The Project Gutenberg EBook of O Vegetarismo e a Moralidade das raas, by 
Jaime de Magalhes Lima

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Title: O Vegetarismo e a Moralidade das raas

Author: Jaime de Magalhes Lima

Release Date: January 17, 2008 [EBook #24338]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE ***




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O Vegetarismo

e a Moralidade das raas




Composio e impresso
--Emprsa Grfica A UNIVERSAL--
DE FIGUEIRINHAS & MOTA RIBEIRO, L.^DA
--Rua Duque de Loul, 111--Prto--


9.^o volume da
Biblioteca Vegetariana

Dr. Jaime de Magalhes Lima


O Vegetarismo
e a Moralidade das raas

--Notavel Conferencia realisada no
    ATENEU COMERCIAL DO PORTO
em 14 de Junho de 1912------------




SOCIEDADE VEGETARIANA--Editra
393, AVENIDA RODRIGUES DE FREITAS
PRTO




O vegetarismo e a moralidade das raas


I

Tem os seus pergaminhos o vegetarismo. No  uma doutrina nascida de
ontem. Tem ttulos autnticos de nobreza prolongada durante geraes sem
nmero, respeitada nas mais altas civilizaes em cujas superiores
aspiraes colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais
belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo
exemplo dos seus mais devotados apstolos.

Sem nos afastarmos da nossa propria civilizao, sem sairmos d'este fco
de cultura chamado o ocidente da Europa onde nos criamos e onde os
nossos mais remotos avs se criaram e educaram, legando-nos um esplio
de sentimentos e ideias que constituem toda a nossa alma e que nos
cumpre cultivar e aperfeioar para o transmitirmos aos nossos filhos
acrescentado em formosura e benefcios, emendado, corrigido e depurado
em seus vcios e insuficincias; dentro dste crculo devras estreito
relativamente aos largos espaos em que fra dele outras raas e outras
condies naturais formaram sociedades que igualmente engrandeceram e
honram a humanidade pelas concepes da vida que realizaram e de que
foram veiculo e sublime instrumento no mundo; limitando-nos  exgua
mancha do globo que  o nosso bero e o nosso lar e fazendo-o, no
porque alm dele no conheamos coraes iguais aos nossos, vivendo do
mesmo alento, crentes na mesma f e enamorados da mesma elevao mas
smente porque para o fim muito restrito que neste instante temos em
vista convm no distrair a ateno do que de mais nos toca e por isso
ser mais claramente demonstrativo: neste cantinho que acendeu seus
fachos de luz em volta do Mediterraneo e de l a fez irradiar atravs
das montanhas at aos mares do norte, o vegetarismo foi e  uma das
caracteristicas do zenit moral das civilizaes, e como tal o aceitaram,
proclamaram e praticaram os gnios que mais fundamente as compreenderam
e mais brilhantemente as serviram.

O reconhecimento deste facto  hoje uma verdade corrente. O mais
rudimentar estudo do vegetarismo no deixar de o apontar. Por certo
somaro milhes as folhas impressas em que se encontram os nomes de
vegetarianos que foram na histria dos povos da Europa como signais da
sua grandeza e juizes e farois do seu tempo e dos tempos futuros. Mas
nem  justo que se invoque o seu valor moral sem lembrar os que por uma
sublimada inspirao no-lo mostraram, nem to pouco seria prudente que,
smente porque uma verdade se tornou indiscutivel e porventura banal
entre homens cultos, deixssemos de a repetir to inumerveis vezes
quantas necessrias fossem para que ela se propague e produza todos os
bens que s pela sua larga disseminao poder produzir. E o
vegetarismo, tendo j os seus altares e o seu herico punhado de fieis
em todos os paises que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, est
infelizmente longe de ter penetrado na concepo vulgar das obrigaes
humanas, como  mister para a redeno de tantos e to dolorosos males
que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade.

Recordemos pois muito de passagem as lies dos profetas e mestres. 
dever e  utilidade. E pena  que no possamos agora faz-lo com a pausa
que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da prpria
educao imperiosamente nos aconselha.

De Pitgoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Rclus ou a Tolstoi que
arautos no teve o vegetarismo, que divinos clamores no fez ouvir s
multides ignorantes da prpria fortuna, escravas da primitiva
animalidade ou ensandecidas e aviltadas em srdidos prazeres!... Desde
que a nossa civilizao pde gravar seu rasto na histria, a tradio do
vegetarismo jmais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco
sculos a sua taa passa de mo em mo, e ora se expe  luz de sol
erguida por austeros e hercleos sacerdotes cuja rectido e fra nos
subjugam, ora  guardada devota e humildemente em solitrias ermidas,
mas jmais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lbios
que nela busquem beber a essencia do vigor do corpo e do esprito.

A escola de Pitgoras cujas tradies de superioridade moral so
memorveis e cuja profunda e duradoura influncia na filosofia, na
scincia e na teologia antiga, se alargaram desde os tempos
pre-socrticos at aos tempos do imprio romano, na Itlia, na Grcia e
na Alexandria, seis sculos antes de Cristo, j reivindicava para a vida
de pureza moral a abstinncia de alimentao carnvora, assim como de
todo o derramamento de sangue, ainda que pretendesse justificar-se pelo
sacrifcio aos deuses. Outros eram os seus altares e, seja qual fr a
estreiteza de informao escrita que do profeta de Samos e seus
discpulos nos houvesse ficado, o vigor da tradio por tal modo se
acentua neste ponto de regime diettico que no nos pde restar a menor
duvida de que nas origens da nossa civilizao se encontra imposta, como
preceito fundamental, a abstinncia de carne aos que pretenderem seguir
na vida o caminho da dignidade.

Cinco sculos mais tarde, essa tradio vive por tal forma na memria e
nas paixes ntimas dos grandes espritos da poca que Ovdio, o poeta,
no-la repetir nestes termos:

Havia em Crotona um homem da ilha de Samos que se exilara da ptria
pelo dio que tinha aos tiranos... Tinha com os deuses aturado
comrcio... O que sabia comunicava-o a uma multido de discpulos que em
um grande silncio o admiravam...

Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais:
doutrina sublime, e to pouco apreciada, cuja paternidade se lhe
atribuia.

Deixai, mortais, dizia, deixai de vos servir de manjares abominveis:
do-vos os campos searas abundantes; para vs vergam de frutos as
rvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes
legumes dum suave gsto, excelentes alguns quando cozidos. O mel e o
leite no vos so defesos. Enfim para vs, a terra  prdiga de suas
riquezas e oferece-vos toda a espcie de alimento sem que necessiteis
para sustentar-vos de recorrer  morte e  carnagem.

S aos animais convm o comer carne, e ainda nem todos se sustentam
dela. Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem s de ervas; apenas as
feras, os tigres, os lies, ursos e lobos fazem da carne seu sustento
habitual.

Que crime horrvel lanar em nossas entranhas as entranhas de seres
animados, nutrir na sua substncia e no seu sangue o nosso corpo! Para
conservar a vida a um animal, porventura  mister que morra um outro?
Porventura  mister que em meio de tantos bens que a melhor das mes, a
terra, d aos homens com tamanha profuso, prdigamente, se tenha ainda
de recorrer  morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que s
degolando animais seja possvel cevar a nossa fome?

Procedia diferentemente a idade de ouro, ditosos tempos que ns assim
chamamos. Contente com as plantas e os frutos que a terra produz, o
homem no manchava a sua bca com o sangue dos animais. As aves voavam
sem temor no meio dos ares... O universo tranqilo desconhecia laos e
ciladas. Tudo era paz.

