The Project Gutenberg EBook of Pardia ao primeiro canto dos Lusadas de
Cames por quatro estudantes de vora em 1589, by Anonymous

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Title: Pardia ao primeiro canto dos Lusadas de Cames por quatro estudantes de vora em 1589

Author: Anonymous

Release Date: December 20, 2006 [EBook #20149]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PARDIA AO PRIMEIRO CANTO ***




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PARODIA AO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DE CAMES POR QUATRO ESTUDANTES
DE EVORA EM 1589.


LISBOA.
NA TYPOGRAPHIA DE G. M. MARTINS.
Rua do Ferregial de Baixo, 22.
1880.




As honras da parodia s s obras do genio costumam conceder-se. A divina
Iliada foi parodiada em um poema heroi-comico to antigo, que geralmente
se attribue ao proprio Homero; ainda que Suidas lhe d por auctor a
Pigres, irmo da Rainha Artemisa. N'esse poema, intitulado a
_Batrachomyomachia_, a terrivel lucta dos Gregos e Troianos 
reproduzida no maravilhoso combate dos ratos e das rs. Esta cora
burlesca ainda faltava ao rival de Homero, quando o poeta Scarron
_primeiro_ marido da famigerada Marqueza de Maintenon, se lembrou de
cantar:

    ...... cet homme pieux,
Qui vint charg de tous se Dieux
Et de Monsieur son pre Anchise,
Beau vieillard  la barbe grise, etc.

A grande obra do unico homem de genio que talvez tenha produzido a nossa
terra, no podia isentar-se d'este fado inherente s grandes
celebridades. Eram apenas passados dezoito annos depois da publicao
dos _Lusiadas_--ainda a reputao de Cames no estava consagrada pelos
seculos, quando alguns homens engenhosos comprehenderam que aquella obra
immortal era uma d'aquellas a que a parodia era devida. O resultado de
seus trabalhos no  de certo para comparar com nenhuma das espirituosas
produces que ficam mencionadas; mas ainda assim no  esta
inteiramente destituida de merecimento. Francisco Soares Toscano, bem
conhecido dos litteratos pelo seu _Parallelo de Principes_, escreveu uma
interessante noticia sobre esta obra, em que nos conta o curioso modo
por que ella foi composta. Quatro estudantes da Universidade d'Evora
costumavam sair a passear, s tardes, aos arrabaldes da cidade, levando
comsgo os Lusiadas. Chegados a um verde ferrageal, sentavam-se a uma
fresca sombra, e se abria a sesso parodiadora. Assim como a engelhada e
disforme mascara de uma velha megra cobre o rosto radiante de formosura
de uma elegante _Coquette_, para mais fazer realar seus encantos,
quando deixe cair aquelle hediondo disfarce; assim o immortal poema
devia ser desfigurado por aquelles travessos estudantes. Os Gamas,
Castros e Albuquerques tinham de ceder seu logar aos Catigelas, Lunas e
Barbanas, bares sem duvida to assignalados nos combates de Baccho
como ess'outros nos de Marte.

Dois mezes durava aquella sesso extraordinaria; e j to continuados
passeios davam que fallar aos estudantes e tambem dariam que entender 
Santa Inquisio d'Evora, se aquella sociedade secreta no fosse
composta, como de facto o era, de quatro theologos, e to orthodoxos,
que um d'elles veio a ser Inquisidor Geral. Mas por fim appareceu a
mysteriosa obra dos quatro patuscos, como hoje lhe chamaria um
academico, e no sei se j ento lhe chamavam. A este modo de composio
de sociedade e s muitas emendas que depois soffreu dos curiosos, como
adverte Toscano, se deve talvez a confuso do enredo d'este poema.
Parece que seus collaboradores tinham principalmente em vista inverter
ao _de-vinho_ cada verso que entrava em discusso, sem attender 
coherencia do todo.  provavel que se propozessem a celebrar os mais
famosos bebedores Evorenses, aos quaes alludissem, e talvez nomeassem
por seus proprios nomes ou apellidos. Toscano, que os devia conhecer,
assim o indica quando diz que tinha feito varias cotas a esta parodia
para melhor se entender. Com effeito na est. XXX se faz meno de um
_Pero Vaz_, que provavelmente  o mesmo christo-novo, bebado perdido,
auctor do epigramma latino de que falla a noticia. Infelizmente para a
historia da _Borracheologia Lusitana_, cotas e epigramma tudo se perdeu.

Os collaboradores d'esta innocente profanao litteraria no so
inteiramente desconhecidos. _Manoel do Valle de Moura_, natural de
Arrayolos no Alemtejo, doutorou-se em Theologia na Universidade d'Evora,
e chegou a ser Arcebispo d'esta diocese e Inquisidor geral. Contava
vinte e cinco annos quando concorria para esta composio, e chegou a
uma avanada idade. Alm da obra _De Encantationibus et Ensalmis_, de
que falla Toscano, e outras de no menor utilidade, Barboza o faz auctor
de uma _Illustrao  primeira Ode de Cames_. De certo no fez pouco
Sua Rev.^{ma} se conseguiu lanar alguma luz sobre aquelle confuso ou
estropeado poema. Nem _Bartholomeu Varella_, nem o Licenciado _Manoel
Luiz_, tiveram a honra de encher as columnas da Bibliotheca Lusitana;
mas Joo Baptista de Castro de ambos faz meno no seu Mappa de
Portugal. No  comtudo a Varella, como elle pensa, que cabem os
louvores que lhe d por esta composio burlesca. Manoel Luiz
Freire--que assim lhe chama um Padre Francisco da Cruz, citado por
Castro,--se deve ter como o principal e mais chistoso collaborador desta
obra. As unicas noticias biographicas que d'elle sabemos, so as
apontadas por Toscano em sua noticia. O quarto dos theologos, e ao que
parece o mais theologo de todos, foi o pobre _Luiz Mendes de
Vasconcellos_, cujo ronceiro estro s lhe pde inspirar um unico verso.
No se confunda este obscuro individuo com o auctor do _Sitio de Lisboa_
e da _Arte militar_, supposto fossem contemporaneos. Um dedicou-se 
Egreja, o outro s armas.

