto, que vinha s
escuras como um traidor, e sem que o prisioneiro podesse defender-se
visto que no ousava mexer-se, no sabendo de que estava rodeado. Novo
susto!

O pezar do pequeno de Valneige j no era um pezar de enternecimento,
que elevasse a sua alma to bem formada por bons paes; era um horror
instinctivo por um animal perigoso; era preciso passar assim toda a
noite e a pendula fez soar nas trevas onze horas.




CAPITULO VIII

Adalberto dava que pensar  senhora Tourtebonne.


Ha pessoas que querem sempre saber como acaba o que vem comear. D'este
numero era a honesta vendedeira, que ns ouvimos fazer perguntas a
Adalberto. Tinha ficado parada diante do seu carro de mo, seguindo com
os olhos, o mais longe possivel, o pequeno que corria.

A tia Tourtebonne, era o seu nome, experimentava uma continua
necessidade de expanso; dizia a todos o que pensava, e como a sua unica
occupao era andar com o seu carro por todos os bairros, tinha por
confidente intimo a cidade inteira. Pouco importava que lhe respondessem
ou no; o essencial era communicar os seus pensamentos; por isso
acontecia constantemente acabar de contar  mulher do cortador a
historia de que a tendeira distrahida tinha ouvido o principio. A
querida mulher era conhecida de todos, e estimada porque era
obsequiadora, como o so em geral as pessoas que gostam de se metter em
tudo. No temia incommodar-se pelos outros, e, com certeza, se fosse
preciso para fazer um servio fallar tres horas seguidas, teria fallado
quatro.

Como j havia quarenta annos que andava pela cidade, sabia de cr as
ruas, as casas e os habitantes; era quasi como um diccionario, que basta
folhear para se achar a palavra que se procura com as indicaes
desejadas. A tia Tourtebonne estava tanto em dia com o que se passava,
graas ao seu commercio e  sua perspicacia, que tinha sido chamada
bastantes vezes como testemunha, perante a justia. Esses dias tinham
sido dias de triumpho para a excellente mulher; a sua memoria era to
fiel, as suas observaes to minuciosas, a sua palavra to facil, que
na verdade tinha dado grandes esclarecimentos sobre os negocios de que
se tratava. Tambem, as pessoas que no andavam pelo bom caminho
evitavam-na como se fosse lume; escondiam-se d'ella para fazer o mal,
como quem se esconde de todo o instrumento de publicidade.

Voltando ao que nos interessa; apenas a tia Tourtebonne perdeu o rasto
de Adalberto, voltou-se para o dizer a alguem, e no viu seno o gordo
Baptista, personagem pesado, enfadonho e improprio para a conversao.
Era o mesmo, no estava ali mais ninguem, e como elle no vendia
n'aquelle momento nem harenques nem queijo, duplo perfume commercial de
que elle se occupava, podia sem indiscrio fazel-o ouvir de boa ou m
vontade o que lhe quizesse contar.

--Ento j se viu uma coisa assim? Um homemsinho a quem eu ia ensinar o
caminho, e que me escorrega dos dedos?! Que diz a isto senhor Baptista?

O casmurro Baptista, que no dizia nada, porque no se tratava de
harenques, nem de queijo, fez _hum!_ com voz forte e rouca. Era uma
maneira airosa de se livrar de todos os negocios que no diziam respeito
ao seu duplo commercio.

O senhor Baptista no se interessava absolutamente seno pela sua venda
e pelo seu cachimbo, que era para elle o symbolo d'uma immortal
tranquillidade.

Dar um passo, olhar para o que se passava, procurar tirar consequencias
d'um facto, tudo isto lhe parecia um inutil augmento de trabalho; por
isso tambem pouca importancia lhe davam na cidade de cinco mil almas que
habitava, onde as bisbilhoteiras sobretudo o consideravam como um zero.
A tia Tourtebonne era capaz de dar valor a um zero se ella o precedesse,
quer dizer se chegasse a adaptal-o a um assumpto escolhido por ella.
Este famoso _hum_ que o bom do homem applicava a tudo no a satisfez
nada, e replicou vivamente:

--Viu-o, no  assim senhor Baptista, aquelle pequeno basbaque que
olhava para a direita e para a esquerda, e a quem eu fallei? viu-o?
diga?

Como o _hum_ de Baptista no era um som vo, e que elle no empregasse
muito a proposito, foi ainda a sua resposta, mas d'esta vez acompanhada
de um signal affirmativo com a cabea.

O que tudo junto queria dizer _sim_, tanto quanto era possivel, porque o
senhor Baptista nunca dizia positivamente que sim, sendo natural de um
canto da Normandia, onde as tradies se tinham conservado intactas
desde o celebre Rollon. Quando se tratava da venda, era preciso dar aos
freguezes mais alguma coisa do que _huns_. Usava ento de rodeios
engenhosos, de interjeies expressivas, mas nunca chegava o _sim_
compromettedor.

Era inevitavelmente: ora essa!... isso depende!... porque no?... o que
pensa?... vamos!...

O FREGUEZ.

Os seus arenques so frescos?

O VENDEDOR.

Ainda o pergunta!

O FREGUEZ.

So os que lhe trouxeram esta manh?

O VENDEDOR.

Ento quaes haviam de ser?

O FREGUEZ.

So os mais frescos que tem? no  assim?

O VENDEDOR.

Julga que eu era capaz de lhe mostrar m fazenda? Diga l.

O FREGUEZ.

Est bom, d-me seis.

O VENDEDOR.

Aqui esto e dos bons. Agora ha de querer queijo, no  verdade?

O FREGUEZ.

No pense n'isso.

O VENDEDOR.

Pois  bom e estomacal. Quem no come queijo sente peso no estomago.

O FREGUEZ.

Parece-lhe?

O VENDEDOR.

A prova  que eu nunca tal sinto, eu que vivo entre queijos desde que me
conheo; portanto...

O FREGUEZ.

Pois sim, d-me um pouco, no muito.

O VENDEDOR.

O que quizer.

O FREGUEZ.

D'esse no; est muito duro, no est?

O VENDEDOR.

Excellente!

O FREGUEZ.

Este deve ser melhor.

O VENDEDOR.

Optimo!

O FREGUEZ.

De qual ha de ser.

O VENDEDOR.

Leve d'ambos.

O FREGUEZ.

Oh! no, basta-me um, e j  de mais.

O VENDEDOR.

Corta-se em dois, o que faz com que s se veja metade.

O FREGUEZ.

Este parece-me menos scco.

O VENDEDOR.

Com certeza.

O FREGUEZ.

E o outro?

O VENDEDOR.

O outro tambem.

O FREGUEZ.

Conservar-se-ha?

O VENDEDOR.

Depois me dir.

O FREGUEZ.

Responde por isso?

O VENDEDOR.

Se o no achar bom torne a trazel-o.

D'este modo o gordo Baptista tinha resposta para tudo, e o freguez,
cansando primeiro do que elle, comprava arenques e queijo, que, devemos
dizel-o, tinham todas as qualidades requeridas, visto que o que se quer
 que cheirem bastante.

Tal era o senhor Baptista, no fallando por sua vontade seno para os
seus negocios, e silencioso para tudo mais. D'ahi vinha aquella
resposta. Mas, quando a tia Tourtebonne agarrava alguem, no era facil
escapar-lhe; por isso continuava com viva emoo e no interesse da
moral:

--Pois  verdade, j no ha crianas! quem tal havia de imaginar? Um
pequenote que no responde quando a gente lhe quer fazer um servio? Ah!
se o pap tivesse vindo por aqui tinha-lhe feito os meus comprimentos. 
preciso ser bem creado e no voltar as costas quando alguem falla.

Estas palavras foram ditas justamente quando o senhor Baptista tinha
dado meia volta  direita para entrar na loja; applicou o dito a si, e a
polidez franceza, que os Normandos adoptaram como os outros, fl-o
parar, sem querer, no limiar da porta.

--Mas quem havia de imaginar uma coisa assim? um pequeno que no sabe o
caminho devia estimar muito que eu deixasse as mas para lhe dar
atteno. Mas qual! Emquanto se lhe mostrava a rua Verde eil-o que enfia
pela rua Azul. Demais, pois que! digamos tudo, ha paes que batem nos
filhos como se elles fossem de pedra e isto no os prende em casa. As
crianas basta s castigal-as, no se devem espancar. Este pobre pequeno
 talvez muito infeliz. Ainda agora estava  porta do carvoeiro com sua
irm mais velha e duas outras crianas, um rapaz e uma pequenita. Viu-os
senhor Baptista?

Ainda que a pergunta fosse directa, o vendedor de queijo livrou-se ainda
d'ella com o tal _hum!_ que preferia a tudo, e ao mesmo tempo fez tres
signaes com a cabea d'alto a baixo, o que equivalia a _sim_, _sim_,
_sim_.

--Ah! _vossemec_ viu-os? Pois bem! quer que eu lhe diga? no fao
grande conceito d'aquella gente. A pequena  uma magrizela, tem cara de
fuinha; o rapaz tem umas grandes bochechas, mas parece aparvalhado! 
que lhe teem batido de mais. A rapariga maior parece um tambor mr; 
bonita, mas faz-me o effeito d'uma danarina de feira, com a sua saia
curta, e cabello mal penteado. Este pobre pequeno,  talvez uma criana
furtada? Pois no! tem-se visto. E  bonito apezar do fato ser feio. Ah!
se  d'elles, no d ares da familia.  loiro, delgado, tem uns
pulsosinhos de estorninho, a pelle fina e branca, parece uma criana que
teve outra criao... Olhe, olhe, senhor Baptista, acol vae o pap, 
preciso chamal-o.

--Eh! oua c,  senhor! por aqui!  o seu pequeno que procura, com uma
fita doirada no cabello?

O Hercules a esta voz voltou-se e deu tres passos para a vendedeira,
emquanto esta continuava:

--Eu bem vi que elle procurava a sua gente, e quiz fazel-o parar; mas
qual historia!  como o co do Joo, quanto mais se chama, mais elle
corre. Mas  preciso que _vossemec_ o ache. Escute, se o rapaz quer
fazer das suas, vou ensinar-lhe a _vossemec_ o meio de o apanhar.
Conheo este bairro, e os outros; ha, a vinte passos d'aqui, um
commissario de policia que tem sempre gente para mandar para a esquerda
e para a direita; eu vou conduzil-o l, _vossemec_ diz-lhe o seu
negocio e elle lhe far achar o pequeno.

Apenas a boa da mulher tinha acabado esta phrase, que o Hercules, at
ento impassivel como de costume, abriu uns grandes olhos, e, fingindo
affirmar-se bem, como se avistasse o pequeno na direco da igreja,
deitou a correr para aquelle lado e desappareceu.

No se pode descrever o espanto da tia Tourtebonne; ficou de braos
cahidos em frente das suas mas reinetas do Canada, seguindo com olhos
penetrantes o Hercules, que de certo no procurava coisa alguma, porque
ella ao luar no distinguia mais do que tres crianas cujos nomes lhe
eram familiares.

Teve a felicidade de achar, em falta de melhor, o senhor Baptista para
lhe dizer:

--Ento no v isto?  uma criana roubada. Primeiro, este homem tem do
diabo; e depois no reparou nos seus olhos quando lhe fallei no
commissario de policia?

--Hum!

--Pobre pequeno! e seria bonito como um amor se estivesse penteado, e
vestido como toda a gente; ai! que d tenho d'elle! pobre cherubim! A
prova de que ha alguma coisa n'isto tudo,  que quando eu lhe perguntei
o seu nome respondeu-me Adalberto, e depois, depressa como se tivesse
medo: No, no, no! uma criana ordinariamente diz tudo com franqueza,
e no esconde o seu nome. Que pensa d'isto, senhor Baptista, _vossemec_
que teve um filho, o seu pobre Augusto?

Ao nome de Augusto o mercador pareceu sahir do seu lethargo, e respondeu
 tia Tourtebonne;

--Penso como _vossemec_, que  uma criana roubada.

O senhor Baptista vivia n'uma especie de somnolencia a respeito das
coisas d'este mundo, salvo o seu commercio. Havia comtudo um cantinho do
seu corao que no dormitava; aquelle onde se conservava, na sua graa
infantil, a imagem do seu pequeno Augusto, que elle tinha visto morrer
na idade pouco mais ou menos do pequeno de Valneige. Nunca se invocava
em vo esta lembrana, e, em memoria de Augusto, o tranquillo Baptista
sahia sempre do seu adormecimento.

--Ento? vejamos, disse a vendedeira, o que se ha de fazer? Eu, primeiro
do que tudo, no posso ficar assim, no dormiria quanto preciso. Pensar
que a estas horas, ha uns pobres paes que procuram o seu filhinho, que
lhes roubaram, e eu ficar aqui, diante das mas, sem dar um passo para
que o achem! no, no  possivel. Olhe eu nunca tive filhos,
infelizmente para mim; mas gosto das crianas, quero-lhes bem. Ah! se eu
os tivesse tido, como tomaria cuidado n'elles! parece-me que os
dependuraria todos ao meu pescoo com medo de os perder.

A tia Tourtebonne, dizendo isto e toda inquieta pensando em Adalberto,
pz-se a chorar, como ella fazia de tempos a tempos, pelas crianas que
nunca tinha visto.

Depois, tendo tirado da algibeira um grande leno de quadrados, enxugou
os olhos e tornou a sorrir. Tudo era verdade na boa mulher, mas as
impresses succediam-se rapidamente.

--Mas  tarde, so horas de nos deitarmos. Se ns fizessemos antes uma
declarao ao commissario de policia? Diga, o que acha senhor Baptista?
_vossemec_ que gostava tanto do seu pequeno Augusto? hein! se lh'o
tivessem roubado?

--Vamos ao commissario, respondeu o bom do homem, a quem a emoo da
vendedeira, junta s proprias recordaes, acordou quasi completamente;
deixe-me s fechar os postigos e estou s suas ordens.

Os postigos fechados, o vendedor metteu por um momento o pequeno carro
da tia Tourtebonne no seu pateo, cortejou, pediu desculpa e offereceu
cortezmente o brao ao seu mais antigo conhecimento; era assim que lhe
chamavam, porque na cidade de G... era ella com effeito o mais antigo
conhecimento de quasi todos aquelles que a viam passar havia quarenta
annos. O seu corao inflammavel, a vivacidade do seu fallar, as suas
maneiras amaveis tinham-lhe conciliado esta especie de affeio que se
basa sobre um fundo de estima, e sobre o aturado costume de sentir
alguem andar de roda de si. Quando se v uma pessoa todos os dias,
necessariamente se ha de gostar um pouco d'ella, ou tomar-lhe zanguinha;
e ninguem se lembrava de antipathisar com aquella boa cara vermelha,
rodeada de uma touca bem branca, e que sorria a toda a cidade como a uma
amiga de infancia.

Os pobres, e sobretudo os pequenos mendigos, encontravam-na com grande
gosto, porque em lugar de deixar a sua fructa estragar-se, ia dando-a
pelo caminho quando no tinha podido vendel-a, e dizia:

--Toma l, meu pequeno, pga n'esta ma, est meia podre; se eu fosse
rica dava-te das boas, mas tu tiras o mau e o resto ainda presta.

E quando a pobre criana dizia obrigado, respondia:

--No por isso, meu canito; d-me gosto vr-t'a roer.

Chegaram a casa do commissario de policia. A Tourtebonne fallou muito
tempo sem dizer grande coisa, e o senhor Baptista disse tres ou quatro
palavras e alguns _huns_!

O senhor commisario registou a declarao e disse que estes depoimentos
poderiam mais tarde ou mais cedo ajudar a infeliz criana a achar a sua
familia.

O senhor Baptista e a tia Tourtebonne retiraram-se de brao dado, como
tinham vindo, e para acabar esta tarde de emoes o carrinho poz-se a
caminho at  habitao da excellente mulher, que morava exactamente
n'uma das ultimas casas da cidade, do lado pelo qual Adalberto tinha
fugido para a planicie.

Como ella no s tinha bom corao, mas tambem o espirito inventivo, no
adormeceu seno muito tarde, bem decidida a no perder de vista este
negocio, e a empregar toda a sua finura e toda a sua perspicacia no
servio da criana perdida. Durante este tempo, o nosso amiguinho
estava, como ns vimos, em um subterraneo e contava bem tristemente as
horas do seu captiveiro.

[Ilustrao pg. 111. Offereceu cortezmente o brao. (Pag. 109.)]




CAPITULO IX

Adalberto tinha fome


Deixmos o filho do senhor de Valneige victima de uma grande agitao no
seu tenebroso isolamento.

Esta solido durou muitas horas. To depressa julgava que a ratazana
estava perto d'elle, como lhe parecia sentil-a subir pelo corpo acima. A
sua imaginao criava mil soffrimentos que no existiam.

Distrahiu-se d'este penoso estado por uma outra preocupao que,
livrando-o do feio bicho, lhe fez novas perplexidades.

Ouvia a alguns passos a bulha de alguem que trabalhava em madeira.
Assimilhava-se a um marceneiro que quizesse fazer um buraco n'uma porta.
Esgravatava, furava, rapava, tudo isto depressa, depressa, como se
effectivamente estivesse muito apressado; depois cessava de repente,
descanando apparentemente; mas ento a immobilidade era absoluta, o
silencio completo, nem respirar se ouvia.

Quando Adalberto poz na ida, que estava um homem do outro lado da porta
e na escurido, perturbou-se muito. Por um lado pensou que esse homem
seria o seu salvador e o faria sahir do subterraneo; por outro lado,
via-se  merc de um estranho que podia ser outro malvado, um ladro de
crianas!

Havia momentos em que o rapazinho queria chamar; abria a bcca para
dizer: Senhor marceneiro quer acudir-me se faz favor? Mas, de todas as
vezes faltava-lhe a voz como em um sonho mu. Graas a esta
extraordinaria inquietao, tinha esquecido o rato, lembrando-se s do
operario.

Adalberto admirava-se tanto mais d'este trabalhador mysterioso, que
muitas vezes em casa de seu pae, tinha visto marceneiros fazerem
differentes obras, mas sem pararem assim a todo o instante. E depois,
este individuo trabalhava s escuras mais outra coisa para admirar!

Se Adalberto fosse um rapaz medroso, o que  uma grande vergonha quando
se est destinado a ser um homem, a conduzir, a governar,  provavel que
adoecesse de medo; mas seu pae tinha-lhe dito muitas vezes, e tinha-lhe
mesmo provado, que, as bulhas que se no podem explicar logo, so quasi
sempre produzidas por uma causa muito simples. O senhor de Valneige
tinha tido o cuidado de esclarecer o espirito dos seus filhos, desde que
elles tinham, comeado a mostrar algum discernimento.

Adalberto, ainda que muito estonteado, tinha comprehendido as lies
praticas dadas todas as vezes que as circumstancias se prestavam a isso.
Valia-lhe isto na sua cruel posio, porque, no meio das suas
afflices, no deixava de ser o mais razoavel que a sua idade
permittia.

Quando o operario tinha trabalhado um certo tempo, parou de todo, fosse
porque estivesse cansado, ou porque tivesse acabado aquella obra
singular. Todo o barulho cessou, mas no se ouviram os passos de uma
pessoa que se affastasse.

A criana prostrada por successivas emoes, moida pela sua propria
agitao, acabou por sentir no corpo o peso que precede o somno, e no
espirito a quietao a que se segue o esquecimento. Isto durou at ao
momento em que o relogio deu duas horas. Depois, nada mais ouviu; tinha
adormecido.

O somno  o amigo dos desgraados, Deus concedeu-o para contrabalanar
poderosamente os nossos males;  n'esta especie de banho refrigerante
que os nossos pensamentos descansam, que os nossos receios se dissipam,
que a nossa vontade recupera o socego e a fora, que so necessarios
para nos conduzirmos; mas se o somno  doce para aquelle que soffre,
como  amargo o seu despertar! Tinha esquecido, e todas as sensaes,
penosas lhe so restituidas uma a uma. O silencio em redor d'elle, e
n'elle mesmo, faz desapparecer,  verdade, os fantasmas da imaginao;
mas a realidade est alli, e o corao comea de novo a soffrer.

Quando Adalberto despertou, a primeira claridade do dia chegava apenas
ao subterraneo; no podia ainda distinguir o que o rodeava, mas as suas
recordaes voltavam dolorosamente, e lamentava-se por no poder dormir
sempre.

Os seus pensamentos eram to tristes que no sabia como escapar-lhes.
Entre as imagens que lhe appareciam escolheu uma para descansar das
outras; representava-a, como se a visse diante de si, a sua querida e
pobre mam, e via-a realmente com o seu corao, porque a ternura que
tinha por ella no lhe deixava esquecer o menor detalhe. Parecia-lhe
mesmo vl-a at com a alliana que ella usava, e que tinha sido sempre
uma das grandes alegrias de Adalberto. Esta alliana tinha de particular
que, sendo mais grossa do que estes anneis costumam ser ordinariamente,
havia sido do agrado da senhora de Valneige fazer gravar na parte de
dentro as iniciaes dos nomes dos seus filhos por ordem de nascimento.

Quando Adalberto era pequeno, se havia sido _bonito_, obtinha da sua
mam o favor de abrir elle mesmo a alliana e de vr a lettra A, que
representava o seu nome.

Antes mesmo de saber o alphabeto correntemente, o rapazinho, quando o
famoso annel se abria, nunca deixava de exclamar:

--Isto  um C, quer dizer Camilla; isto  um E, quer dizer Eugenio; isto
 um F, quer dizer Frederico, e isto  um A, quer dizer Adalberto!

Quando chegava aqui, dava duas ou tres pancadinhas no peito, para se
assegurar que era effectivamente elle; depois batia palmas, e a sua mam
beijava-o; acabava sempre assim.

Este annel representava um grande papel na educao maternal do
pequenito, e n'um dia que tinha commettido uma falta enorme, quer dizer,
que tinha dito um _no_ pensando _sim_, que tinha, n'uma palavra,
_mentido_, a senhora de Valneige havia-lhe declarado, olhando muito
severamente para elle, que se semelhante coisa tornasse a succeder,
mandaria o seu annel ao ourives para apagar a lettra A. E o bom pequeno
no tinha mentido mais desde esse dia.

Quando, n'este triste subterraneo, o prisioneiro deixava de pensar na
sua mam, no encontrava no seu espirito seno motivos de receio. O
resto das trevas impedia-lhe de seguir os movimentos da ratazana. E
depois, perguntava a si proprio com medo onde estaria o trabalhador
mysterioso? Teria adormecido ali perto, ou, teria partido? No, nenhuma
porta, se tinha aberto, e Adalberto no podia duvidar que, excepto o
balancear da pendula, tudo na casa estava immovel.

Evitava pensar no marceneiro, mas ento voltava o Hercules. Oh! que
medo! se tivesse de o tornar a ver, e ser apanhado pelas suas grandes
mos que o teriam esmagado se lhe tocassem! O rapazinho tremia s com
esta ida. E a velha? oh! a velha, ainda lhe fazia mais medo; a
impresso que ella produzia no seu cerebro fatigado, e sobre os seus
nervos doentes, era pouco mais ou menos a mesma impresso produzida pela
feia ratazana que se agitava na escurido. E Gella? ah! Gella! teria
talvez sido boa! Porque no tinha elle respondido quando ella lhe disse
to devagarinho:

--Pequeno, estas tu ahi?

Tinha pena de o no ter feito, e comtudo ella tel-o-hia provavelmente
levado para a casa ambulante, e ento o que teria succedido? O Hercules
ter-lhe-hia dado pancadas como em um pobre co? ou antes, na sua furia,
no o teria matado? Este homem, pela sua grande estatura, pelos seus
olhares carregados, e pelo seu silencio quasi continuo, havia impresso
no espirito do prisioneiro um temor inexplicavel.

