The Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by Joo de Lemos

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Title: O Livro de Elysa
       Fragmentos

Author: Joo de Lemos

Release Date: February 19, 2008 [EBook #24646]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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JOO DE LEMOS


O

LIVRO DE ELYSA

Fragmentos




      *      *      *      *      *




COIMBRA

Imprensa da Universidade

1869


ADVERTENCIA

O Ill.^mo e Ex.^mo Sr. Joo de Lemos Seixas Castello Branco dignou-se
conceder-me licena para publicar este escripto, j impresso na _Revista
Academica_, jornal litterario e scientifico publicado nesta cidade em 1848.

Coimbra, 24 de Agosto de 1869.

                                                            _J. Mesquita._




O LIVRO DE ELYSA

FRAGMENTOS


I

Elysa!--Vou escrever um livro, mas um livro s para ti.

Ha de ser a traduco do pensamento revoando caprichoso por todo esse
universo; ha de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a no
desperdiar uma hora de remanso, a no sorrir nem suspirar seno comtigo;
ha de ser um jornal do corao, de que tu sers o unico assignante, o unico
leitor, e mais ainda o unico entendedor; ha de ser o desapertar incerto de
ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, ha de
ser, emfim, o exercicio de uma devoo sublime do amor, ser talvez o de um
sacerdocio mysterioso, ser de certo o de um martyrio de ausencia pungente.

Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.

Quero-o  cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoo, no
cestinho da tua costura, nos teus passeios, no theatro, no baile, na crte,
na provincia, nos risos, nas lagrimas, na esperana, no desconslo, na
vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circumstancia que te
encontres, abre-o; abre-o com a crena supersticiosa do amor e da ternura,
que nelle bebers uma superstio amorosa e terna, para alegrar-se e para
gemer comtigo.

Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.

Mas olha que este amor to pedido para elle no consiste na presena inutil
e preguiosa, ou no habito indifferente e quasi que importuno, no: quero-o
sempre ao teu lado, quero-o ainda mais, muito mais, ia dizendo unicamente
no teu corao.

Elysa!  com este nome que me apraz escrever-te, porque uma imprudencia, um
acaso natural da minha vida de mancebo podia revelar com o manuscripto a
palavra sacramental do meu segredo:--o vo, que  demasiado diaphano aos
meus olhos, ser impenetravel aos de estranhos, e para ti  uma prova do
meu egoismo ou soffreguido, que te agradar.

O rei formosissimo de todos os astros nem se offende nem fica menos bello,
porque a sombra ligeira de uma nuvem lhe passou pela frente.

      *      *      *      *      *

Mulher-typo! divindade talvez, ou sonho, ou illuso, ou feitio, ou sombra,
realidade, ou nada--eu te amo! E sabes tu como  este amor? escuta:

J viste duas pombas a devorar o espao com as brancas azas de seda,
correndo, voando, internando-se por esse azul da cupula immensa, ou
pousando  beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na
sua innocencia, innocentes nos seus carinhos?-- o amor da pomba;  o meu
amor.

J viste ao p dos corregos do inverno duas plantas indolentemente
enroscadas, teimosas, viosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro,
cheias de futuro no gozo?-- o amor da planta;  o meu amor.

J viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da sua
roseira, , ao despontar da aurora, to festejada, to conversada, to
abraada, to beijada e to adorada pela briza?-- o amor da briza;  o meu
amor.

J viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no amanhecer
da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa, porque a me
lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha, em meiguice,
em requebros lhe entreabre os braos e lhe pula ao collo?-- o amor da
criancinha;  o meu amor.

J viste essa me carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os ps e os
braos nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a
ondular-lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda
ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento
indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar
tsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pgadas,
a ferir o rosto com uma das mos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em
busca do filhinho, que se lhe perdera?-- o amor da me carinhosa;  o meu
amor.

J viste o proscripto da patria, assentado tristemente nos pincaros de
serra estrangeira, comparando cada pedao de terra, cada arvore, cada
penedo, cada passaro que lhe descanta, cada choupana, cada homem, cada
povo, e os ares, e o horisonte, e as nuvens, e as estrellas, e o sol, e o
co; bradar depois pela patria, s pela patria?-- o amor do proscripto; 
o meu amor.

J viste o marinheiro, nascido e criado nas aguas, identificar-se com
ellas, namorar-se do seu navio, brincal-o, enfeital-o, acaricial-o sempre,
beijar-lhe os cabos e velame, os mastros e o leme, contente vagar pelo
estendal das vagas, sorrir s procellas, sorrir s bonanas, anhelar do
longe uma ilha toda verde, que lhe est acenando na alma, um porto
fagueiro, que lhe est alvejando no pensamento, uma estrella da noite, que
lhe est radiando no corao; e atirar-se assim de encantado por esse mundo
sem raias, a espriguiar-se nas sensaes, a sorver delirios e melancolias
suavissimas, ainda que rudes e profundas; ora cavando o pelago com olhos
severos, ora analisando o concavo d'um tecto infinito com olhos
meditadores; e naquella soido de que  monarcha, com as suas endeixas e
com o seu alade, apinhoando l dentro d'alma cada vez mais desprezos da
terra, mais orgulho e fanatismo pelas suas campinas de crystal?-- o amor
do marinheiro;  o meu amor.

J viste o captivo encostado ao marco de pedra, quasi to quedo como elle,
com a fronte enrugada e em cada ruga um concentramento de paixo, com a
vista cravada no ferro, que lhe aperta e ennodoa a perna, uma vista to
cravada, to pegada, que a disseras um martello alli fundido por no poder
despedaar aquelle annel; e uma lagrima a resaltar-lhe das faces ao ferro,
como se fra o liquido que havia de dissolvel-o, e a mo estendida e tesa,
e depois um sorriso, um sorriso para a liberdade, para aquelle corao
outra vez a bater sem abafamentos, para aquelles olhos outra vez erguidos,
para aquelles braos outra vez seus, para aquelles ps outra vez libertos,
para aquelle ar que respirava, para aquella casa, aquelles amigos, aquella
vida, aquelle mundo, que l lhe ficou?-- o amor do captivo;  o meu amor.