Esta parodia chegou a alcanar certa celebridade, ainda que at agora
nunca fosse impressa. Eis-aqui o que d'ella diz Faria e Souza, fallando
de outra de um soneto de Garcilasso, attribuida a Cames: Lo que mi
poeta hizo conquel soneto de Garcilasso, pasndose de tanta gravedad a
tanta picardia, hizo otro ingenio Portuguez con el canto 1.^o de su
Lusiada, intitulndole _Borrachera_; porque celebra en l  algunos
aficionados del vino; y las mas de las otavas son bueltas  este
proposito con gran felicidad. E depois de dar como amostra os quatros
primeiros versos da 1.^a oitava, prosegue: El canto 2.^o continu (y no
con menos felicidad) _Antonio de Magallanes y Menezes_, seor de la
Ponte da Barca, que este ano de 1645, aqui en Madrid, me referi algunas
estancias. Yo, quando en mi mocedad atendia  esto, bolvi tambien
algunas, de que se me acuerdan los primeros quatro versos de la 90 del
canto 5.^o, que son:

Da boca de facundo capito, &c.

y mi rebuelta dice deste modo:

Da boca do fecundo borracho
Pendendo estavam todos bem bebidos,
Quando deu fim a grande inundao
Dos altos copos grandes e subidos!

(_Comment. s Rim. Tom. 1.^o pag. 354_).




FESTAS BACCHANAES:

CONVERSO DO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DO GRANDE LUIZ DE CAMES
VERTIDOS DO HUMANO EM O DE-VINHO POR UNS CAPRICHOSOS AUCTORES: S.

O DR. MANOEL DO VALLE, BARTHOLOMEU VARELLA, LUIZ MENDES DE VASCONCELLOS,
E O LICENCIADO MANOEL LUIZ, NO ANNO DE 1589.

       *       *       *       *       *

NOTICIA.


Esta obra da converso do primeiro canto do poema de Luiz de Cames se
fez no anno de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o
_Dr. Manoel do Valle_, deputado da Santa Inquisio, que compz o livro
dos Ensalmos em latim, que agora imprimiu: outro foi _Bartholomeu
Varella_, natural de Vianna, junto a Evora, o qual falleceu, que era
irmo de Diogo Pereira, que foi este anno s Crtes, que El-rei D.
Filippe II fez em Lisboa, por Procurador d'esta cidade de Evora. Foi
Bartholomeu Varella clerigo e grandissimo poeta. O terceiro foi _Luiz
Mendes de Vasconcellos_, criado do Arcebispo D. Theotonio; o qual posto
que no era poeta, se achou ao fazer da obra; e s fez um verso, que  o
ultimo da oitava 17; porque estando elles suspensos no cuidado de
completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

_Porque este  o que aguenta a velha idade_, acudiu o dito Luiz Mendes,
concluindo:

_Desterrando a agua-p d'esta cidade._

O quarto e principal auctor foi o Licenciado _Manoel Luiz_, Bacharel; e
este anno de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor
d'esta obra, e a fez quasi toda, ou o melhor d'ella.

Quando a fizeram eram ento todos theologos; e s tardes, acabado o
estudo, sahiam pela porta de Machede, e assentados em um ferrageal, iam
traduzindo para a bebedice as taes oitavas de Cames, fingindo uma
embarcao de Lisboa para Evora, como Cames a de Portugal para a India
Oriental; e compozeram a tal obra dentro em dois mezes, no cabo dos
quaes sahiram com ella: sendo que j os estudantes suspeitavam de alguma
applicao (posto que no soubessem de certo o que era) pelos verem ir
todas as tardes para fra dos muros, e communicarem seus papeis, sem
darem conta d'isso a ninguem.

Finalmente, sahida a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e
lendo-a o Padre Ferrer, castelhano (varo doutissimo da Companhia, do
qual o Dr. Manoel do Valle traz uma carta no seu livro) e fallando-se
n'ella, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca sahira nem elle
vira, se no fosse to suja.

Depois, como se divulgou, cada um a quiz emendar como entendia, d'onde
vem andarem hoje as copias com tanta diversidade de leituras. Porm eu,
esta que aqui vae, a trasladei do proprio original e letra de
Bartholomeu Varella, que est em poder do Chantre da S d'esta cidade,
Manoel Severim de Faria, que a houve do dito Varella, e lhe fiz algumas
cotas para intelligencia da obra.

Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu
_Francisco Soares Toscano_ o fiz aos 10 de Janeiro de 1619.




FESTAS BACCHANAES.


ARGUMENTO.


_Fazem concilio os bebados de porte,
Oppe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;
Favorece-os o Catigela forte,
No Lamarosa tem seu lava-dente.
De inveja Lyeo lhes busca a morte,
Descendo a Monte-mr contra esta gente,
Que v em rio Mourinho a aco traidora,
E a Peramanca chega vencedora_.


I.


Borrachas, borraches assignalados,
Que de Alcochete junto a Villa Franca,
Por mares nunca d'antes navegados
Passaram inda alm de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforados,
Mais do que se permitte a gente branca,
Em Evora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:


II.


Tambem as bebedices mui famosas
D'aquelles que andaram esgotando
O imperio de Baccho, e as saborosas
Agoas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valerosas
Se vo das leis do reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baccho, e no Marte.


III.


Cessem do Novello, do gran Barbana
As grandes bebedices que fizeram;
Cale-se do Rangel e do Carrana
A multido dos vinhos que beberam,
Que eu canto d'outra gente e d'outra lana,
A quem frascos de vinho obedeceram:
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro beber mais alto se alevanta.