Aquele, seja quem fr, que para desgostar os homens dos alimentos
inocentes com que se alimentavam, criou o costume de comer a carne dos
animais, abriu na mesma hora a porta a crimes de todo o gnero; porque
foi sem dvida pela carnificina dsses animais que o ferro comeou a ser
ensanguentado. Na verdade,  permitido tirar a vida aos animais que nos
atacam, mas no nutrir-nos com a sua carne. Todavia, fomos mais longe
ainda; quizemos sacrifical-os aos deuses...

Que crime tinheis cometido, ovelhas inocentes, rebanhos tranqilos, que
dais aos homens um nectar delicioso, que para os cobrir vos deixais
despojar do vosso manto e que enfim lhes sois mais teis quando vos
deixam viver do que quando vos matam? Que mal faz o boi, doce animal,
incapaz de vos prejudicar e que no  seno para o trabalho?

 necessario ser ingrato, desnaturado, de todo indigno dos bens que nos
d a terra, quando vamos tirar da charrua esse animal tranqilo, o
melhor dos nossos obreiros, para o conduzir ao altar a receber o golpe
fatal nessa cabea que tantas vezes gemeu sob o jugo e, por um trabalho
duro e penoso, tantas vezes nos renovou as searas.

No bastava aos homens cometerem to grandes crimes, precisavam ainda
da cumplicidade dos deuses, crendo que lhes podia ser agradavel o
sacrificio d'um animal to til... Levam assim a vitima ao altar; l,
recitam sbre ela oraes que ela no ouve; pe-lhe entre as pontas, que
foram doiradas, um bolo feito d'aquele mesmo gro que ele cultivou, e
afunda-se-lhe no seio a lmina sagrada...

Logo lhe tiram as entranhas ainda palpitantes, para as consultarem e
lerem n'elas os segredos dos deuses. Dizei-me, homens insaciveis,
d'onde vem esta avidez que s pde fartar-se em carnes probidas. Deixai
to criminoso uso. Segui os conselhos que vos dou. Sabei que, quando
comeis a carne do boi que acabais de degolar, comeis aquele que vos
lavrou o campo. Pois que  um deus que me inspira, s falo segundo a sua
vontade...

As nossas almas so sempre as mesmas, embora tomem formas diferentes
conforme os corpos que animam. Que a piedade no seja sacrificada 
vossa gula, que para vos saciar no expulseis dos seus corpos as almas
dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue...

 acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e
ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos.  desumanidade no nos
comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos
das crianas, e comermos as aves a que tantas vezes dmos de comer. Ah!
quo pouco dista d'um enorme crime!

Funesta aprendizagem! Deixai tranqilamente o boi lavrar a terra e seja
a sua morte o termo natural da sua velhice. Contente-nos o velo do
rebanho que nos livra da atmosfera agreste, e o leite que as cabras do
para nos nutrir: parti os vossos laos e as redes, no mais o visco
engane a ave crdula. No mais se leve ao crco o tmido veado,
perturbado com as penas que o espantam, e que no mais se oculte o anzol
em traioeiro engdo. Matai os animais que podem fazer mal; mas
contentai-vos em s lhes dar a morte e no os comer, e que s vos sirvam
alimentos legitimos.

Assim se compreendia a doutrina de Pitgoras cinco sculos depois de
haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia o
talento d'um dos espritos mais cultos duma grande poca.

A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete so garantia de
que no se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que s
as circunstncias de determinado momento haviam originado e
desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presena de problemas
morais e solues que se mostravam capazes de afrontar diverssssimas
situaes histricas e de lhes sobreviverem, representando por
conseguinte elementos essenciais  existncia das comunidades cultas.

De resto, a doutrina diettica de Pitgoras atravessava sse longo e
acidentado perodo dos primeiros sculos da nossa civilizao
refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditao dos homens
cujas lies de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raa.
No foi estranha  prodigiosa obra de Plato. E Sneca, o filsofo,
lembra-a nestes termos de simpatia:

Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a
filosofia na minha mocidade, no devo envergonhar-me de confessar a
afeio que Focion me inspirou pelo ensino de Pitgoras. Instruiu-me dos
motivos por que ele mesmo, e depois dele Sxtio, resolveu abster-se da
carne dos animais. Cada um tinha a sua razo, mas em ambos os casos era
magnfica. Focion sustentava que o homem pde encontrar alimento
bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna
habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do
apetite. Acrescentava ele que  nosso dever limitar os materiais da
luxria. Que, todavia, a variedade de alimentos  nociva  sade e no 
natural ao nosso corpo. Se estas mximas (da escola de Pitgoras) so
verdadeiras, ento abster-nos da carne dos animais  animar e promover a
inocncia; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a
simplicidade de vida. E que perdeis vs perdendo a nossa crueldade?
Apenas vos privo do alimento dos lies e dos abutres.

Levado por stes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne,
e ao fim dum ano o hbito da abstinncia no s me era fcil mas
delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu esprito eram mais
activas... Perguntais-me porque  que eu voltei atrs e abandonei esse
sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros dias
foi lanada no reino do imperador Tibrio. Certas religies estranhas
tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas de adeso
aos cultos ou supersties estranhas, estava o de abstinncia de carne
dos animais. Da por instancias de meu pai, que na realidade no tinha
medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusao, mas que odiava
a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hbitos dietticos,
e no teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a refeies
mais suntuosas...

Isto digo com a inteno de vos provar como so poderosos os primeiros
impulsos da mocidade para o que  mais verdadeiro e melhor, sob a
exortao e incentivo de virtuosos mestres. Erramos, em parte por culpa
dos nossos guias, que ensinam como se disputa e no como se vive: e em
parte por nossa culpa, aguardando que os mestres cultivem no tanto a
disposio do esprito como as faculdades da inteligncia. D'esta forma,
o que foi filosofia, tornou-se em filologia. (_Epistola CVIII._)

Em outras passagens, condenando o luxo e os desmandos sensuais da sua
poca, se refere Seneca aos escravos do ventre que, como Salstio, quer
que sejam contados entre os animais inferiores e no entre os homens e
lembra que em tempos mais simples no havia necessidade em to larga
escala de tantos mdicos supranumerrios, nem de tantos instrumentos
cirrgicos, nem de tantas caixas de drogas. A sade era simples por uma
razo simples. Muitos pratos trouxeram muitas doenas. Note-se que vasta
quantidade de vidas um estmago absorve--devastador da terra e do mar.
No  de espantar que em to discordante dieta a doena varie
incessantemente... contem os cozinheiros e no mais se espantaro do
nmero incontvel das doenas humanas.

Por sse mesmo tempo Musnio Rufo, outro filsofo eminente, sectrio
tambm do melhor estoicismo, declarava brutal o uso da carne, smente
prprio de animais selvagens, pesado e empecendo o pensamento e a
inteligncia. Os vapores que dele vem so trbidos e escurecem a alma,
de modo que os que dele partilham abundantemente mostram-se os mais
lentos em apreender.

Mas para que alongar-nos em citaes de nomes e rememorao de doutrinas
dos filsofos e moralistas do classicismo greco-romano, que condenou por
nocivo  justia e ao entendimento o carnivorismo? Para que, se um s
homem nessas horas remotas de extrema actividade mental e da mais
exaltada sensibilidade moral, pde por honra da espcie e glria da
humanidade resumir todo o problema diettico com uma profundeza
exaustiva e uma lucidez inexcedivel que os apstolos da sua doutrina at
hoje tem invocado como um evangelho a que a experiencia de muitos
seculos pouco ou nada acrescentou?

Leiam-se as obras morais de Plutarco, que viveu do primeiro ao segundo
sculo da ra crist. So um monumento, at hoje e por certo para sempre
inabalvel, da dignidade humana. L encontraremos a causa do vegetarismo
posta em termos de tal evidencia que constituem como a razo ultima da
sua legitimidade e do seu valor moral, religioso e fisiolgico.