E j viste, finalmente, o condemnado a quem o vento do sepulchro sacode
sobre a escada do cadafalso, que pende para a morte como a hastea que se
murcha, e que d'alli, de sobre esse triangulo erguido para vergonha da
humanidade, escarneo de Deos, e epigramma da civilizao, d'alli arremessa
uma vista infinita, insondavel, incomprehensivel para a turba, que
brutalmente o festeja, mas para a turba, que elle nunca mais ha de ver:
para o mar, que lhe rebrame ao p como se cantara uma nenia execravel, mas
para o mar, que elle nunca mais ha de ver; para os cos, que recamados de
sombras como que lhe toldam a esperana desapiedados, mas para os cos, que
elle nunca mais ha de ver; para a terra, que lhe floreja ao longe alegre e
formosa como se o quizera insultar no ultimo transe, mas para a terra, que
elle nunca mais ha de ver; para as memorias d'um passado talvez prenhe de
sangue e de remorsos, mas um passado, que elle nunca mais ha de ver; e essa
vista resumida, em fim, a luctar entre a mortalha e o vestido, entre o
carcere e a corda, entre a corda e a tumba, entre a morte e a vida, alli
lhe foge toda para a vida; para a vida, que lhe matam, para a vida to
querida, to linda e to doce olhada do cadafalso, para a vida suspirada,
gemida, e anciosamente chorada d'aquella altura tremenda, para a vida
porque  sua, para a vida porque  boa, para a vida ainda que fora m?-- o
amor do condemnado;  o meu amor.

E como o amor da pomba  innocente a amar a pomba, como o amor da planta 
vioso a amar a planta, como o amor da briza  mimoso a amar a rosa, como o
amor da criancinha  risonho e meigo a amar a me, como o amor da me 
desalinhado e louco a amar o filho, como o amor do proscripto  gemedor a
amar a patria, como o amor do marinheiro  profundo, melancolico e
dosprezador a amar os mares, como o amor do captivo  meditado e desejoso a
amar a liberdade, como o amor do condemnado  vehementemente desesperado e
terrivel a amar a vida,  assim o amor do poeta a uma mulher;-- o meu
amor.

E tu s a minha pomba, a minha planta e a minha rosa, a minha me e o meu
filho, a minha patria e os meus mares, a minha liberdade e a minha
vida!--Mulher! eu te amo, eu te amo!

Agora, Elysa, que j te paguei as primicias do livro, no s como senhora
d'elle, mas como senhora da alma que o dicta e da mo que o escreve; agora
que j te defini o meu amor, que mil vezes ainda ser aqui definido, e que
nunca o vir a ser ao cabo; agora que tu chegaste, de certo,  janella do
teu quarto, e te embeveceste nos encantos da noite a recordar-te dos meus
versos, deixa que me volte para a minha lyra.

So os meus segundos amores:  ella to minha e to formosa como tu;  a
minha companheira e consoladora;  quem me ha de ajudar neste trabalho, que
te destino:--plantou-m'a Deos dentro da alma para saber amar-te, como te
plantou a ti no mundo para que te amasse.

Quero muito  minha lyra.

O meu primeiro pensamento ao acordar  sempre teu, o segundo  sempre
d'ella; nas minhas meditaes e nos meus sonhos, nos meus risos e nas
minhas lagrimas, vindes sempre ambas to casadas, to unidas, to irms,
que eu no sei se s tu que me trazes a lyra, se  a lyra que me conduz a
ti.

Quero muito  minha lyra.

Vou conversar com ella, e preludiar-lhe ao acaso uns sons desleixados, que
lhe so queridos, um vagar delicioso por veigas da phantasia, um esquecer a
delirar por saudosa noite,  margem do Mondego, sob a rama de um salgueiro.

E que mimoso luar de primavera ahi se refrange, e espalha uma poeira de
prata na superficie das aguas!

 por uma d'estas noites suavissimas de luar que a natureza tem toda a
lindeza de mulher.

    Canta, vento do sul, teus doces cantos
  Por concavos do val adormecido,
  Tange n'harpa de Deos, nessas folhagens,
      Da noite as harmonias.
    Farta agora, Mondego, com teus beijos
  As boninas, que tremulas desmaiam,
  Que se morrem por ti na sde louca
      De lubricos prazeres.
    Banha-me a accesa fronte, meu salgueiro,
  De meiga fresquido, que ha de inspirar-me
  Desassombros do sol, da luz, do dia,
      Que se afogou nos mares.
    E tu, filha d'amor, candida lyra,
  Um abrao dos teus cinge ao teu bardo,
  Outro mais.... este s... agora folga,
      Folga por cos e terra.


    Amo o tibio claro do argenteo disco,
  Porque a luz do luar no cega os olhos,
  Como faz a do sol, porque me deixa
  Nesse lago d'anil, que vai sulcando,
      Namorar-lhe a belleza;
    Amo a languida cr do ingente espelho,
  Onde os olhos d'amantes vo casar-se;
  Onde crra talvez Grego ingenhoso
  Que o velho Jove, requintando as galas,
      Ia mirar-se, rindo.
    Eu amo, j pago, na branca esphera
  Da casta Delia envergonhado riso,
  E j l finjo negrejando os bosques,
  Onde co'a turba caadora exerce
      Seu culto pudibundo.
    Amo as rosas do co, que se emmurchecem
  Quando a lua vaidosa as vai pisando,
  Amo as nuvens co'os seios bipartidos
  De respeito alastrando eburnea senda
       rainha dos astros.
    Amo a grenha voando ao metero
  Quando pallido foge ante os seus passos,
  Amo tudo o que assim lhe paga um feudo,
  Outro feudo melhor, que no meus versos
      Engeitados da vida.