IV.


E vs, bacchanaes nymphas, pois creado
Em mim tendes a sde to ardente,
Se sempre em largo copo espraiado
Festejei vosso vinho alegremente,
Dae-me agora um bom papo despejado
Para beber  perda co'esta gente,
Porque de vossas agoas Baccho ordene
Um rio para bebados perenne.


V.


Dae-me uma vasilha mui cheirosa,
Seja de bom licor, no saiba a arruda,
De Peramanca seja que  gostosa,
O peito esfora, a cr ao gesto muda;
Dae-me igual nome s tassas da famosa
Gente vossa que Baccho tanto ajuda;
Que se espalhe, e se cante no universo,
Se tanta bebedice cabe em verso.


VI.


E vs, Fernan Gonalves, segurana
Das festas de Lyeo em esta idade,
Podeis atravessar com confiana
Quantas adegas ha n'esta cidade:
Vs, mano, nosso amor, nossa esperana,
A quem s promettemos lealdade,
Pois Baccho a ns vos deu por cousa grande,
Seja a medida assim de quem a mande.


VII.


Vs s tendes o ramo florescente
Da arvore de Cybele mais amada,
Que nenhuma nascida em Benavente
Ou pelo rio abaixo at Almada.
Vde-o nas toalhas, que presente
Vos mostra a bebedice j passada,
Nas quaes vivas lembranas vos deixou
O que de vinho mais se carregou.


VIII.


Vs, alto taverneiro, cujo imperio
O bebado em se erguendo v primeiro,
Ou beba n'este nosso hemisferio,
Ou beba l n'esse outro derradeiro:
E nem por isso sente vituperio
O fidalgo, o estudante, o cavalleiro,
Antes o Turco, o Mouro, e o Gentio
Lhes pza no beber do vosso rio:


IX.


Inclinae por um pouco a magestade,
Que no azamboado rosto vos contemplo,
Quando fordes c'os mais d'esta cidade
Offertar-vos a Baccho no seu templo:
Os olhos da real bebecidade
Ponde no borracho, vereis exemplo
De amor de vossos vinhos saborosos
Por bebados louvados espantosos.


X.


Ento vereis se sois bem conhecido
De todos os amigos de Falerno;
Que no  pouco ser obedecido
No estio, primavera, outono, inverno:
Ouvi, vereis o nome engrandecido
D'aquelles de quem sois senhor superno;
E julgareis qual  mais excellente
Se ser do mundo rei, se de tal gente.


XI.


Ouvi, que no vereis com vs faanhas
Fantasticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
Bebedices dos vossos so tamanhas,
Que excedem as sonhadas fabulosas,
Que excedem ao primeiro vinhateiro,
E a Baccho inda que fra verdadeiro.


XII.


Por estes vos darei um Claudio fero,
Que fez a Peramanca tal servio,
Um fulano Coutinho, que de mero
A borracha para elle s cubio.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Uns doze que sobre um pobre chourio
Entornaram to rijo que de cama
Um monte lhes serviu d'esterco e lama.


XIII.


E se a troco de Nun'alvres e Barbana
Ou do Luna quereis igual memoria,
Vde primeiro a Pedro, cuja lana
No beber escurece qualquer gloria;
E aquelle que do enxame a segurana
No copo s quiz ter, por ter victoria;
Aquelle Diogo, invicto cavalleiro,
Que em quatro no  quarto, mas primeiro.


XIV.


Nem deixaro meus versos esquecidos
Aquelles que na sde gastadora
Se fizeram no copo to subidos,
De Lyeo a bandeira vencedora:
Um Daniel fortissimo e os temidos
Lacaios, por quem sei que sempre chora
Da Chamusca e Louredo o vinho forte,
E outros a quem Thetis causa a morte.


XV.


Em quanto a estes canto, e a vs no posso,
Bom Fernando, que no me atrevo a tanto,
Essa mo alargae ao vinho vosso,
Dareis materia a nunca ouvido canto.
Comearo a fugir d'agoa do poo
Os que em vl-a smente tem espanto,
Que em pagodes, merendas e jantares
Empinar querem s de Baccho os mares.


XVI.


Em vs os olhos tem o Mouro frio,
Frio, que usar de vs lhe no  dado;
Pelo contrario o barbaro gentio
Com desejo de ver-vos 'st squentado;
Peramanca o vermelho senhorio
Vos tem s'enviuvaes apparelhado;
Que pois em dar seus bens sois brando e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.


XVII.


De Castella se veem n'essa morada
Agoas de duas cres deleitosas,
Quando a nossa cidade est esgotada,
Inda que o gesso as faz menos gostosas;
C'o licor novo espera ser tirada
A reima das entranhas sequiosas,
Porque esse  o que aquenta a velha idade
Desterrando a agoa-p d'esta cidade.


XVIII.


Mas em quanto com novo no me alento,
Reparti com os pobres que o desejam;
Ide largando d'elle, com intento
Que seus poucos reales vossos sejam.
Assi recolhereis o nosso argento,
E de todos aquelles que festejam
Por tal ordem a Baccho celebrado,
Que costumam beber cada bocado.


XIX.


J de l d'Alcochete caminhavam,
As fermosas borrachas apertando,
E depois de vasias as largavam,
Outras d'outro licor melhor tomando,
De branca escuma os copos se mostravam
Cubertos ao beber no lhe assoprando;
Mas as agoas nem doces, nem salgadas
D'ellas vistas no foram nem provadas.


XX.


Quando Francisco, bebado espantoso,
Que em copo, frasco, taa  eminente,
Se ajuntou em conselho, desejoso
De dar favor a toda aquella gente.
Pisando esse caminho to famoso
Da rua das adegas prestemente,
Convocados da parte do entornante
Por um j n'outro tempo bom tocante.