Perguntas-me, diz Plutarco, por que motivos Pitgoras se absteve de se
alimentar com a carne dos animais. Pela minha parte, pasmo de que
espcie de sentimento, espirito ou razo estava possuido aquele que
primeiro poluiu a sua boca com sangue e consentiu que os seus lbios
tocassem a carne dum ser assassinado, que espalhou sbre a sua mesa os
membros despedaados de corpos mortos e pediu como alimento quotidiano e
prato delicado o que ha pouco era um ser dotado de movimento, de
percepo e de voz?...

Que luta pela existncia ou que excitada loucura incitou a ensopar em
sangue as tuas mos, a ti que tens sempre abundancia de todas as coisas
necessrias para viveres? Porque desmentes a terra como se ela fosse
incapaz de te alimentar e nutrir? Porque atormentas Ceres que humaniza,
e desonras as doces e suaves ddivas de Baco, como se no tivesses nelas
o bastante? No te envergonhas de misturar o assassinio e o sangue aos
seus frutos benficos? Chamas selvagens e ferozes outros carnivoros, os
tigres, os lies e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mos
e em espcie alguma de barberie lhes ficas inferior. E para eles,
todavia, o assassinio  apenas o meio de se sustentarem; para ti,  uma
lascivia suprflua. De facto, no so lies e lobos que ns matamos para
comer como em defeza prpria o poderiamos faser--pelo contrrio
deixamo-los inclumes; e entretanto, aos inocentes, aos mansos, aos que
no tem auxilio nem defesa,--a esses perseguimo-los e matamo-los,
queles que a natureza parecia ter dado vida para sua beleza e graa...

Nada nos perturba, nem a beleza encantadora das suas formas, nem a
dorida doura da sua voz e do seu grito nem a sua inteligencia, nem a
pureza da sua dieta nem a superioridade do entendimento. S para ter um
pedao da sua carne, privamo-los da luz do sol, da vida para que
nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de
queixume que eles soltam e voam em todas as direces; quando na
realidade so instncias e suplicas e rogos que cada um deles nos dirige
dizendo:--No  da verdadeira satisfao das vossas reais necessidades
que queremos livrar-nos mas da complacente luxuria dos nossos apetites.

Depois de mostrar com uma nitidez que  uma antecipao da sciencia
contempornea como o carnivorismo no pode justificar-se pela anatomia
do homem, sem dentes nem garras nem boca nem intestinos que tal processo
de nutrio suponham ou autorizem, Plutarco aponta os subterfugios de
que nos servimos para consumar o nosso crime contra a natureza. Porque
no fazes como o lio e o tigre, pergunto, e no arrancas o corao 
tua vitima? Nem mesmo depois que foi morta a comers como veio do
aougue. Has-de ferv-la, ass-la e inteiramente a transformars pelo
fogo e pelos condimentos. Completamente alteras e disfaras o animal
morto, usando dez mil ervas doces e especiarias, para que o vosso
paladar seja enganado e se prepare para receber o alimento que no 
natural. Foi uma admoestao prpria e sagaz a do espartano que comprou
um peixe e o deu ao cozinheiro para o preparar. Quando este lhe pediu
manteiga e azeite e vinagre, respondeu-lhe:--Se eu tivesse tudo isso no
tinha comprado o peixe...

A tal ponto fazemos do sangue uma luxuria que chamamos  carne
_delicadeza_ e logo reclamamos delicados condimentos para essa mesma
carne e misturamos azeite e vinho e mel e molhos e vinagre e todas as
especiarias da Sria e da Arbia, de todo o mundo, como se estivssemos
a embalsamar um cadver humano. Depois que todas estas substncias
heterognias se misturaram e dissolveram e at certo ponto se
corromperam,[A] cabe sem dvida ao estmago assimil-las, se podr. E
posto que isso possa no momento fazer-se, a sua consequencia natural  a
variedade de doenas produzidas pelas digestes imperfeitas e pela
repleio...

No  s contra a natureza da nossa constituio fsica o uso da carne.
O esprito e a inteligncia tornam-se pesados pela supreabundncia e
pela repleio;  possivel que a carne e o vinho tendam a dar robustez
ao corpo, mas para o espirito trazem smente fraqueza.

Alm e acima de todas estas razes, no parecer admirvel criar
hbitos de filantropia? Quem  to bondoso e gentil para os seres duma
outra espcie inclinar-se- algum dia a injuriar o seu prprio gnero?
Lembro-me de ter ouvido em uma conversao, como dito por Xencrates,
que os atenienses impunham penas a quem esfolasse viva uma ovelha.
Aquele que tortura um ser vivo  um pouco pior, parece-me, do que aquele
que sem necessidade priva da vida e mata rapidamente. Temos, ao que
parece, mais clara percepo do que  contrrio  propriedade e ao
custume do que daquilo que  contrario  natureza...

Com Plutarco, o vegetarismo, ou melhor, a condenao do carnivorismo
passou a ser nas preocupaes morais do homem culto um caso julgado,
eloquentemente e inabavelmente julgado. Os que se lhe seguiram, e so
legio de gnios e de santos, nada acrescentaram s razes basilares dos
seus principios dietticos, embora brilhantemente os interpretassem e
devotadamente os praticassem em um apostolado verdadeiramente religioso,
atravs de todas as contrariedades e adversidades. Os padres da igreja
crist primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a pureza, no
se esqueceram, como no podiam esquecer-se, de verberar rigidamente as
crueldades e a insnia do carnivorismo. E os filsofos estranhos ao
cristianismo e at mesmo os que o combatiam mas que vinham repassados do
platonismo helnico no foram menos ardentes na flagelao d'aquele
vicio a todos os respeitos mortal.

Dstes  notvel pela solidez e desenvolvimento da argumentao que
emparelha a de Plutarco na repulso do carnivorismo, Porfirio da
Alexandria, homem extraordinrio, discpulo de Plotino. Santo Agostinho
coloca-o acima de Plato.

Para sse tambem o vegetarismo era salvao de muita angstia e
tormento, desde que nem o mdico nem o filsofo nem o atleta se atreviam
a afirmar que a dieta carnivora era melhor para a sade e para o vigor.

Sendo assim, porque, dizia, no nos revoltamos e libertamos duma
supreabundncia de inquietaes? Para aqule que se habitua a
contentar-se com o menor luxo, ser isso a redeno no de uma mas de
mil inquietaes--dos servios de criados em excesso, duma multido de
variados estorvos, dum estado fsico de letargia e depresso, dum nmero
infinito de doenas severas, da necessidade dos mdicos, do incentivo 
devassido, de pesadas imaginaes, de desordens infinitas e superfluas,
dos ferros de grosseiros hbitos do corpo, dos excesso de fra fisica
excitando a actos de violncia--em suma, duma Ilada de males. De tudo o
que o alimento inocente que no rouba a vida e que a todos  fcilmente
acessvel nos liberta, dando paz  alma enquanto oferece ao corpo meios
de sade. No  dos que comem o gro, diz Digenes, que vem as
guerras e a pirataria; mas  dos que comem carne que vem os tiranos e os
opressores.

E diz tambm: Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na
dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do
carnivorismo), no podemos deixar de admitir por implicao que ns
mesmos fomos criados s por causa de certos animais destruidores, como
os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque no recebemos
dles o menor benefcio. Pelo contrrio, so eles que apanham, destroem
e devoram os homens que encontram--fazendo o que no procedem de modo
algum menos cruelmente do que ns. De resto, eles so assim selvagens
por necessidade e fome; e ns por insolente lascivia e luxuriosos
prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos morticnios da
caa. Em tais aces fortificamos em ns uma natureza brbara e brutal
que torna os homens insensveis ao sentimento da piedade e compaixo.
Aqules que primeiro perpetraram essas iniquidades fatalmente
entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso  que os
discpulos de Pitgoras consideram a bondade e a graa com os animais
inferiores um exercicio de filantropia e graa.