Quando conseguia no pensar n'elle, interrogava-se a si proprio, para
saber como sahiria do seu tumulo, ou se no morreria antes n'elle,
ssinho, e longe dos seus bons paes?

Entretanto o dia augmentava; Adalberto pde emfim tomar conhecimento da
sua triste habitao. Como no tinha tido na infancia a cabea
transtornada por contos pavorosos e absurdos, no imaginava estar n'um
sitio muito escondido, visitado de tempos a tempos por alguma fada
malfazeja, ou algum monstro horroroso. No; julgava simplesmente ter
cahido n'uma adga subterranea ou n'uma casa da lenha, como a adga e a
casa da lenha de seu pae; e assim era effectivamnte; estava n'um
subterraneo que fazia as vezes de ambas as coisas. A casa isolada em que
elle se achava, em consequencia da sua deploravel aventura, era uma casa
de pouca importancia, assaz tafula na sua simplicidade, muito querida
dos donos; via-se isto pelo cuidado com que estavam tratadas as
taboinhas verdes, as paredes brancas, e at nos menores detalhes. Um
unico subterraneo, grande e salubre, servia de adga, de casa de lenha,
de carvoeira e de arrecadao. Os olhos do cativo, desde que se
costumaram  meia luz, encontraram achas de toda a grossura, e alguns
centos de garrafas vazias, bem arrumadas sobre duas ordens de
prateleiras. Por outro lado, velhos instrumentos de jardinagem, taboas,
um tonel, uma gaiola quebrada. Viu tambem a especie de cama sobre que
tinha passado a noite; era o p do carvo, misturado, com alguns
bocadinhos, resto da proviso que de certo, tinham o costume de pr
n'aquelle canto justamente debaixo da fresta. As mos do rapazinho
estavam todas pretas, cara e cabello deviam estar cobertos d'aquelle p;
devia parecer exactamente um limpa-chamins.

--Tanto melhor, disse comsigo, se eu puder fugir e encontrar o mau
homem, tomar-me-ha por um pretinho e deixar-me-ha passar.

N'esta ida, imaginou mascarrar-se de preto, e apanhando s mos cheias
o p do carvo, esfregou a cara, tendo o cuidado de carregar mais nas
sobrancelhas e de empoar desde a raiz os seus cabellos loiros, depois de
ter deitado para longe de si a horrorosa fita que lhe tinham enrolado na
cabea.

Ah! se a boa velha Rosinha o tivesse visto n'aquelle miseravel estado,
nunca teria podido reconhecer o seu querido loirinho; quando muito a
senhora de Valneige, por instincto maternal, teria presentido n'elle o
seu filho querido, o seu ultimo filho, o seu Benjamim!

Quando Adalberto acabou de mascarrar-se, teve horror de si mesmo. Ao seu
vergonhoso fato, accrescentou voluntariamente uma camada de cr preta
que o desfigurava; comtudo, era um bom meio de passar desapercebido.

[Ilustrao pg. 121. Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)]

Se elle tivesse podido arrastar o tonel para debaixo da fresta e pr-lhe
em cima algumas taboas, pode ser que se tivesse podido iar com grande
custo at  abertura; mas era impossivel fazer mover aquelle tonel;
Adalberto era mais geitoso e mais agil do que forte e o tonel parecia
agarrado ao cho. O que havia de fazer? As horas da manh passaram-se em
mil tentativas infructuosas, sem que podesse conceber a menor esperana
de resultado.

Um dos supplicios da pobre criana, era o frio de Novembro, que descia
pela fresta e lhe gellava sobretudo os ps, que tinham estado parados
havia tanto tempo. Tinham-no felizmente habituado em Valneige a
supportar os rigores do inverno. Quando se queixava de frio, em lugar de
lhe dizerem aquece-te diziam-lhe: Vai correr, e no te ponhas a
chorar, porque homens no choram por tolices.

O pequeno sabia pois fazer todos os exercicios proprios para
restabelecer a circulao do sangue, e por consequencia para chamar o
calor. Pensou que era este o caso de empregar as suas habilidades.

Ssinho no subterraneo e longe de todo o soccorro humano, porque o
trabalhador no dava signal de vida, Adalberto experimentou um
sentimento de reconhecimento para com seus paes, e para com todos
aquelles que o tinham rodeado de cuidados varonis, razoaveis sobretudo.
Nada tinha abrandado no seu espirito os instinctos masculinos. Ah! se
eu tivesse sido educado como uma rapariga, que seria hoje de mim?
Graas a esses movimentos gymnasticos que elle estava habituado a fazer,
Adalberto sentiu um doce calor espalhar-se-lhe por todo o corpo e por
este lado no teve mais inquietao. Este socego deu-lhe vagar para
pensar mais no marceneiro. Estaria elle ou no alli?

O prisioneiro olhava para o lado da porta, espreitava pelo buraco da
chave; mas inutilmente. As trevas eram espessas da parte de fra, e a
criana apressava-se a voltar para debaixo da fresta porque o ar, a
claridade, a liberdade tudo ali estava. A fresta parecia-lhe o unico
intermedio entre elle e o mundo.

Comtudo, o solitario conseguira vr assim distinctamente o que o
rodeava. Notou na parte debaixo da porta um entulho muito recente, de
forma semi-circular, e sobre o cho uma poeira amarellada que no era
mais do que a madeira reduzida a p por um trabalho perseverante. A
criana, que tinha uma imaginao viva, sabia aproveitar as suas
recordaes. Pouco tempo antes da viagem, a cosinheira de Valneige tinha
fallado dos estragos causados pelos ratos; tinha sido preciso tapar
alguns buracos, reparar em certos sitios a madeira damnificada pelos
dentes incisivos d'estes animaes roedores, e Joanna tinha exclamado:
Ai! que ruins bichos! pois no parece que isto foi feito por um
marceneiro?

E Gervasio, que dormia d'aquelle lado da casa, ainda que no segundo
andar tinha accrescentado: Na verdade, se eu esta noite no soubesse
que era um rato que roia a madeira, em vez de ir cahir na ratoeira que
eu lhe tinha armado, teria julgado que era um marceneiro a trabalhar.

Adalberto applicou  circumstancia estas diversas lembranas, e,
comparando os factos, veiu a concluir positivamente que o supposto
marceneiro tinha passado a noite no canto da adga, e no era outro
seno o rato que, effectivamente, tinha desapparecido do canto antes de
comear a bulha. Foi para o espirito preoccupado do rapazinho uma
verdadeira consolao; mas esta mesma consolao permittiu-lhe pensar
mais em um outro genero de miseria, mais grave que os outros e cem vezes
mais ameaador. O que era?

A criana bocejava a cada instante; no era o somno que causava estes
bocejos repetidos.

Sentia um incommodo desconhecido; parecia que lhe apertavam a cabea
carregando-lhe nas fontes, e o seu estomago, que tinha tido tempo para
esquecer a ordinaria sopa dos Ciganos, pedia imperiosamente alimento.

Cada momento augmentava este soffrimento, e a pendula, que se ouvia na
casa de cima, parecia cantar as horas de vida que restavam ao joven
Valneige. Os mais tristes pensamentos o perseguiam. Como estava bastante
adiantado nos estudos para uma criana da sua idade, tinha lido as
aventuras de viajantes, que tinham ido parar a ilhas desertas, sem
saberem a sorte que os esperava.

Comtudo, havia dois ou tres coqueiros cujos fructos elles comiam, uma
ave brava que assavam bem ou mal, ou pelo menos um rochedo de que
arrancavam algumas ostras; mas n'este subterraneo, nada, nada, seno
carvo, madeira, garrafas vazias; era preciso sahir d'alli a todo o
custo, ou ento morrer  fome.

 medida que o dia ia passando a cabea do prisioneiro enfraquecia-se,
e, sem querer, a coragem abandonava-o.

No se atrevia a andar, tendo notado que a sua dr de estomago se
tornava insupportavel quando se mexia. Encolhido ao p do tonel contra o
qual encostava a sua pobre cabea, e olhando para a fresta, esperava
ainda, porque sabia que no estava completamente abandonado. Deus via-o,
e, para responder s suas innocentes supplicas, enviava-lhe de tempos a
tempos pensamentos dces e beneficos, como tudo quanto nos vem do co.

O cativo lembrava-se de ter aprendido de cr a linda historia de Jos,
que a Providencia tinha retirado de uma cisterna, onde seus maus irmos,
o tinham deitado; e disse comsigo:

--Jos era quasi to infeliz como eu, e pensava em Jacob como eu penso
no pap; mas elle ao menos no tinha deixado Rachel!... Devia ter tido
grande medo, e, comtudo, sahiu da cisterna. E eu tambem hei de sahir
d'este subterraneo. No  assim, meu Deus, vs me enviareis alguem! eu
sou um outro pequeno Jos, tende compaixo de mim!

D'este modo a esperana renascia no seu corao, e um quarto d'hora
depois uma tristeza profunda o acabrunhava.

Voltavam ento todas as recordaes de Valneige; estas recordaes
despedaavam-no. Parecia-lhe que tudo estava perdido, e chorando
lagrimas amargas sobre a sua desobediencia, dizia baixinho, como se o
podessem ouvir!

--Perdo pap! perdo mam! perdo todos!

Uma ida pungente lhe veio no meio d'esta atroz desgraa; lembrou-se que
n'aquelle mesmo dia, s nove horas da noite, fazia nove annos. Era o dia
3 de Novembro anniversario do seu nascimento, e, n'estas occasies,
havia em Valneige uma pequena festa. Como cada criana que nascia era
mais uma alegria, agradeciam-na a Deus todos os annos redobrando de
ternura entre os membros da familia, por beijos, presentinhos, e um
festim, que Joanna preparava com muito mysterio, e ao qual Rosinha
juntava alguns pasteis feitos pela sua mo. O senhor de Valneige estava
n'estes dias mais alegre do que o costume, brincando com seus filhos,
fechando os olhos s ligeiras infraces do regulamento. Se por desgraa
dava por qualquer coisa desagradavel, voltava-se para outro lado para
no ser obrigado a castigar.

Em quanto  doce e paciente Adilia bastava no sahir dos seus habitos
quotidianos para a sua presena tornar todos felizes; e no ha duvida
que se ella faltasse  reunio todos exclamariam: Onde est ento a
festa? falta a mam aqui.

--Que faro l em casa, perguntava a si mesmo Adalberto suspirando.
Ninguem dir em voz alta:  hoje que elle faz 9 annos. Mas toda a gente
o pensar. No haver festa; o pap ficar na sua poltrona a ler o
jornal, e pde ser que ao jantar diga: Ento, Adilia, tu no comes?
Mas no perguntar porque  mam. Saber que  por causa do seu
filhinho. Oh! que desgraa! meu Deus, que desgraa!

A pobre criana era tristemente distrahida dos seus tormentos por uma
d'estas inquietaes pueris que, em toda a idade, cansam e preoccupam.
Havia ao longo da parede bichos pretos, feios e delgados, com uma grande
quantidade de pernas. Iam e vinham em todo o sentido, entrando em
pequenos buracos, d'onde sahiam logo depois. Adalberto olhava-os de
revez, tendo tanto horror de os vr como de os esborrachar. Uma enorme
aranha occupava o canto da direita; mas trabalhava com tanta actividade
no seu officio de tecedeira, que o pequeno no lhe dava grande atteno;
eram os bichos pretos que o atormentavam.

Ainda que a vida n'este subterraneo fosse horrivel, sobretudo com os
soffrimentos da fome, Adalberto por um lado desejava suster as horas,
porque via com um susto progressivo o aproximar da noite. O relogio
tinha dado quatro horas; havia ainda na estrada e no campo uma luz
pallida, mas no subterraneo o dia ia fugindo, e com elle esta esperana
que o sol d aos desgraados e que a noite lhes rouba, juntando aos seus
pezares as vagas tristezas da escurido.

Ento a pobre criana pensou que tudo se tinha acabado para ella, e que
o novo anniversario do seu nascimento seria o ultimo da sua vida. As
suas foras diminuiam, sentia a cabea pesada, todo o seu corpo se
tornava molle e perguioso, como se fosse dormir o seu ultimo somno.
Alguma claridade allumiava ainda a parede que ficava defronte da fresta.
Adalberto via o dia acabar, e no julgava tornal-o a ver mais.

Por um profundo sentimento de ternura, teve a ida de pegar n'um bocado
de carvo e de escrever na parede os nomes de todos aquelles que amava.
Levantou-se com custo, e com a mo que a fraqueza e a ternura fazia
tremula escreveu: Pap, mam, Camilla; e as lagrimas saltavam-lhe a cada
palavra que lhe lembrava a sua familia. Arrependia-se do fundo do seu
corao, no s da sua ultima desobediencia, mas de todas aquellas que
tinha commettido durante annos; no s das que seus paes tinham
castigado, mas tambem d'aquellas, mais numerosas, que s Deus tinha
visto.

No seu arrependimento, o desgraado pequeno, pz-se de joelhos, e, com o
corao despedaado pelo desgosto, escreveu com grandes lettras:
Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!

O dia acabou de todo, e Adalberto foi de novo encolher-se sobre a sua
taboa com as costas para o tonel. Um silencio de morte deixava-lhe ouvir
a sua respirao desigual, e at os seus menores movimentos.

Um pouco mais tarde, a chuva comeou a cahir fra e o vento fez gemer as
faias que guarneciam o caminho deserto. A criana quasi desfallecida de
fome, de pena e de miseria, fechou os olhos, e, julgando que se chamava
morrer ao que sentia, abaixou a sua cabecinha e disse baixinho: Mam!




CAPITULO X

Adalberto hesitava.


Havia muito tempo que o filho da senhora de Valneige no se mexia, e que
julgava realmente as suas foras esgotadas. O relogio acabava de dar
oito horas. Como o co estava escuro e a tempestade agitava a natureza,
a estrella no appareceu, aquella estrella a que na vespera tinha
chamado Adilia; estava pois alli sem consolao, esperando, sem saber
mesmo o que esperava.

De repente, sentiu passos, depois a bulha de um vestido sobre o varo de
ferro que atravessava a fresta, e uma voz muito doce que dizia baixinho:

--Pequeno, ests ahi?

Bateu-lhe com fora o corao; levantou-se de uma vez, espantado da
fora que a emoo lhe dava; mas bem depressa julgou sonhar porque no
ouviu mais nada.

Cheio de anxiedade, escuta... Repetem baixinho:

--Pequeno, ests ahi?

--Sim, sim, estou, gritou Adalberto, tira-me d'aqui! tira-me d'aqui!

O prisioneiro acabava de reconhecer a voz de Gella, voz boa e doce
quando ella fallava baixo e amigavelmente. A rapariga tinha-se inclinado
sobre a fresta; uma luz fraca deixava vr debaixo a sua cabea, sem que
se podesse distinguir mais do que um vulto negro.

--Escuta, diz ella, eu trouxe uma escada de corda; vou atal-a ao varo
de ferro e tu vais subir. Uma vez c em cima eu te ajudarei a sahir.

Ao mesmo tempo Gella punha em pratica o que dizia; e Adalberto via
vagamente uma coisa que descia pela parede. No se assustou muito d'este
meio de salvao porque em Valneige mais de uma vez tinha feito esse
exercicio gymnastico.

Os seus dedos apalpando podiam j apanhar a escada de corda, quando
comeou entre elle e a filha do Saltimbanco, um dialogo que pintava a
luta horrorosa, do espirito contra as aspiraes da vida e da esperana.

--Menina Gella, se eu subir, vai levar-me para a casa do saltimbanco?

--Sim.

--Antes quero ficar.

--Mas, meu pobre pequeno, tu vais morrer de fome.

--Custa muito?

--Oh! se custa! muito!

--No importa, antes quero morrer.

Respondendo antes quero morrer, o desgraado tocava instinctivamente na
escada de corda, unica ligao entre elle e o mundo. Comtudo, por outro
lado, tinha to grande medo da vida que lhe iam dar, que, tentando um
ultimo esforo, foi pr-se de joelhos defronte da fresta, no sitio onde
a rapariga podesse talvez vl-o, e, estendendo-lhe os braos, como se
ella fosse a Providencia, disse-lhe:

--Oh! menina Gella, se eu subir deixe-me fugir pelo campo! Pode ser que
me tomem por um ladro e que me mettam n'uma priso, e ento terei de
comer. Mas, rogo-lhe, no me leve! Oh! no me leve! deixe-me fugir!

-- impossivel, meu pobre pequeno!

-- sim! ver que  possivel! Oh! no diga que no; supplico-lhe pelo
amor Deus!

Adalberto lembrou-se que no conheciam Deus na casa do saltimbanco.
Disse-lhe ento com ternura.

--Tenha d de mim, pelo amor d'aquelles que estima.

E, como ella no respondia, perguntou-lhe:

--Nunca gostou de ninguem?

--Palavra que no, disse bruscamente Gella; depois accrescentou com uma
voz cheia de meiguice: mas gosto de ti agora, de ti, meu pobre pequeno,
e deixei que me dessem pancadas para obter a promessa de que te no
fariam mal.

--Gosta de mim?

Immediatamente a criana cessou de chorar; pondo o p sobre o degrau da
escada subiu, e, quando sentiu as mos fortes de Gella tocar-lhe na
cabea, respirou mais livremente, porque tambem gostava da rapariga.

Ella, com o maior geito, ajudou os movimentos da criana, que, apoiando
as mos no varo de ferro e os ps na escada de corda, conseguiu, no
sem custo, sahir do subterraneo.

Quando se viu em p no cho, o seu primeiro pensamento foi lanar-se nos
braos d'essa rapariga esfarrapada que acabava de lhe salvar a vida.

--Ento, disse-lhe ella, j no tens medo de mim?

--Oh! no.

--Porque tinhas tu medo?

-- que eu no sabia se tinhas corao, disse ingenuamente Adalberto.

Gella, depois de um grande suspiro, respondeu:

--Ai, filho! no nosso modo de vida quasi no se sabe se o temos ou no.
O officio assim o quer; mas nada temas. Tomemos por este atalho. Podes
tu andar depressa?

--Oh! no! tenho muita fome!

-- verdade, j no me lembrava. Toma, aqui tens metade do meu po que
guardei para ti; come.

Adalberto precipitou-se sobre o po que lhe davam. O filho do senhor de
Valneige achou-se muito feliz por poder comer os sobejos d'uma pobre
danarina de feira. De mais, este po no era o po da miseria, era o
po da amizade. Quando chegaram ao campo, Gella viu que as pernas de
Adalberto fraquejavam.

A alma d'aquella rapariga: tinha-se revelado a si mesma pela compaixo;
pensou que sendo grande e forte, tanto quanto o seu protegido era
pequeno e delicado, podia poupar-lhe a extrema fadiga do caminho no
estado de fraqueza em que elle se achava.

N'esse momento, o vento abrandou, o co aclarou-se, e Gella viu que o
pequeno estava todo preto.

--Que tens tu, Mustaph?

Elle explicou-lhe o que tinha feito. Ella no se admirou; fra o desejo
de escapar a seu pae, a sua av, e ao seu modo de vida: pareceu-lhe bem
natural. Fez subir o pequeno para as suas costas e passando cada um dos
ps por baixo dos seus robustos braos, encaminhou-se para um grupo de
carvalhos, perto dos quaes estava parada, a carruagem. A distancia, era
grande, o caminho completamente deserto; puzeram-se a conversar com
aquelle abandono que nasce de repente das situaes extremas.

--Bem me parecia a mim, que tu estavas n'aquella adga. Porque no me
respondeste tu hontem quando eu te chamei? Julgavas-me ento muito m?

--No sabia o que havia de pensar; quando batiam em Natchs, no dizias
nada.

--Podra! isso succede tantas vezes, que j no se faz caso. E depois, 
to tolo, aquelle pobre pequeno! provoca pancadas que um outro saberia
evitar. Agora, que penso n'isto vejo bem que no  feliz. Mas, vs tu,
quando se  creado com pancadas no se faz caso das que levam os outros.

--Tem ar de bom, Natchs.

--Dize antes que tem ar de tolo. No comprehende, nada, a no ser uma
cambalhota. Quanto mais cresce mais tolo se torna.

--Menina Gella,  talvez porque ninguem gosta d'elle.

-- possivel; nunca tinha pensado n'isso.

--Tu, ouve, chama-me s Gella; no sabes que eu gosto de ti?

--Oh! sim! visto que lhe deram pancada por minha causa! que bondade! Mas
diga-me o que se passou quando viram que eu tinha fugido.

--Digo: o pae entrou furioso e disse-me que eu respondia por ti,
Mustaph.

--Oh! Gella, quer fazer-me um favor?

--Sim, mas qual?

--No me trate nunca por esse feio nome quando estivermos ss; diga como
diziam l em casa: Adalberto.

--Oh! meu filho, o que me pedes tu?  impossivel.

--Est bem, chame-me como ainda agora quando me dizia baixinho:
_Pequeno_, ests ahi?

--Pois sim. Dizia eu que o pae estava furioso. Poz-se a procurar pela
cidade; uma mulher fel-o parar e fallou-lhe do commissario de policia.
Elle ento disse que te avistava e safou-se. Quando nos juntmos, elle e
eu, sem te havermos achado, cahiu sobre mim e deu-me pancada! oh! mas
que pancadas! a tal ponto que eu, que tive sempre medo d'elle,
zanguei-me e resisti-lhe.

--Como! teve animo?

-- verdade, sentia-me fra de mim. Disse-lhe que estava bem contente de
te haver perdido, porque se era muito infeliz com elle, e accrescentei:
Sei onde elle est, mas no irei buscal-o com medo que o espanques. Se
elle fallar, tanto peior para ti. Elle tornou a praguejar e a
bater-me...

--Pobre Gella, tudo por amor de mim!

--E acabei por lhe gritar: Pois olha no has de tel-o, s se
prometteres no lhe bater se eu o trouxer. Ainda no sei como esta
palavra o acalmou; deixou de me maltratar e disse-me: Vai buscal-o, que
lhe no tocarei, e prohibo a me de o castigar.

--Oh! boa Gella! quanto lhe agradeo! Mas sabia ento que eu estava
n'aquella adga?

--Estava certa d'isso. Tive pena, mas pena como nunca tive de ninguem!
Dizia commigo: se o deixo ali dentro, que triste morte! e se o levo, que
triste vida!

--Gella, visto gostar de mim, porque me no deixa fugir?

--Oh! meu pobre pequeno! Toda a cidade est lerta por se ter perdido uma
criana. Se te escapas, far-te-ho perguntas, prendero meu pae, mas
antes de o levarem matar-me-ha elle, e sers o culpado. Queres fazer-me
mal?

--No, no, minha boa Gella, prommetto-lhe que hei de ter juizo,
respondeu affectuosamente Adalberto, que o reconhecimento j prendia 
sua protectora.

No disse mais nada; mas olhava de longe para uma lanterna, que dava uma
luz baa sobre os carvalhos. Era a da carruagem.

A uns cem passos de distancia, Gella poz o pequeno no cho e deu-lhe a
mo.

Elle no pensou mais em fugir. Que o Hercules fosse preso, e que elle,
Adalberto, fosse a causa, parecia-lhe uma desgraa bem pequena; mas
excitar a vingana de um homem como aquelle, e entregar  sua terrivel
colera Gella, que o salvra... que ingratido! Caminhava devagar ao p
d'ella dando dois passos em quanto ella dava um.

Quando chegaram poz-se a tremer; a boa rapariga apertou-lhe a mo e
socegou-o. Gella, era uma authoridade.

Tornando a tomar por natureza e tambem por calculo os seus modos
asperos, disse bruscamente:

--Aqui o tens, elle aqui est, o teu _pequenote_. Vamos, Mustaph, sobe,
avia-te.