XXI.


Deixam dos stos frios o aposento
Que para beber n'elles lhe foi dado,
Obedecendo logo ao mandamento
De um bebado to nobre e to honrado.
Alli se acharam juntos n'um momento
No bairro de Reimonde celebrado,
Os da Porta d'Avis e outros onde
As suas casas grandes tem o Conde.


XXII.


'Stava Francisco alli sublime e dino,
Vermelho como os raios de Vulcano;
Por sceptro tinha um copo crystalino
De cheiroso licor, mas no d'este anno;
Da boca lhe sahia um ar to fino,
Que em vinho convertra um tigre hyrcano;
Dos ramos tinha c'ra rutilante
Em que tornou a Daphne seu amante.


XXIII.


Em lagarias, dornas assentados,
Cubertos de mosquitos que voavam,
Os mais bebados so agasalhados,
Sem ordem nem razo se assentavam.
Precedem os menores aos honrados;
E assi uns pelos outros se trocavam:
Quando Francisco alto assi dizendo,
Com tom de voz comea grave e horrendo:


XXIV.


Moradores de donde antigamente
Teve Sertorio casa e certo assento,
Se do grande beber da forte gente
De Baccho no perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como  dos fados grandes certo intento
Que por elles s'esqueam Castelhanos,
Flamengos, Allemes, Italianos.


XXV.


J lhe foi, bem o vistes, concedido
A um bebado d'estes mais pequeno
Sogigar Caparica e ter bebido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Camarate lhe tem obedecido,
Pvos se lhe mostrou brando e sereno;
Para que  mais cansar? cousa  notoria
D'Ourem e Figueir levaram gloria.


XXVI.


Deixo, bebados, toda a fama antiga
Que l dentro em Lisboa uns alcanaram,
Quando com dez Tudescos n'uma briga
No nosso officio tanto se afanaram.
Tambem deixo a memoria que os obriga
A grande nome quando se tomaram
C'um soldado Hollandez, c'um Biscainho,
Quando a carga do frasco era s vinho.


XXVII.


Agora vdes bem que vem bebendo,
E cada qual j traz seu couro leve,
Pelas charnecas sccas, no temendo
Sequido dos Peges, a mais se atreve;
Que havendo tantos j que as partes vendo
Onde o copo comprido tem por breve,
Inclinam seu proposito e porfia
A ver os vinhos que Evora teria.


XXVIII.


Promettido lhe tem Baccho o governo
Da rua das adegas celebrada,
Onde vinhos lhe tem que os de Falerno,
Os do Rhim, ou de Alcache tem em nada.
Bem sabeis que se vem chegando o inverno,
Esta gente vem scca e esgotada,
J parece bem feito que lhe seja
Mostrada Peramanca que deseja.


XXIX.


E porque, como ouvistes, tem passados
Na viagem to asperos perigos,
Tantos vinhos vinagres esgotados,
Nas Vendas novas, nos Peges antigos;
Que sejam determino agasalhados
Entre as quintas aqui de seus amigos,
E enchendo cada qual a sua bota
Comecem a seguir sua derrota.


XXX.


Taes palavras Francisco assi dizia,
Quando todos sem ordem respondendo,
Na sentena um do outro differia,
Razes diversas dando e recebendo.
Mas Pero Vaz alli no consentia
No que Francisco disse, conhecendo
Que esqueceria um bebado eminente
Se c viesse beber aquella gente.


XXXI.


A bebados ouvira que viria
Uma gente de copo to estranha,
Pela charneca, a qual esgotaria
Tudo quanto Louredo e Lagem banha;
E com beberes novos venceria
A todos os famosos d'Allemanha.
Altamente lhe de perder a gloria
Na taa em que de todos tem victoria.


XXXII.


V que de Evora teve sogigado
Os bebados e o vinho, e nunca caso
Lhe tirou por insigne ser louvado
T dos imigos d'agoa do Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu to celebre nome em negro vaso
D'agoa do esquecimento, se lhe chegam
Os bebados insignes que navegam.


XXXIII.


Sustentava contra elle o Catigela,
Affeioado  gente bebedana,
Por quantas bebedices vira n'ella,
Jantando em Alcochete uma semana.
Affeioado vem da gente bella,
Que por brazes os copos tem ufana,
De quem a lingua  tal, se o copo empina,
Que ora parece grega, ora latina.


XXXIV.


Estas cousas se movem em uma ca
Onde apenas um ao outro s'entende,
Um d'elles tem a vinda em boa estra,
Outro s picheladas a defende;
Assi que um pela infamia que reca,
E outro pelo gasto que pretende,
Porfiam, arrebessam, permanecem,
A quasquer seus amigos favorecem.


XXXV.


Qual o fervente mosto em talha escura,
Quando a tinta lhe lanam espremida,
Por aqui, por alli sair procura
Com impeto e braveza desmedida;
A adega brame toda co'a fervura,
Bota o bagulho fra a escuma erguida,
Tal andava o tumulto levantado
Entre um bebado e outro apaixonado.


XXXVI.


Mas um que a esta gente sustentava,
E d'entre todos elles mais bebia,
Ou porque o amor do vinho o obrigava;
Ou porque o seu beber o merecia,
Tremelicando alli se levantava,
Olhando a quem primeiro brindaria;
Um borracho famoso pendurado,
Trazia ao tiracolo ao esquerdo lado.


XXXVII.


Do pichel a viseira rutilante
Levantada, de vinho branco e puro,
Por dar-lhe de beber a pz diante
De Francisco com taes armas seguro,
E dando uma pancada penetrante
C'o grande borracho no slo duro,
O cho tremeu, e um d'elles de torvado,
Uma gran vez tomou sobre um bocado.


XXXVIII.