Com Porfirio fecham-se as lies magnificas de vegetarismo que a
antiguidade nos legou.

Seguem-se-lhe na ordem cronolgica as desordens e violncias da idade
mdia, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma
renovao que sabe mal os seus trmites e anciosamente os procura. Mas
nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo ser uma
doutrina morta. Aqui e alm sentimos-lhe as palpitaes; nas homlias
dum Joo Crisstomo cujos ascetas no conheciam entre si, segundo a
expresso do Santo, nem os rios de sangue, nem a matana e nem o cortar
da carne no aougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabea, nem
as exalaes horrveis dos manjares carnvoros e os fumos desagradveis
das cozinhas; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja
catlica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um
frango, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em
quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesistica
que na solido procuravam refugio das torturas que os ameaavam,
guardavam as melhores tradies dos paulicianos e dos albigenses,
esperando no futuro melhor religio e mais pura moralidade. Pelo que
toca  superioridade moral dos seus preceitos anti-carnvoros, sses
herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, at entre
os seus cruis inimigos encontraram quem lhes fizesse justia. S.
Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da
ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnvora.

No sculo XVI entramos na renascena e com ela, reatado o fio da cultura
antiga, d signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos
primeiros tempos do imprio romano.

Vem o _Compndio da Vida Sbria_ do celebre Cornaro que, fraco e
arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a
vida alm dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a _Utopia_ de Toms Moore,
a cujo povo modlo no era permitido acostumar-se a matar os animais
pelo uso dos quais julgavam que a clemncia, a mais graciosa afeio da
nossa natureza decaa e morria. E vem finalmente a ressurreio plena
da filosofia humanitria em Miguel de Montaigne.

Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discpulo, Montaigne renova
brilhantemente as exortaes do mestre contra as intolerveis crueldades
do carnivorismo.

Pela sua parte, disse, nunca foi capaz de vr sem desgsto perseguir
e matar um animal inocente e sem defesa, do qual no haviamos recebido
mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e
sem fras, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas
lgrimas pedisse misericrdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um
desagradvel espectculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que no o
restituisse  liberdade. Pitgoras tinha o costume de comprar para o
mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas vctimas. As
disposies sanguinrias relativamente aos outros animais demonstram uma
crueldade natural com a nossa prpria espcie. Desde que em Roma se
habituaram ao espectculo da chacina dos outros animais, passaram  dos
homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo
instinto de desumanidade s inclinaes humanas. Ningum tira prazer de
vr os outros animais alegres e afagando-se; e ningum deixa de se
alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaos.

Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de
conscincia mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu.
Com Plutarco e Porfrio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais
das raas no humanas, insistindo em que a diferena  de grau e no de
espcie. Plato diz, no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as
principais vantagens dos homens d'aqule tempo o comrcio que les
tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo
as suas verdadeiras qualidades e as diferenas entre ns e les, pelo
que adquiriam um perfeitssimo conhecimento e inteligncia e dste modo
fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim
de nos fazer retroceder e juntar-nos  multido. No estamos nem acima
nem abaixo do resto. Quantos esto sob o cu diz o sbio judeu,
sofrem igual lei e destino. Ha certa diferna, ha ordens e grus, mas
acham-se sob o aspecto duma nica e igual natureza.

Depois de Montaigne,  Pedro Gassendi que repete as lies de Plutarco,
enquanto medita a _Vida e Moral de Epicuro_ que sabiamente traou,
encontrando, como este, o bem supremo, _summum bonum_ no seu pequeno
jardim. E logo aps a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet
que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar  Bblia Vegetariana
pginas definitivas.

A sse notvel reformador da arte mdica parecia incrvel a soma de
prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos
factos se opem  pretensa necessidade do seu uso. Renova todo o
argumento fisiolgico contra a dieta carnvora e, citando numerosos
exemplos de homens eminentes e de naes que em todos os tempos a
condenavam, observa com muito particular e inatacvel sagacidade que
est provado que no  difcil sustentar sem carne os animais que vivem
de carne, enquanto  qusi impossvel alimentar com carne aqules que
vivem ordinriamente de substncias vegetais.

Grande poca de moralistas, o seculo XVII no deixaria escapar sem
reflexo os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a
severidade que uma s moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de
simples justia,  parte mesmo toda a exaltao religiosa ou qualquer
frouxa inspirao de poesia, logo a baixeza do carnivorismo ser
apontada e castigada como infrao de princpios supremos.

Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos
os hbitos carnvoros que ao tempo deveriam estar em plena expanso
entre nobres e gente abastada:

Muitas vezes pensei que, se no fosse pela tirania que o costume exerce
em ns, os homens duma natureza medianamente boa nunca se reconciliariam
com a aco de matarem tantos animais para seu sustento quotidiano,
enquanto a liberalidade da terra to abundantemente lhes faculta as
delicadas variedades de vegetais. Sei que a razo nos provoca a
compaixo mas frouxamente, e por isso no me admira que os homens sejam
to desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a ostra, a
ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque so mudas e o seu intimo e a
sua configurao externa largamente diferem de ns. Para ns,
exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte no  de estranhar que
a sua dr no afecte o nosso entendimento que ela no alcana; pois
coisa alguma nos move mais seguramente  piedade do que os sintomas de
misria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei
comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que
com prazer mataria meia dzia de aves.

Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o corao, o
crebro, e os nervos diferem to pouco dos nossos, e a separao do
sangue e do esprito, os rgos dos sentidos, e por consequncia o
prprio sentimento, so os mesmos que so em criaturas humanas, no
posso imaginar como um homem que no esteja endurecido no massacre e no
sangue pde vr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se
consuma.

Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgaro suficiente dizer
que, tendo sido feitas as _coisas_ para utilidade do homem, no pde
haver crueldade em dar s criaturas o uso para que foram designadas. Mas
tenho ouvido esta rplica, enquanto a natureza ntima de quem a deduz
lhe acusa a falsidade da assero.

Se no foi criado num aougue, no haver numa multido um homem entre
dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profisses a de
magarefe; e pergunto se sequer algum matou pela primeira vez sem
relutncia uma galinha.

Alguns no podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham
visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros no
levam os escrpulos alm daquelas criaturas que viram todos os dias e
conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses
escrpulos s suas prprias aves, e recusam-se a comer daquelas que
sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de
corao leve, de carne de caa, de carneiro e de aves quando foi
comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer
coisa como a _conscincia da culpa_; parece que se esforam por se
salvarem da imputao dum crime (cujas ligaes percebem) afastando de
si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da
primitiva piedade e inocncia, que o poder arbitrrio do costume e a
violncia da luxria ainda no foram capazes de conquistar.

Por ste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no perodo to fecundo
de renovao religiosa e filosfica que vai do meiado do sculo XVII ao
meiado do sculo XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores
encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espritos da
poca. Wesley foi um dsses e Pope, o clebre poeta inglez, recordando
lies do excelente Plutarco que, dizia, tinha mais impulsos de boa
natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se
lembrasse, repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes
sanguinrios de ento que, como hoje, passavam para o maior nmero por
admirvel destreza fsica e modos sos e legtimos de existncia moral e
fisiolgica.