Todos dormiam, excepto o homem de ferro que no disse palavra. A criana
morria de medo por tornar a entrar na carruagem; Gella seguio-a e a
porta da casa do saltimbanco fechou-se sobre elles.

Adalberto ousava apenas respirar.

Teve ento logar uma scena horrorosa, que se no pode descrever. A
colera do cigano, excitada pela falta de vigilancia de Gella, tinha
crescido de hora para hora; fez exploso. Tinha promettido no bater no
fugitivo, e cumpriu a palavra; mas o seu furor voltou-se contra a
filha. Por causa d'ella, eram obrigados a mudar por em quanto de
itinerario, e a tornar a passar o Rheno, afim de deixar socegar os
boatos que no deixariam de correr pela cidade. Palavras fortes e
entrecortadas sahiram primeiro dos seus beios contrahidos pela raiva,
depois Hercules deitou um olhar sobre Gella, que muito bem conhecia, e
que parecia o do tigre em frente da sua presa. Algumas palavras
imprudentes, que ella pronunciou, acabaram de o irritar, e cahindo sobre
a desgraada espancou-a!

Adalberto via-a sem defesa, prostrada no estreito corredor, gemendo,
pedindo perdo!... Inutil! o pae, fra-de-si, parecia ter-se esquecido
de que ella era sua filha, e querer dar cabo d'ella.

O pobre pequeno, estendia os braos para a sua victima, recebia algumas
vezes scos e pontaps, que eram destinados para ella, e ninguem se
mexia na casa do saltimbanco, a no ser a pobre Tilly que, apenas
coberta com a sua camisinha, acudiu chorando, de mos postas, como um
anjo de Deus por elle mandado para defender uma alma contra o demonio.
Quando ella appareceu, Adalberto julgou que a matariam, mas a
Providencia mandando-a havia-lhe dado do seu poder.

O Hercules, que tinha descarregado a sua colera, olhou para ella
envergonhado; proferindo a mais terrivel das suas blasphemias, sahiu e
foi sentar-se na almofada da carruagem. Alguns minutos depois, duas ou
tres chicotadas applicadas ao cavallo pozeram a caminho a casa do
saltimbanco. Era preciso passar depressa o Rheno.

[Ilustrao pg. 141. Cahiu sobre a desgraada e espancou-a. (Pag.
140.)]

Gella, pallida e quasi desfallecida, ficou estendida entre Adalberto e a
pequena Tilly; mas a velha chamou esta bruscamente e ella apressou-se a
obedecer. Quanto ao cativo ficou junto d'aquella que lhe tinha dito:
Gosto de ti, e julgou que ella ia morrer, porque o sangue corria,
pobre rapariga, e ensopava-lhe os seus cabellos d'ebano.

--Tu vs, disse-lhe ella baixinho, com os olhos sempre fechados, se te
fores, em quanto estiveres a meu cargo, elle matta-me!

N'este momento, diante de Gella e de Deus, o desgraado pequeno esqueceu
o seu paiz, a sua familia e a si proprio; viu s o sangue que corria por
amor d'elle, e, exaltado pelo duplo sentimento de uma devoo profunda e
de um igual reconhecimento, deitou-se aos ps da pobre rapariga e fez
este juramento:

-- Gella, eu juro que nunca mais fugirei, em quanto estiver a seu
cargo; dou-lhe a minha palavra de honra!

Gella abriu os seus grandes olhos cheios de lagrimas, as mais amargas
que se podem chorar n'este mundo, fitou-os nos olhos meigos do pequeno
de Valneige e respondeu apenas:

--Acredito-te.

A criana viu-a soffrer toda a noite. Lavou-lhe a cara magoada e os
cabellos ensanguentados; no sabia o que havia de imaginar para lhe
fazer bem, e dizia-lhe baixinho, muito baixinho: Coragem! porque ha um
co!

No dia seguinte, quando viu o Hercules, Adalberto sentia-se como
esmagado pelo seu juramento: era no s o prisioneiro d'esse homem
barbaro, mas ainda, e muito mais, o prisioneiro da amizade reconhecida.




CAPITULO XI

Adalberto tinha escripto o seu nome na parede.


Com a volta da primavera tinham-se aberto as taboinhas d'aquella casa
branca: e que singela e bonita ella era!

Vde como est feliz a familia que a habita, por tornar a achar-se
n'ella! Longe do bulicio das cidades parece um ninho entre as folhas.
No  a riqueza; no  tambem a pobreza. Pode viver-se alli socegado,
sem custar muito parecel-o. Felizes aquelles que se contentam com pouco!

D'este numero eram os tranquillos donos d'aquella pequena casa. Tinham
sido novos como toda a gente, mas j o no eram. N'elles o gosto pelo
campo era natural. O senhor e a senhora Deschamps tinham passado os seus
primeiros annos dizendo, a passear, mau grado seu, nas ruas de uma
grande cidade: quando os nossos filhos casarem iremos plantar as nossas
couves.

Ora, as crianas apenas comeavam a comer e ainda usavam touca. Foi
preciso esperar trinta annos.

Nunca se viu esposos que melhor se combinassem. O reciproco desejo da
felicidade tinha apagado as pequenas differenas, de modo que o senhor,
que detestava o crme de chocolate, tinha acabado por comer d'elle.
Ainda mais, a senhora, que antipathisava com os ces, supportava de boa
vontade o valente Tom, de que seu marido gostava.

O senhor e a senhora Deschamps dedicavam o inverno s suas filhas
casadas, vivendo como ellas e ajudando-as com os seus cuidados, os seus
conselhos e o seu amor. Chegado o vero, faziam dez leguas em diligencia
para o irem passar socegado na casa que um parente lhes tinha legado,
com um pequeno bosque cheio de sombra, um jardim cheio de flres, um
pequeno lago abundante de peixes, e por toda a parte sol, perfumes, o
campo, emfim, como elles d'antes sonhavam. O isolamento d'aquelle logar
era o seu maior encanto. Seria preciso dar duzentos passos, pelo menos,
para ouvir dizer mal d'alguem.

Todos se estimavam n'essa casa, a comear pelos donos d'ella. Eram
servidos por uma estimavel criada chamada Sophia, que justificava o seu
nome pela prudencia, ordem e economia que tinha em todas as coisas. No
se podia dizer se ella era cosinheira, criada de quarto, encarregada da
capoeira ou da dispensa. Dependia tudo das horas e das circumstancias.

Para simplificar chamavam-lhe a _governanta_ Seu marido, o honrado
Julio, era primeiro do que tudo jardineiro, depois varredor, criado,
n'uma palavra _factotum_. O pessoal da reduzia-se a isso: dois bons
_casaes_ em tudo.

Quando ao resto, havia Tom, excellente no fundo, mais corao do que
cabea; prendas ordinarias, mas uma fidelidade a toda a prova, e de uma
moderao!... Como debaixo d'aquellas telhas todos viviam aos pares e de
acordo; Tom, no vendo nenhum outro ente semelhante a elle, tinha
acabado,  falta de melhor, por gostar do gato. De mais, este era
recommendavel por muitas razes, bem criado, no arranhando, tendo o
roubo em horror, seguindo a sua pacata dona nas alamedas do jardim,
parando por amizade tantas vezes como ella, o que causava  querida
senhora um enternecimento quasi perpetuo.

Como tinham resolvido ser felizes, tirando da vida todo o partido
possivel, Sophia, que gostava de aves, tinha sobre a janella da cosinha
um pardal sem preteno, mas bom _rapaz_, o qual lhe fazia cortezias.
Comtudo, tendo-se notado que tomava ares de aborrecido, contra os usos
da casa, tinham-lhe comprado uma gaiola maior em que metteram um segundo
pardal, e ambos, desde esse dia, ficaram encantados um com o outro.

No pateo algumas gallinhas e um gallo para alegrar a habitao. Todas as
manhs ovos frescos que se comiam na casca, seguidos de uma chavena de
ch. A senhora tinha adoptado este costume inglez, porque o senhor o
achava bom.

Uma grande preocupao, era o cuidado no lago. O nome,  preciso convir,
era pomposo, mas emfim supportava-se para no se dizer o charco... Havia
n'elle um grande interesse para a senhora Deschamps. O seu querido
Raymundo tinha uma paixo, a menos buliosa de todas as paixes, mas
tambem a mais perseverante.

Talvez por este lado o vento da discordia tivesse soprado, se o ousasse;
no que a boa e affectuosa Sidonia pretendesse contrariar os gostos de
seu marido; longe d'isso; mas elle fazia tantas imprudencias!

Era preciso vl-o nos dias de chuva, durante quatro horas, os ps na
herva molhada o brao estendido como uma taboleta de loja, com a linha
de pesca dependurada e immovel, e tudo isto para pescar um pequenino
peixe para frigir.

--Eu bem sei, dizia a senhora Deschamps, que elle tem o seu capote
forte, que lhe puz, sem elle saber, palmilhas de cortia nos sapatos, e
que tem tamancos. Bem sei que se lhe no vem os olhos, nem as orelhas,
mas s um bocadinho do nariz; no importa; eu preferia, quando chove,
saber que est em casa a ler, a escrever ou a fazer as suas caixinhas:

E necessario dizer que o senhor Deschamps, para repousar dos trabalhos
sem fim da escripturao, entretinha-se com diversas obras de
marceneiro; tinha feito officina de uma casa terrea, e sua mulher
apressou-se a pr-lhe cortinas verdes para que a claridade no fosse
forte, e um pequeno fogo para quando a estao ia adiantada. Gostava de
ouvir o seu querido Raymundo aplainar; no seu gabinete no o incommodava
nem o sol, que poderia fazer-lhe mal  cabea, nem a humidade to
perniciosa para a sua garganta! Desejava nos dias de chuva, fechal-o 
chave n'este lugar agasalhado, dando sobre o jardim, e onde se podia bem
fabricar, sem se ser estorvado, cincoenta caixas a fio para metter umas
nas outras, e fazer a felicidade dos netos e dos sobrinhos.

Mas  l possivel dar boas razes aos amadores da pesca? Como est
decidido que os peixes, ao contrario de ns, passeiam de boa vontade
quando chove, o senhor Deschamps armava-se dos ps  cabea sempre que o
ceo estava escuro. Por condescendencia com sua mulher, consentia 
verdade em se abafar mais; _cache-nez_, leno de seda, gravata grande, e
chapeu baixo para coroar o edificio; mas ainda assim arranjava-se de
maneira que punha o chapeu  banda, como quem dizia: Que me importa!
No serei eu senhor de me molhar como uma sopa se quizer?

A senhora Deschamps, no interesse da paz, no fazia mais do que um
sermo respeitoso, depois do qual abandonava o marido  sua desgraada
sorte; mas, passando pela cosinha, olhava para Sophia com certo ar de
intelligencia, que teem entre si os filiados na mesma corporao.
Sophia, n'estes casos, no deixava de fazer uma cara de piedade, e de
dizer, pensando em Julio:

--Ai! minha senhora, no me falle em homens; no ha nada peior do que
elles!

Dito isto, pensava, descascando as cenouras, no que poderia dar a seu
marido pelas _amendoas_ ou no dia dos seus _annos_, em quanto que a
senhora Deschamps estendia sobre a cama do teimoso pescador roupa
branca, bom calado e fato de abafar, para que elle podesse mudar tudo
quando voltasse. Tinha notado que aquelle querido Raymundo, como todos
os Raymundos que se podem imaginar, pegava de melhor vontade na roupa
que lhe punham  mo, do que n'aquella que era preciso ir buscar ao
armario; portanto no se esquecia mesmo do leno d'assoar.

Julgam talvez que esta excellente senhora amaldioava o lago, que fazia
sombra  sua felicidade?

No, teria sido uma d'essas opposies vulgares, que se encontram em
toda a parte, e que dependem tanto d'um genio implicante como d'um
corao dedicado. A senhora Deschamps mandava limpar as proximidades
d'aquelle logar encantado; tinha ella mesma plantado um choro to alto
como ella, que em poucos annos,  fora de cuidados, tinha conseguido
crescer, engrossar e chorar como os outros, reflectindo na agua a sua
linda imagem, o que fazia um delicioso effeito na paizagem.

Todos os dias depois do jantar via-se a senhora Deschamps dirigir-se
para ao p da agua, e chamar com voz meiga os felizes habitantes
d'aquellas ondas. No porque elles lhe agradassem com o seu ar tolo e
seus olhos de peixe; mas era o prazer de seu marido, a sua distraco, e
bem innocente era! E por isso ella deitava invariavelmente na agua, 
mesma hora as migalhinhas que trazia de cima da meza, juntando-lhes, de
proposito, um bocado de po cortado para isso. D'isto resultava que os
peixes, sem saberem bem porque, fugiam do senhor que os procurava
sempre, e vinham ao encontro da senhora, que no gostava d'elles.

Pode fazer-se ida, depois d'esta pequena descripo, como a vida era
doce e agradavel n'aquella modesta habitao a que chamavam a casa
branca, porque effectivamente a sua brancura destacava na solido sobre
o fundo verde dos prados e sobre as diversas cres dos alamos e das
faias. Na verdade havia tanto tempo que a gente do sitio lhe dava esse
nome, que, se tivessem tido a lugubre ida de lhe pintar as quatro
frentes de preto,  provavel que se continuasse a chamar a _Casa
branca_.

O corpo e o espirito repousavam  vontade entre essas quatro paredes,
to chegadas umas s outras, e  sombra da pequena propriedade. Uma
criana, neto ou sobrinho, vinha muitas vezes alegrar a casa. Via-se
correr com Tom nas ruas do jardim, e nas do pomar, ora Francisco, ou
Victor, ora Genoveva ou qualquer outro. Convidava-se s um, o bastante
para dar vida e animao.

Dois ao mesmo tempo estonteariam toda aquella gente, que vivia to
socegada entre as couves e as ervilhas.

E a horta! que delicia! Ajudado por Julio, o senhor Deschamps revolvia
a terra a seu gosto como os filhos do lavrador de La Fontaine; os alhos
eram lindos, os espinafres soberbos; os rabanetes nasciam em toda a
parte onde se semeavam, e as alfaces mesmo onde se no semeavam. No era
grande a horta; duas ruas em cruz, cem passos ao todo; os sobrinhos
podiam dizer como a cantiga:


    Ha quatro canteiros
    No jardim de minha tia...

A alegria dos dois _casaes_ era em grande parte devida  horta. O
senhor dirigia e participava do trabalho de Julio, tendo cuidado, bem
entendido, de deixar a maior parte ao visinho; a senhora arrancava as
hervas mal sahiam da terra; e Sophia cortava tudo quanto podia para
metter na panella. D'este modo todos ficavam contentes com bem pouco.

Percebe-se que os felizes proprietarios vissem cada anno reapparecer o
mez de Maio com grande prazer. Este anno a senhora Deschamps tinha
arrumado e acondicionado da traa o seu fato de inverno com tanto
empenho, que parecia uma rapariga.  que o corao conserva-se muito
tempo novo quando a tempestade o no sacode, e est solidamente amarrado
a alguma margem bem tranquilla. A senhora Deschamps sabia que seu marido
passava melhor no campo, e, como recebia muitas vezes a visita de suas
filhas, em nada invejava a sua habitao de inverno. De mais a mais
tinha elle amigos na villa proxima, e podia bastantes vezes
offerecer-lhes um bom jantar ou uma pequena partida, ou ir com sua
mulher distrahir-se a casa d'elles. A feliz Sidonia, em vista d'este bem
estar, em que todos os annos seu marido se mergulhava, fazia com prazer
os seus preparativos de jornada.

Durante o inverno no ficava a linda casa abandonada. Um jardineiro
vinha de tempos a tempos arranjar os quatro canteiros, e semear tudo
quanto podia ser util para o governo da casa quando chegassem.

O senhor Deschamps tinha, duas ou tres vezes, o gosto de vir elle mesmo
indicar ao jardineiro o que tinha a fazer, e deitar uma vista d'olhos 
propriedade toda. Visitava n'esses dias a casa com um cuidado quasi
paternal, e demorava-se por condescendencia na sala de que sua mulher
tanto gostava.

Quando ali chegava nunca deixava de dar corda ao relogio. Este relogio
era o thesouro da senhora Deschamps; offerecido pelo marido no primeiro
anno de casados, era estimado no s como objecto d'arte, mas tambem
como uma lembrana. O seu timbre sonoro e puro resoava por toda a casa
at  adga. Representava a nobre me dos Gracchos animando seus filhos
a serem intrepidos romanos cheios de audacia e de valor.

A escolha d'este bello grupo de bronze era significativa. No se entrava
em duvida que a excellente senhora tivesse bastante fora moral para
preparar defensores da patria como a romana Cornelia; mas, no tendo
tido seno filhas, tinha feito d'ellas simplesmente tres mes de familia
bem dedicadas aos seus maridos e aos seus filhos. Todas ellas juntas
faziam de certo menos barulho que um heroe; mas valiam tanto como elle,
e sua me dizia que valiam tres vezes mais.

Estava-se a vinte e dois de Maro, dia escolhido n'esse anno para se
mudarem para o campo; todos chegaram, como de ordinario, de muito bom
humor. Mas que de coisas para fazer n'um dia de mudana! Repartia-se o
trabalho, e, de commum acordo, abandonava-se a Julio as teias de
aranha; havia muitas. Armado d'um vasculho partia para a expedio, e,
como outr'ora Attila, prostrava tudo quanto encontrava, com a differena
de que abria caminho  civilisao, representada por Sophia.

Esta, n'um vestuario proprio para a circumstancia, seguia seu marido
n'uma distancia respeitosa, e, quando estava certa de que o conquistador
tinha morto tudo, vinha com a sua vassoura e o seu esfrego, e s
retirava depois de ter posto tudo em ordem, mas um pouco toscamente,
como os fundadores dos imperios, que contam com os seus successores.

Effectivamente, vinha em terceiro logar a dona da casa, com o seu ar
tranquillo e sereno, imagem de um poder bem assente, que, sem barafunda,
melhora tudo em que toca. N'uma simplicidade de vestuario que o desejo
de parecer bem ao esposo impedia sempre de ser desengraada, a boa
Sidonia comeava a limpar as prateleiras, os vasos, as porcelanas, e a
espanejar os objectos frageis, sobretudo a pendula. Na verdade, quando
Julio, depois Sophia e depois a senhora tinham passado pela sala, o
feliz dono da casa no podia deixar de dizer, com ar de bem-aventurana:
Como se est bem aqui!

Julgava ento sua mulher ter conquistado o basto de marechal, porque
no imaginava maior satisfao do que a alegria do seu Raymundo.

Quando se acabou n'este primeiro dia a limpeza indispensavel, Sophia
comeou a pensar no jantar; e para fazer depressa um bom lume na chamin
da cosinha, dirigiu-se para a adga, com uma vla de cebo na mo para ir
buscar um pouco de carvo miudo e duas ou tres achas grossas.

Desce, entra, e o que ha de vr? Uma taboa ao p do tonel; o pouco
carvo que restava, espalhado por todos os lados, e, a dez passos de
distancia, uma fita doirada atada pelas pontas...

Vendo estes signaes da passagem de um individuo n'aquella adga to bem
fechada, Sophia experimentou uma sensao de medo, bem natural. Comtudo,
como no queria que seu marido tivesse motivo para fazer escarneo
d'ella, a cosinheira, vendo que no havia, no fim de contas, nem um gato
na adga, encheu-se d'uma coragem invencivel, e chamou com voz socegada
Julio e seus amos para lhes mostrar a sua descoberta.

Os homens admiraram-se; quanto  senhora Deschamps, sendo uma das suas
fraquezas o ter medo da sua propria sombra, aproveitou, por tanto, a
occasio. Todos quatro combinaram que o caso era muito extraordinario.

Comeou ento o capitulo das supposies; foi comprido e interessante.
Quando j no havia que dizer tornaram a subir, mesmo porque tudo isto
no fazia o jantar. Voltando-se, a senhora Deschamps notou algumas
palavras escritas com carvo na parede. Diz a historia, que o rei
Balthazar tremeu de medo, vendo uma mo mysteriosa traar sobre a parede
da sala do festim tres palavras, que elle no podia ler. A pobre Sidonia
teve, pelo menos, o espirito to perturbado como elle, lendo esses nomes
lanados no subterraneo como outras tantas exclamaes de afflico:

Pap! mam! Camilla! Eugenio! Frederico! Rosinha! Valneige!

O proprio senhor Deschamps ficou pensativo, e Julio, que tinha sido
soldado, no poude deixar de proferir dois ou tres palavres, que lhe
desculpavam nas grandes occasies. Quanto  cosinheira, abandonada de
todo pela sua philosophia, fez um enorme signal da cruz, dizendo que,
sem a menor duvida o diabo, tinha passado pela adga, e que ella nunca
mais l voltava.

--Vejamos, Sophia, disse com firmeza o dono da casa,  melhor pensar do
que ter medo, que  a ultima coisa que se deve fazer. Alguem veiu aqui,
no ha duvida; mas o diabo ataca as almas e no as garrafas vazias; e
no escreve nas paredes nomes, que attestam innocentes recordaes de
familia.

Sophia respirou um pouco melhor, porque tinha pelo senhor Deschamps um
verdadeiro respeito, fundado na discrio da sua opinio, quando se no
tratava da pesca.

Como era ella que pegava no candieiro, levantou-o, depois abaixou-o,
para acabar as descobertas, e apontou com o dedo para algumas palavras
que ainda no tinham visto.

--Ainda mais coisas escritas! Oh! leia, leia, minha querida senhora!

A senhora leu com profunda emoo.

--Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!

Mais abaixo havia ainda:

--Chamo-me Adalberto de Valneige... esta noite fao nove annos... tenho
fome!

 preciso ser me para comprehender o que sentia a boa senhora
Deschamps. Uma criana tinha estado fechada n'este subterraneo, s,
abandonada, tinha chorado, tinha tido fome.

Levantou a fita doirada e disse com uma profunda tristeza!

--Oh! meu Deus! quando penso que esta criana tem me!

E dizendo isto, a excellente senhora no poude conter o chro. Seu
marido pegou-lhe na mo:

--Vamos, vamos, socga, minha boa amiga, no te afflijas mais. Irei,
mesmo manh, a casa do commissario de policia, viro lavrar o auto, e,
se Deus quizer, chegaremos talvez a encontrar o rasto d'esse
desgraadinho.

--Meu querido Raymundo, eu guardo a fita, mostral-a-hei se for preciso,
mas no quero desfazer-me d'ella.

--Porque?

--Porque, vs tu, quando entregarem esta criana a sua me,
mandar-lhe-hei a fita. Pobre mulher! ha de conserval-a toda a vida como
uma lembrana.

--No muito alegre, accrescentou Sophia.

--Ah! Sophia! Voc nunca teve filhos!... Dir, como toda a gente, que
esta fita  triste  vista; mas, quando estiver ssinha, ha de olhar
para ella, ha de tocar-lhe. Oh! eu bem sei, o que ella ha de sentir.

Em quanto subiam todos juntos, o amor maternal despertou-se por tal
forma no corao da boa Sidonia, que comeou a scismar com verdadeira
inquietao na sua neta Genoveva que, quando passeava, ia sempre um
pouco longe de seus paes ou da sua mestra, no se lembrando seno de ir
atraz do arquinho.

-- preciso que eu escreva manh de manh  sua me, exclamou ella!
Deus meu! se furtassem aquella pequena!

D'este modo cada um se achou no vestibulo com uma ida differente, mas
as quatro idas tinham a mesma origem. Ao senhor Deschamps, como homem
pratico e escrupuloso, no se lhe tirava da ida o commissario, uma
busca, os agentes de policia, uma circular, algumas linhas nos jornaes,
e por fim dois ou tres artigos do codigo.