E diz:  bebado alto, a cujo imperio
Os vinhos obedecem que encerraste,
Se aquelles que em ti buscam refrigerio,
Cujo beber soberbo tanto amaste,
No queres que padeam vituperio,
Pois que esta adega hoje lhe mostraste,
No ouas mais, pois bebado s direito,
A quem em bebedices  suspeito.


XXXIX.


Porque se o copo aqui se no mostrasse
Vencido d'esta gente e infamado,
Bem fra que aqui Baccho o sustentasse,
Que o territorio seu deixa esgotado,
Mas esta teno sua agora passe,
Porque em fim vem de estomago danado;
E nunca beba mais vinho de Beja
Quem do beber alheo tem inveja.


XL.


E tu pois que padre s da borracheza,
No consintas que bebam por canada;
E porque mostres mais tua grandeza,
Com pipas, quartos seja agasalhada:
Tragam-lhe alguns leites l da deveza
De conserva azeitona e retalhada,
Sardinha de Liceira que  conforme
Que a sde se repare e se reforme.


XLI.


Como isto disse o bebado famoso
O gro Francisco ledo consentiu,
E uma taa de vinho mui cheiroso
Logo sobre elles todos esparsiu.
Cada um pelo caminho desgostoso
Da rua das adegas se partiu,
Providos de beber seus instrumentos
Tornaram para os frios aposentos.


XLII.


Em quanto este conselho na famosa
Adega se passou, aquella gente
Pisando a charneca sequiosa
Beber deseja d'Evora a agoa-ardente.
E chegando  Amieira lamarosa,
Onde o caminho vem de Benavente,
Se algum licor trazia de Lyeo,
Sem gota lhe ficar alli o bebeo.


XLIII.


To rijamente os odres despejavam
Como em terra que tem de vinho abrigo;
Mas se tanto bebiam confiavam
No Thom dos Peges que era amigo.
 desejada venda j chegavam
Onde os abraa o seu compadre antigo;
E em signal que da vinda se alegrava,
Novos vinhos que tinha lhe mostrava.


XLIV.


Vasco Bagulho que era o capito
Que s Bacchanaes venturas se offerece,
De soberbo e altivo borracho,
A quem fortuna em copo favorece,
Para se aqui deter no v razo,
Que a terra no d vinho ao que parece.
Por diante passar determinava
Mas impediu-lh'o o vinho que chegava.


XLV.


Eis que apparece logo em companhia
Uma recova d'asnos de Castella,
Que gran copia de vinho lhe trazia,
Que foi fermosa vista, cousa bella.
Alvoroam-se todos de alegria,
Desejam j provar a causa d'ella:
Que tal ser o vinho alli diziam,
De que logares estes o trariam?


XLVI.


Os seus borraches eram de maneira
Que pipas pareciam mui compridas,
Agasalha-os com festa a taverneira
Por suas taas ver melhor providas,
O vinho bota em vasos de madeira.
Enchendo do restante as mais medidas.
Senta-se  meza logo em continente,
Para beber tambem com esta gente.


XLVII.


E do que os Castelhanos vem providos
Comeam a comer todos sentados,
Que uns d'azeitonas vem apercebidos,
Outros de uns pexinhos bem salgados.
E os que de manjares vem despidos,
Comeam a mandar vir alhos assados,
E sobre isto aos outros vo brindando,
Os castelhanos vinhos festejando.


XLVIII.


Estando assi comendo, eis que chegavam
Outros que lhes pediam que esperassem,
Porque para beber desafiavam
Os mais famosos tres que alli se achavam.
Vinho trazem tambem, o qual gavavam,
Pedindo aos assentados que provassem:
Para provar do vinho um fra salta,
Que no beber aos outros mais se exalta.


XLIX.


No tem descarregado a agoa-ardente,
Quando o que saltou fra j bebia;
Comea de gaval-o  sua gente,
Dizendo que parece malvasia.
O tarverneiro ento em continente
Tal gente recebeu com alegria.
Enchem vasos de vinho e do que deitam
Os que vem e os que esto nem gota engeitam.


L.


Comendo alegremente perguntavam,
Com lingua onde as palavras se detinham,
D'onde era o licor branco que gostavam
E se vermelho entre elle tambem tinham.
De Castella os marranos lhe tornavam
Que si, e suas mercs de donde vinham?
Disse um d'elles: De junto a Benavente,
Vimos a Evora a beber smente.


LI.


De Riba-tejo temos j provado
Os vinhos, e as adegas temos visto,
Caparica deixamos esgotado
_Molto sudando nel glorioso acquisto_.
E de um bebado somos to amado,
To querido de todos e bem quisto,
Que no no largo mar com leda fronte,
Mas de vinho entraremos n'uma fonte.


LII.


E por mandado seu buscando vamos
A terra que Louredo em torno rega,
Depois que os quartos todos esgotamos
Da Telha, Lavradio, Aldea-gallega.
Mas j razo parece que saibamos,
Se entre vs a verdade se no nega,
Quem sois, que vinho  este que buscaes,
E se tendes do d'Evora alguns signaes.


LIII.


Somos, um dos do vinho lhe tornou,
Estrangeiros na terra e na nao,
Que os proprios so aquelles que criou
A terra que sovado come o po.
A lei cega tivemos que ensinou
Aquelle descendente de Abraho,
Que vinho no bebeu quente nem frio;
_Intendami chi pu, che m'intend'io_.


LIV.


Esta pequena venda aonde estamos
 de nossa passagem certa escala,
Onde s vezes taes vinhos ns gostamos,
Que acontece ficar homem sem falla.
E por ser terra esteril procuramos,
Cada vez que passamos, visital-a.
Comem aqui e bebem tanto a pique,
Que prometto que o Fuentes cedo enrique.


LV.