No posso imaginar extravagante, escreveu Pope, que o gnero humano
seja, relativamente, menos responsvel pelo mau uso do seu domnio sbre
as camadas inferiores dos seres do que o  pelo exercicio da tirania
sbre a sua prpria espcie. Quanto mais completamente a criao
inferior se encontra submetida  nossa fra mais responsveis deveremos
ficar pelo seu mu govrno; por maioria de razo se deve considerar esta
responsabilidade, visto que a prpria natureza dos animais inferiores os
torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos mus
tratos que sofrerem nste.  de notar que os animais nocivos, com mais
poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens
e nunca nos ofendem seno provocados ou coagidos pela fome... No parece
fcil defender meramente por _sport_ a destruio de qualquer coisa que
tenha vida. Todavia as crianas so educadas nesta ideia e um dos
primeiros prazeres  a licena de infligir penas a animais sem defeza.
Mal nos tornamos sensiveis ao que a vida  para ns, fazemos um
passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos
homens, temos outra srie de passatempos sanguinrios, particularmente a
caa. No ouso atacar um divertimento que tem a sustent-lo tal
autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinio de que a
agitao daqule exerccio, com o exemplo e o nmero dos caadores,
contribue no pouco para resistir queles impulsos que a compaixo
naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.

Mas se os nossos _sports_ so destruidores, muito mais o  a nossa gula
e duma frma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos
fustigados at  morte, as aves amanhadas, so testemunho da nossa
luxria. Aqules que, na frase de Sneca, repartem a vida entre uma
conscincia ambiciosa e um estmago enauseado, teem a justa recompensa
da sua gula nas doenas que ela acarreta. Porque os selvagens humanos,
como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas
provises da vida e enganados pelo apetite correm  propria destruio.
No conheo nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas
coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em
torturas. D-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada
de cabeas dispersas e membros lacerados daqules que a sua crueldade
chacinou.

Com to bons guias, chegaremos ao humanismo do sculo XVIII que Rousseau
e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente.

Voltaire, no _Dicionrio filosfico_, discorrendo sbre a palavra carne,
escreveu:

Sabe-se que Pitgoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a
moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itlia. Muito
tempo a seguiram os seus discipulos: os clebres filsophos Plotino,
Jmblico e Porfrio, recomendaram-na e at mesmo a praticaram, posto que
seja muito raro fazer aquilo que prgamos. A obra de Porfrio sbre a
abstinncia de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro
sculo,  muito estimada dos eruditos mas no fez mais discpulos entre
ns que o livro do mdico Hecquet.  em vo que Profrio prope para
modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe que tinham
horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das suas
criaturas. No  seguido hoje seno pelos padres da Trapa. O escrito de
Porfrio  dirigido a um dos seus discpulos, Firmus, que, diz-se, se
fez cristo para ter a liberdade de comer carne e de beber vinho.
Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes
conservamos a sade da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais
inocncia. Todas estas reflexes so dum telogo escrupuloso, dum
filsofo rgido e duma alma doce e sensvel. Julgariamos ao l-lo que
ste grande inimigo da Igreja  um padre da Igreja. Considera os animais
como nossos irmos porque so animados como ns, porque teem os mesmos
princpios de vida, porque teem, assim como ns, ideias, sentimento,
memria, engenho. S lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaramos
mat-los e com-los? Ousaramos cometer fratricdios? Qual  o brbaro
que poderia assar um cordeiro, se sse cordeiro nos conjurasse por um
discurso comovedor a que no fssemos ao mesmo tempo assassinos e
antropfagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentlicos houve
filsofos da mais austera virtude; mas no conseguiram prevalecer contra
os magarefes e os glutes. A gula, o jgo e a preguia baniram do mundo
toda a virtude.

Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco
sbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violncia habitual do
seu carcter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente
empregou em fustigar a depravao do seu tempo e em incitar a uma
regresso salutar ao contacto e  simplicidade da natureza, inscreveu o
vegetarismo entre os artigos da nova f. Sobretudo na educao da
criana quer que rigorosamente o vegetarismo prevalea porque uma das
provas de que o sabor da carne no  natural ao homem  a indiferena
das crianas por este gnero de alimento e a preferncia que elas do
aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.[B]  de
suprema importncia que no se lhes desnature o gsto primitivo e no se
tornem carnvoras, seno por motivos de sade, pelo menos por causa do
carcter. Porque, seja qual fr a explicao da experincia,  certo que
os grandes comedores de carne so, em geral mais cruis e ferozes do que
os outros homens. Esta observao  verdadeira em todos os lugares e em
todos os tempos.  bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo
contrrio, so os mais gentis dos homens. Todos os selvagens so crueis,
e no  a sua moral que os leva a isso; a sua crueldade provm do seu
alimento. Vo para a guerra como para a caa e tratam os homens como
tratam os ursos. Mesmo na Inglaterra os magarefes no so admitidos como
testemunhas legais, assim como os cirurgies. Os grandes criminosos
endurecem-se para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os
ciclopes, que eram carnvoros, como homens terrveis, e os lotfagos
como um povo to doce que mal algum tinha comrcio com le, logo
esquecia tudo e a sua ptria para viver com le... J se viu algum
aborrecer o po e a gua? Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se a pois
uma regra de vida. Conservemos na criana pelo mais largo tempo possvel
o seu gsto primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e
vulgar; faamos que o seu paladar smente se familiarize com os aromas
naturais e que no se forme gsto algum exclusivo... Algumas vezes
observei a gente que d importncia a _viver bem_, que pensa, mal
acorda, no que ha-de comer durante o dia e descreve um jantar com mais
exactido do que Polbio usa na descripo duma batalha. Pensei que
todos esses chamados homens eram apenas crianas de quarenta anos, sem
vigor e sem consistncia. A gula  o vcio das almas que no teem fundo.
A alma do gluto est no seu paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua
estpida incapacidade, s  mesa est  vontade. A sua capacidade de
julgar limita-se s suas iguarias.

Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizs tiveram na verdade
bem desbravado o terreno para deixarem voar livres os seus sonhos duma
nova existncia toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o sangue
onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da
batalha, e smente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e
perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no sculo
XIX, a discusso e consolidao da sua doutrina e o derramamento da sua
prtica, no sero j a aspirao de gnios privilegiados mas o
patrimnio comum de milhares e milhares de espritos esclarecidos e de
coraes exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que
uma vaga de libertao da humanidade, sem precedentes na histria, nos
punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o
estrvo da opresso do costume e das tiranias sectrias. Mas no ser em
vo que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A
liberdade de proceder no significa o domnio e a supresso da ruindade.
O que nesse campo havia e ha a conquistar e  o legado funesto de
geraes sbre geraes de crueldade,  infinito. O que se conquistou 
minimo relativamente ao que importa conquistar.

Por isso um homem como Wagner descer do altssimo pedestal a que o
prprio talento e a fama o ergueram e vir com os mais humildes exortar
os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redeno no vegetarismo.

Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e
pensador, expe-nos nestes termos as ideias daqule soberbo gnio sbre
o vegetarismo, particularmente sbre a importncia que ele lhe atribuia
na regenerao fsica e moral das sociedades humanas.

A citao ser longa mas convm que se faa,  indispensvel, aponta
dados primaciais do problema:

Se consideramos primeiro a evoluo humana como fenmeno fisiolgico,
verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degenerao da
raa branca: a m alimentao, que do homem primitivamente frugvoro fez
um carnvoro, e a mistura das raas que profundamente alterou o
temperamento primitivo e as virtudes hereditrias dos antigos arias.
Estas duas causas tem por efeito uma alterao do prprio sangue entre
os povos modernos e em particular no povo alemo, alterao que deve ser
considerada como a razo fisiolgica, como o princpio inicial da
corrupo profunda que hoje aparece no seio das naes europeias.