[Ilustrao pg. 159. Ainda mais coisas escritas. (Pag. 157.)]

A senhora Deschamps pensava na pena da pobre mam de Adalberto, e
agourava um desgosto igual para ella e suas filhas.

Sophia, muito consolada porque o demonio no tinha vindo  sua adga,
fazia teno de contar o caso durante toda a estao e fazer ler as
palavras mysteriosas a todos os seus conhecimentos; pensava mais que as
cebolas, que queria deitar no assado, no poderiam coser-se bem, porque
o acontecimento, a tinha demorado.

Julio, que sabia calcular, e que, n'outra posio social, teria sido um
bom mathematico, perguntava a si mesmo como demonio tinha feito o
rapazinho para sahir pela fresta. Entrar percebia-se, mas sahir! acabou
por achar a necessidade d'alguem o ter ajudado. Ao mesmo tempo, como era
cuidadoso, amaldioava o mofino rato que tinha roido a porta da adga,
e, sem nunca deixar de pensar em Adalberto, cuidava tambem em tapar
aquelle buraco e vr se quanto antes matava os ratos.




CAPITULO XII

Adalberto era o assumpto de todas as conversaes.


--Ora, at que emfim chegaram!

-- como diz, e trazemos o bom tempo.

--J tardava. Que inverno! Como choveu! Tinha as pernas encolhidas de
andar sobre o molhado.

--Fao ida.

--Que quer, senhora Juliana, quando se est no mundo  preciso aceitar o
tempo como Deus o manda.

--Vendeu bastante ao menos?

--Ora, _vossemec_ bem sabe, mas sempre mas. Em quanto as ha
vive-se. As violetas no renderam quasi nada; e agora ainda as coisas
vo peior.

--Ento porque?

--Porque a batata tempor j tarda.

--Ai! que preguiosa.

-- assim mesmo. Ah! mas tudo isto so pequenas miserias; ha outras no
mundo muito maiores, senhora Juliana.

--Oh! se ha! senhora Tourtebonne!

Este dialogo tinha lugar diante da casa branca. As duas mulheres estavam
de p ao lado da carreta. Viam-se, como todos os annos, com grande
prazer; era uma distraco encontrarem-se duas vezes por semana, sempre
no mesmo lugar. D'esta vez, desde o primeiro encontro, no se separaram.
Havia com certeza alguma coisa para dizer; e pode ser que fosse a mesma
coisa.

Cada uma pensava em contar a sua historia; a batata tempor, no se
prestando s confidencias, foi Sophia quem comeou, voltando  sua
primeira ida,  falta d'outra melhor.

-- verdade, eis-nos outra vez de volta... no me d cuidado; eu gosto
do campo. Aqui ha s uma coisa que aborrece,  a solido.

--No diga isso, senhora Juliana! a duzentos passos d'uma villasinha to
bonita!

--Mesmo por isso; se ns estivessemos a dez passos era melhor.

--Faz-me rir, senhora Juliana. _Vossemec_ no era medrosa.

--No era, mas sou agora.

--Queira desculpar, mas a razo vem com a idade. Ora diga, como quer que
entrem aqui? uma casa fechada que nem uma cidadella.

--Apesar d'isso, entraram.

--Pelo buraco da chave?

--No, pela fresta da adga.

--O que! _vossemec_ est a mangar; no cabe uma perna minha.

 preciso saber que a senhora Tourtebonne era gorda, mais do que o
ordinario, e quasi redonda, de modo que, para lhe caber uma perna n'uma
fresta, seria necessario fazel-a de proposito. Acostumada s suas
dimenses, no suppunha que alguem podesse penetrar por ali, e os medos
de Sophia pareciam-lhe destituidos de fundamento; a cosinheira, vendo-a
duvidar accrescentou:

--No me acredita? Pois bem, venha vr.

Dito isto, metteram no pateo a pequena carreta, e a tia Juliana,
acendendo a sua vla, conduziu  adga a tia Tourtebonne.

--Que felizes que so, disse a gorda creatura rindo s gargalhadas,
aquelles que cabem pela tal fresta! Eu mal passo pela escada! Como 
estreita! no tem mesmo geito nenhum! E a porta? Mas em que pensava o
architecto?

Indo s apalpadellas conforme podia, porque a vla quasi que no
allumiava, a tia Tourtebonne chegou  adga. Uma vez sobre o terreno,
Sophia contou, sem faltar nada, a scena do dia da chegada; o seu susto,
as taboas, o diabo e a fita doirada; o que tinha dito a senhora, o que
tinha dito o senhor, o que tinha dito Julio; e a vendedeira, quando o
seu espirito se achou sufficientemente preparado para uma grande
eommoo, foi convidada a voltar-se para a parede e a ler ella mesma as
palavras escritas com carvo.

[Ilustrao pg. 165. Mas, sempre mas. (Pag. 162.)]

Quando chegou a isto: Chamo-me Adalberto...

Parou de repente, e exclamou:

-- elle minha querida,  elle! Pobre pequeno, querido amorsinho! Ora
vejam! quem havia de dizer tal ha uns poucos de mezes! Oh! Senhor! 
possivel!...

A emoo foi to repentina, que a tia Tourtebonne recuou tres passos, e
por pouco no cahiu sobre as garrafas vazias.

--Tome cuidado! disse Sophia.

A estas palavras que revelavam um perigo, a boa mulher precipitou-se em
sentido contrario, e poz os seus enormes ps no p de carvo, que, no
tendo nunca sido pisado por um tal peso, saltou at ao avental branco da
vendedeira. Pois ella to aceada, to cuidadosa, no fez caso d'isso, e
repetiu tantas vezes:  elle!  elle! que Sophia julgou que ella tinha
endoidecido. Bem depressa viu que no era assim; a sua antiga conhecida
tirou o leno da algibeira, e enxugando os olhos, porque se enternecia
facilmente, contou como n'aquelle inverno, em novembro, um pequenito
loiro, d'uma apparencia delicada e fraca, lhe tinha escorregado dos
dedos; era a sua expresso favorita.

Em dez minutos Sophia soube tudo quanto era possivel saber-se, sem
faltar o olhar carregado do supposto pae, o seu horror pelo commissario
de policia, as palavras arrancadas ao senhor Baptista, que tinha sido
testemunha, e a declarao de ambos feita n'aquella mesma tarde.

Se o carrinho cheio de fructa no tivesse ficado l em cima, e se um
bom bocado de vitella sobre o lume no reclamasse os cuidados da
cosinheira, no se sabe quanto tempo as duas mulheres teriam ficado na
adga.

As supposies da tia Tourtebonne no tinham fim; a imaginao ajudando
o seu bom corao, rodeava a criana de chimeras; tinha chegado a
querer-lhe tanto que, com as intimas, chamava-lhe de boa vontade: o
_meu_ rapazinho.

Sophia tendo prevenido seus amos, estes interrogaram a tia Tourtebonne
com o mais vivo interesse. Felicissima por vr o negocio em boas mos,
disse tudo quanto sabia e mesmo mais. O senhor Deschamps viu nos seus
discursos, ainda que s acreditasse em metade, indicios de que poderia
tirar partido.

A senhora Deschamps sentiu redobrar a esperana, porque, depois da
descoberta, no tinha cessado de pensar no dia que reuniria a criana a
sua me. Ainda mais, acabou por sonhar acordada, o que era a maneira de
arranjar ella mesma as circumstancias para com mais facilidade chegar ao
desfecho.

 incrivel! apezar dos seus cincoenta e cinco annos e o seu glorioso
titulo de av, a boa Sidonia deixou-se assaltar por uma grande
quantidade de idas, de projectos, de _castellos no ar_, todos dedicados
ao _pequeno da adga_, como dizia Sophia. De todas estas coisas pouco
dizia a seu marido, que teria feito caoada d'ella; ora o corao tem as
suas criancices, e no gosta que o juizo d'outrem lh'as faa sentir. O
senhor Deschamps, to bom marido, no percebia absolutamente nada de
sonhos, de supposies e de commentarios; quando se achava n'outro sitio
que no fosse  borda do seu lago em dia de chuva, era positivo at ao
ultimo ponto; e por isso apreciava Julio, que tudo fazia com methodo.

De tempos a tempos queixava-se, sem se zangar, de que se fallava um
pouco de mais em Adalberto, e, se sua mulher entristecia, fazia-lhe
notar que uma s das suas indagaes, feita a tempo e a horas,
adiantaria mais os negocios que todos os discursos e todos os suspiros
que se podem imaginar: a isto a boa Sidonia, no achando que responder
puxava a agulha e fallava de outra coisa.




CAPITULO XIII

Adalberto tinha j passado dezoito mezes na casa do saltimbanco.


Longe do lar paterno crescia o querido exilado de Valneige. O habito,
suavisando a aspereza da sua nova existencia, dava-lhe uma especie de
consolao physica, mas o seu espirito e o seu corao revoltavam-se.

No perdia, comtudo, nem a esperana nem a coragem, e no esquecia que
muitas vezes seu pae tinha repetido diante d'elle, que a unica coisa que
torna um homem menos forte do que a desgraa  a falta de animo.

--Eu, pensava elle, sou um homem como o pap, excepto a idade e a
altura;  preciso ter coragem.

O querido pequeno, no meio de estranhos, vivia das suas recordaes de
familia, e o seu juizo, amadurecido pelo infortunio, fazia-lhe
comprehender tudo quanto havia bom e excellente em casa de seu pae. No
achava prazer algum na companhia do bom Natchs, que s tinha a
intelligencia necessaria para obedecer, e que, por este facto, era menos
desgraado do que parecia, porque no sentia o horror da sua situao.

Experimentava Adalberto um grande interesse pela pequena Tilly, to
fraca e doente. Tossindo quasi sempre, a delicadeza do seu peito teria
despertado a sollicitude d'uma me; mas Tilly no chegava a saber o que
era uma me. Como era bonita, geitosa e meiga quasi nunca tinham que a
reprehender; comtudo a velha furia, que governava a casa, achava ainda
pretextos para ralhos.

Se se preparava um espectaculo e a pobre criana estava com mau parecer
ralhavam-lhe. Por isso tinha ella todo o cuidado em esconder os
progressos do que ella chamava o seu _defluxo_. Esse defluxo era uma
indisposio geral, acompanhado muitas vezes d'alguma febre, e muitas
vezes de vontade de chorar sem saber bem porque. Era ento que dizia com
tristeza a Adalberto, sempre to compadecido d'ella:

--Tudo me de, mas, em mim, no importa.

As duas crianas raras vezes conversavam. Desde a sua fuga, Adalberto
era vigiado de perto, no s para evitar uma segunda tentativa, mas pelo
receio que o seu fallar ousado trahisse a irritao que a sua indignao
lhe causava. Comtudo soube que aquella interessante doente no tinha
lembrana alguma da sua primeira infancia, e que a casa do saltimbanco
era a unica habitao que conhecia. Ainda que nunca tivesse visto outra
casa repugnava-lhe por instincto tudo quanto ali se dizia e fazia. O seu
aspecto era d'uma outra origem, e ella propria o sentia to bem que
evitava quanto possivel de pedir qualquer coisa  velha Praxedes, tanto
lhe custava chamar-lhe _avsinha_. Esta querida criana ficou espantada,
quando viu no joven Valneige um corao doce mas energico, um espirito
que sabia dobrar-se sem servilismo. Nas suas raras conversas ensinou-lhe
Adalberto que ella tinha alma e que ha um Co.

--Acreditas que eu vou para o Co, perguntava ella ingenuamente?

--Sim, has de ir, porque a mam diz que se vai para l com certeza,
quando a vontade  boa, quando se no faz mal de proposito, e quando se
ama a Deus de todo o corao.

--Se eu o no amava, vs tu,  porque o no conhecia; mas, dize-me,
acreditas que  d'aqui a muito tempo, muito tempo, que eu hei de ir para
o Co?

--Essas coisas no se sabem.

--Pois eu penso que ser brevemente, por causa de meu defluxo. Quando
tusso doem-me as costas;  talvez a morte que chega, e depois o Co.

--Pode ser, no entendo d'isso.

D'este modo o pobre preso dava  doentinha as luzes que tinha recebido
de seus paes, e, quando ella queria testemunhar-lhe o seu affectuoso
reconhecimento, procurava um instante em que os outros estavam ausentes,
e repetia baixinho, muito baixinho ao seu amiguinho o seu verdadeiro
nome:

--Adalberto! Adalberto!

Para o exilado era uma grande felicidade. Quanto  brusca filha do
Hercules cada dia que passava, mais ella se prendia ao seu protegido; e
apezar de lhe fallar sempre em tom rude e breve, elle no podia duvidar
da sua bondade, e esforava-se por lhe testemunhar a sua gratido,
fazendo-lhe mil pequenos servios.

Quando, de longe em longe, os trabalhos da casa do saltimbanco, ou as
compras, isolavam um momento estes dois membros da companhia, Gella
cessava de ser rude, e tornava-se boa. Sentia que no seu corao
desabrochavam pensamentos delicados e uma sollicitude que tinha alguma
coisa do amor maternal. Em troca recebia mais do que dava; crescia
moralmente, e aprendia como Tilly que tinha alma e que ha um Co.

Na ingenua criana, no havia difficuldade em aprender; mas na morena
filha dos Ciganos, havia combate, e muitas vezes dizia:

--Olha, pequeno, no entendo muito de todas essas coisas; aprendi s a
trabalhar para comer e beber; tenho uma cabea rude. E, de mais, o que
sou eu? nada; vivo sem saber porque nem para que. Ora! elle no gosta de
mim, o teu Deus!

Adalberto respondia:

--A mam dizia que elle ama a toda a gente. No fazes tu parte d'essa
mesma gente? Oh! Querida Gella, elle conhece-te; sabe todos os nomes e
v todas as caras.

O bom rapazinho tinha tanta sinceridade d'alma, e na voz tanta meiguice,
que a pobre rapariga ficava s vezes meia convencida, e a sua miseria
moral humilhava-a diante do prisioneiro.

Havia algum tempo que Adalberto se admirava muito d'uma coisa, era do
desejo que Gella mostrava de aprender a escrever certas palavras, sempre
as mesmas. Estas palavras pareciam no ter entre si ligao alguma, e,
comtudo, Gella prestava-lhes uma ida seria, que tinha o cuidado de
esconder.

Muitas vezes, quando se achava s com o captivo, pegava n'um pau e
traava grosseiramente no cho as letras, cujo modelo elle lhe fazia.

--Mas para que so sempre as mesmas palavras? perguntava o pequeno
professor.

--Cala-te, meu mestre, respondia Gella rindo. Vejamos, faze-me escrever _o
oe_, _a a_, o que  preciso para escrever _pae... vs... eu..._ etc.
etc., c tenho as minhas razes.

O pequeno, sem perceber nada, traava com um paosinho estas palavras no
cho; depois a discipula experimentava copiar; o mestre dizia que estava
muito mal feito e apagava tudo com os ps. Estas lies mysteriosas eram
quasi sempre um divertimento para o pobre pequeno Valneige.

Em troca, Adalberto aprendia com Gella muitas coisas; era ella quem
todos os dias lhe fazia estudar o que chamava os _seus exercicios_, quer
dizer movimentos a compasso, saltos, curvas, passos de dana, tudo
quanto pde tornar o corpo flexivel. A criana tinha uma grande
facilidade em comprehender e executar; era um rapaz que dava esperanas,
dizia o mestre, deitando bem alto o fumo do seu grande cachimbo, o que
n'elle era indicio de um contentamento perfeito. Estas disposies
naturaes, juntas ao cuidado que elle tinha em satisfazer Gella,
fizeram-no adiantar depressa no unico estudo que exigiam d'elle, e em
pouco tempo poude figurar com vantagem nas representaes, nas grandes
feiras e nos espectaculos das cidades. Era um triste officio! Estar
vestido como um danarino de corda, dar cambalhotas, danar a polka,
saracotear-se at se estafar; e depois andar a pedir com a bandeja para
ganhar alguns vintens. E, comtudo, era o que tinha que fazer o pequeno
castello; mas, quando acabava de figurar, doa-lhe o corao e tinha
vontade de chorar. O seu vestuario, ainda que muito gracioso,
humilhava-o, e os applausos de toda aquella gente faziam-lhe vergonha.

Tinha sido educado em idas totalmente differentes; seus paes tinham por
principio que uma criana nunca deve occupar os outros com a sua pessoa;
que a boa educao consiste em responder quando se  interrogado, sem
nunca ser o primeiro a dirigir a palavra; em no fazer notar nem valer
as suas pequenas habilidades, seno quando positivamente lh'o
authorisem. Eis o systema adoptado em Valneige, e, apezar de Adalberto
ser estouvado, estes excellentes principios, tinham impresso traos
indeleveis no seu espirito. Por isso lhe era to penoso subir para o
palco diante d'um publico grosseiro, cujo ludibrio elle se tornava.

Natchs, ao contrario, nunca parecia to contente como nos dias das
grandes feiras. Estava  sua vontade vestido de palhao, e, como se
sahia muito bem das suas cambalhotas e caretas, o mestre provava-lhe
ordinariamente a sua satisfao por algum presente, como um boneco de
bolacha, ou um grande frito de ma; os dons da sua magnificencia nunca
iam mais longe, e Natchs era-lhe muito reconhecido. No levar pancadas
parecia-lhe j uma to feliz sorte, que o menor presente, junto a este
favor, tornava-se inapreciavel. Pobre de espirito, limitado por
natureza, acanhado ainda mais pela sujeio, parecia uma machina
bastante aperfeioada; mas nada revelava n'elle a vida intellectual. A
unica coisa que quebrava s vezes a monotonia da sua escravido, era da
sua parte ataques de teima que espantavam toda a companhia, e que se
terminavam, j se sabe, por pancadas. Estes ataques eram uma nova prova
da sua fraca intelligencia, porque,  sabido, a teima  o defeito dos
burros.

No se pde imaginar a agitao, a actividade dos saltimbancos nos dias
de grande espectaculo. O Hercules despia o velho casaco arruinado, e
enfiava uma camisola cr de carne e um vestuario de phantasia, que
provavelmente no se parecia nada com o de Hercules. Quando tinha
desembaraado e deitado para traz a espessa cabelleira, e que o fato
justo desenhava as formas colossaes do seu corpo, o homem da mo de
ferro no deixava de ter uma certa belleza selvagem. Esta belleza,
comtudo, no era nada sympathica; era a dos soberbos lees que todos
admiram, com a condio de uma grade de ferro os conservar a distancia.

Quanto a Karik, mascarava-se com o fato mais grotesco e no perdia com
isso.

O rapazinho, uma vez que comeava, obtinha do seu humor trivial uma
grande quantidade de graas ordinarias, qual d'ellas mais tola, que
mereciam grandes gargalhadas da multido. O pequeno Valneige acabava s
vezes por tambem rir, no dos ditos de Karik, os quaes a sua innocencia
no comprehendia, mas do espectaculo de tantas caras estupidas, que, de
bocca aberta, applaudiam as enormes tolices que lhe diziam, e que, ainda
em cima, pagavam um vintem.

A pequena Tilly parecia muito bonita quando figurava. A cabea coroada
de rosas, os braos ornados de braceletes, o pescoo rodeado de contas,
um corpo decotado, uma saia branca e doirada, muito curta, as meias cr
de carne, os sapatinhos azues claros, tal era o seu vestuario. Tinha
muita distinco natural, e a delicadeza da sua figura, junta ao encanto
do todo, enthusiasmava o mestre quando a via danar a polka com
Adalberto, em quanto que Karik e Natchs tocavam uma musica atroadora,
que no era seno grande barulho a compasso.

O final de todas as representaes, o mais lindo do programma, era a
dana de Gella. Quando ella apparecia com o seu vestuario de velludo
preto bordado de prata, que saudava o publico, e que os seus lindos
movimentos de braos attrahiam a multido e a juntavam de roda do
theatro, Adalberto no deixava de cahir em um espanto visinho da
admirao. Os cabellos pretos de Gella, entremeiados com flores de
romeira, cercavam-lhe o rosto moreno e os seus animados olhos lanavam
faiscas; havia o quer que fosse de imponente em toda a sua pessoa, e uma
grande bondade no seu sorriso. O seu aspecto era o de uma bella
hespanhola, e por isso lhe chamavam nos dias das festas populares:
Gella, a _Andaluza_. Tocava muito bem castanholas, e danava lindamente
a cachucha, produzindo grande enthusiasmo nos espectadores, que a
applaudiam com a voz e com o gesto, e algumas vezes mesmo lhe deitavam
flores. Adalberto contemplava-a com uma affectuosa surpresa, mas um
pouco envergonhado. Como lhe queria muito pela bondade que ella lhe
dedicava, teria querido vl-a sempre occupada com trabalhos de costura
ou da casa, em vez de servir assim de divertimento ao populacho
grosseiro, que no a respeitava.

O pequeno notava e com prazer, que, se acontecia Gella ter tido o que
chamavam _um triumpho_, no parecia mais feliz por isso. Pelo contrario
uma immensa fadiga lhe tolhia os membros; tornava-se semsabor, e muitas
vezes, depois de tornar a vestir os seus vestidos pobres, dizia a
Adalberto:

--Vs tu, meu pequeno, eu canso-me porque  o meu officio; mas se julgas
que me divirto enganas-te. Estimaria muito mais ser como tantas outras
mulheres, que vivem socegadamente em sua casa, sem andarem sempre d'um
lado para o outro para divertir a uma chusma de patetas, mais burros que
os proprios burros.

Exprimindo por esta forma nobres pensamentos na sua linguagem trivial, a
filha do Hercules suspirava; Adalberto agradecia-lhe esses pensamentos e
esse suspiro, e, ao affectuoso reconhecimento, que sentia por ella,
juntava uma verdadeira estima.

[Ilustrao pg. 181. Danava lindamente. (Pag. 179).]




CAPITULO XIV

Adalberto teria sido o decimo quarto.


Os passarinhos continuavam cantando nas alamedas perfumadas de Valneige;
s elles no estavam tristes, porque no tinham conhecido Adalberto.
Valneige era um sitio encantador. A natureza tinha revestido as cores
variadas da primavera. A agua corria sempre, mas sem se precipitar. Um
bello sol doirava os campos, e os cordeirinhos saltavam nos prados,
contentes de vr suas mes, e de respirar uma suave frescura.

As mil occupaes de uma grande explorao punham em movimento todos da
quinta. Iam, vinham, lavravam e semeavam; era ainda o trabalho e a
esperana da proxima colheita que preparavam de longe.

O anno devia ser bom, e por isso havia alegria; mas no palacio, que
differena entre a alegria socegada de outrora e a vida anciosa e
triste, que presentemente havia.

Aquelles dezoito mezes tinham mudado tudo; os rapazes estavam no
collegio, e Camilla tornara-se uma senhora, fiel companheira de sua me.
No fim das ferias da Paschoa achavam-se reunidos todos os membros da
familia por alguns dias. Tinha-se feito a diligencia de tornar este
tempo o mais agradavel possivel, a fim de Eugenio e Frederico gozarem 
sua vontade da casa paterna e levarem d'ella uma grata recordao.

A senhora de Valneige sabia bem que as crianas no supportam a
tristeza; que na sua idade o espirito  muito inconstante e o corao
muito pouco formado, para no necessitarem uma grande distraco.

Tinha-se pois occupado em lhes proporcionar todos os divertimentos, que
podem haver no campo, como passeios a p e de carruagem, jantares sobre
a relva etc. Tinham installado um _tiro_ no parque para se exercitarem,
e era uma especie de concurso, porque havia um premio. A este premio
juntava-se o encanto d'um grande mysterio.