    Noite! noite! que mo te ha desdobrado
  To risonha e fagueira assim no mundo?
  Do templo do Senhor s vo, que os anjos
  De infindos orbes d'oiro recamaram?
  s lavrado padro da Omnipotencia,
  Memoria erguida em campos do infinito?
  Milhes de soes, que ostentas, sero tochas
  Ardendo ante o teu Deos no altar immenso?
  Sero letras d'amor com que lhe escreves
  Nessa pagina azul o ignoto nome?
  Tuas nuvens que so? so do thuribulo,
  Que agitam cherubins aos ps do Eterno,
  Queimado incenso a desfazer-se em fumo?
  Noite! noite! quem s? d'onde has tu vindo
  A poisar-te na terra entre mysterios?....

        No sei que ternas meiguices
      Falla a noite ao corao;
      Minhas horas mais felices
      As horas da noite so:
      Com ella na solido
      Suspiro amor e saudades,
      E com ella nas cidades
      No largo a lyra da mo;
      Suspiro, canto d'amores
      Entre os homens, entre as flores
      De noite, de dia no;
      Porque a noite tem meiguices,
      Porque as horas mais felices
      As horas da noite so.


        Como  lindo este Mondego
      A brincar sobre esta ara!
      Como  lindo o bosque verde,
      Que as verdes margens sombra!

        No seu crystal derretido
      L vem,  luz do luar,
      Outro Narciso, um salgueiro,
      Um salgueiro a namorar.

        Outra Echo, a briza doida,
      Que foi por elle engeitada,
      Anda carpindo, e zelosa
      Traz a limpha alborotada.

        Cuida que mora l dentro
      Escondida uma rival,
      E por dar-lhe invejas solta
      Perfumes, que traz do val.

        Raivosa tolda co'as azas
      O liso espelho brilhante,
      Cospe co'as azas, raivosa,
      O Mondego ao seu amante.

        E o pobre, por si perdido,
      Sacode a fronte singela,
      Murmura um ai; mas teimoso
      Busca n'agua a imagem bella.

        Como  lindo este Mondego
      A brincar sobre esta ara!
      Como  lindo o bosque verde,
      Que as verdes margens sombra!

    Como a fonte d'Ignez solua ao longe!
  Parece inda chorar-lhe a morte escura,
  Osculando na pedra eternas manchas
      Do sangue espadanado[1]
    Como os cedros a cma baloiando
  Inda vergam de dor, inda meditam
  No caso triste de memoria digno,
      Que desenterra os mortos!
    Alli d'um terno amor ternos momentos
  N'aza do tempo languidos fugiram,
  Naquelle engano d'alma que a fortuna
      No deixa durar muito!
    Dos suspiros de Ignez na penedia
  Inda os echos vagando s horas mortas
  Murmuram brandos ais, e aos sons da lyra
      Respondem gemebundos!

        Quero muito  voz solemne
      Dos echos da solido;
      So amigos invisiveis
      Com quem falla o corao.

         to doce nestas horas
      Poder assim conversar,
      Ouvir do nosso queixume
      Novos queixumes brotar!

        Chamar aquella que  longe,
      Chamar aquella que se ama,
      E o som d'amor e saudade
      No morrer na voz, que a chama!

        Sentar-me ao p d'esta fonte,
      Que to pura se deslisa,
      Clamando--Elysa!--e dos montes
      Outra voz clamar--Elysa!--

        Quero muito  voz solemne
      Dos echos da solido;
      So amigos invisiveis
      Com quem falla o corao.

    Mas quem pode formar taes sons no bosque?
  Ser perdido amante a penar magoas,
  Desprezos da que amou, desdens de bella,
  Injurias d'um rival, ou ser nympha
  Que um ingrato engeitou, e alli chorosa
  Inda, louca d'amor, serve aos amores?
  Oh! falla, quem s tu, filho da selva?....
  Silencio... respondeu... maldicto vento!
  Que s pude escutar--filho da selva!
  Embora! fique embora isso em segredo,[2]
          Saiba-o smente Deos!
  Tambem segredos, que meu peito encerra,
          S se dizem nos cos.
  A turba ha de escutar-me, e cada nota
          Ser nota d'amor!
  Mas ouvidos da turba no entendem
          Carmes do trovador.
  Emmudece-te,  lyra; e tu,  noite,
          Apaga o teu luar,
  Das trevas no pallor deixa-me um sonho
          Com Elysa sonhar.

E a lua ja roa as cumiadas do monte, e pouco a pouco se enterra por elle
abaixo... ahi ficam agora na escurido as margens do Mondego, to saudosas
como amante feliz na hora de um _adeos_, sellado com beijos... ahi se
empoleiram as auras pelas hasteas do choupal, canadas de abraar a roxa
fronte das violetas... j no se lhe escuta o frmito das azas nos seus
brincos innocentes.... faz-se um silencio longo em toda a natureza... e s
as rs veladoras continuam na voz unisona e aguda o hymno da creao!

Elysa,  tempo de pedir a Coimbra uma casa,  casa um leito, ao leito um
somno, ao somno a tua imagem.

Como o teu livro, Elysa,  fructo das horas roubadas ao remanso, e talvez
ao estudo, nesta bem-aventurada Coimbra, quero fallar-te de Coimbra!

Cada povo tem a cidade da sua poesia, da sua imaginao, dos seus amores;
cada povo aponta para uma terra, que a tradio vestiu de galas, e diz--l,
l! oh! que no ha nada mais bello!

O portuguez aponta para Coimbra.

 das recordaes d'esta cidade que o velho se nutre, e nutre os filhos ao
sero do seu lar:--quando eu estava em Coimbra! eis-ahi o exordio de todas
as aventuras de um pae; e a saudade, tingindo de roxas e mimosas cres todo
o discurso, engrandecendo tudo, louvando tudo, e chorando por tudo, leva o
ancio  perorao de rigor--no ha j tempo como o meu tempo de Coimbra!

Para o amor maternal  a terra dos seus sustos, porque  a terra dos
rapazes; mas nesses mesmos sustos, no longo esperar do abrao filial
encarnou-se no sei que doce sympathia para aquella cidade, que faz chorar
e rir toda a casa;  o gosto amargo da saudade,  o

    Delicioso pungir d'acerbo espinho[3]

Dizei a um aldeo que lhe ides contar uma historia de Coimbra, e logo o
tereis quedo, pendente de vossos labios, j certo do maravilhoso, ou do
travesso do vosso conto.