O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traara outrora a
imagem ideal no seu moo Siegfredo, no mais se concebe agora (nesta
poca da sua vida) sob as linhas do germnico belo e vigoroso, sempre
pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir
suas fras com os rivais, e inacessivel ao temor.  agora o ndio dos
tempos primitivos, o ndio morigerado e reflectido por uma religio de
suavidade: Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessrio para
satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditao
sria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua
sustentao, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo
onde, como a experincia passada lhes havia mostrado, reinava a
indigncia, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e
do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possudo do
sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro
parecia-lhe necessrio como guarda da segurana exterior e por esta
razo tambm digno de piedade; o caador, pelo contrrio inspirava-lhe
um horror profundo e o carrasco dos animais domsticos parecia-lhe
inconcebvel. Estes homens de costumes to doces sabiam todavia dar
provas duma fra dalma sem igual, quando disso era ensejo prprio:
nenhuma tortura, nenhuma promessa pde jmais obriga-los a renunciarem 
sua f religiosa; e Wagner cita com admirao a histria comovente de
tres milhes de indios que, por ocasio duma fome causada pelos
especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus
animais domsticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que
recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmos
inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a presso das
circunstncias exteriores. Transportado, no correr das emigraes, para
climas menos clementes, torna-se caador e carnvoro, para escapar 
fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domsticos. Desde
os primeiros tempos da histria, vemo-lo transformar-se assim em um
animal de prsa vido de sangue e por fim deleitando-se em matar, no s
para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prsa
conquista vastas provncias, subjuga raas frugivoras, funda por guerras
sucessivas grandes imprios, dita leis e cria civilizaes para gozar em
paz da sua rapina, Hoje  mais perigoso e mais sanguinrio do que nunca;
aperfeioou dum modo terrvel os engenhos de destruio, exgota-se em
armamentos estreis e vive num estado de _paz armada_ periodicamente
interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado do homem de
prsa militar desenvolveu-se no correr dos sculos o homem de prsa
especulador, to de temer e to mortfero posto que menos bravo do que o
primeiro, e cuja aco devastadora se exerce sem interrupo sobre a
massa do povo que le votou  miseria e  ruina. Mas se o homem de prsa
domina o mundo como a fera reina na floresta,  como ela degenerado: Do
mesmo modo que o animal de prsa no prospera, diz Wagner, do mesmo modo
vemos o homem de prsa vitorioso finar-se lentamente. Por causa do
alimento contra a natureza que le usa,  vtima das doenas que s nle
aparecem, e nunca alcana nem o termo normal dos seus dias nem uma morte
doce: sob o aguilho de sofrimentos e de torturas que s le conhece e
que lhe ferem o corpo como a alma, apressa-se atravs duma vida de
agitaes vs, para um fim sempre terrvel.

Mas do mesmo modo que o homem primitivo, colocado em circunstncias
desfavorveis, teve de trocar a alimentao vegetal pela alimentao
animal, do mesmo modo poder, quando tiver conscincia da sua miseria e
souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos
animais, voltar por um esforo de vontade a uma alimentao
exclusivamente vegetal. S por tal preo pde esperar a regenerao.
Assim no se deixar desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de
ordem prtica. Wagner considera como uma verdade experimental
demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas
as latitudes. Mas no hesita em declarar que no caso em que se
reconhecesse a necessidade duma alimentao animal nos climas do norte,
as raas superiores deveriam emigrar sistematicamente para regies mais
favorecidas do sol. Desde j considera como instituies de salvao as
ligas de vegetarianos, as associaes para a proteco dos animais e as
associaes de temperana que procuram libertar o homem da tirania
medonha do lcool. Quando estas associaes fracas, desprezadas e hoje
um pouco ridculas, tiverem mais inteira conscincia do fim sublime que
teem em vista e se apresentarem ao pblico no como modestos apstolos
dum mediocre pensamento utilitrio mas como os missionarios da doutrina
da regenerao, podero tornar-se os instrumentos eficazes da redempo
do mundo moderno.

Eis a o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta misso social que
lhe est guardada e da influncia fundamental que tem na moralidade das
raas. E pronunciando o seu nome desnecessrio se torne lembrar em que
assombrosas faculdades esta doutrina encontrou proteco e impenetrvel
escudo.

Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento.
 o de E. Rclus.

O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e
dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e
a sua coragem que ele sujeitou s mais crueis provaes e que de todas
sairam vitoriosas, a sua prpria experincia do vegetarismo que praticou
durante mais de sessenta anos consecutivos e que no o impediu de morrer
com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigvel e de ardente
apostolodo, todas estas e muitas outras circunstncias congneres lhe
do um lugar privilegiado que convm respeitar, no por sua glria que
do nosso humilde respeito no carece, mas por nosso interesse que do seu
conselho no pde prescindir.

No era qumico nem doutor, confessa, no mencionar nem o azote nem
a albumina, nem reproduzir as frmulas dos analistas mas contentar-se-
simplesmente dizendo as suas impresses pessoais que de resto coincidem
com as de muitos vegetarianos. Foi virtualmente um vegetariano desde
criana. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao aougue buscar um
pedao de carne, e perante os horrores que l viu, desmaiou. Ouvia que o
dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo
vegetariano. No o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos
laboratrios. Nasceu-lhe no corao.

Cada um de ns, diz Rclus, especialmente aqules que viveram em um
canto da provncia, muito longe das cidades vulgares ordinrias, onde
todas as coisas esto metodicamente classificadas e disfaradas,--cada
um de ns tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos que
comem carne contra os animais que les comem. No ha necessidade de ir a
nenhuma Porcopolis da Amrica do Norte ou a uma _saladera_ de La Plata,
para contemplar os horrores dos massacres que constituem a condio
primria do nosso alimento quotidiano. Mas estas impresses gastam-se
com o tempo; cedem perante a perniciosa influncia da nossa educao de
todos os dias, que tende a arrastar o indivduo para a mediocridade, e o
despoja de quanto concorra para o tornar uma personalidade original.
Pais, mestres, por oficio ou por amizade, doutres, para no falar desta
poderosa individualidade que chamamos _toda a gente_, todos trabalham
juntos para endurecerem o carcter da criana com respeito a ste
alimento de quatro ps que, todavia, ama como ns amamos, sente como
ns sentimos, e sob a nossa influncia progride ou retrocede como ns...
No  uma digresso mencionar os horrores da guerra em conjuno com o
massacre dos gados e os banquetes carnvoros. A dieta dos indivduos
corresponde exactamente aos seus modos. O sangue pede sangue. Nste
ponto, quem rememorar as suas lembranas daqules que tem conhecido,
encontrar que no pde haver dvida possvel quanto ao contraste que
existe entre os vegetarianos e os grosseiros comedores de carne--vidos
bebedores de sangue--na amenidade dos seus modos, na gentileza de
disposio e regularidade de vida.  certo que estas qualidades no so
muito apreciadas daquelas _pessoas superiores_ que, no sendo de frma
alguma melhores que os outros mortais, so sempre mais arrogantes e
imaginam que acrescentam a sua importncia depreciando os humildes e
exaltando os fortes. Para elas, doura significa fraqueza: os doentes
so um tropo, e seria caridade varrl-os do caminho. Se no forem
mortos, deve-se pelo menos deixar que morram. Mas  justamente esta
gente delicada que resiste  doena melhor do que os robustos...

Seja porm como fr, apenas digo que para a grande maioria dos
vegetarianos a questo no  se os seus biceps e triceps so mais
slidos do que os daqules que comem carne, nem se o seu organismo est
mais apto a resistir aos riscos da vida e s contingncias da morte, no
 isso o mais importante; para eles o ponto importante  o
reconhecimento dos laos de afeio e ba vontade que unem o homem aos
chamados animais inferiores e a ampliao at sses nossos irmos do
sentimento que j pz termo ao canibalismo ntre os homens... O cavalo e
a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feiso e a cotovia,
so-nos mais agradveis como amigos do que como comida. Queremos
conserv-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou
simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.