Ninguem, excepto a senhora de Valneige, tinha visto o objecto em
questo; no se sabia o nome nem a forma d'elle e passava-se o tempo a
dizer:

--Mas o que ser?...

O senhor de Valneige admirava a coragem de sua mulher, que fingia muitas
vezes haver-se esquecido, para que os estudantes podessem gozar as
ferias sem o menor cuidado. No que elle tivesse menos boas intenes do
que a meiga e paciente Adilia; mas desde a desappario de seu filho, a
sua debil saude paralysava-lhe os esforos, e bem contra a sua vontade a
inquietao matava-o. Tinha escripto uma grande quantidade de cartas,
feito numerosas viagens; nada o tirava d'uma duvida mortal. Cahindo
n'uma especie de marasmo, fallava pouco, gostava de estar s, e nunca
pronunciava o querido nome de Adalberto. Os outros, respeitando a sua
dr concentrada, evitavam tambem pronunciar este nome, excepto a velha
Rosinha, que no se podia conter e que fallava quanto podia do seu muito
querido pequeno. Mesmo quando estava s, a boa mulher murmurava,
continuando a fazer meia, que parecia no acabar nunca:

--E pensar que se aquelle feio rapaz tivesse obedecido nada disto teria
succedido! Uma criana no conhece o perigo;  a obediencia que o livra
de todos os males.

Em quanto os coraes dedicados ao exilado soffriam d'estes tormentos,
as ferias io andando o seu caminho. Nada as fazia parar; ainda mais
dois dias e era preciso que Frederico e Eugenio entrassem para o
collegio. Apezar de fallarem pouco n'isso, no deixavam de pensar muito;
no porque temessem o estudo como rapazes preguiosos, que querem passar
o tempo sem fazer nada; pelo contrario, queriam ser homens e
entregavam-se de boa vontade aos trabalhos intellectuaes, que a
sociedade exige d'aquelles que a ho de governar um dia. Sentiam tambem
quanto  vantajosa a convivencia e a sem ceremonia das relaes, que
estabelecem entre camaradas a semelhana das idades e a vida em commum.
Emfim consolavam-se dos aborrecimentos do collegio pelas brincadeiras s
horas do recreio, cujos encantos so bem conhecidos, apezar das nodoas
negras que em geral se seguem.

S dois dias! Era preciso aproveital-os. Estavam mais vezes ao p de sua
extremosa me, olhavam mais para ella para levarem a sua imagem bem
gravada n'essa memoria do corao, que acompanha nos estudos as crianas
affectuosas.

--Vejamos, disse a senhora de Valneige ao almoo, chegou o momento de
conferir ao vencedor o premio mysterioso.

--Que felicidade! exclamavam os pequenos, e Camilla tambem, por amor
fraternal.

--No quero esperar pelo ultimo dia. Ainda que saibam partir de bom
humor como rapazes de juizo, conheo que o corao deve estar muito
opprimido para gozar francamente de qualquer coisa.

--Tem muita razo, minha querida mam. E Frederico e Eugenio abraavam
sua me, que, vendo-se assim presa, disse com o seu mais amavel sorriso:

-- manh ao jantar,  sobremeza que eu hei de dar os premios.

--Como, os premios!

--Sim, os premios. Ambos luctaram admiravelmente e com igual destreza. O
pap fez a conta dos tiros; um de vocs tem vantagem, mas o outro
segue-o de to perto, que, na verdade, no posso deixal-os partir sem
lhes dar um testemunho honroso. Tero, pois, um primeiro premio, e um
segundo premio, alguns condiscipulos, um bom jantar e vinho de
Champagne!...

Ao ouvirem isto romperam em palmas e gritos de alegria. Uma festa em
Valneige! Havia dezoito mezes era a primeira vez que Frederico e Eugenio
viam preparar um divertimento, que se parecesse com os que havia
d'antes. Divertiam-se, mas sempre uns com os outros.

D'esta vez tratava-se de convites, que queria dizer tres amigos da
visinhana: Paulo, Eduardo e Christiano. Estes tres eram os mais
intimos, e eram optimos rapazes! Riam muito, o que  uma grande coisa!
Estes sujeitinhos s comprehendiam perfeitamente uma phrase que nos vem
dos antigos: para manh os negocios srios.

Vinham pois  festa; e os paes tambem; haveria um grande jantar; a
palavra _grande_ queria dizer n'este caso muitas pessoas amigas de roda
de uma meza perfeitamente servida. Quanto  etiqueta,  frieza, e aos
outros attributos dos verdadeiros jantares grandes eram coisas que no
se davam em Valneige onde se conversava, como dizia Rosinha, com o
corao nas mos.

No dia seguinte passaram-se mil scenas alegres e animadas no parque. Os
visinhos tinham mandado logo de manh Paulo, Eduardo e Christiano.
Cinco, eram mais do que o bastante para fazerem coisas do arco da velha.
Ao principio Rosinha tentou intervir, fazendo algumas pequenas
recommendaes, e prevenindo as quedas e os estragos, mas era o mesmo
que prgar no deserto, e Rosinha comprehendeu-o tanto que tratou de
retirar-se com uma certa dignidade. Da copa fez uma especie de
entrincheiramento d'onde no se via o inimigo, o que podia talvez
fazel-o esquecer. Pegando na celebre e obrigada meia comeou a trabalhar
com furor e sem descanso. Os rapazes puzeram Filippe do seu partido para
facilitar as brincadeiras, e como o amo tinha passado palavra ao
cocheiro este foi de uma condescendencia a toda a prova. Deixou
apparelhar o cavallo preto e permittiu que dessem a volta do parque,
sendo Frederico o cocheiro, Eugenio o lacaio e indo tres _senhores_
dentro da carruagem. Seguiram-se a esta outras invenes. Filippe estava
de pachorra e organisou um passeio de bote; grande divertimento! com a
condio dos rapazinhos lhe darem bastante authoridade para poder
impedir que fossem todos para o fundo.

[Ilustrao pg. 189. Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)]

Estes divertimentos, interrompidos s por um bom _luncheon_, duraram at
s cinco horas. Chegaram ento de carruagem os paes dos tres
condiscipulos. O senhor e a senhora de Valneige receberam-nos com
affabilidade, e s seis horas entraram na casa de jantar treze pessoas.

Serviu-se o jantar; os creados estavam contentes de tornar a vr alguma
animao no palacio, e tudo se passou alegremente. Houve, porm, um
momento, em que a senhora de Valneige no poude vencer a sua emoo.
Eduardo exclamou de repente:

--Olhem!  exquisito, somos treze; ha pessoas que tem agouro com
jantares de treze:

--No tem razo, porque se est muito bem, palavra! respondeu Paulo
rindo.

O senhor de Valneige, que no perdia nunca occasio de esclarecer o
espirito de seus filhos, disse algumas palavras sobre esta fraqueza.

--Mas, pap, perguntou Eugenio, d'onde vir uma tal superstio?

-- provavel, meu filho, que venha da ca de quinta feira santa em que,
entre treze pessoas, havia um traidor, que causou a morte do Justo por
excellencia.  possivel que um duplo sentimento de respeito pela
Divindade e de horror por Judas fizesse evitar no comeo do
Christianismo os jantares festivos de treze pessoas; mas o que ha muito
tempo substitue este sentimento puro e religioso  uma crena absurda,
que faz depender de um numero a vida de um homem, como se Deus no
esperasse para nos chamar a si a hora que elle mesmo marcou. Em muitas
pessoas,  verdade, este prejuizo no  mais do que uma imitao, uma
recordao de criana, uma fraqueza inexplicavel.  preciso evitar-lhes
uma ida desagradavel como se evita s pessoas nervosas um susto, que se
sabe no ter fundamento. Demais, se ns lhe no ligamos hoje importancia
alguma,  que nenhum de ns receia o famoso numero treze, que faz
effectivamente mais barulho do que mal.

Um signal de approvao respondeu s palavras do senhor de Valneige que
accrescentou com meiguice.

--Quanto a minha mulher, to docil  em crenas religiosas, como a acho
superior a supersties populares. No  assim Adilia? Confessa que nem
sequer notaste o numero treze.

--Enganas-te, meu amigo,  a primeira vez que dou por elle.

--E porque, dize?

A senhora de Valneige, to tranquilla sempre, perturbou-se;
arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e, sem olhar para seu marido,
como, que lhe escapou esta resposta:

--Porque elle teria sido o decimo quarto!

Um profundo suspiro acolheu estas palavras, e o infeliz pae cahiu n'um
triste silencio. Sua esposa ficou afflictissima por ter deixado perceber
n'esta circumstancia o continuo pensamento de seu corao; mas no podia
remediar o que tinha dito, o effeito estava produzido; e, sem as
crianas, que se animaram a dizer alguma coisa alheia ao assumpto, o
jantar teria sido triste at ao fim. E era sobretudo o fim que mais
interessava a rapaziada; suspirava-se pela sobremeza.

Eil-a! Os prados de fructa, de dces, de bolos servem-se de roda, e de
uma bandeja guarnecida de flres pelas mos de Camilla a senhora de
Valneige tira o primeiro premio destinado a Frederico. E uma caixa
contendo um relogio de prata com cada e chave,  o seu primeiro
relogio! Todos nos lembramos da impresso produzida pelo nosso primeiro
relogio, para todos  a mesma. Examina-se por todos os lados, toca-se,
abre-se, fecha-se, ouve-se. Estes cinco movimentos so inevitaveis:
Frederico fel-os uns atraz dos outros, como toda a gente. O que o
encantava era levar o seu relogio para o collegio e mostral-o todas as
tardes. Um relogio no collegio! que dita! Ah! que felicidade que haja
relojoeiros!

Quando Frederico acabou de vr o relogio e de o agradecer  sua mam,
tratou-se do segundo premio, porque Eugenio estava j achando os
preleminares um pouco demorados. Era o segundo premio um _porte-monaie_
bem solido e muito bem recheado de dinheiro em prata. Eugenio
animadissimo dispz-se a contal-o, mas tres vezes se enganou, to vivas
so as emoes dos capitalistas. Viram os outros melhor na bolsa alheia,
e concordaram em que Eugenio era possuidor de vinte francos.

Todos partilharam sinceramente a alegria das crianas, e at seu pae
sahiu da seriedade em que tinha cahido. De repente, e quando uma
conversao animada demorava  meza to intima sociedade, eis que a
velha Rosinha se precipita na sala do jantar, levada por um pensamento
que lhe faz esquecer todas as ceremonias.

--Desculpe-me, senhor, disse ella vivamente, o carteiro veio ha pouco e
deixou para o senhor uma carta que pz sobre o buffete n'um cantinho,
entre o candieiro e a rolha do frasco da conserva. Parece que bebeu de
mais, o que  bem ridiculo para um carteiro! Tem uma lettra to
exquisita, a carta. No ser isto d'alguem que nos d noticias do
pequenino?

O senhor de Valneige, muito impressionado pela perturbao da boa velha,
tirou-lhe das mos a carta mal dobrada, escripta em papel ordinario com
uma especie de tinta vermelha apenas legivel, sem ordem, nem
orthographia.

A senhora de Valneige ficou immovel, os convidados estavam anciosos e
Rosinha esperou de bocca aberta.

O senhor de Valneige leu em alta voz:

_O seu pequeno est bem sou eu que sou a filha do homem que o tem se me
do a sua palavra de honra que no fazem mal a meu pae eu o
entregarei.--resposta para o correio a M. XXX em Nantua._




CAPITULO XV

Adalberto ficou sabendo porque Gella escrevia na areia.


Um dia de manh tinham mandado Gella fazer compras a Nantua, porque era
perto d'esta cidade que estavam ento acampados.

O pequeno Mustaph acompanhava a rapariga para ajudar a trazer as
provises. O unico prazer que tinha na vida era de longe em longe um
passeio com Gella. N'esse dia,  volta, e em quanto caminhava junto
d'ella, disse-lhe a sua protectora:

--Olha, tomemos este atalho, d'onde se no v a carruagem, e vamos-nos
sentar um instante; tenho uma coisa para te dizer.

--O que , minha boa Gella?

--Oh! grandes negocios; mas primeiro vais prometter-me no dizer palavra
da nossa conversa.

--Ah! Gella, no tenha medo. Para que ha de desconfiar de mim? Posso eu
fazer-lhe mal? E no v que ha seis mezes, que no tento fugir, com medo
que seu pae se enfurea comsigo?

--s muito bom rapaz, bem sei. Ouve: tu no podes viver assim,  preciso
acabar com isto. Tenho muita pena quando penso que tens pap, mam, uma
casa, e que podias ser feliz.

--Eu tambem tenho pena, mas o que hei de fazer, se gosto da minha Gella?
Ir-me-hia embora, acredite, se no fosse o receio de lhe fazer levar
pancadas, e sabe Deus o que mais!

--Pois bem, tudo se ha de arranjar; vou dizer-te o meu segredo.

--Um segredo?

--Sim, um grande segredo. Eu escrevi a teu pae.

--A meu pae? para que?

--Para lhe pedir uma coisa. Lembras-te de eu te dizer uma tarde: meu
pequeno, sabes tu o que quer dizer palavra de honra?

--Sim, lembro-me. Eu disse que era muito feio dar palavra de honra e
faltar; que um dia em Valneige o pap tinha ralhado com Frederico, por
me ter dado a sua palavra de honra de que no faria trapaa ao jogo da
bola e tel-a feito. O pap zangou-se muito e disse a meu irmo: Bem se
v que no sabes o que  palavra de honra; quando um homem honrado a d,
est compromettido solemnemente. Se quando fores homem, te acontecer
faltar  tua palavra, no te chamarei mais meu filho. D'aqui at l,
responde sim ou no,  quanto basta.

--Conheo essa historia, j m'a contaste e disse commigo n'esse dia:
Visto que se educam to bem as crianas em Valneige,  porque  boa
gente; quando dizem sim  sim, quando dizem no  no.

--Oh! de certo, l em casa  assim. Ninguem mente. Mas, diga-me, o que
escreveu ao pap?

Gella hesitou um pouco, depois olhou com bondade para a criana e com um
tom grave respondeu-lhe:

--Pedi-lhe a sua palavra de honra de que no faria mal a meu pae; elle
deu-m'a e ento eu n'uma segunda carta, indiquei-lhe as festas a que
havemos de ir, afim d'elle te procurar quando andares pedindo.

--Como! fez isso?

-- verdade. Fizeste-me doer o corao com tudo quanto me tens dito de
tua mam, que faz tanto bem, e d'aquella igreja onde tua irm, toda de
branco, fez a sua primeira communho. Queres saber? s vezes chorava de
noite e dizia commigo: pois tu, desgraada, vais deixar este innocente
n'um sitio onde elle v s o mal, podendo salval-o com uma palavra?

--Que boa que , minha querida Gella! tornarei ento a vr meus paes?

--Sim, has de vl-os, meu pequeno.

--Mas a Gella o que ha de fazer para no a matarem? Dizia...

--Eu no corro risco, do momento em que te levarem, quando me no
estiveres confiado, no meio de muita gente, por exemplo n'um dia de
representao. No importa, se fiz o que fiz  porque tenho confiana em
ti e na palavra do senhor de Valneige. Bem sabes, um pae sempre  pae. O
meu  aspero,  verdade, no me faz feliz; mas apezar disso se gosta
d'alguem n'este mundo  de mim.

--Deveras? disse Adalberto espantado, porque no podia comprehender, que
aquelle homem amasse alguem.

--Admiras-te? Pois ha quatro annos estive eu doente, bem doente, e elle
estava como doido, e um dia, talvez no acredites, sentado ao p da
minha cama, vi-o chorar.

--Est fallando srio?!

-- a pura verdade. Ha muitos homens assim na nossa gente. So mos,
tem comtudo um lado bom. Mas, disse eu commigo, se previno aquelle
senhor, quando elle encontrar seu filho manda prender meu pae, que ser
julgado, condemnado, mandal-o-ho para os trabalhos forados, ssinho,
desgraado, e, se fr eu a causa, morro de certo! Tem-me dado muitas
vezes pancadas,  verdade, mas foi elle quem me deu de comer quando eu
era pequena, que me livrou dos mos, e emfim  meu pae! Mas agora, que
eu tenho a palavra de honra do senhor de Valneige, no receio nada.

--Oh! no; no receie! Meu pae no a atraia! Oh! como estou contente!
Nem sei o que digo, parece que at me falta o ar.

--Pobre pequeno, ainda bem que posso proteger-te! Fizeste-me grandes
servios; sem ti ignorava que houvesse um Co, nunca m'o tinham dito, e
do teu Deus nunca me tinham fallado.

--Agora, que Gella o conhece, pde bem servil-o.

--Como queres tu que eu o sirva aqui? Emfim,  talvez servil-o
separar-me de ti para sempre. Se tu me esquecers quando fores feliz?

--Nunca, disse a criana, olhando para a pobre rapariga. Hei de fallar
de Gella  mam que tambem lhe ha de querer muito.

--Obrigado, meu pequeno, obrigado! ai! quando tu te fres embora, meu
Deus! meu Deus!...

Dizendo isto, Gella olhava para o Co, como se comeasse a comprehender
a vontade de Deus, e a criana viu duas grandes lagrimas, que lhe
desciam pelas faces. Era a primeira vez que chorava na sua presena.
Diante da commoo d'esta natureza to rude e forte, sentiu-se
profundamente enternecido. Ambos estavam sentados sobre a relva no meio
de uma grande planicie, onde tudo era socego e silencio. O pequeno
pensava no seu pap, na sua mam, nos seus irmos e irms e to
commovido estava que no podia dizer nada. Ella tambem desejava fallar;
mas no sabendo como se havia de exprimir, ousou pela primeira vez
pronunciar, diante de Deus e longe dos homens, o nome do prisioneiro e
repetiu duas vezes baixinho, como a pequena Tilly: Adalberto! Adalberto!

--Oh! que felicidade! disse o meu nome!

--Querido pequeno, bem cedo ser tua me quem t'o dir.

--Bem cedo?

--Espero que sim. Fiz o que pude; agora teus paes que faam o resto.
Tem as necessarias indicaes para te encontrarem.

--Mas como poude escrever-lhes? No vejo na carruagem tinta nem penas.

--Ora!  bem facil. Comecei por guardar cuidadosamente um bocado de
papel branco, em que um logista tinha embrulhado a fita escarlate para o
meu corpete de velludo preto; depois cortei em bico um bocadinho de pu
para fazer de penna; mas para ter tinta  que eu no sabia como havia de
ser. A tinta faz nodoas, teriam desconfiado d'alguma coisa. Achei que o
melhor meio, era fazer um golpesinho no dedo e escrever com o meu
sangue.

--Pobre Gella! fez-lhe muito mal?

--Que importa! Escrevi como pude, tudo errado, j se sabe, mas o teu pae
poude ler porque me respondeu no dia seguinte.

--Oh! mostre-me a sua carta! s a letra.

--No percebes que j a queimei?

--Ah!  verdade. Se a achassem, que desgraa! E como era o sobrescripto?

--Isso era a grande difficuldade. Sabia que meu pae ia s vezes buscar
cartas ao correio, e que estas cartas nem sempre tinham o seu nome, mas
certos signaes combinados; decidi-me por este meio e consegui. Ah! mas
para ir buscar a resposta ao correio de Nantua que trabalho! emfim
fez-se.

Agora  esperar.

--Como eu hei de ser obediente quando voltar para Valneige!

--Espero que sim. Teus paes s te davam bons conselhos,  preciso
seguil-os. Has de dizer  tua mam, que sempre te aconselhei bem. Oh!
no lhe deixes suppr que eu sou m rapariga.

--Oh! socegue!

Como o tempo ia passando, Gella poz-se a caminho e apressou o passo.
Quando se aproximou, com o seu pequeno companheiro da casa do
saltimbanco, ouviu uma grande questo entre o Hercules e o seu filho,
que, exagerando os principios recebidos, se tinha fartado de mentir e de
roubar, abrindo furtivamente a gaveta em que seu pae mettia o dinheiro;
a disputa era grande; pragas, blasphemias, pancadas, nada faltava.

[Ilustrao pg. 203. Era fazer um golpesinho no dedo. (Pag. 202.)]

Entrando para a carruagem Adalberto sentiu-se desesperado. A sua sorte
pareceu-lhe ento mais horrorosa, comparando-a com as dces imagens que
a esperana lhe tinha feito conceber. Com receio de se achar envolvido
n'esta ignobil scena foi sentar-se sem dizer palavra n'um velho banco,
perto da porta, e Gella, que comeava a ser boa para todos, esforou-se
por apaziguar seu pae e por afastar a velha Praxedes, que se regalava em
o irritar com os seus ditos.

Quando a zanga no era excitada pela propria filha, o Hercules
deixava-lhe s vezes bastante poder para pacificar a todos.  que a
rapariga era como um raio de sol n'estas trevas moraes, em que todos se
agitavam. Seu pae,  verdade, era capaz de tudo em um momento de colera,
mas gostava d'ella a seu modo, como ella dizia, e a sua bella Andaluza,
como elle lhe chamava nos seus raros momentos de bom humor, era o anjo
bom d'aquelle corao semi-barbaro.




CAPITULO XVI

Adalberto estava ali.


Que lindo tempo! nem uma nuvem no Co! um perfeito dia de primavera!

Josephina, bonita alsacianna de treze para quatorze annos, tinha acabado
de se enfeitar e de se pentear com muita pommada. Estava contentissima,
fazendo tenir na algibeira a sua pequena fortuna de tres tostes, e
esperando  porta que os seus amigos passassem e a levassem como se
tinha ajustado. Estes amigos eram a tia Tourtebonne e o senhor Baptista;
iam  feira de M...

O tempo corria, e a rapariguinha no deixava de estar inquieta, vendo
demorar-se um prazer ha tanto tempo esperado.  que a tia Tourtebonne, a
quem seus paes a confiavam era a exactido em pessoa, e, por fora,
alguma circumstancia independente da sua vontade a demorava.
Effectivamente no se enganou; eis o que tinha succedido.

Deve primeiro saber-se, que a feira de M... occupava muito o pensamento
da tia Tourtebonne. Havia mais de quarenta annos que se no lembrava de
faltar a ella uma s vez. Fazia negocios todo o anno, mas esta feira,
que durava tres dias, achava-a invariavelmente em optima disposio de
espirito. Fazia teno de se divertir, e por isso se divertia muito. Era
um d'esses genios felizes que qualquer coisa distrahe, que ri porque os
outros riem, que est contente porque os outros esto contentes.

Todos os annos combinava com alguns visinhos irem na mesma carruagem,
porque o logar da festa ficava distante dez kilometros. Este anno tinha
um excellente meio de transporte; a carroa do senhor Baptista. Ia-se
bem saccudido,  verdade, e a velha Manon no deixava de tropear, mas
afinal chegava-se. O bom do homem, que no tinha nada de divertido, ia
simplesmente  feira no interesse dos seus queijos e dos seus arenques,
esperando encontrar algum rendeiro rico com quem podesse travar
relaes. Este anno, coitado! ia sobretudo porque havia tres semanas que
tinha insupportaveis dres de dentes, que o no deixavam dormir, e
porque lhe asseguravam que um certo dentista, bem conhecido na feira de
M..., os arrancava _sem dr_. Estas palavras tem um poder magico sobre
o espirito dos camponezes; mas o pobre homem, que de certo ainda no
tinha adquirido a elegancia das cidades, tinha comtudo perdido um pouco
da sua simplicidade nativa no trato dos cidados. Por isso no
acreditava seno metade no prodigioso talento de que lhe fallavam.

Em consequencia d'esta falta de f, demorava a partida de minuto para
minuto, achando que era sempre cedo para apparelhar, que o seu relogio
se adiantava, que era preciso deixar comer a egoa; depois porque ella
tinha sede... Ora, o que querem? os outros iam divertir-se, e elle, no
fim de contas, ia a casa do dentista, o que todos ns sabemos no ser
caso de pressa.