Perguntae s amantes por Coimbra: haveis de vl-as crar, como tu agora
craste, Elysa; e depois responder com um suspiro envergonhado--oh!
Coimbra!.... e o resto que l fica em seu pensamento ser uma inveja, mas
no  desamor para a terra que anda sempre casada ao amanhecer e anoitecer
de seu corao.

Perguntae ao mancebo, que s ouviu o que vai pelas margens do Mondego, sem
nunca ter pisado as suas aras de oiro, perguntae-lhe por seus desejos, e
elle vos dir simplesmente--se eu podesse ir a Coimbra! e ahi deixa
resumido o scismar de longas horas.

At a sciencia e as letras olham sempre para Coimbra como para a terra da
promisso;--a nossa esperana, dizem ellas, cada dia, cada anno, cada
seculo, a nossa esperana est l!

Se aqui vierdes, ouvireis,  certo, a muitos dos que se assentam ao car da
tarde no _Penedo da Saudade_ a curtir magoas de ausente, ouvir-lhe-heis
maldies contra Coimbra; no os acrediteis, no;  aquelle absurdo do
corao humano,  aquella saciedade na posse,  o nunca-satisfazer dos
desejos do homem, o desprezo do que j tem, trocado pelo anhelar do que
ainda espera; mas, se fordes inquirir esses mesmos, uma hora antes de
deixarem Coimbra para sempre, ou elles no tm alma afinada para as
melodias da terra, ou elles vos diro com as lagrimas nos olhos--podera eu
nunca deixar Coimbra!  que lhes ficam aqui as horas mais descuidosas, mais
doces, mais felizes da mocidade;  que lhes ficam aqui as amizades, que no
morrem mais, a liberdade, que mais no volta, e estes ares purissimos, este
co purissimo, estas aguas purissimas, esta Coimbra unica!

Ah! como lhes ha de apparecer em sonhos este archanjo de pedra assentado no
seu tapete de flores! Coimbra!... ho de descobril-a de longe, vestida de
branco, morbida, formosa, voluptuosa, modesta, a metter seus ps de marmore
na prata do Mondego; a devassar o seio das nuvens com o capacete da sua
torre, como se fra estatua de Minerva; com seus braos estendidos a
afogarem-se em aafate de esmeraldas; com a sua ponte orlada de vultos
negros, que se debruam na corrente como os salgueiros da margem; com a
cintura azul de mil outeiros, que ao longe fecham o seu largo horisonte;
com toda esta belleza, este encantamento, esta feminidade de donzella,
esquecida na relva d'um prado a tanger um hymno d'amor, com os olhos no
co!

Ahi tendes ento os blasphemos arrependidos: Coimbra no  s a
tortuosidade e estreiteza de suas ruas, no  o som lugubre do seu sino
fatal, no  o suspirar por quem vive longe, no  nada d'isto;  a terra
das suas saudades,  a saudade da sua poesia,  a poesia da sua vida!

Se um d'esses homens for poeta... e quem ha que o no seja depois do
baptismo da sombra d'estes salgueiraes, do perfume d'estes campos, do
crystallino d'este ambiente, da doura d'estas aguas, da verdura d'estes
montes, da fresquido d'estas brizas? aqui a poesia bebe-se pelos olhos,
pela bocca, pelos ouvidos, sem o querer, sem o cuidar, sem o sentir; cada
pedra, cada tronco leva inspiraes ao amago do seio, que desatina a cantar
como a zagala ao desabrochar do dia, ou como a avesinha, que sada a
primavera; aqui murmura melodias o ciciar da aragem nas flores da collina;
o scintillar da lua quando num tecto de saphira pende accesa como lampada
de sanctuario; o ardor do sol, quando se alastra em diamantes por cima do
estendal da ara; o echo a responder sonoro s palmas d'um folguedo; a vara
do barqueiro a resvalar nos seixinhos do rio; o lavadouro da _tricana_, que
geme debaixo dos seus golpes, menos duros porque os acompanha uma cantiga
de amores!--at os nomes dos sitios tm aqui uma suave harmonia, como
preludio de cano, que deixa adivinhar-lhe toda a lindeza!.... Mas no
vs, Elysa, como eu vou longe do que ia dizendo? era Coimbra, que me
arrebatava nas ondas da sua poesia; foi uma nova prova do seu
poder;--voltemos porm ao primeiro proposito.

Se um d'esses homens for poeta, ir assentar-se no limiar da sua porta,
quando a tarde vai cando nos braos da noite, e alli o vereis a cantar;
segui-lhe o canto... no ouvis? aqui fallou d'aquella fonte,

    Que lagrimas so a agua e o nome amores;[4]

alli gemeu com a desditosa _Castro_  sombra dos cedros seculares; agora um
som festival lhe escapa ao recordar-se da _Lapa dos Esteios_, onde se lhe
escoaram deleitosos momentos por sobre alcatifa de violetas e boninas; logo
suspira nas cordas da harpa aquella _Maria Telles_ to sem ventura, a quem
a mo do esposo ceifa a rosa da vida no descuido da noite; l se lhe
accende o estro na labareda do enthusiasmo, porque se recordou d'aquelle
cavalleiro d'antes quebrar que torcer,[5] que fecha as portas da cidade ao
rei cheio de vida e de poder, e leva as chaves d'ellas ao rei sem vida e
sem nada; eil-o depois encostado ao tumulo de D. Sisnando, a misturar nos
seus versos o saudoso da religio, inspirado pela fronte carcomida da
cathedral veneranda que viu nascer a patria, e que tem visto morrer tantos
seculos!

Olhae como vos diz que Coimbra 

    Cidade rica do sancto
    Corpo do seu rei primeiro,
    Qu'inda vimos com espanto
    Ha to pouco tempo inteiro
    Dos annos que podem tanto.[6]

Silencio... no vdes como lhes resumbram no seu cantico uns nomes to
feiticeiros...