E, chegado a ste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes
testemunhas que so ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto
marcado na histria da civilizao. Prescindo de depoimentos preciosos,
prescindo, por agora, da sano do vegetarismo pela autoridade de
individualidades to altas como, por exemplo, Leo Tolstoi, para o qual
o vegetarismo  o _primeiro passo_, ou como sse outro profta de
alm-mar, Henrique David Thoreau que julgava um benfeitor da sua raa
aqule que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente
e salutar do que aquela miservel de degolar cordeiros. No ignoro que
riquezas de elucidao e de exemplo deixo de usar, nem o fao sem mgoa.
O meu desejo e o interesse da causa a que to sinceramente consagro os
meus pobres esforos, seria repetir linha a linha e gravar na memria
dos que me escutam esse admirvel brevirio de Howard Williams que tem
por titulo _A Etica da Dieta_ e ao qual fui beber a maior parte de
aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado ser por
ventura o bastante para a demonstrao da tse que me propus defender; e
a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas consideraes
no permite que mais me alongue na apresentao dos documentos em que se
fundam.


II

Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue ttulos
autnticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A
histria da civilisao registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os
merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo
exemplo so garantia da sua excelncia.

_Quid inde?_ Com que direitos e por que trmites se criou essa nobreza e
por que razes ha-de persistir em nossos dias?

Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prtica do
vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmaes
e mais disseminadas na aco. Imediatamente se nos revelar o seu
carcter e a sua influncia na moralidade das raas.

Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como
mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitgoras, na aurora do
helenismo, quando ele comeou a ter consciencia dos seus destinos e a
meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida
universal.

Renova-se seis sculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas
disputas do mundo sucedendo  amlgama de diferentes raas e
diversssimas aspiraes religiosas em uma s e nova civilizao
permitiu aos homens que interrogassem o seu ntimo e conhecessem o que
queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigaes os
encaminhavam e prendiam.

Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfrio e a pliade de
filsofos que naquelas terras meditava a experincia de quasi dez
sculos de vida social intensa investigavam as consequncias que de a
derivavam para a compreeno d'este pequenino ser que  o homem.

Escurece-se na pulverizao do imprio romano, enquanto o tumulto das
guerras e a poeira do desabar de ruinas no consentiam parana em que os
problemas morais da nossa vida se traassem e solvessem. Mas logo a
breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua
pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura
antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, at que no
seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe
do ingresso no templo os mais venerandos levitas da redeno humana.

Isto --sempre que as sociedades europeias poderam pelo gru de cultura
que atingiam ouvir a voz da conscincia moral e prestar obedincia aos
seus ditames, o vegetarismo surge e impe-se como uma lei a que no 
permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traio do dever e de
crueis remorsos. No  outra a lio da histria sbre esta doutrina,
nem outra pde ser a interpretao das vicissitudes por que tem do
passado, dos entusiasmos que despertou, e dos dios que o perseguirem e
da irrepressvel expanso que em nossos dias o propaga.  um fenmeno da
conscincia moral, invariavelmente presente onde quer que a conscincia
moral assista, seu filho e servo. No  um devaneio filosfico, questo
de sistema ou de lgica,  um acto de religio.

Por isso teve e tem inimigos, porque no pde dominar sem offender
crenas arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse
poder arbitrrio do costume e a violncia da luxria de que falou
Bernardo do Mandeville e que encontram na f vegetariana como uma
acusao dos seus crimes e uma ameaa de abolio contra as quais se
revoltam.

Singular coincidncia! Os apstolos do vegetarismo no mereceram em
regra as boas graas dos poderes politicos constitudos. So aborrecidos
de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor,
porventura  odiada de toda a opresso e egoismo. O certo  que os
discpulos de Pitgoras foram perseguidos; Ovdio foi desterrado e
Sneca foi condenado  morte e os cataros sofreram da igreja catlica as
mais brbaras crueldades.

Na verdade, significa uma profunda revoluo moral com todas as
consequncias sociais que necessriamente importa. Como tal o devem
considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensvel
para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revoluo. Se os nossos
tempos no toleram martrios, nem por isso pdem prescindir de
tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspirao se proposer
conquistar o seu lugar no mundo.

A tarefa ser tanto mais rdua quanto  certo que o vegetarismo se v
enleiado e combatido por tradies terrveis.

Toda a nossa civilizao  filha da civilizao romana. Dela viemos e na
realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso no  mais do que
o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa
estrutura mental como a nossa estrutura econmica, como, sobretudo os
nossos problemas sociais, tudo  a repetio e a ampliao em volume e
complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.

Ora, no nos iludmos; no h talvez pior inimigo do vegetarismo do que
a cultura latina. Compare-se a civilizao latina com as civilizaes
orientais e a superioridade moral destas ltimas imediatamente se nos
mostra com evidncia. A intemperana, a gula e a crueldade foram vcios
caratersticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o
deixaram inferior, no j  puresa do budismo, que com sse o confronto
 inadmssivel sb ste aspecto, mas at mesmo  sobriedade e
frugalidade do grego, de cuja civilizao descendia em linha recta. Aos
banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como
agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das
touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente
dos mansos animais e nles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os
olhos. Parece que h mais de vinte e cinco sculos a nossa raa vive sb
um antema irrevogvel de crueldade, tanto mais pungente quanto  clara
a conscincia da maldio que nos atormenta.

Cato, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cnsul,
deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro pblico
dsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--Se tais
coisas so exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o
julgue.

So exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador to bem como ns o
sentamos. Mas a enfermidade persiste e at hoje no podemos venc-la e
sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se seno
um ttulo pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por
isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos coraes e
deixamos de sacrificar  sua desapiedade soberba tanto os homens nossos
irmos como os animais a que as demncias da nossa vaidade passaram
diploma de inferioridade.

Dobramos o cabo das Tormentas, escravizmos o ndio, e ameaando a
terra, o mar e o mundo, tudo calcmos victoriosos e em nossos triunfos
nos glorificmos. Se porm me fosse dado escolher entre a sorte do
vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrr em acusao de
traio ao amor da ptria, que a todas as nossas glrias, que so
muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na ndia do
seculo XVIII, trez milhes de portuguezes tivessem a coragem, que o
ndio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus
companheiros e seus servos e amigos.

No sei de maior grandeza na histria. No sei de exemplo de mais
sublimada moralidade duma raa, de mais grandiosa, perfeita e absoluta
imolao ao amor, a este amor que  a essncia da vida, a razo de ser
da nossa existncia, o padro nico por que se pde aferir a grandeza
humana, o como de todo o pensamento digno d'este nome na feliz
expresso de Carlyle.

Herosmo por herosmo, o d'esses vencidos que maltratmos, foi
infinitamente superior s faanhas militares de que tanto nos
orgulhamos.


III

Se porm o vegetarismo fsse incapaz de captivar os homens de
inteligncia lcida e corao recto s pelo seu valor moral absoluto,
pelo que representa como signal da mais alta concepo moral das
relaes do homem com o universo e particularmente com os seres vivos
que nos cercam, no poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela
sua influncia directa, imediata, como mecnica, na dissipao de
flaglo que presentemente  o maior e mais terrvel dissolvente da
moralidade das raas--o alcoolismo.

No  ste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para
afastar a qual todo o esfro ser pouco. Mas ningum d'olhos abertos e
medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poder
deixar de reconhecer com J. Reinach que, se a questo do alcoolismo no
 toda a questo social,  a mais terrvel e a mais grave das questes
sociais.

O que a sse respeito se passa em o nosso pas, no o sei eu. Suponho
que ser tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada
passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os
ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde
qusi no h crime de violncia contra as pessas que no seja cometido
sob a aco prxima ou remota do lcool, pelo movimento dos hospitais
onde sob inumerveis frmas essa desgraa vai pedir socorro e o mais das
vezes acabar.