Josephina, depois de duas horas de espera, julgou ouvir o trote desigual
da velha Manon. N'um instante abraa a sua mam e eil-a na carroa.

--At que afinal partimos! que felicidade! oh! como eu estou contente e
como nos vamos divertir!

Josephina no meio d'estas alegres expanses, olhou para a cara do senhor
Baptista. Custou-lhe a conter uma gargalhada. Esta dr de dentes,
justamente no momento em que iam dar cabo d'ella, tentava um esforo
supremo e ameaava uma grande inchao. O desgraado, para conjurar
tantos males reunidos, tinha applicado sobre a face direita um enorme
parche d'algodo em rama, seguro por um leno azul atado por baixo da
barba. Tinha alm d'isto amarrado a cabea com outro leno vermelho, e
por cima um barrete d'algodo branco, sobre o qual se enrolava como um
turbante um terceiro e grande leno de seda cr de vinho; e apezar
d'esta armao ter attingido uma altura respeitavel, o honrado Baptista
tinha agarrado por costume, no seu forte bon de lontra, e tinha-o
pespegado sobre tudo isto! Imagine-se que effeito!

[Ilustrao pg. 209. Os arrancava _sem dr_. (Pag. 208.)]

Josephina estava espantada. Olhava para a sua velha amiga, a tia
Tourtebonne, que fazia todas as diligencias para no perder o seu srio,
ainda que o seu bom corao se resentisse dos soffrimentos do seu
companheiro de jornada. Como as chicotadas inoffensivas que era preciso
dar a Manon de dois em dois minutos occasionassem ao paciente pequenas
saccudidelas, que lhe augmentavam a dr, a boa da mulher tomou sob a sua
responsabilidade o animal e o seu tropear, e, de redeas na mo, comeou
a governar. Hi! hi! anda, anda Manon! Esta maneira de a animar
acompanhada do continuo movimento de brao eram necessarias, para que
Manon no parasse de todo; era pacifica mais do que tudo, e no gostava
de mudar de logar.

Quanto ao seu dono estava absorvido pelas dres de dentes, o que  facil
de perceber, porque no ha nada que absorva tanto.

Houve antigamente philosophos que negaram a dr. Oh! de certo que no
tinham tido dres de dentes! O Senhor Baptista tinha muito bom senso
para se assemelhar a estes senhores, e no seria elle com certeza quem
negasse a dr. Pelo contrario no se passavam cinco minutos sem dizer
ih! ou ai! alguma coisa emfim que attestasse a presena do inimigo. Como
era naturalmente laconico, no dizia mais; mas a sua cara dizia o resto.
No sahia de todo aquelle preparo de algodo e de leno e companhia,
seno uma bochecha que parecia mais morta que viva, um olho amortecido,
um meio nariz sem expresso e um canto da bocca tristemente descahido,
signal d'uma grande desconsolao. Nem pensava no feliz cachimbo, que,
com o queijo e o seu companheiro o arenque, fazia o encanto d'aquella
tranquilla existencia; emfim no achava n'este mundo seno aquelles
repelles!.... Pobre homem!

Josephina, apezar da sua vontade de rir, tinha um coraosinho bom e
lamentava o senhor Baptista. Quanto  sua visinha teria de boa vontade
acceitado metade d'aquelle terrivel mal para alliviar o seu companheiro;
disse-lh'o nove ou dez vezes; mas, como era uma coisa impossivel, o
pobre homem cortejava-a por delicadeza, ficando com todas as suas dres.

Chegaram ao meio da feira. Josephina abria os olhos tres vezes mais do
que costumava.

Passava esta rapariguinha uma grande parte do tempo no meio d'um lindo
prado guardando as vaccas de sua me; tinha um viver doce mas um pouco
monotono. Dava portanto grande apreo aos divertimentos, e a feira
estava to bonita, to bonita! Fazia-se tanta bulha! A bulha  a base de
todas as festas populares, e no faltava n'esta. Os cavallos, os bois,
as vaccas, os carneiros, as cabras, os porcos, tudo isto rinchava,
mugia, balava e grunhia sem se querer calar.

Os ces ladravam em todos os tons, e os gallos faziam mais bulha do que
todos com os seus continuados e magnificos _co-co-ro-cs_... Dir-se-hia
que estes animaes tinham combinado entre si atordoar a multido, que,
para no perder a superioridade, gritava mais do que todos. Oh! como
tudo estava bonito e em boa ordem! Aqui um charlato, chamava toda a
gente para a livrar dos callos; ali uma somnambula via melhor do que
todos, ao perto, ao longe, como quizessem, sem oculos, e mesmo com os
olhos vendados.  direita os ces sabios faziam exercicio;  esquerda os
macacos faziam rir os homens imitando-os o melhor que podiam. A cada
passo um botequim ao ar livre, sempre rodeado de amadores; grande
tentao para o senhor Baptista em tempos ordinarios: um copo de vinho
nunca faz mal; sabia-o elle bem, e por isso bebia um muitas vezes; mas
hoje, coitado! apenas tinha tempo para gemer.

Entre todos estes divertimentos, todas estas distraces, acima de todo
este trabalho havia uma coisa que occupava constantemente o espirito de
Josephina; era a maneira tumultuosa por que os pellotiqueiros
annunciavam que se tinham juntado n'esta feira. Este anno eram ainda
mais do que o costume, e a bonita rapariguinha ouvia com ingenua alegria
os admiraveis e estrondosos _bumbuns!_ mil vezes repetidos pelo grande
tambor e que significavam: Venham depressa, porque vamos comear!

Tinham ajustado tomar os logares na primeira fila a fim de vr, sem
perder nada, os jogos, as danas e as cambalhotas. Josephina esperava
divertir-se immenso; mas tinha de se ir contentando com o que
encontrava, porque o senhor Baptista, no meio das maravilhas d'este dia,
s via as suas dres de dentes, e a todos succederia outro tanto.

A tia Tourtebonne, como boa conselheira dizia:

Meu querido senhor Baptista, se me quizesse acreditar, procurariamos sem
demora a carruagem pintada de encarnado, que tem um tambor adiante, uma
trombeta atraz e cortinas aos lados. Uma vez a coisa feita no pensaria
mais n'isso e teria ainda um bom bocadinho; que diz?

O pobre homem no se atrevia a desapprovar  sua visinha que tinha toda
a razo, por isso no respondia seno: _hum!_ n'um certo tom, que
equivalia a dizer: _amen!_ Comtudo fazia o que podia para no vr por em
quanto a maldita carruagem pintada de vermelho, que toda a gente, que
no tinha dres de dentes, via muito bem.

Se lhe diziam: Olhe, ali  tem! experimentava no mesmo instante um
grande prazer em comprar bolos para Josephina, e extasiava-se diante de
algum illustre ventriloquo.

Josephina era cruel; sabia que no se estabeleceriam na feira sem fazer
a operao; no pensava portanto noutra coisa, e estendia a vista sobre
esta multido, que enchia todo o campo. Quem procura sempre acha; chegou
o momento em que era impossivel deixar de ver a vinte passos a carruagem
vermelha com o seu circulo de basbaques, a maior parte d'elles com um
leno pela barba e uma cara de palmo e meio, domo se fosse o costume de
rigor para ser admittido s recepes.

A quarta parte de face, que se via na cara do bom do homem, tornou-se
livida em vez de pallida.

--Vamos; senhor Baptista, o que tem de ser seja. Porte-se como um homem.
De que tem medo? Olhe que no  coisa do outro mundo.

Estas palavras pronunciadas com firmeza pela tia Tourtebonne animaram o
paciente, que com a coragem que pde ter um cobarde envergonhado,
dirigiu-se para a carruagem e esperou a sua vez. Cessaram immediatamente
as dres de dentes, o que o fez pensar em voltar para traz; mas tinha-se
adiantado muito, ficou por honra de firma.

Ainda que o charlato no cessasse de declarar com emphase que arrancava
os dentes sem dr, no se sahia das suas mos sem a cara transtornada e
as lagrimas nos olhos. Com effeito toda a gente achava que fazia doer,
mas o annuncio no mentia, era pois a clientela que se enganava. Um
tinha mexido a cabea, outro o p; este estava mal disposto, aquelle
tinha tido a imprudencia de comer um quarto de hora antes da operao;
alguns tinham desde muito as gengivas em mau estado e todos tinham os
dentes apertados. Estas justificaes, que o ultimo cliente nunca
acceitava, deixavam, comtudo, ao que se lhe seguia um resto de
esperana.

O senhor Baptista subiu para a carruagem; houve um momento de silencio.
O celebre operador, vestido como um principe estrangeiro, de chapeu de
plumas e mangas arregaadas, absteve-se esta vez de palavras ociosas, e,
com ar altivo, preparou-se para vencer pela fora o que lhe oppozesse
resistencia; era o segredo da sua arte. O senhor Baptista fez depressa
conhecimento com este genero de talento, e sentiu o que todos sentem
n'este caso.

No se pde dizer uma palavra; o dente arranca-se porque no pde deixar
de ser, mas parece que a cabea vai atraz d'elle.

O tambor e a trombeta uniram-se espontaneamente para annunciar a toda a
gente que o senhor Baptista era o mais feliz dos mortaes; e, com
effeito, no se tinha ouvido o grito agudo do pobre homem, mas s um
_rrran! rataplan! pan! pan!_ depois uma musica alegre, e mais longe um
realejo, que tocava desde a aurora o _Galope de Gustavo_. O senhor
Baptista pagou e desceu depressa, depressa; to azafamado estava o
operador.

O dente tinha sido arrancado; n'este ponto estavam de accordo, mas sem
dr  que no. O senhor Baptista, sempre indulgente, pensou que tinha
provavelmente mexido sem querer. No disse palavra, no proferiu uma
queixa, mas, com ar commovido, consolou-se d'este desengano cuspindo
todo o caminho; no havia outra coisa a fazer.

Afinal a emoo, a sacudidela, e o _Galope de Gustavo_ ainda em cima
acabaram por estonteal-o; a senhora Tourtebonne, como prudente que era,
fez com que elle se sentasse.

Josephina, graas aos seus quatorze annos, ficou espantada. Julgava que
uma vez este negocio terminado o bom do visinho passaria a divertir-se
muito, e que todos os abafos seriam desnecessarios. Quanto se enganava!
O senhor Baptista juntou aos outros o leno da algibeira, com que tapou
a bocca, e declarou que tinha mais uma dr de cabea furiosa.

Que desengano! Josephina assustou-se com a ida de tornar a subir para a
carreta, mas felizmente no foi preciso. O honrado mercador de queijo
installou-se n'uma pequena casa de pasto improvisada, estabelecida por
tres dias debaixo de uma barraca parda, e em vez de fazer ali algum
gasto entregou-se pelo mesmo preo ao aborrecimento resultante do seu
incommodo.

Ainda que d'uma apparencia muito feia o bom do homem no era nada
egoista; exigiu pois dos seus companheiros de viagem que no fizessem
mesmo caso d'elle. Josephina achou esta ida magnifica; mas a senhora
Tourtebonne prometteu vir de vez em quando perguntar como elle estava, e
partir no meio do dia se o seu incommodo se tornasse insupportavel.

Josephina resignou-se e andou com a sua digna conductora uns duzentos
passos n'uma hora; tantas coisas havia para admirar!

Apezar de se extasiar vendo isto e aquillo, a boa rapariguinha exclamou:

--Oh! o que eu desejo vr, mais do que tudo, so os saltimbancos.

--E eu tambem, minha pequena.

--Bem sei eu porque. Est pensando no seu rapazinho?

--Justamente. Desde esta manh que s penso n'elle, e toda a noite
sonhei com aquelle desgraadinho querido filho!

--E acha que poderia reconhecel-o?

--Oh! com certeza se o vir de perto, um loirinho, que tem ar d'um
principe, e que se chama Adalberto. Pobre anjo! pensar a gente que elle
tem me!  horroroso! Se eu tivesse tido filhos e me succedesse tal
desgraa endoidecia.

E n'isto, com grande espanto de Josephina, a tia Tourtebonne
enterneceu-se, pensando na familiasinha que podia ter e que no tinha.

A conversao sobre Adalberto no podia interromper-se; ambas repetiam:

--Est talvez ali! Quem sabe?

De repente, no meio da multido avistam os caros amigos Julio e sua
mulher, que seus amos tinham mandado  festa, para que se divertissem um
bocado.

Este encontro foi theatral; prometteram no se separarem; e o bondoso
Baptista, feliz por vr que as senhoras tinham um cavalheiro, e cansado
da barafunda que encantava Josephina, aproveitou a occasio para se
retirar. Julio tinha tratado de segurar meio de conduco para a volta;
combinaram que partiriam todos quatro juntos, e comearam a gozar
tranquillamente em quanto o senhor Baptista se safava com tenes de
esquecer n'um bom somno o tal sujeito que fazia tanto mal, arrancando os
dentes sem dr.

Divertiram-se muito, muito. Josephina gastou tres tostes. Comprou bolos
que offereceu amavelmente a todos, bebeu duas limonadas, ganhou na
loteria, sahindo-lhe a primeira vez um copo para comer ovos cosidos, deu
um vintem a um cego, e a boa pequenita, guardou dois vintens para fazer
de generosa quando chegasse a hora feliz do espectaculo.

Essa hora chegou. Fartaram-se de habilidades, de dansas, de pantomimas.
Josephina pulava de contente, mas atravez da sua alegria jactava-se uma
grande preoccupao.

Em cada pequeno pellotiqueiro queria reconhecer Adalberto. A tia
Tourtebonne e Sophia no cessavam tambem de pensar no _pequeno da
adga_, mas a pequena camponeza, com o enthusiasmo da sua idade, no
duvidava da sua presena, chegando a parecer-lhe impossivel que elle no
estivesse ali. Tinham estas quatro pessoas todas a mesma ida.

Sophia dava tudo para poder levar  sua ama a criana, cuja sorte ella
no cessava de deplorar. A tia Tourtebonne imaginava a alegria que
sentiria a pobre me do _pequeno da adga_, quando lhe levassem o seu
querido filhinho; Josephina desejava ardentemente um acontecimento, uma
aventura, uma emoo; teria sido uma felicidade para todos e um
divertimento para ella; o senhor Julio, amigo zeloso da justia e
pontual antes de tudo, s queria uma coisa--denunciar aos policias a
infame companhia e fazel-a prender, afim dos ladres pagarem na cadeia o
crime commettido; era tambem esta a opinio de seu amo.

Movidos por estes diversos sentimentos gastaram horas a passear pela
feira; um lindo dia favorecia os passeantes, mas apezar d'isso havia
entendedores com idas negras que repetiam: Vamos ter agua! Josephina
achava que se no devia dizer uma coisa a que ninguem prestava atteno.
Entretanto ia-se acabando o dia e todos pensavam em voltar para suas
casas, e, bem contra a vontade de Josephina, foi preciso tomar o caminho
que conduzia  carruagem. Umas nuvens negras ameaavam chuva, havendo j
quem sentisse cahir alguns pingos d'agua.

A cincoenta passos da carruagem Julio exclamou:

--Olhem para a Andaluza! vale a pena de se vr! Dez minutos mais ou dez
minutos menos no faz nada ao caso.

Josephina approvou Julio.

--Como ella  bonita! accrescentou o marido de Sophia.

--E como ella dana bem, com as suas flres de rom na cabea, respondeu
a tia Tourtebonne, que se no fartava de a admirar, dizendo a todo o
instante: Oh! se me fizessem mexer assim cahiria por terra, com certeza!

Toda a gente estava espantada; a hespanhola era extraordinaria e todos
lhe gritavam: bis! bis! A pobre rapariga saudava, danava e tornava a
saudar. No momento em que, estafada, ia para se retirar, uma criana
vestida como um danarino de corda rompeu por entre a turba com uma
bandeja na mo; parecia que o signal para partir estava dado, toda
aquella gente se affastou. Cada um deu meia volta  direita ou 
esquerda, para no despender um vintem e conservar a sua dignidade aos
olhos dos outros.

O movimento instantaneo de toda a multido tinha  verdade differentes
causas: a dansa acabra, Gella tinha desapparecido, a noite
aproximava-se e uma forte pancada d'agua desconsolava e punha todos em
debandada.

Corriam, encontravam-se, empurravam-se; os felizes abriam os guardas
chuvas, os outros cobriam a cabea com o leno.

Era uma scena de barulho, de confuso, de gritos, de mau humor, de que
se no pde fazer ida.

A encantadora e loira criana continuava o seu peditorio.

Chegou perto de Josephina, que no tirava os olhos d'ella. A pequena
alsacianna, levada pela sua ida, puxou-lhe pelo brao e disse-lhe com
um ar absoluto:

--No  verdade que te roubaram, e que te chamas Adalberto?

O pequeno no pareceu nada admirado, olhou com toda a confiana para
Josephina e disse-lhe que sim.

--Conheo-te! conheo-te! exclamou a tia Tourtebonne abrindo-lhe os
braos.

O pobre pequeno lanou-se n'elles sem hesitar; parecia adevinhar toda a
bondade d'aquelle corao.

Ao mesmo tempo a chuva cahia em torrentes, o tumulto tinha chegado ao
seu auge e mal se via na escurido, que augmentava, um pequeno
pellotiqueiro, que tres ou quatro pessoas arrastavam precipitadamente
para a estrada.

A criana subia j para a carruagem, quando Julio disse s mulheres:

--Partam sem mim, quero fallar com os policias, o negocio no ha de
ficar assim.

--Deixa os policias e vem comnosco, Julio; uma vez que pilhmos o
pequeno  tudo quanto queremos.

--Nada, nada. A cadeia no foi feita para os ces.

Julio desappareceu.

Ao mesmo tempo, uma mulher com vestuario de camponeza, bonita, pallida e
tremula precipitou-se para a carruagem gritando com desespero:

--s tu?

Sophia, assustada, cobriu com o seu grande chale a cabea do pequeno, e
a sua companheira disse ao conductor:

--Partamos! partamos!

O cavallo partiu a trote, e a desgraada mulher, encostando-se a uma
arvore, desmaiou e cahiu por terra.




CAPITULO XVII

Adalberto volta para o subterraneo.


No se pde descrever a alegria da senhora Deschamps quando lhe levaram
em triumpho o rapazinho, que logo conheceu a _casa branca_. Imaginava a
boa senhora ter encontrado um dos seus netos, e provava-lhe com os seus
carinhos verdadeiramente maternaes um tal affecto, que Adalberto, em
pouco tempo, estava perfeitamente  vontade. Desde muito que elle s via
miseria de roda de si; pde por isso fazer-se ida do que sentia
percorrendo aquella casa to aceada, to bonita e que se no mexia!

Josephina e a sua gorda amiga no o deixaram sem lhe prometter tornar a
vl-o, promessa que elle acceitou de todo o corao, porque sentia por
ellas o mais vivo e justo reconhecimento.

O senhor Deschamps, homem positivo, tinha opposto ao primeiro
enthusiasmo uma certa incredulidade; mas a duvida no podia resistir
diante das respostas do rapazinho s mais indagadoras perguntas.

Sophia desejra conduzil-o logo ao subterraneo. Seu amo no consentiu
sem o ter interrogado. Adalberto fallou do carvo com que tinha escripto
o seu nome e todos os nomes da sua familia; da fita doirada que tinha
deitado no cho; soube dizer o que havia na adga; indicou o logar onde
estavam as garrafas vazias, o logar do tonel e o das tabuas. Fallou
tambem dos bichos pretos e do rato que tinha roido a porta. O que
notaram sobretudo foi o sobresalto do pequeno  primeira vez que ouviu
dar horas na pendula da sala, cujo som elle reconheceu.

Quando Sophia, acompanhada pelos seus amos, o fez descer  adga,
Adalberto olhou para todos os lados com tristeza e fixou a vista na
fresta, o que o fez contar a historia da estrella e tudo quanto podia
dizer a respeito de Gella.

Passou-se uma meia hora n'estas primeiras emoes. O senhor Deschamps,
que j sabia por Adalberto a residencia de seus paes, dispunha-se a
escrever-lhes para que a carta partisse no dia seguinte de manh, quando
sua mulher pensou que o seu protegido devia ter fome.

Por mais que este dissesse que durante o caminho Josephina lhe tinha
feito comer bolos, nozes e mas, a boa senhora julgava que elle cahia
de fraqueza.

Como Julio ainda no tinha voltado das suas buscas e Sophia, ensopada
pela chuva, tinha ido mudar de fato, a senhora Deschamps quiz preparar
pela sua mo o comer para a criana. Havia na copa carne fria, dces e
fructa; mas, por instincto maternal, imaginou um caldo bem quente e um
ovo fresco cosido a que se seguiria uma fatia de carne assada fria e
muitas outras coisas boas. Foi para ella uma alegria o ter de aquecer o
caldo, e fazer ferver a agua para coser o ovo; sentia-se activa, estava
risonha e contente.

Depois de cada volta que tinha de dar como dona de casa entrava na sala
um momento, s para dizer pela trigessima vez:

--Oh! meu querido pequeno, como tua me Vae ser feliz!

Adalberto acceitou com prazer o caldo e o ovo, mas no poude comer mais
nada. O que o encantava sobretudo era o arranjo, o guardanapo branco, a
bonita faca, a colher e o garfo de prata.

Depois de viver tanto tempo na miseria tudo para elle era um gozo. Como
lhe fizessem novas perguntas, respondia a tudo com volubilidade e
narrava com infinito prazer tudo quanto se dizia e fazia em Valneige. 
medida que fallava parecia-lhe que a casa do saltimbanco se affastava,
que tinha tido um mu sonho e que conhecia desde muito os donos da _casa
branca_. Comtudo suspirava algumas vezes e exclamou:

--Oh! Gella! minha boa Gella!

--Gostas ento deveras d'essa pobre rapariga, perguntou o senhor
Deschamps?

--Como no hei de eu gostar d'ella se foi to boa, to boa para mim!

Os olhos de Adalberto encheram-se de lagrimas ao pensar em Gella, e
comeou a lamental-a, como a uma flor deixada entre o matto. Pensava
tambem com tristeza na pequena Tilly e mesmo em Natchs, que estava meio
estupido, mas to submisso e inoffensivo.

Por mais confiana que lhe inspirassem os seus hospedeiros o rapazinho
no dizia tudo que pensava. Evitava fallar detidamente de Gella, temendo
sempre fazer-lhe mal e trahir indirectamente o seu segredo.

Comprehendia que nenhuma das pessoas que o rodeavam conhecia a sua
familia, que devia a sua liberdade aos bons coraes que a Providencia
tinha collocado no seu caminho, e que tudo tinha succedido fra das
provises de Gella. Esta, ao contrario, no podia duvidar de que a
desappario do pequeno saltimbanco fosse o fructo das suas diligencias;
e com effeito assim parecia, mas no era.

A hora adiantava-se, a senhora Deschamps quiz que o seu amiguinho
dormisse, e fez-lhe ella propria a cama. Era um grande canap no seu
proprio quarto, e que servia aos seus netinhos, quando vinha um depois
do outro alegrar a _casa branca_.

Antes de se deitar o pequeno de Valneige pediu licena ao senhor
Deschamps para escrever umas linhas no fim da carta que iam mandar a seu
pae.

--Escreverei manh a valer, mas queria que elle visse mais cedo a minha
lettra.

Acharam a ida delicada, e a criana, que havia dois annos no tinha
pegado na penna, rabiscou como poude estas palavras:


Meus queridos paps.

Sou eu; adoro-os de todo o meu corao.

                  Seu filho Adalberto.