      _Da saudade o penedo!_ que amores
     minh'alma, aos meus olhos no !
    Lindo cesto de graa e verdores,
    Verde ramo do monte ao sop.

      _Dos suspiros a gruta_ mais longe
    Recolhida se foi meditar.
    S poeta, s ave, s monge
    Pde  gruta os segredos vulgar!

E aqui lhe escapa depois no fundo arrebatar do pensamento grave um nome
grave como elle--o _Penedo da Meditao!_ mas de volta para a cidade pra
diante da gradaria soberba de soberbo jardim erecto pelas mos sagradas
d'um Bispo[7] e exclama

    Salve, terra mimosa! a ti meu canto
    A ti meu corao, minhas saudades!

E o echo, ou de cortez, ou de agradecido, responde-lhe de dentro do
arvoredo o derradeiro verso

    A ti meu corao, minhas saudades![8]

Que  tudo isto, Elysa? que  todo esse cantar d'aquelle homem j longe de
Coimbra? No , no pde ser, no ha de ser nunca outra coisa seno o
transumpto das perolas, que a patria de _S de Miranda_ lhe engastou na
alma, e que a memoria ha de vasar sempre do seu thesouro todas as vezes que
o poeta pegar na lyra.

Elysa, eu amo muito esta formosa terra!

 o corao de Portugal, onde  vontade se revolve o seu sangue mais
ardente. Que viver este do mancebo com o mancebo!

Crena nas palavras e nos sentimentos; sentimentos e palavras cheias de
verdade e de fora; amor e enthusiasmo por tudo o que  nobre e grande;
confiana nas idas e nos homens; communho quasi primitiva de bens e de
tudo; homogeneidade de tendencias; existir nos outros, pelos outros, e para
os outros; toda a virtude de quem entra na vida com muita f no futuro:
eis-ahi o viver do mancebo com o mancebo debaixo d'este co de Coimbra!

Elysa, eu amo muito esta formosa terra!

Depois de ti, da minha lyra... no, no quero que Coimbra seja o terceiro
affecto do meu corao, mas quero querer-lhe bem, porque  um querer que
ella merece.

Oh! se te eu vira um dia, Elysa, assentada comigo  nas ruinas do mosteiro
da _Rainha Sancta_[9], e d'alli, depois de haveres passado teu alvo brao 
roda do meu pescoo, te esquecesses a contemplar Coimbra, como Coimbra se
esquecera, tambem com seu brao lanado ao pescoo do monte, a pasmar na
tua face d'anjo; se a viras to linda a retratar-se no Mondego e a
sorrir-se para o co, oh! que tambem tu havias de amar muito Coimbra!

Elysa, eu bem comprehendo que tu antes quizeras que o teu amante ausente
praguejasse a terra que lhe rouba a sua Elysa; crs que a delicadeza do
sentimento pedia antes isso, seja assim: mas consente aos poetas mais uma
liberdade, deixa-os dizer o que os outros calam por traioeiros; no vale
mais esta franqueza? O corao foge para o _bello_ como a mariposa para a
luz; que culpa tem elle? que pde elle, se ha de por fora amar o
_bello_:-- um amor fatal. Mas, se te queres vingar d'esta fatalidade,
Elysa, vem, vem comigo assentar-te nas ruinas do velho mosteiro, que tu
olhars para Coimbra, e eu olharei para ti.


II

O nascer e o morrer d'um dia formoso; a profecia do sol e o seu derradeiro
adeos; o ensaiar dos canticos das aves, e o desfallecer d'esses canticos,
que passam e morrem nas tranas da floresta; as aguas, que reflectem o raio
que se alevanta; as aguas que reflectem o raio que se deita; os echos que
despertam; os echos que adormecem; a treva que se adelgaa e a treva que se
condensa; o crepusculo da manh e o crepusculo da tarde, so duas horas
gemeas nos encantos, na suavidade, na doura, nas inspiraes.

Elysa, ser um erro, uma superstio talvez; mas eu creio que todo o
pensamento nobre, grande, generoso, sublime, que tem brotado da cabea do
homem, numa d'estas duas horas  que foi concebido.

Quando o homem,  luz duvidosa da manh ou da tarde, se assenta no viso
d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma
porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o co, abrange todos
os objectos sem se fixar em um s; ouve todos os sons sem escolher um s;
sente todas as sensaes sem definir uma s; quando o corao, enfeitiado
nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensaes,
parece embalar-se no peito e adormecer, oh! ento, Elysa, ento  que o
homem conversa com a Divindade, ento os ouvidos da creatura ouvem as
palavras do Creador!

 por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa:  ella
que do seu throno de verdura me est dictando este capitulo;--que no possa
transportar eu para estas paginas essa pagina to bella do livro do Eterno!
Ainda o sol no desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz frouxa,
crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por sobre toda
a natureza, enrosca-se  volta de todos os seres alastrando de esmeraldas a
terra e de saphiras o co; aquelle murmurar monotono, pesado, o enfadonho
do dia ainda se no escuta; e as brizas folheando na selva levam de cada
folha um som, e l nas alturas compoem um hymno para Deos!

Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasam, vivam,
e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a noite no
bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se alevantava;
deixa que elles ignorem, que elles no gozem o brilho suavissimo da mais
rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu comigo assistir em
espirito  festa de todos os dias, ao desabrochar da madrugada:

      Eil-a trajando verdores
    A linda me dos amores,
    Com seus volateis cantores
    Pelos campos a folgar;
    Eil-a folgando na mata,
    Que nas aguas se retrata,
    Nas aguas de lisa prata,
    Na prata do liso mar.

      Salve, rainha formosa!
    Festeja-te o lirio, a rosa,
    Dos jardins a mariposa,
    Do trovador a cano;
    Festeja-te a pastorinha,
    Que nas cres te adivinha
    Um pensamento que tinha,
    Que tinha no corao.