E pois que tantos odres despejaes
Se d'Evora buscaes o vinho ardente,
Guiando-vos irei, t que sejaes
Postos em Monte-mr seguramente,
Onde ser bem feito que vejaes
O tridentino Andr que  o bebente
Que essa terra governa, e que vos veja,
Para que d'alguns vinhos vos proveja.


LVI.


Dizendo isto o Mourisco carregou
Os seus odres, deixando a companhia,
D'ella e do vendeiro se apartou;
Bebe cada um sua vez por cortezia;
Os novos companheiros acceitou
Com mostras de prazer e d'alegria,
Dizendo a cada um que caminhasse,
E quem beber quizesse que o tomasse.


LVII.


A noite se passou na leda frota
Com estranha alegria no cuidada,
Por acharem em terra to remota
A venda nova d'elles desejada.
Disse o Mourisco alli: Venga la bota!
Na castelhana lingua d'elle usada.
Elles que no beber tanto se esmeram,
A seu mandado logo obedeceram.


LVIII.


Do vinho alegres cres rutilavam
Pelas taas de vidro crystallino;
As velhas azeitonas que lhes davam
Festejam mais que flres e boninas,
Da venda os taverneiros s'espantavam
Do cheiro e do sabor das agoas finas,
Porm a demais gente no provava
O bom licor que entre esta se brindava.


LIX.


Mas assi como a Aurora marchetada
As fermosas borrachas lhe mostrou
quella gente meia atordoada,
Cada qual d'elles sua vez tomou.
Comea a embebedar-se a camarada,
Que de fermosos frascos se adornou,
Para beber com festa e alegria
C'o bebedor da terra que partia.


LX.


Partia alegremente, desejando
De beber j com gentes to ufanas,
Que por charnecas sccas caminhando,
Vem a beber em terras Transtaganas.
A borracha que traz vem empinando
Do licor que se vende no com canas.
J chega, mas sem gota o Tridentino;
E quem sem gota est  bem mofino.


LXI.


Recebem-no alli alegremente,
O Mourisco com sua companhia,
E d-lhe d'azeitonas um presente,
Que para tal effeito j trazia.
D-lhe sardinha frita; salta o ardente
Licor, com que elle tem tanta alegria.
Tudo o Marques contente bem recebe,
Mas triste est com ver que ninguem bebe.


LXII.


Estava o Granadino mui confuso
Com ver que no tem j de vinho nada,
Com que brinde ao bebente, como  uso,
Que para o receber fez tal jornada.
Reprende o companheiro seu abuso,
Pois sequer no deixra uma canada
Para enxaugoar a boca ao que trazia
Do fresco Monte-mr a alegre via.


LXIII.


Porque em chegando diz que ver deseja
Do vinho os instrumentos; que no cr
Que to honrada gente alli esteja,
Sem terem pelo menos agoa-p.
Mas os outros a quem nada sobeja
Do licor da boa planta de No,
Aos vendeiros pedem que alli 'stavam,
Das fundagens que para si guardavam.


LXIV.


E disse um d'elles: pois que em tal sazo
Viemos que entre ns nem gota havia,
Quero-vos dar alguma informao
De ns, em quanto o vinho l se avia.
Posto que granadino  de nao
Este homem que nos serve aqui de guia,
Perto est de Lisboa a patria nossa,
Buscamos Peramanca amada vossa.


LXV.


Deixamos esgotado todo o imperio
Que Baccho em nossas terras tem visivel;
Vimos correndo agora este hemispherio,
Porque beber por l no  soffrivel:
E posto que sofframos vituperio,
Por um largo beber tudo  soffrivel:
Que melhor  vergonha em quem bebeu,
Que a dr por no soffrer q'outrem soffreu.


LXVI.


Porque bastava s vinho infinito,
Que no ha nem gota j na companhia,
Que  tal, e no beber tem tal esp'rito,
Que inda um Tejo de vinho esgotaria.
Se as vasilhas quer ver como tem dito,
Cumprido esse desejo te seria:
Vasias as vers, que eu me obrigo
Que sempre assi 'staro, s'imos comtigo.


LXVII.


Isto dizendo mostram diligentes
Os vasos com que apagam as seccuras;
Mostram fermosos frascos e as pendentes
Borrachas que em caminhos so seguras:
Os odres nas medidas differentes,
Cobertos d'encouradas vestiduras:
Outras borrachas trazem por aljavas,
De crno copos grandes, taas bravas.


LXVIII.


Chega n'isto o vendeiro diligente
Com as suas fundagens saborosas;
Bebe d'ellas Andr alegremente,
Desafiando as gentes to famosas.
Mas d'entre elles um bebado valente
Responde-lhe que as gentes valerosas
No sahiam a um; e com razo,
Que  fraqueza entre ovelhas ser leo.


LXIX.


Mas d'isto que Andr Marques bem notou
E de tudo o que ouviu no copo attento,
Um odio certo n'alma lhe ficou
Uma vontade m de pensamento.
Nas obras e no gesto o no mostrou,
Mas com risonho e ledo fingimento
Tratal-os brandamente determina,
At que mostrar possa o que imagina.


LXX.


Piloto lhe pedia o capito
Por quem podesse a Evora ser levado,
Polo qual lhe daria um borracho
De vinho de Valbom que  extremado.
Andr lh'o prometteu, mas com teno
De peito venenoso e to danado,
Que a morte, se podesse, n'este dia
Em logar de piloto lhe daria.


LXXI.


Tal odio lhe ficou e m vontade
Da resposta que aquelle lhe tornou,
Que agoa lhe ordena dar com falsidade
Em logar do licor que No deixou.
Oh que caso cruel! oh que maldade!
Que de uma s palavra que soltou
D'este que elle buscava como amigo
O faz ficar seu perfido inimigo!


LXXII.


Partiu-se n'isto Andr, sem companhia
Dos bebados que tinha despedido,
Com engano seu e grande cortezia,
O gesto ledo a todos e fingido.
J sobre seu asninho se subia
Com vinho de que ia apercebido,
E quando se desceu no aposento
No levava a borracha mais que vento.