Logo depois, subiu para o quarto da senhora Deschamps. Tinha ella de
proposito, deitado l a fita doirada de modo que se visse bem; Adalberto
assim que a viu por um sentimento de repugnancia invencivel pegou-lhe
bruscamente e deitou-a para o fim do quarto.

A sua affectuosa protectora correu para elle de braos abertos e
beijou-o, querendo assim reparar e apagar o que o tinha feito soffrer.

O rapazinho disse a sua orao, que no tinha esquecido, e sentiu-se
feliz vendo-se de joelhos defronte d'um Christo de marfim semelhante
quelle que via em Valneige no quarto de sua mam.

Deitou-se e dormiu, o que parece incrivel, at s onze horas da manh!
Respeitaram aquelle somno depois de to vivas emoes. A senhora
Deschamps nem quiz que abrissem as taboinhas; sahiu do seu quarto muito
devagarinho, e passou para o do marido, onde elle fallava com Julio,
que tinha chegado durante a noite.

O barulho das vozes que se cruzavam com vivacidade despertou Adalberto,
que teve o pezar de ouvir, sem querer, uma parte da conversao.

Julio com um modo rude e inflexivel, fallava, no sem praguejar um
pouco, de policias, de fuga, de buscas; contava a indignao da turba,
as maldies de todos contra o chefe da companhia. Emfim, o que
Adalberto ficou percebendo era que tinham prendido uma mulher, velha, a
andaluza e duas crianas, e que estavam todos quatro na cada. Quanto ao
chefe tinha fugido assim como seu filho, mas tinham-se expedido ordens e
esperavam prendel-os como bandidos mais tarde ou mais cedo.

Adalberto comeou a chorar, tanto mais que Julio accrescentava com
bastante indifferena, que a _Andaluza_, para defender seu pae e
favorecer a sua fuga tinha cahido de umas taboas mal seguras o que a
magora bastante.

Uma coisa sobretudo entristecia Adalberto. Tinha um corao delicado e
leal que lhe dizia: A pobre Gella teve confiana no pap, que lhe deu a
sua palavra de honra. Agora que est presa e que o Hercules 
perseguido, vae julgar que a enganmos, que eu sou um ingrato e que o
pap no cumpre a sua palavra. Oh! que desgraa, meu Deus, que
desgraa!

A senhora Deschamps no comprehendeu bem o desgosto de Adalberto, mas
tentou consolal-o. O senhor Deschamps entreveio e repetiu umas poucas de
vezes muito seriamente, que a rapariga estando sob o poder de seu pae e
no tendo feito seno suavisar a sorte do prisioneiro, no se lhe faria
mal algum, e que lhe dariam com certeza a liberdade logo que o chefe
fosse preso e julgado; quanto a esse miseravel, accrescentou o senhor
Deschamps, no merece compaixo alguma.

Estas palavras s socegaram em parte a inquietao do pequeno, e nenhuma
das pessoas com quem elle estava percebia como e porque elle se
interessava tanto pelo Hercules, o homem que o tinha arrancado to
rudemente ao amor da sua familia. Julio pensava e dizia simplesmente,
que o pequeno tinha desarranjo de cabea.

O mais engraado foi quando a senhora Tourtebonne, empurrando o seu
carrinho, veio de tarde saber noticias do pequeno da adga. Quasi que o
no conheceu com o fato com que a senhora Deschamps o tinha vestido.
Quando lhe disseram que o seu protegido estava triste, e que soube a
causa da tristeza, a boa da mulher exclamou:

-- possivel! pois no gostaria de vr aquelle maroto condemnado s
gals para o resto dos seus dias?

--Oh! no!

--Desculpe-me dizer-lhe que tem bondade de mais. Da rapariga no digo
nada; a velha mesmo, passa; mas o chefe?  um monstro, e se eu fosse
governo em vez de ser vendedeira de fruta, havia de fazer cortar a
cabea a todos os que roubam crianas.

Estas palavras fizeram estremecer Adalberto; mas tranquilisou-se,
pensando que a boa da mulher era realmente vendedeira de fruta.

Para combater esta tristeza inesperada, a excellente senhora Deschamps
levou Adalberto ao jardim. Um olhar que elle deitou para o lago fl-o
presumir que a pesca seria para elle uma distraco. Fallou logo n'isso
a seu marido, que organisou a mais bonita pescaria que se pde imaginar.
Deu o melhor apparelho ao seu hospede, ensinando-lhe com bondade todas
as finuras da arte, e levando-o, por uma felicidade espantosa, a um
verdadeiro triumpho. Cada peixe que cahia causava ao pescador um tal
prazer, que os pensamentos penosos que o opprimam socegaram
visivelmente. Voaram as horas n'este util passatempo, e tendo-lhe
passado de todo a dr de cabea, de que o pequeno se queixra, pediu
papel, penna, tinta e poz-se a escrever:



Meu querido pap e minha querida mam.



Quasi que j no sei escrever, apenas o bastante para lhes dizer que os
amo sobre todas as coisas, e que desejo muito vl-os e abraal-os, assim
como  minha irm e meus irmos. Tenho tantas coisas a dizer que no
direi nada para no ser muito extenso. Ai! ha quanto tempo os no vejo!
Estou em casa de um senhor muito bom e de uma senhora muito boa, no
quarto de quem eu fico. Ella deu-me umas calas muito boas e uma jaqueta
igual. O seu marido ensinou-me a pescar e apanhei cinco peixes; so para
frigir. Oh! que felicidade quando eu abraar os meus paps! Que desgraa
que foi a minha desobediencia! Tudo quanto me tem succedido, foi por
minha culpa; merecia ser castigado; mas se soubessem como eu tenho sido
infeliz! Gella era muito boa, e eu gosto muito d'ella. Meu querido pap,
veja que lhe no faam mal, e que lhe no prendam o pae.

Ella est ferida n'um p! Ha aqui pessoas que querem fazer condemnar o
pae. Oh! venham depressa, peo-lh'o muito, por causa do que sabem e que
se no pde dizer. No me atrevo a fallar n'isso porque  segredo e
receio que se no devam confiar segredos ao correio. Este senhor e esta
senhora sabiam que eu tinha cahido na sua adga ha quasi seis mezes. Hei
de contar-lhes tudo, e a minha mamsinha ha de chorar, com certeza. Ha
coisas bem exquisitas: ha pessoas to bondosas que gostam de mim como se
me conhecessem muito. Foi uma rapariguinha que me puxou pelo brao
dizendo-me o meu nome, quando eu pedia esmola. Julguei que ella tinha
sido mandada pelos meus paps, segui-a immediatamente; chovia, eu estava
como atordoado. Empurraram-me, empurraram-me at  carruagem. Uma mulher
gritou:

s tu?

Tinha a voz da minha querida mam, mas era uma camponeza. Emfim, eis-me
a salvo e de um modo diverso do que eu esperava. Penso que foi Nosso
Senhor que arranjou isto, visto que  elle quem faz tudo. Oh! como eu
gosto dos meus paps!

Adeus, querido pap e querida mam, eu estou aqui muito bem, mas
gostaria muito de voltar para casa. Abrao muito muito Camilla, Eugenio
e Frederico. Oh! como ns vamos ser felizes! Abrao tambem Rosinha, de
quem nunca me esqueci. Gosto de todos de Valneige, digam-no ao Philippe,
ao Gervasio e aos outros.

Ah! Como eu hei de ficar contente quando os tornar a vr. Mas faam com
que no prendam aquelle horrivel homem, para que Gella no seja
desgraada por minha causa.

                                             Do seu filhinho

                                               _Adalberto_.


O senhor Deschamps lacrou a carta do pequeno diante d'elle sem a ler,
depois mandou Julio ao correio.

Atravessando a pequena cidade, este encontrou a tia Tourtebonne, porque
ella girava tanto que sempre a encontravam. A boa da mulher no deixou
de lhe fallar em Adalberto, e como Julio desejava immenso que a justia
no deixasse de tomar parte n'este negocio, ella concordou com a sua
opinio e desejou o momento em que chamada para testemunha, assim como o
pesado Baptista, podesse emfim dizer diante dos juizes tudo quanto
sabia.

Uma circumstancia se dava que lhe era desagradavel, e vinha a ser a
inchao da cara do senhor Baptista, e essa inchao absorvia-o a ponto
que apenas lhe restava a fora de responder com os seus famosos _huns_!
S a ida de figurar n'um processo lhe fazia estender a barba dois
dedos, de sorte que a cara tendia outra vez a desapparecer como na
vespera. Amigo do socego em todos os tempos, o honrado homem tornava-se
fanatico por elle, em presena d'esta incommoda inchao; e quando a sua
antiga conhecida o queria fazer ceder, respondia-lhe por um esforo
supremo:

--Visto que o pequeno se achou, no  preciso mais nada.

--No, no, replicava a tia Tourtebonne empurrando o seu carrinho.

Ao mesmo tempo uma outra scena se passava em outro logar. Gella na
priso torcia as mos de desespero. Ella que s tinha feito bem ao
pequeno de Valneige, que tinha favorecido a sua fuga, fiando-se na f
jurada, julgava-se perdida pela criana que tanto amra e na sua
afflico exclamava:

--Que te fiz eu para me enganares assim? Ah! no foi isto o que tu me
ensinaste? Dizias-me que o teu Deus ordena que se faa o bem pelo mal, e
todos em Valneige me fizeram o mal pelo bem! Teu pae tinha-me escripto
dando-me a sua palavra de honra. Devia no ter acreditado n'ella;
acreditei porque me disseste que em tua casa nunca se mentia; e tu
mentiste e todos me enganaram! Faro condemnar meu pae! Sou eu a causa
disso, morrerei de pena, e s tu que me matars, tu Adalberto!

Assim se lamentava a triste Gella, que, ferida n'um p, ameaada de
todas as desgraas a um tempo, no duvidava que o pequeno francez no
tivesse sido levado pelos seus paes, graas aos esclarecimentos d'ella.

Infelizmente Gella no era a unica a queixar-se. Na vespera  tarde, os
camponezes, deixando a festa no meio da confuso causada por uma chuva
torrencial, tinham visto ao p d'uma arvore uma mulher do campo
desmaiada. Era alta, pallida, e as suas mos brancas contrastavam com a
simplicidade rustica do seu vestuario. Um homem, que no era certamente
seu marido, nem seu irmo, esforava-se para a fazer voltar a si, no
lhe fallava com a sem ceremonia habitual na sua classe, antes parecia
experimentar por ella um profundo respeito. Porque? quem era aquella
mulher?

[Ilustrao pg. 237. Uma mulher do campo desmaiada. (Pag. 236.)]




CAPITULO XVIII

Adalberto no era um ingrato.


Haviam passado dez dias que tinham mudado o aspecto a muitas coisas. A
velha Praxedes, que desde muito tempo parecia ter apenas um resto de
vida, mas um resto muito mau, a velha Praxedes tinha succumbido ao
choque, e o seu desapparecimento d'este mundo no deixra saudades. As
duas crianas, Natchs e Tilly, das quaes Adalberto tinha narrado as
tristes aventuras, tinham sido recolhidas provisoriamente pelos bons
moradores da casa branca. Tilly tossia a todo o momento, e todos sentiam
por esta rapariguinha uma grande compaixo.

Continuavam as indagaes, mas cessaram de perseguir o Hercules; a boa
Gella, transportada da priso para o hospicio, estava n'uma cama muito
aceiada, rodeada de cuidados, de que a sua ferida carecia. A sua
expresso era serena; sabia j que a fuga do pequeno tinha sido um dom
da Providencia. Conhecia e explicava a si propria o encadeamento de
successos que tinham preparado a libertao de Adalberto; e, tranquilla
do futuro, j no dizia: elles enganaram-me!

Mas o que se havia passado em Valneige? O pae no tinha partido
apressadamente logo que recebera a carta do senhor Deschamps? No.

A me no tinha escripto, para mostrar pelo menos o seu reconhecimento?
No.

Comtudo havia-se recebido uma resposta de Valneige, mas era de Camilla e
redigida nestes termos:


                                                             Senhor.

Escrevo da parte de meu pae, doente ha um mez e reduzido pela febre a
uma extrema fraqueza. A sua carta ha de cural-o de certo, porque o seu
mal  o pezar que o opprime desde que perdemos o meu manosinho.

A mam teria partido immediatamente se estivesse aqui, mas um negocio
muito grave obrigou deixar meu pae para emprehender uma longa viagem,
acompanhada por um dos nossos criados. Escrevi-lhe esta manh, e mandei
com a minha a sua carta, que lhe explicar tudo. Pobre me, como ella
vai ser feliz depois de ter chorado tantas lagrimas! Em poucos dias ella
ir a sua casa, e pde crer que ter restituido a vida a meu pae, a
alegria a minha querida mam, e a felicidade a uma familia toda.

Meu pae encarrega-me de lhe dizer que meu irmo falla-lhe na sua carta
de uma rapariga chamada Gella, que prenderam, e que foi sempre muito boa
para com elle, e que ns no desejamos perseguil-a, visto ella no lhe
ter feito mal algum, mas ao contrario ter concorrido para suavisar a
triste sorte de meu irmo. Por isso meu pae deseja que se no castigue
esta rapariga, e que a mandem para o hospital se estiver doente.

Um dos nossos amigos, magistrado residente perto d'aqui, escreveu hoje
mesmo s authoridades conforme meu pae lhe disse para pedir que no
continuasse o processo que diz respeito a Gella. Queira exprimir 
senhora Deschamps o que ns quizeramos dizer-lhe de viva voz, e
agradecer-lhe os cuidados maternaes, que fizeram esquecer a Adalberto o
que elle soffreu entre aquella m gente. Aceite os protestos de profundo
respeito de

                                              _Camilla de Valneige._


Dentro do mesmo sobrescripto havia um bilhete fechado para o pequeno.


                                                      Meu queridinho.

Abrao-te muito, muito. A mam partiu, ha oito dias, vestida de
camponeza, acompanhada pelo fiel Gervasio. Tem teno de ir a todas as
feiras indicadas por... A nossa querida me estava de certo alli
ante-hontem; mas de longe e no meio da multido no te viu ou no te
conheceu.

O pap est bastante doente; comtudo comea a melhorar desde hontem.
Oh! se tu o visses? Pediu-me vinte vezes a carta do senhor Deschamps na
qual tu escreveste uma linha e o teu nome; lia sempre esta linha e
chorava, como a mam choraria se estivesse aqui.

No te atormentes, tudo se ha de arranjar. No se far mal a ninguem, e
cuidar-se-ha em fazer bem  boa da rapariga. Mando-te vinte, quarenta
beijos! Vou escrever a Eugenio e Frederico que esto no collegio. A
nossa velha Rosinha est doida de contente; todos te querem muito e
desejam vr-te. Oh! que felicidade! quando estiveres ao p de mim, no
nosso Valneige, no meio de todos ns.

                                                        Tua irm

                                                       _Camilla_.


Adalberto ficou contentissimo ao ler esta carta; mas teve o cuidado de
no o deixar perceber. No se devia saber que sua me, disfarada em
camponeza o procurava nas feiras, e segundo as indicaes d'alguem.
Teria sido trahir o segredo de Gella e faltar  palavra d'honra pedida e
dada; ora  impossivel faltar  sua palavra de honra sem se deshonrar. O
pequeno deu prova d'uma grande prudencia, e aquelles que o rodeavam
pensaram que um sentimento generoso, sem ser promessa alguma, fazia a
familia de Valneige perdoar, por amor de Gella, to boa rapariga e tanto
para lamentar como filha d'um salteador.

Como se pde imaginar, aquelles sentimentos generosos, dos quaes no
conheciam o verdadeiro motivo, causaram um certo espanto. A tia
Tourtebonne esteve quasi a zangar-se. O senhor Deschamps assegurava que
no teria levado to longe as attenes, e que ao mesmo tempo que
protegia Gella, como ella merecia ser protegida, teria feito perseguir
seu pae at  fronteira; Julio accrescentava at ao fim do mundo.

A senhora Deschamps tomava facilmente o seu partido, e no pensava seno
em divertir a criana, em pentear os cabellos de que a sua mam tanto
gostava, em fazer preparar as comidas que preferia, como bom caldo, boas
costelletas, e tudo quanto podia fortifical-o. Conversava muitas vezes
com elle, e fazia-lhe ler em voz alta historiasinhas, nas quaes uma
moral muito pura se disfarava sob os gracejos infantis. Emfim era uma
me a proteger o filho de outra me!

Sophia s dava atteno a uma coisa; a criana estava pallida e magra e
ella queria tornal-a corada e gorda; e persuadida de que a arte
culinaria  para isto um grande medico, inventava uns guisadinhos muito
bons para Adalberto, afim de que elle comesse com mais appetite e
engordasse mais depressa. Como s havia tres ou quatro dias para esta
grande empreza, fazia-o comer muito, temperava bastante os molhos e
offerecia-lhe entre as refeies uma meia duzia de bons petiscos.

Adalberto, privado de tudo desde muito tempo, foi sensivel  tentao,
e, seguindo as insinuaes de Sophia, comeu pouco mais ou menos todo o
dia, para acabar de esquecer os nojentos caldos da casa do saltimbanco.

Comtudo lembrou-se das bellas e boas tradies de Valneige; _uma
criana bem educada_, tinham-lhe dito cem vezes, no deve nunca comer
fra d'horas;  golodice, torna o homem _material_, quer dizer, favorece
n'elle os instinctos do animal.

Por isso, no terceiro dia, Adalberto disse  senhora Juliana, que lhe
agradecia as suas attenes, mas que tendo comido muito bem desde que
estava na casa branca, no se lembrava j das sopas da velha Praxedes, e
que no queria mais do que quatro comidas ao dia como em casa da sua
mam.

--Mas a sua mam no est c.

--No importa; comer sem necessidade fra d'horas seria desobedecer-lhe,
e nunca mais torno a desobedecer aos meus paes.

Sophia concordou que o querido pequeno era muito rasoavel, e mudou de
systema. Comtudo viu com verdadeira alegria e alguma vaidade, que o
pequeno ia engordando, que os seus olhos se animavam, e que tinha melhor
cr.

O que a felicidade e a liberdade tinham feito em grande parte,
attribuia-o Sophia s aos seus manjares; e d'este modo todos ficaram
contentes.

Havia seis dias que Adalberto vivia debaixo d'este tecto to
affectuosamente hospitaleiro, quando uma senhora d'um aspecto grave e
distincto, seguida por um criado, bateu  porta da casa branca. Julio
abriu, mas antes de ter tido tempo de lhe dirigir a palavra, correu ella
para a criana, que brincava no pateo com Tom, e apertou-a estreitamente
nos seus braos maternaes. Toda a gente accudiu. Foi grande a commoo.
O proprio senhor Deschamps perturbou-se, e Julio disse baixinho a
Gervasio, que chorava d'alegria:

--Palavra, que at estou a tremer! Faz mais impresso do que o attaque
de Sebastopol!

Depois d'este primeiro instante de surpreza entraram na sala, e, por um
rasgo de sensibilidade, a senhora Deschamps disse a seu marido:

--Deixemol-a s com elle.

Ambos sahiram da sala e fecharam a porta.

Foi ento que a senhora de Valneige comprehendeu o grau da sua
felicidade.

No fallava, mas olhava para seu filho, como se quizesse ler na sua
alma. Parecia-lhe, pobre senhora! tornar a tomar posse d'este pequeno
ser, que Deus lhe tinha dado. Pegava-lhe nas mos, que apertava nas
suas, como para affirmar os seus direitos, e restabelecer esta dce
cada, que nos impe os affectos do corao. Oh! que de lagrimas que
cahiam dos seus olhos! Seu filho estava alli e adorava-a!

A vida tornava a ter os seus encantos. A senhora de Valneige j se no
sentia infeliz.

A presena de Adalberto ia curar seu marido, que s soffria pela sua
auzencia. Oh! quantas alegrias juntas! Estava maravilhada, pensativa,
commovida... Foi o momento que o bom corao de Sophia escolheu para
offerecer uma bella _omelette_ de dois ovos frescos, ou biscoitos, ou
vinho com assucar, ou qualquer coisa, emfim! Sophia s receiava uma
coisa nas grandes agitaes da alma; era vr a sua gente morrer de
fraqueza. A senhora de Valneige, como  facil de suppor, no tinha a
menor vontade de comer uma _omelette_; recusou-a, pois, o mais
graciosamente possivel, e, despertada pelo offerecimento de Sophia do
seu extase maternal, perguntou onde estava a senhora Deschamps.

Esta desceu do seu quarto em quanto a cozinheira, para se consolar do
que acabavam de recusar-lhe, offerecia um copo de vinho ao bom e fiel
Gervasio. N'isto no fazia mais do que seguir os costumes da casa. A
senhora Deschamps no podia receber qualquer pessoa sem lhe offerecer,
como nossos paes, o po e o vinho da hospitalidade. Comprehendia, porm,
demasiadamente as sensaes delicadas, para no as confundir com uma
_omelette_ ou qualquer outra cousa.  inutil explicar o genero de
relaes, que se estabeleceu entre as duas mes. Parecia que se
conheciam ha muito.  porque, effectivamente, as almas nobres
reconhecem-se mutuamente, e acham-se ligadas umas s outras sem embargo
de distancias.

A senhora de Valneige fallava  sua nova amiga essa lingoagem do
corao, que s elle comprehende, e a senhora Deschamps respondia com a
suave liberdade, que nasce d'uma sympathia subita.

Para ella no era a desconhecida mais do que a me da criana perdida,
da criana que, durante seis dias, tinha achado sob este tecto o que
esta idade exige: cuidados, brinquedos e ternura.

Quando o senhor Deschamps veiu, com a maior delicadesa, juntar-se ao
trio, a conversao tornou-se mais positiva. Fallou-se do passado e do
futuro, porque as duas mes s tinham visto o presente. Comearam ento
as perguntas; tres ou quatro para uma resposta.

A castell informou-se de todos aquelles, que tinham contribuido para
salvar seu filho. Nomearam-lhe a tia Tourtebonne, Josephina e outros.
Tudo se disse e tornou a dizer; a me estava insaciavel, fazia repetir
tudo outra vez. Que de lagrimas a fizeram derramar aquellas vinte e
quatro horas, passadas no subterraneo, entre a vida e a morte! Quiz
descer quelle sitio, que por pouco no tinha sido um tumulo; viram-na
ler com horror as palavras escriptas na parede.  noite mostrou desejo
de l descer outra vez, e alli, s, no subterraneo com o seu filhinho
Adalberto, collocou-se, por uma d'estas ingenuidades de que o corao 
capaz em todas as idades, porque nunca envelhece, de maneira que podesse
vr a linda estrella, que tinha consolado o pequeno, e a que elle
chamara Adilia.

--Mam, querida mam, dizia o rapazinho beijando as queridas mos de sua
me,  preciso procural-a no co para que o pap a conhea e tambem
goste d'ella.

--Sim, meu filho, respondia gravemente a senhora de Valneige, teu pae ha
de amal-a. Nem elle nem eu esquecemos nunca o que foi consolador para
ti, o que te fez bem.

E, como a terna me olhava para seu filho com um amor inexplicavel, a
criana, por uma delicada inquietao, perguntou timidamente:

--O pap j no est zangado?

--Zangado porque?

--Por eu ter desobedecido. No me quer mal por isso?

--Quem te ha de querer mal, meu pobre filho? No foste tu bem castigado?
Teu pae espera-te para melhorar. Ama-te muito, isso sim.

Ento Adalberto lanou-se nos braos que sua mam lhe estendia, e,
submisso para sempre,  fora de soffrimento, fez este juramento:

--Prometto que nunca mais torno a desobedecer.

A me e a criana cheios de felicidade e de ternura, ficaram alli, em p
n'aquella adga, e achavam-se bem. O silencio, a escurido, tudo os
isolava; sem darem por isso ficaram immoveis, porque ninguem queria
dizer primeiro: Partamos.