      D'alda o sino te chama,
    E o moo, que deixa a cama
    Porque vai ver a quem ama
    Ao p da encosta d'alem;
    Suspiram-te sempre os montes,
    Abraam-te os horisontes,
    Choram-te rios e fontes,
    Nas fontes d'amor, que tm.

      Bemdiz-te o velho, e ensina
     neta, que  pequenina,
    Rezas sanctas da divina
    Crena, que tem no Senhor
    Bemdiz-te o armento balando,
    Do tomilho o cheiro brando,
    E o pegureiro cantando,
    Cantando magoas d'amor.

      Vem,  linda madrugada,
    Vem de violetas c'roada,
    Pelas brizas embalada,
    Vem nestes campos folgar;
    Folga nos cos e na mata,
    Que nas aguas se retrata,
    Nas aguas de lisa prata,
    Na prata do liso mar.

Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso da
felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mo de jaspe a
cortina da noite;  a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho
d'afflico o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada
um dos meus sonhos d'afflico tivesses de me dar um beijo, quantos beijos
me no devias! e cr que ento no quizera eu sonhar outros sonhos.

Mas como so cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e para
os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos 
mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas
dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas
intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios;  uma poesia
ensinada pelos anjos, porque s falla de Deos;  a verdadeira poesia.

De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais
energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o
mais poderoso, o mais energico  a contemplao da natureza. De todas as
horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplao so as
horas do crepusculo da manh e da tarde:--no sei que delicioso anhelar,
que doura saudosa anda ento no pensamento, que nas azas da meditao nos
arrebata para o co, e nos desata as cadas mesquinhas da vida mesquinha da
terra!

Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da
causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o
corao no pde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E no
sabes, Elysa, qual  a obra das mos de Deos, que mais me tem convencido da
sua existencia? Vais talvez dizer-me que so esses mares a revolverem-se
noite e dia  roda dos continentes, esses mares cujas gottas so lettras,
cujas vagas so syllabas, cujos bramidos so palavras, que dizem--existe
Deos! Vais talvez dizer-me que so as montanhas e os promontorios erguidos
como braos da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que
so esses milhes de mundos luminosos gravitando no espao, e traando no
manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o
teu espelho, Elysa, e l vers a minha prova mais bella, a minha prova mais
segura da existencia de Deos!

      O Senhor quiz no teu rosto,
    Quiz o impio confundir,
    Quiz dos cos todo o composto
    N'um s ponto resumir;
    Nos olhos pz-te as estrellas,
    Inda mais lindos do que ellas
    Os vejo d'amor fulgir;
    Poz-te nas faces a aurora
    Poz o sol no teu sorrir,
    E nas tranas cr d'amora
    Fez negra noite car;
    Que o Senhor quiz no teu rosto,
    Quiz dos cos todo o composto
    N'um s ponto resumir.

Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o absurdo
do atheu positivo; no, no cuides que o atheismo passe dos labios; ha l
dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade, que,
mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um s to desgraado,
que o haja que, merc da minha dama, lhe provarei que mente apontando-lhe
para a tua face;--a minha Elysa no podia ser fructo de um acaso estupido,
a minha Elysa  a victoria do Eterno!

E que mais formosa... mais no, a perfeio no tem grus, que formosa no
s tu quando nestas horas da manh ou da tarde te embeveces a meditar com a
fronte encostada  mo, os olhos na immensidade, e o peito arfando
brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa!

Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a contemplar
socegado o socego da tua alma, to pura como elle? Imagina a tua lindeza
pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de todos os
anjos!

Que formosa no s tu nessas horas!

O pago se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um
altar e chamava-te _Vesta!_ Cuidaria ver-te conduzindo pela mo as
_Estaes_ e o _Amor_; veria as choras das _Nymphas_  volta do teu carro
tirado por soberbos lees; veria os _Ventos_ adormecidos ao teu lado, e
_Ceres_, _Pomona_, e _Flora_ a cingirem-te a fronte com uma cora de
rainha!--o pago erguia-te um altar e chamava-te _Vesta_.

Mas no teu templo, minha _Vesta_... minha Elysa,--enganei-me--no teu templo
no seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo immortal; ahi o
sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu corao.

Se fosse  hora da tarde que o pago te visse, que te visse naquelle estado
que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que ento te
exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da varzea,
recatada do mundo e rica e feliz na solido onde reinas, se elle te vira,
em vez de te chamar _Vesta_, chamava-te a _Melancolia_.

E o pago chamava-te um bem doce nome! Fras uma Deusa bem suave, bem
mimosa ao corao: _Melancolia!_ que mais feiticeira fico tem o paganismo
para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel, mais
divino sentimento ha ahi na terra?

      Mais que o prazer, que a alegria,
    Mais que a risonha emoo,
     mais doce ao corao
    A doce melancolia!
    Como  bello, quando o dia
    Se afoga no salso mar,
    Sobre ignota penedia
    Ir co'as vagas conversar!
    Ir ssinho suspirar
    Juncto a fontinha sonora,
    E nos prantos que ella chora
    Ir aprender a chorar!
    Como  bello ento scismar
    N'uma scismada ventura,
    E aquelles sonhos sonhar
    Nunca fartos de ternura!
    Como a harmonia se apura
    Nas cordas da meiga dor
    Quando a rola da espessura
    Poisa n'harpa ao trovador!
    Quando uns gemidos d'amor,
    Gemidos que no sabia,
    Sem da harpa, e ao redor
    O echo lh'os repetia!
    Como ento mais que a alegria,
    Mais que a risonha emoo,
     mais doce ao corao
    A doce melancolia!

Elysa, se o pago te chamasse a _Melancolia_, o pago chamava-te um bem
doce nome!

E as horas da melancolia so as horas da tarde.

Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas
diaphanas cr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se
vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vo da ave,
que nos passa por cima da cabea ao ir aninhar-se na roupagem da montanha;
aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos to
alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que ento andam a folgar nas
aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vm depois roar as faces
com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e cada debaixo
dos ps do viandante canado; aquellas vozes confusas que se escutam no
casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no
silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle;
aquelle fatigado carpir do carro l ao longe ao subir das encostas; e o
sino da alda, que no alto da serra est assentada, como pastorinha
esquecida a meditar amores; e os cos azulados a vestirem pouco a pouco o
manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os
campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no corao; e o
corao a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as
suas galas.... oh! como tudo isto falla  alma uma linguagem ignota, e a
deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas so mais doces do que os
risos do prazer!

As horas da melancolia so as horas da tarde.

Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha
nascido o _Amor_; eu s nesta hora mysteriosa da tarde quizera que elle
tivesse nascido; no podia, no devia nascer noutra hora. No vs tu como
ao car da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca d'um
irmo a quem se abrace? no vs como  ento que a mulher desatina a cantar
sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que respondendo a
outra voz que a chama? no vs como a donzella, com todos os affectos ainda
em boto virginal, comea de adivinhar um segredo, um segredo lindo, que
lhe anda entre nuvens no pensamento?

    Corao de mulher, qual Philomela,
     todo amor e canto ao p da noite:
    Do amante a voz ento entra mais branda,
    Mais grata, mais feliz, dentro do peito;
    Toldam sombras o pejo, as faces podem
    Osculadas crar sem que o triumpho
    L veja o vencedor escripto em rosas;
    Melhor se escuta o frmito dos labios
    Suspirando d'amor, pedindo amores:
    Pde o _sim_ mais sumido ento colher-se,
    Fingir que foi acaso a mo tocada:
    O rigor feminil, desdens, orgulhos,
    Da tarde a virao leva-os nas azas.

Elysa, se tu no fras unica na terra, se no fras o archanjo impeccavel
que me Deos mandou dos cos para eu crer devras na virtude, tremeria com a
ida--bastava a ida--de te veres a ss com um mancebo por tal hora do
dia:-- a hora dos amores.

Mas tambem  a hora da religio; no ha momento em que a alma de melhor
vontade se eleve para Deos: a orao, Elysa,  to consoladora, to cheia
de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me
depois se no pensas que as sanctas do co vieram com mais alegre semblante
ajuntal-as no regao, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos ps
do Senhor!

A orao  o resultado do amor; o amor  o resultado do conhecimento
d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador?
Esse mesmo vo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo  uma das
suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a
creao parece que  feito para que o homem falle; calou-se tudo para que
fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do co! Elysa, para te
ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno to
melodioso, to lindo como o que elles cantam, to fervoroso como o d'elles,
to angelical como tu mesma!

Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os
namorados cavalleiros da edade mdia, que  ponta de lana vingavam e
desmentiam as injurias feitas  belleza, no haveria tanto escriptor, tanto
philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres.

A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de _ferro_, que
no havia resistir-lhes; se ento sasse  luz um livro desleal e villo,
logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de campeador, e
retinir-lhe nos ouvidos um _mentes!_ d'aquelles, que sempre deixavam uma
bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje no; hoje diz-se e escreve-se
impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se dicto das mulheres
o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais grosseiros _devotos_, que
nunca jmais ellas tiveram. Que de cousas doidas, Elysa, no tenho tambem
eu dicto e escripto para ahi a respeito das mulheres?! mas agora cuido que
d'esse mal estou curado e desculpado--no tinha encontrado uma s Elysa: e
a quem a no encontra que lhe digam que andam anjos na terra? no o
acredita. E j que tu foste quem me fizeste renegado, j que a ti devo a
minha nova crena, quero que seja o teu livro, Elysa, o campo onde levante
pendo pelo teu sexo; mas antes d'isso consente que eu desculpe alguma
cousa o meu erro;--no se pde assim deixar um velho defeito sem ter ao
menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe minorar a imputao.

No dizer mal das mulheres no ha tanta maldade como parece, e d'isto me
convencem duas cousas; no as ter nunca visto _devras_ agastadas com os
maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;-- que ellas
bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio,  que elles s
offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja corao d'amante
capaz de o no admittir, no ha.

Injurias de philosophos, essas no sei eu que se possam justificar ou
sequer defender;  gente que tem todo o seu viver na cabea, gente de glo,
gente capaz de _constipar_, como disse um Italiano fallando das mulheres da
Polonia, e por isso elles offendem porque no amam, offendem porque algum
raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um philosopho ha de
dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que _as mulheres no pertencem ao genero
humano_[10], ha de fallar com toda a seriedade a favor d'essa these
brilhante no concilio de Mcon[11], ha de escrever que ella  um ente
imperfeito na sua organisao[12], e, contente com pertencer  humanidade
s pelo lado paterno, cravar a fronte entre as duas mos, e ficar diante
d'um _in-folio_ abysmado na sua intellectualidade unilateral!

Injurias d'estas, Elysa, no tm perdo; abandono os philosophos  tua
colera.... ao teu desprezo queria dizer.

Agora poetas, isso  outra casta de gente. Dir-te-ho,  certo, cousas
terriveis, dir-te-ho:--

    Mulher pura e fiel no ha, nem houve!
    ......................................
    Raa infame de viboras dolosas
    Podesse uma s nau contel-as todas,
    E o piloto fosse eu...................[13]

que havia de fazer? deixa l dizer ao poeta o que quizer; mas cr que se
elle fosse o piloto guiava de certo a nu a porto de salvamento. No ha
gente mais trovejadora em suas iras que so os poetas; com a penna na mo
todas as vezes que se enfurecem temos _vesperas sicilianas_; mas, chegada a
occasio, vem logo absolvio papal. Embora te diga que no ha mulher, nem
houve, pura e fiel, no  cousa em que elle creia; o poeta  todo corao;
corao de poeta, se no amasse, morria-lhe no peito, e amar sem crer na
mulher  impossivel. No sei se _Milton_ disse mal das mulheres, o que sei
 que elle casou tres vezes.

Elysa, poetas so outra casta de gente que no so os philosophos.