No o sei. As estatsticas do nosso pas so menos do que incompletas ou
deficientes a tal respeito; so nada. Parece que tememos saber toda a
verdade e prefermos afundar-nos em cegueira total e em criminosa
indiferena, embora o exemplo dos demais pases nos assegure que no 
assim que cada um cumpre o que deve  ptria,  humanidade e 
conscincia.

Mas conheo um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em
volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar
infundindo-me no esprito as mais lugubres preocupaes sobre o futuro
da nossa raa.

Pelas estatsticas municipais corrigidas por quem por longa experincia
conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes
dever ter consumido em 1911 (numeros redondos):

1.041:000 litros de vinho comum.

7:500 litros de vinhos licorosos.

11:000 litros de agua-ardente.

Isto equivaleria na mais benigna hiptese a uma despeza de 50 contos de
reis e a um consumo de lcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo
menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianas que se acha
includa nos 10:000 habitantes do total da populao da cidade,
poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve
atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambm da
precipitao de decadncia fsica, moral e econmica que est minando a
raa.

Ora eu no posso crr que Aveiro seja um lugar de maldio no pas. Pelo
contrrio, inclino-me antes a pensar que ser uma das terras do pas
menos desmoralizadas no s neste ponto mas em absoluto. E sendo assim,
como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minsculo exemplo
em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos
filhos e o futuro da nossa ptria, que tremendas responsabilidades de
ignomnia e de traio no estamos tomando perante a histria, porque
outra traio mais infame eu no conheo do que aquela que resulta no
aviltamento fsico e moral dos nossos filhos.

Salvao, se a pde haver, e sem dvida a haver porque assim o teem
demonstrado os pases mais adeantados do que o nosso que conscientes do
mal no descansam em lhe acudir com todos os preservativos e remdios
que a experincia lhes vai aconselhando, a salvao ter de comear pela
propagao do regime vegetariano que em semelhante misso, sem se
degradar e antes acrescendo as virtudes, passar d'um dever moral
imprescindvel a uma utilidade social de primeira grandeza.

Basta a questo do lcool para que o problema da dieta seja digno da
ateno de todos os homens que amem a ptria, escreveu Russel no seu
belo livro _Strength and Diet_, hoje um clssico. Se o vegetarismo  o
_primeiro passo_, na opinio de Tolstoi, para a disciplina da nossa
vontade na obedincia religiosa,  simultaneamente a primeira regra para
nos salvar da decadncia do corpo e do esprito nsse _embrutecimento_
do lcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma s palavra as
consequncias de tal processo de envenenamento dos homens e das raas.
Porque _qualis enim esus, talis est potus_; tal comida, tal bebida.
Assim o disse ha longos sculos Tertuliano meditando nos trmites da
vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcana; e a
scincia dos nossos dias no desmentiu as lucubraes do teologo. Pelo
contrrio, absolutamente as confirmou.

Hoje, como ento, a carne e o vinho so companheiros e cmplices nessa
embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos
de todas as demencias e abjeces.

O seu processo na desmoralizao das raas  sabido. A atrofia de
conscincia que  o invarivel resultado de todas as intemperanas da
gula comear por ser acidental e transitria na sua victima, para em
seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de
repetio, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a
descendncia, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente
constitucional e orgnica.

 n'esta operao de aviltamento da nossa raa que o carnivorismo est
colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo  combater o
alcoolismo na sua maior fortaleza.

Dos resultados que os nossos esforos, podero ter em uma tal calamidade
dizem as lies que os pases estrangeiros nos facultam. Um s exemplo
invocarei. H cerca de cincoenta anos a Sucia tinha uma taberna por 100
habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Sucia tem uma taberna por
5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que  gigantesco como
capacidade de redeno dum pvo, no foi a obra do acaso; foi o produto
do mtodo, sistema e energia de vontade que todas as teraputicas
aproveitou. No se  uma nao civilizada e digna por menor preo.


    [A] Na verdade, os processos de cosinha carnvora no so outra
    coisa seno processos de corrupo; o alimento ser tanto mais
    saboroso quanto mais perfeitamente se lhe houver dissipado a
    exalao fetida primitiva. Qualquer dama de mos mimosas que trinca
    com delicia uma costeleta coberta de po e embalsamada em loiro, em
    cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limo, empalidece de nausea
    sentindo o cheiro do aougue, considera imundicie um pedao de carne
    cra nos seus vestidos e foge mais depressa da praa do peixe do que
    da montureira que aduba a horta.

    Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeio
    consistem em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento.
    Ninguem jmais teve o capricho de querer cosinhar mas para saberem
    a loiro ou feijes para cheirarem a salsa.

    [B] No acontece isso smente com as creanas. Na gente do povo,
    creana tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se
    claramente a mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes
    de roubar de qualquer salgadeira uma grama de toucinho, no resistem
     tentao de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes
    esteja  mo. Os assaltos s hortas e pomares so frequentes, e de
    tal forma isso parece estar na ordem natural que grande numero dos
    homens rudes no lhes associa nem de longe a noo do crime. Longos
    seculos de corrupo da dieta no conseguiram atrofiar essas
    tentaes d'uma atiguidade biblica, as mesmas que desgraaram Ado e
    Eva.




Livros indispensveis aos Naturistas

e a todos que desejem cultivar a sade e a longevidade, praticando
racionalmente o frugivorismo (dieta crua), vegetarismo, higiene natural
pelos exerccios normais combinados com os banhos de ar, sol e gua,
restrio alimentar, etc., em perfeita concordncia com a fisiologia
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Portugal, Brasil e outras naes. Consultrio naturista gratuito. Relato
pessoal das curas naturais de doenas rebeldes ou crnicas, etc., etc.,
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Dr. Amilcar de Souza. Indstria e fabrico domestico.

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Paris. Trad. de Angelo Jorge. Anlise, ao regime misto (carnivorismo) e
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mdico do Hospital de _Mildura_, Austrlia. Trad. do Dr. Joo Volmer.
Demonstrao prtica e racional do frutarismo scientifico.

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mental do homem pelo frugivorismo: notvel livro americano de Otto
Carqu, esmerada trad. de J. Vitorino Pinto, estudante de medicina.

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VIII--*A Sade e a longevidade*. (Um grito de alarme), por J. Bastos.
Anlise racional aos erros da vida humana _civilizada_. A sade, a
alimentao, a escola, os remdios e algumas curas relatadas so os
captulos nele desenvolvidos com superior criterio e verdade.

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IX--*O Vegetarismo e a moralidade das raas*, pelo Dr. Jaime de
Magalhes Lima. Notavel conferencia realisada no Ateneu Comercial do
Porto em 14 de junho de 1912. Com o retrato do autor em _couch_.

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*A Cura da Tuberculose pelo Vegetarismo*, pelo Dr. Paul Carton;
Irmania, novela naturista por Angelo Jorge, Os Agentes Fsicos em
Medicina., pelo Dr. J. Bentes Castel-Branco, etc. (A imprimir).

*La Hacienda*--Bfalo, Amrica--Revista ilustrada sbre agricultura,
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assina-se na redaco de _O Vegetariano_.--Prto--(12
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Todos os pedidos devem ser acompanhados das respectivas importncias em
dinheiro, cheques, vales ou estampilhas do continente, endereadas 
Sociedade Vegetariana de Portugal, redaco de _O Vegetariano_--Avenida
Rodrigues de Freitas, 393 (Antiga rua de S. Lazaro)--Prto.

A remessa pelo correio acresce 75 ris de porte e registo sendo para
Portugal, e para o Brasil e outros paises 100 ris.





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Jaime de Magalhes Lima

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your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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