O rapasinho, commovido pela ternura da me, balbuciou baixinho, como se
aquella solido ainda no fosse bastante para ouvir um segredo:

--E Gella, mam, Gella que me quiz salvar?

--Irei vel-a ao hospital.

--Oh! que felicidade!

A hora ia adiantada. Na casa branca no se recolhiam tarde. A pendula da
sala deu horas; a senhora de Valneige contou nove pancadas e estremeceu,
ouvindo aquella bulha, que Adalberto tinha ouvido durante a sua grande
agonia. Subiram, e bem depressa cada um, com um castial na mo, se
dirigiu para o seu quarto.

A senhora de Valneige foi conduzida, pela dona da casa, para o quarto
dos hospedes, quarto pequeno, mas aceiado, commodo, agazalhado, como so
os ninhos que a amisade prepara. Notou com commoo que tinham mudado
para aquelle quarto o _leito-canap_. A senhora Deschamps, delicada em
tudo, quiz que a me visse o filho dormir.

No dia seguinte a senhora de Valneige, no sem excitar alguma
curiosidade, perguntou qual era o caminho do hospital, dizendo que
queria vr aquella boa rapariga, que tantas vezes tinha consolado
Adalberto. Ensinaram-lh'o e partiu s com seu filho. Vendo-a, Gella
sentiu-se esmagada pela sua miseria, pela sua desgraa, pelo crime de
seu pae. O seu lindo rosto, emmoldurado pelos seus cabellos pretos em
desalinho, revelava assim a humilhao da sua alma inculta e como que
abandonada.

A criana, cheia de confiana, abraou-a como a unica amiga que tinha
tido sobre a terra durante o seu duro exilio; e a fidalga pegou-lhe nas
mos para fazer esquecer distancias, e pagar na mesma moeda a bondade de
seu corao. Depois sentou-se  cabeceira do leito, e fallou muito tempo
baixinho; a rapariga respondia ainda mais baixo, e, no fim da conversa,
Adalberto apenas poude ouvir estas palavras, que os soluos
entrecortavam:

--No, minha senhora, eu no sou digna de tantas bondades! Dar-me
trabalho em Valneige! De vestir e de comer debaixo do vosso tecto! E vr
todos os dias Adalberto! Oh! seria muita honra para mim! Meu pae no tem
outra pessoa no mundo para o tratar se estiver doente, e dar-lhe po se
lhe faltar; elle que j comea a estar velho.

Meu irmo no ficar com elle, porque s a fora  que o prende; ha de
ento ficar sem ninguem? Deixe-me na minha miseria, minha senhora,
trabalharei, no como d'antes, porque o medico diz que eu fico cxa; mas
estou costumada a coser, e no me faltar boa vontade. Irei encontrar
meu pae; sei onde o posso achar; tem muitas culpas,  verdade, para
comvosco, para com todos e mesmo para commigo; mas emfim, que lhe hei de
eu fazer, minha senhora,  meu pae!

A senhora de Valneige, admirada, dizia comsigo mais uma vez: Nunca
desprezemos pessoa alguma; por toda a parte se encontram boas almas.

Fallou-lhe, e disse-lhe o que o pequeno Adalberto no tinha podido
dizer-lhe sobre a alma e o co. Tudo se tornava possivel n'estes dias de
recluso absoluta. Gella ficaria por muito tempo no hospital; o esmoller
ia instruil-a, e alli, n'aquella caminha branca, que para ella era o
bero de uma nova existencia, faria a sua primeira communho, e
unir-se-hia, pobre rapariga das ruas, ao Deus de que a criana tinha
dito: Elle conhece todos os nomes e todas as pessoas.

Oh! como ella seria recompensada dos seus esforos, e como se sentia bem
abenoada, quando a senhora de Valneige, pondo a mo sobre a testa da
doente, que abrazava, lhe disse:

--S, pois, o anjo da guarda de teu pae; eu serei para vosss toda a
minha vida a imagem da Providencia. Em toda a parte onde estiveres,
minha filha, lembra-te de mim; em qualquer afflico que te aches,
dirige-te a mim.

Amo-te e abenoo-te.

Gella seguiu com a vista a me e o filho, quando ambos a deixaram, e
quando Adalberto se voltou para a vr ainda, disse-lhe ella, com o
corao cheio de reconhecimento:

--Obrigada pelo bem que me fizeste.

[Ilustrao pg. 253. Eu no sou digna de tantas bondades! (Pag. 251.)]




CAPITULO XIX

Adalberto era obediente.


Nunca se viu jantar mais alegre! Estavam quinze  meza. Todos
conversavam todos riam; que animao! que contentamento! Eugenio e
Frederico tinham vindo passar dois dias em Valneige, por grande favor,
em consequencia do feliz acontecimento que trouxera comsigo o socego, a
saude e a alegria.

A velha Rosinha dizia que o seu querido loirinho tinha levado tudo isto
nas algibeiras, mas, que apenas apparecra, havia banido todo o mal e
todos os aborrecimentos.

Effectivamente, o senhor de Valneige no tinha nem febre nem insomnias;
estava pallido e fraco, mas seu filho dava-lhe pouco a pouco foras e
vida. Aconselhavam-lhe viajar e j tinham comeado os preparativos da
partida. Entretanto os amigos antigos e os jovens camaradas divertiam os
espiritos e favoreciam as expanses.

Christiano e seus irmos lembravam-se d'aquelle jantar, em que Adalberto
teria sido o decimo quarto, e comparavam a alegria presente 
inquietao que ento pesava sobre todos.

Sim, Adalberto teria sido o decimo quarto; mas agora estavam quinze 
meza.

Ao p de Camilla estava uma criana to bonita como abatida, cujo olhar
doce e meigo dizia ainda, nos intervallos d'uma tosse fortissima:

-- talvez a morte que vem, e depois o co.

Era Tilly, a amiguinha de Adalberto.

A senhora de Valneige tinha ouvido as confisses de Gella; o que esta
rapariga no teria dito  justia tinha-o dito  amizade. Tilly era
realmente uma criana roubada, e roubada desde muito nova, n'um passeio
publico. No tinham nenhum conhecimento da sua familia, estava perdida
para sempre, e este _sempre_ no podia durar muito. O peito delicado
d'esta amavel criancinha tinha sido desprezado. Os medicos consultados
tinham dito: Sem esperana!

E o senhor e a senhora de Valneige tinham respondido: Poupemos-lhe a
solido! as agonias! a frieza!

A paz, rostos amigos, todos os consoladores thesouros da esperana
christ, eis o que queriam dar  doentinha em troca da sua compadecida
affeio pelo seu irmo d'infortunio, a quem ella tinha dito no dia do
seu captiveiro:

--Queres tu a minha sopa? Eu quando no como bastante no me importa.

Quanto ao bom e gordo Natchs, roubado assim como Tilly, tudo n'elle,
tanto no physico como no moral, affirmava a baixa origem que lhe
attribuia Gella. Tinha ficado em casa do senhor Deschamps, no se
entretendo seno na cosinha, extasiando-se diante d'uma caarola ou d'um
petisco. Riam da sua toleima, que o deixava desempenhar soffrivelmente
certos trabalhos puramente materiaes. A sua docilidade servil fazia
d'elle um instrumento commodo entre as mos de Julio e de Sophia;
foi-lhes dado por ajudante, acarretando agua, descascando legumes,
varrendo o pateo, regando, penteando o co. Fazia geralmente as coisas
mais aborrecidas, dando-se por satisfeitissimo, entremeando o trabalho
com algumas cambalhotas, e narrando as historias mais tolas que
comeavam sempre assim:

--Quando eu era palhao...

Achava-se feliz. Que precisava este rapaz? Uma cama, de comer e bondade;
achou tudo isso na _casa branca_, e recebia mais, a luz sufficiente aos
espiritos grosseiros para servirem o Senhor justo, que no pede contas
ao homem, seno do pouco que lhe confiou.

No tinham esquecido ninguem, mas era preciso um certo tempo para
estudar a posio de cada um, e testemunhar o seu reconhecimento da
maneira mais util.

Emfim o dia da partida chegou. Segundo o desejo de todos,
encaminhando-se para o Rheno, deviam parar na _casa branca_ e descansar
na companhia dos amaveis hospedeiros de Adalberto.

Esta paragem encantava toda a gente. Combinou-se que os criados, que
seguiam a familia, partiriam dois dias mais tarde, e aconselharam
Rosinha a poupar-se s fadigas d'uma grande viagem no comeo do inverno;
fez ouvidos de mercador, e, ainda que a volta de Adalberto fosse o
momento escolhido por ella para ir  sua terra, achou que no podia ir
sem o seu loirinho. Annuiram aos seus desejos, e comeou ento a fazer
os seus arranjos. No eram muitos; uma pequena mala, e tres toucas n'uma
chapeleira velha.

--No te esqueas do meu presente, gritava-lhe Adalberto, saltando de
roda d'ella.

--No tem perigo! Quero-lhe como s meninas dos meus olhos; por isso o
dependurei ao meu pescoo.

--Ao teu pescoo? Mostra-m'o...

A criana viu uma caixinha segura por uma fita ao pescoo de Rosinha;
esta caixa continha o boto e a ndoa de tinta que tinha trazido do
exilio! Adalberto abraou de todo o corao a sua velha governante.

Partiram alegremente todos cinco, porque Tilly ia tambem com os seus
protectores respirar um ar benefico. Passadas algumas horas, pararam
para jantar e esqueceram-se do tempo, como muitas vezes acontece.

A demora tinha sido grande; houve inquietao e incerteza; o senhor de
Valneige, no achando o seu wagon, disse a seu filho:

--Subamos seja para onde for, e juntar-nos-hemos na proxima estao.

Adalberto subiu distrahido, ao acaso, e, por estonteamento, achou-se na
terceira classe. Gritavam: vai partir! vai partir! Fechavam-se as
portinhollas--iam partir. O pae lanou-se precipitadamente na carruagem
onde seu filho estava, dizendo em voz baixa:

--Estamos aqui muito mal; mas  s por um quarto d'hora.

No fundo do wagon havia viajantes que pareciam fatigados; um, entre
outros, dormitava. A sua colossal estatura, as suas feies accentuadas
chamavam sobre elle a atteno.

Adalberto reparou n'elle... O senhor de Valneige viu o seu filho
empallidecer.

--Que tens tu, perguntou-lhe.

--Nada.

--Sentes-te mal?

--No, pap.

O pae inquieto, fez em voz baixa algumas perguntas, e seu filho
respondeu-lhe transido de medo:

-- o homem!

Houve um momento de horror na alma do senhor de Valneige.

Estava ali diante do carrasco do seu filho. O acaso entregava-o  justa
vingana d'um pae, que podia fazel-o prender, julgar, condemnar; tinha
testemunhas, provas: o boto, a ndoa de tinta, a fita doirada, as
palavras escritas na adga, a deposio de Baptista e da vendedora;
Julio, Sophia, Josephina tudo lhe vinha  memoria, tudo o levava a
proseguir; mas havia tambem na sua carteira uma carta da pobre Gella,
que se fiava na sua palavra.  verdade que as suas previses no se
tinham realisado; mas tinha dado indicaes em troca D'uma promessa. O
senhor de Valneige olhou para este homem, e, tremendo sob o peso d'esta
promessa sagrada, eterna, disse a Adalberto:

-- meu filho! lembra-te sempre, que a palavra de honra  um juramento,
que um homem no pode violar _debaixo de nenhum pretexto, e em nenhuma
circumstancia_.

Ao mesmo tempo o senhor de Valneige ainda convalescente fechou os olhos;
chegou a sua vez de empallidecer; tornaram-se-lhe os beios brancos, e
Adalberto soltou um grito. O desmaio durou s um instante; as
companheiras, de viagem abriram as vidraas para dar ar ao doente. Todos
olharam para elle e para seu filho.

Esta grande emoo passou. Na primeira estao o pae e o filho desceram.

O homem de ferro desceu tambem, e no tornou a subir.

Depois de se fallar detidamente d'este sombrio incidente no wagon onde ia
a familia, chegaram  _casa branca_. Tudo em azafama! Faziam as camas,
punham a meza etc. No faltava movimento, nem alegria, e na cosinha mais
uma fornalha acza, porque Sophia no descansava.

Os novos amigos fizeram um conhecimento cheio de benevolencia e de
amizade.

Adalberto saltou ao pescoo da senhora Deschamps, que o abraou como a
um dos seus netos.

Conversaram, passearam, descansaram, repetiram vinte vezes a mesma ida,
variando os termos; a ida de cada um era: estou bem contente!

Chegou a hora do jantar, comeram como se fossem quinze, apezar de serem
s sete; depois, Adalberto e Tilly brincaram com o bom Natchs, que
longe de soffrer com a sua inferioridade, lhes dizia com um ar de
perfeito contentamento:

--Quando eu era palhao no me julgava infeliz, mas agora vejo que o era
muito! Ha s uma coisa de que eu tenho saudades,  de fazer habilidades
nas feiras. L isso era muito divertido, quando eu era palhao!

Deitaram-se; cama aqui, cama acol. A boa senhora Deschamps tinha achado
meio de arranjar tudo; estavam pouco mais ou menos como os israelitas
debaixo das tendas; mas que doce tenda que  a da amizade! Dormiram
perfeitamente e acordaram bem dispostos.

No dia seguinte a senhora de Valneige quiz ir vr Gella ao hospital, e
levou comsigo Adalberto. Oh! Providencia! A pobre rapariga ia d'ali a
uma hora fazer a sua primeira communho. A fidalga teve a felicidade de
estar ali,  cabeceira do leito, como uma me; o querido pequeno
ajoelhou, e Gella, esclarecida, purificada, conheceu emfim o Deus de
Adalberto, o Deus de quem est escripto que ama as suas creaturas.

A doente estava quasi em estado de emprehender viagem e de ir reunir-se
a seu pae. No momento de lhe ir dizer adeus, Adalberto contou-lhe a
scena do wagon. Fez-se como um claro no espirito de Gella e olhou para
a criana.

--Pequeno, disse ella baixinho, como d'antes, dirs a teu pae que
acredito agora haver honra, e para lhe pagar rezarei todos os dias por
ti; no posso dar-te mais nada, mas dou-te o que tenho.

Como percebeu que a senhora de Valneige a tinha ouvido, teve vergonha de
tratar por tu o pequeno, e ajuntou:

[Ilustrao pg. 263. O homem de ferro desceu tambem. (Pag. 261.)]

--Perdoe-me, senhor Adalberto, se ouso ainda dizer-lhe _tu_;  a ultima
vez! No nos veremos mais sobre a terra...

E Gella desatou a chorar. A senhora de Valneige respondeu:

--No chores, minha filha, diz-me o corao que nos havemos de tornar a
vr; s honrada, s christ e Deus ser comtigo. No sei o que vai ser
de ti; mas, visto que a tua enfermidade no te deixa d'aqui por diante
seguir uma vida de saltimbanco, quero ajudar-te a trabalhar ou como
costureira ou fundando-te um pequeno negocio. Acceita este dinheiro, que
pagar a tua viagem e te permittir comear qualquer coisa e esperar o
ganho.

Ao mesmo tempo entregou a Gella um bilhete de quinhentos francos. A
doente via este bilhete na sua mo e no podia acredital-o.

--Senhora, disse ella, confunde-me com tanta bondade!... Mas eu no
posso acceitar este dinheiro.  verdade que esta somma me salvaria, que
eu ganharia facilmente a minha vida em Lyo, ao p de minha tia, e que
meu pae, vendo-me comear um pequeno commercio, renunciaria, talvez, ao
seu modo de vida, que presentemente o cansa; mas que lhe hei de eu
dizer, quando elle me perguntar d'onde me vieram estes quinhentos
francos?  preciso que elle no desconfie de cousa alguma.

--Responde-lhe que uma senhora te viu no hospital, se compadeceu da tua
desgraa e que te quer ajudar na tua laboriosa existencia.

--Mas se quizer saber o seu nome?

--Dize-lhe que me chamo... uma senhora de caridade.

--Oh! sim. A caridade em pessoa. Eu no sabia que n'este mundo se podia
achar tanta bondade. Desde a minha infancia s conheci o mal. Agora,
minha senhora, creio bem na caridade.

Gella beijou as mos da sua protectora, e levantou para ella um olhar de
reconhecimento.

De repente, por um sentimento profundo de gratido e de piedade, a
senhora de Valneige disse-lhe:

--Agradeo-te, Gella, o no teres nunca concorrido para a infelicidade
de meu filho, e teres querido entregar-m'o.  preciso que haja entre ns
uma ligao; vou dar-t'a, has de guardal-a toda a vida.

Cortou ento um dos lindos e loiros caracoes de Adalberto, e deu-o
quella infeliz, que respondeu humildemente:

--Eu no sou digna d'elle! Oh! obrigada, obrigada, senhora!

Depois ficou como desfallecida pela surpreza e pelo enternecimento, e
tendo chegado a hora da separao Gella, s com as suas recordaes,
escutou, com o corao despedaado, os ultimos passos do pequeno
Adalberto....

A senhora de Valneige depois de ter cumprido esta piedosa digresso,
voltou para a _casa branca_, e seu marido approvou tudo quanto ella
tinha feito e dito.

Durante o dia passearam pelos arredores. O verdadeiro motivo d'este
passeio foi ver as pessoas, que tinham tomado uma parte to activa em
libertar Adalberto.

Acharam na sua pequena casa, e sob os olhos de sua av, a lindinha
Josephina, cuja intrepidez tinha sido directamente a felicidade de
todos. Recebeu um beijo da feliz me, e depois, como o senhor de
Valneige tinha preparado todas as coisas, aconteceu que a av, que no
tinha outra herdeira seno Josephina, se achou proprietaria da sua
residencia, que at ali tinha alugado.

Isto fez na terra um to grande effeito, que desde ento comearam a
comprimental-a com toda a considerao, e o grande Lucas prometeu fazer
dansar a pequena n'uma festa que ia haver, apezar d'ella ainda no ter
tamanho para isso, e de ninguem olhar para ella como se no fosse j
criana.

O socegado Baptista, que estas emoes espertaram um pouco, ficou
relacionado com os habitantes de Valneige, e combinou-se que faria
remessas de queijo e harenques, para o palacio, para a villa e para a
quinta. Deram-lhe, alm d'isto, um elixir admiravel para calmar as dres
de dentes, a que era sujeito, infelizmente!

Quanto  tia Tourtebonne foi preciso desistir de a achar em casa.
Chamaram-na  _casa branca_, e os felizes paes de Adalberto, assegurando
 sua velhice uma pequena quantia, dispensaram-na de rodar mais tempo o
seu carrinho.

O seu reconhecimento exprimiu-se calorosamente; entremeava estas
expresses de vivas e fortes censuras dirigidas a si mesma, porque no
podia perdoar o ter impensadamente dito ao conductor: Partamos!
partamos! quando uma camponeza pallida e tremula tinha gritado: s
tu?

Escusado  dizer que era realmente a senhora de Valneige, procurando
mysteriosamente seu filho, e misturando-se na turba, graas ao seu
disfarce. A boa da mercadora foi-se embora dizendo:

--Fui eu que demorei a sua felicidade, minha senhora, que pena!

Um momento depois, pensando na sua fortuna, ficou radiante e disse a
Sophia:

--Espero que me hei de divertir, e passar o tempo sem trabalhar.

Que succedeu? A boa da mulher divertiu-se,  verdade; mas o habito
tornara-se para ella uma segunda natureza, e reconheceu que o maior de
todos os seus prazeres era o de rodar o seu carrinho. No suppunha isto,
mas comprehendeu-o pelo aborrecimento profundo que se apoderou d'ella,
quando interrompeu o seu activo viver. Por isso, como mulher sensata que
era, tornou a ser vendedora e tudo se passou o melhor possivel. Evitava
smente a chuva, a neve e as ventanias; e, em vez de dar por esmola
mas meias podres, dava das boas e das bonitas, o que para ella era um
gozo.

D'este modo o resgate de Adalberto foi uma felicidade para toda a gente.
No deixaram a _casa branca_ sem terem recompensado largamente os
criados. No sabiam o que haviam de dar a Natchs, que s apreciava o
que comia; teve um grande cartuxo de blos.

A familia de Valneige, depois d'alguns mezes de viagem, passou o inverno
no meiodia, e voltou na primavera para esperar os amigos em Valneige,
porque tinham promettido que aquellas doces relaes se estreitariam
todos os annos por algumas semanas que passariam juntos. Que de vezes as
duas mes se recordaram uma com a outra da poca de miseria e de
tristeza, que tinha atravessado a adorada criana! Que de vezes, como a
senhora Deschamps tinha previsto, a sua amiga pegou na fita doirada, que
guardava como testemunha dos dias de adversidade!

Adalberto cresceu na obediencia.

Hoje, que  um homem, obedece ainda; obedece s ordens de Deus, s leis
do seu paiz, aos conselhos e aos desejos de seus paes. Um dia, quando
for pae de familia, dir como lhe diziam:

Obedecei, meus filhos.

Dizemol-o a todos, jovens leitores.  bom,  util,  necessario
obedecer. Possam todos aprendel-o no seio da sua familia, e no, como
Adalberto, sob os golpes da desgraa!


FIM.




INDICE DOS CAPITULOS

I

Adalberto era feliz                                                     5

II

Adalberto tinha um grande defeito                                      13

III

Adalberto havia desobedecido                                           22

IV

Adalberto estava bem longe                                             43

V

Adalberto sabe em fim at onde pode levar a desobediencia              52

VI

Adalberto scismava se Gella tinha corao                              63

VII

Adalberto ouvia nas trevas o bater do relogio                          81

VIII

Adalberto dava que pensar  senhora Tourtebonne                        98

IX

Adalberto tinha fome                                                  113

X

Adalberto hesitava                                                    131

XI

Adalberto tinha escripto o seu nome na parede                         144

XII

Adalberto era o assumpto de todas as conversaes                     162

XIII

Adalberto tinha j passado dezoito mezes na casa do saltimbanco       170

XIV

Adalberto teria sido o decimo quarto                                  183

XV

Adalberto ficou sabendo porque Gella escrevia na areia                196

XVI

Adalberto estava alli                                                 206

XVII

Adalberto volta para o subterraneo                                    224

XVIII

Adalberto no era um ingrato                                          239

XIX

Adalberto era obediente                                               255

FIM DO INDICE DOS CAPITULOS.



DIREITO DE TRADUCO ADQUIRIDO

Lallemant Frres, Typ. Editores-Proprietarios

Lisboa.





Bibliotheca Rosa Illustrada

QUE AMOR DE CRIANA!

pela Excellentissima Senhora

CONDESSA DE SGUR

Um volume illustrado com as mais interessantes gravuras

PROPRIO PARA SER OFFERECIDO COMO PRESENTE OU COMO PREMIO NOS COLLEGIOS

PREO AVULSO:

Em brochura 600 ris; encadernado em percalina cr de rosa e doirado por
folha, 800 ris.

Para os assignantes permanentes: em brochura 500 ris; encadernado em
percalina cr de rosa e dourado por folha, 700 ris.

Para as provincias remette-se franco de porte a quem enviar o seu
importe, por qualquer meio, ao deposito especial de livros, de Madame
Franois Lallemant. Fornecedor da Casa de Bragana, e da Escola
Academica, Lisboa, rua do Thesouro Velho 22, Loja.

_Duas palavras pelo correio  o sufficiente para que se satisfaa
qualquer encommenda._






End of Project Gutenberg's A Casa do Saltimbanco, by Madame de Stolz

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DO SALTIMBANCO ***

***** This file should be named 30777-8.txt or 30777-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/3/0/7/7/30777/

Produced by Pedro Saborano

Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