LXXIII.


Da rua das adegas o Thebano,
Que da parternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento to ufano,
Ser do seu bom Andr aborrecido,
No pensamento cuida um falso engano
Com que seja de todo destruido.
E em quanto isto n'alma imaginava
Um borracho tomando assi fallava.


LXXIV.


Est do Fado j determinado
Que em tantas bebedices to famosas
Se tenham d'estes bebados achado,
As suas taas sempre victoriosas;
E eu Baccho to sublime e to honrado
Bebado, e mais de partes to honrosas,
Hei de soffrer que o Fado favorea
Outrem por quem meu copo se escurea?


LXXV.


J quizeram os Fados que tivesse
Esta genta victoria n'esta parte,
Cujos campos o Tejo reverdece;
E que com tanto vinho no se farte!
Pois no se ha de soffrer que o Fado desse
A to poucos tamanho esforo e arte,
Que venham beber vinho transtagano,
Abatendo o gran nome do Thebano.


LXXVI.


No ser assi: porque antes que chegado
Seja Vasco Bagulho, astutamente
Lhe ser tanto engano fabricado,
Que nunca beba d'Ev'ra o vinho ardente.
A Monte-mr irei, e o indignado
Peito rovolverei do bom bebente:
Porque sempre per via ir direita
Aquelle que no vinho agoa no deita.


LXXVII.


Isto dizendo irado e quasi insano
N'esse Monte-mr fresco se desceu,
Onde tomando a frma e gesto humano,
Para onde estava o Marques se moveu:
E por melhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
De Talha-manco muito seu valido,
Um Taverneiro velho conhecido.


LXXVIII.


Estando assi bebendo co'elle a horas
 sua falsidade accommodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras.
Estas que ora de novo so chegadas,
Que das gentes nas vendas moradoras
Correndo a Fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que sob capa de paz sempre ancoravam.


LXXIX.


E sabe mais, lhe diz, como entendido
D'estes bebados tenho bagulhentos,
Que deixam Riba-tejo destruido
Em beber com incendios violentos:
E trazem j de longe o engano urdido
Contra ns; que todos seus intentos
So para os nossos vinhos esgotarem,
E pipas, toneis, quartos, despejarem.


LXXX.


E tambem sei que tem determinado
Da virem buscar vinho aqui mui cedo,
Mas ter-lhe-hemos um tal ardil traado
Que no cheguem a ver o de Louredo.
 justia dars logo recado
Que estes galantes prenda, que sem medo
Pelo caminho roubam, pela estrada,
E s com furtos bebem na jornada.


LXXXI.


E se assi no tivermos d'este feito
Impedido o caminho totalmente,
Eu tenho imaginado no conceito
Outra manha e ardil que te contente.
Manda-lhe aqui dar guia que de geito
Seja astuto no engano e to prudente,
Que os leve adonde sejam submergidos,
Onde a agoa d fim a seus sentidos.


LXXXII.


Tanto que estas palavras acabou,
O Tridentino Andr, bebado velho,
Os braos ao pescoo lhe lanou,
Agradecendo muito o tal conselho.
Em se apartando d'elle concertou
Para os poder prender todo o apparelho,
Com que em puro desgosto lhe tornassem
D'Evora o vinho puro que buscassem.


LXXXIII.


E busca mais para o cuidado engano
Um homem que d'alli com elle mande,
Sagaz, astuto, sabio em todo o dano,
De quem fiar se possa um quarto grande.
Diz-lhe que acompanhando o Alcochetano
Por ribeiras, por charcos com elle ande,
Que se d'aqui passar, que l adiante
V cahir onde nunca se levante.


LXXXIV.


J o carro d'Apollo caminhava
Pelo nosso horizonte, quando erguido
O bom Vasco c'os seus determinava
De vir por vinho  terra apercebido.
Os borraches a gente desatava,
Corre-se cada qual no ter bebido;
E do que  venda veio novamente
Beberam todos logo em continente.


LXXXV.


Assi se vem chegando junto  terra
Para tomar o vinho necessario;
Mas o Marques o vinho todo encerra
S pelo no beber o seu contrario.
Porm Vasco Bagulho que no erra
Em no se fiar d'este adversario,
Apercebido vem como podia
E entra em Monte-mr com alegria.


LXXXVI.


O gro Marques que o v logo desmaia,
Diz  Justia que ande apparelhada
De pistolete, chua e azagaia,
De rodela, de casco e boa espada;
E que em dando recado logo saia,
Porque tome esta gente atordoada.
E para que melhor isto se faa
Vae-se beber com elles per negaa.


LXXXVII.


Bebendo Andr co'a gente sequiosa,
Andam os beleguins fra espreitando,
E co'a chua e azagaia perigosa
Ao Marques se entraram acenando.
Mas a gula que estava desejosa
De beber, sem recado vo entrando.
Qualquer se lana ao copo to ligeiro,
Que nenhum dizer pde que  primeiro.


LXXXVIII.


Qual pobre ajuntamento d'estudante
De quatro, cinco ou seis de camarada
Que v que  pouco o vinho e no bastante,
Que ha para todos s uma canada;
Qualquer d'elles pertende andar diante,
Por lhe no tocar vez esfarrapada:
Tal pressa ha nos de fra e nos da terra,
Mas todos se vo j chegando  serra.


LXXXIX.


Eis no estomago o fumo se levanta
Da furiosa e quente companhia,
Que de tal modo bebem que se encanta
O vendeiro que o vinho lhes vendia.
A multido dos fumos era tanta
Do vinho que  cabea lhes subia,
Que logo o Alcaide foge de medroso,
De que o Marques ficou mui desgostoso.


XC.


No deixam os que ficam sua empreza,
Mas o muito que bebem mal os trata,
Que se o beber tomavam por defeza,
Esse mesmo beber os desbarata.
Alegres ficam todos sem tristeza,
J julgam a amizade por barata,
E trocam seus enganos  porfia
Pelo amor que do vinho lhes nascia.


XCI.


Vae-se cada um a casa retirando,
Porque quer vomitar muito apressado;
Quem arrota, e alli vae engulhando,
Na boca mette a mo desatinado.
O vendeiro fugiu, desamparando
A venda, do beber amedrontado;
Gloriam-se os que ficam do seu brao
Que a tantos afugenta em breve espao.


XCII.


Uns deixam por alli suas espadas,
Dos outros quem a leva no o sente;
Quem se deixa cair s tres passadas,
Quem bebe o vinho e o deita juntamente.
Arrombam as medidas s pancadas,
 parede se arruma o mais valente;
Assim que a gente d'antes inimiga
Com to alto beber se torna amiga.


XCIII.


Passando isto, fica a camarada
Com gosto de haver feito tal empreza;
Manda logo fazer de vinho agoada,
Porque d'alli no quer outra riqueza.
Ficou a alma do Marques magoada,
No odio antigo mais que nunca acceza;
E vendo sem vingana tanto dano,
Smente estriba no segundo engano.


XCIV.


Torna-se a elles, tendo-a j cozido,
Levando alguns refrescos que ha na terra,
Com um frasco de vinho mui comprido,
Mas sob capa de paz armado em guerra.
Piloto lhe offerece conhecido,
Dizendo que em taes vias jmais erra,
Com o qual se fizesse o que esperava,
Que a Evora os levaria confiava.


XCV.


O gran Vasco Bagulho, a quem convinha
Fazer j seu caminho desejado,
Que Borraches no poucos cheos tinha,
Para buscar Louredo to amado;
Recebendo o piloto que lhe vinha,
Foi d'elle alegremente agasalhado.
Despede-se com gran contentamento,
C'o guia, sem saber o falso intento.


XCVI.


Dest'arte despedida a gente honrada,
Comeou a seguir o falso guia.
No tinham meia legoa bem andada,
Quando do bom caminho se desvia.
O bom Vasco que no cahia em nada
Do grande engano que este tal lhe urdia,
D'elle mui largamente se informava
A que parte Louredo lhe ficava.


XCVII.


Mas o guia instruido nos enganos
Que o malvado do Marques lh'ensinra,
Leva-os por partes onde crueis danos
E morte em fim em agoas lhe prepara.
Diz-lhes que vo contentes, vo ufanos,
Que mui prestes vero a terra cara;
Porque elle caminhava por tal via,
Que cedo a Peramanca os levaria.


XCVIII.


E diz-lhes mais, com falso pensamento,
Que esta via por mais breve tomou,
Posto que um rio tem, mas sem tormento
E sem perigo sempre se passou.
O Bagulho que a tudo estava attento,
Muito com estas novas se alegrou;
E com grandes copadas lhe rogava
Os levasse por donde o porto estava.


XCIX.


O falso guia, porque determina
Dar-lhe porto, mas no qual elle pede,
Posto em Rio Marinho lh'o imagina
N'um pgo que em altura os mais excede.
Aqui o engano e a morte lhe maquina,
Para que tal beber com pressa vde;
E para o porto verem logo os chama
Onde lhe arma perderem vida e fama.


C.


J para l inclina a leda frota
E em chegando ao rio da cilada,
Um descala o sapato, o outro a bota,
Para ir buscar a morte no cuidada.
Chega um bebado n'isto, que remota
Lhe parece esta gente e enganada,
E com duras palavras reprehendia
D'entrarem em tal pgo a ousadia.


CI.


Mas o malvado guia conhecendo
Ser manifesto o engano, n'um instante,
Se vae por uns outeiros acolhendo,
Corrido de no ir a sua vante.
Os outros que ficavam 'sto tremendo,
Cuidando qu'inda o engano era diante;
Mas o que os tirou d'elle, mui contente
Lhes diz que ir com elles juntamente.


CII.


Ficam todos ento com alegria,
Bebem e do de beber ao que os guiava.
Um olha para o ceo, e diz que via
Mais luas do que d'antes costumava.
Duas luas a mi, Senhor, dizia,
Ao Mouro, ao infiel que vos aggrava.
Outro a um tronco diz; bebei, Senhora,
Seno deitar-vos-hei os olhos fra.


CIII.


E tendo esta ribeira j passada,
Onde os quiz afogar o falso guia,
A torre appareceu n'uma assomada
Onde matou Giraldo a m vigia.
 mo direita fica situada
Uma povoao de que bebia
A gente principal da nossa idade,
Peramanca  o nome da cidade.


CIV.


E sendo o capito aqui chegado
Estranhamente ledo, porque espera
De ser alli mui bem agasalhado
Dos refrescos que ha n'aquella terra:
Eis vem frascos de vinho com recado
De Diogo que sabe a gente que era,
Porque Baccho j d'antes o avisra
Que de bom vinho alli os regalra.


CV.


Agasalha-os a todos como amigos;
Preza-se j cada um de fallar certo,
Dando conta de todos os perigos,
Que em caminho passaram to desertos.
No curam de lhe dar uvas nem figos,
Mas o licor que deixa o olho esperto.
Quer imitar cada um o gran Barbana
Que pz n'este licor sua esperana.


CVI.


Aqui j vem tomar, livre d'engano
Anda esta gente pouco conhecida,
E debaixo de um vil e pobre panno
To alta bebedice anda escondida,
Quem bebe vinho velho, quem d'este anno,
D'um e d'outro s'entorna sem medida.
E assi favoreceu o Ceo sereno
A quem deixou por vinho o seu terreno.


FIM.





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de Cames por quatro estudantes de vora em 1589, by Anonymous

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defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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