Queres tu ver como elles fallam quando no  o ciume que os inspira? queres
ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? ouve:--Um
spro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso
deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que  metade da nossa
especie, que das duas  a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas
cousas nosso egual para nos attrar, mas com tantas differenas de ns para
se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de ns os recebe, e nos d em
troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer
como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devra tornar inviolavel,
pde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuar a ser at ao fim
dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e mais grosseiras
calumnias......... Qual pde ser a causa d'esta mais que montezinha
ferocidade?.......  a causa o mesmo natural instincto, que faz que os
soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas  fogueira ociosa do
seu rancho, encaream as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que
no tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinao para as
futuras pelejas--[14].

Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando _transfugas dos arraiaes dos
levantados se recolhem s trincheiras d'ellas_;--todos esses libellos, que
lhes saem das mos, no so d'elles;  o anjo negro, diabolico, sinistro do
ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e por conta dos
pobres poetas.

E quem no perdoar os furores do ciume?! no sei at se elles so
necessarios. _Ovidio_, que passa por mestre em taes materias, aconselhou-os
porque traziam comsigo a _redintegratio amoris_, a doura da nova paz; e
to longe leva elle o conselho, que permitte chegar o amante enfurecido a
despedaar os vestidos da sua bella ingrata; tambem _Molire_, que no foi
sempre francez com as damas, tambem elle os desculpa e se desculpa
dizendo:--ne savez vous pas que les injures des amants n'offensent jamais;
qu'il est des amours emports aussi bien que des doucereux; et qu'en de
pareilles occasions les paroles les plus tranges, _et quelque chose de pis
encore_, se prennent bien souvent pour des marques d'affection, par celles
mme qui les reoivent?--[15].

No sei se _Molire_ quiz adoptar o principio de _Ovidio_ naquelle _quelque
chose de pis encore_; mas o que um e outro quizeram foi cobrir o ciume com
as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma auctoridade mais
competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse[16]. O que  certo
porm, Elysa, e seja com isto que eu d mate  minha defesa, o que  certo
 que por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeio,  mister no a
lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito no sei se  maior
prova de indifferena que de amor.

Est pois decidido que os poetas so muito melhores do que os philosophos,
e que no seu dizer mal no ha injuria comparavel quella injuria fria,
tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as _mulheres no pertencem
ao genero humano_:--quem os tivera feito nascer das hervas! Estes taes no
quizera eu nem que as tetas das lobas os alimentassem.

      Nunca taes homens souberam
    Ler na face da mulher,
    Em seus olhos aprender
    Nunca taes homens quizeram.

      No viram manar-lhe a flux
    Dos labios celeste riso?
    No viram do paraiso
    Nos olhos accesa a luz?

      No  d'anjo a voz macia,
    Que, vencendo almo pudor,
    Te diz ternura e amor
    Com to mimosa harmonia?
    Aquelle encanto s seu,
    Graas e mimos s d'ella,
    Aquella rosa to bella
    No vem do rosal do co?

      A quem  terra s veiu
    Por te servir, por te amar,
    D'irm tua lhe chamar
    Parece que tens receio?[17]
    Se o teu orgulho no quer
    Chamar anjo  formosura,
    Deixando ingrata loucura,
    Chama-lhe ao menos mulher.

      No pertence  humanidade
    Dizes tu, impio! e no vs
    Do seio car-lhe aos ps
    Humanada a Divindade?!
    Se em ti a crena inda tem
    Algum poder, pensa n'isto,
    Pensa tu que Jesus-Christo
    Foi homem por sua me.

O que  admiravel, Elysa,  que na mesma epocha em que se dizia em Frana
que _a mulher no tinha alma_, appareceram _Isabel de Baviera_ e _Joanna
d'Arc_: aquella entregou a Frana  Inglaterra para mostrar o poder d'uma
mulher; esta deu de novo a patria aos philosophos para mostrar a
generosidade feminina; foi Deos que se encarregou de as desafrontar.

Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a
mulher intellectual, a mulher moral, j nem syllogismos nem versos lhe
seriam to contrarios; mas que? so como o Marquez que Molire nos pinta;
nem se do ao trabalho de examinar o que sentencam, e depois--je la
trouve dtestable, morbleu! dtestable, du dernier dtestable, ce qu'on
appele dtestable--[18].

A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de _Hippocrates_
no), achal-a-hiam to perfeita como o homem; e se algum d'estes entes deve
ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da organisao, essa
preferencia cabe  mulher, sem contar todavia a belleza externa, nem a
graa das frmas.

A mulher intellectual haviam de encontral-a em _Sapho_, _Heloiza_,
_Catharina_, _Semiramis_, _Stal_, _Sevign_, _Coulanges_, _Lafayette_,
_Bernier_, _Flaugergues_, e tantas outras, que tm regido o sceptro ou a
penna com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os
_Aspasia_ a _Socrates_ e _Pericles_, _Ninon de Lenclos_ a _Cond_ e _La
Rochefoucault_:--sem a mulher os conhecimentos do homem seriam imperfeitos;
elle descobriria o que na natureza ha de forte, de grande, de sublime; mas
a graa, o mimo, a delicadeza s pela mulher podia ser descoberta. A
litteratura carece de imaginao, e a mulher tem na imaginao a principal
natureza da sua alma; aqui a vantagem  toda d'ella:--at se no for ella
quem pove o corao do homem das illuses do amor, aonde ir elle
encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao positivismo da vida
material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de encher os seus
livros?

A litteratura e as artes tm sempre devido  mulher ou joias suas, que lhes
faam o diadema, ou proteco e influencia, que as augmentem e desenvolvam:
foi na crte de _Catharina de Mdicis_ que _Henrique o grande_, aprendendo
a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e cavalleirosas, que
distinguiram o seu reinado, dando  sua lingua uma graa e polidez, que no
tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e artes, que _Maria_ e
_Catharina de Mdicis_ levaram da Italia para Frana foram a origem do
desenvolvimento das artes e das lettras do seu tempo. E no seria 
influencia que as mulheres tiveram na crte de Luiz XIV, que se deveu ento
essa lista immensa de homens celebres, com que a Frana se honra, e que o
mundo estuda e admira? E no ser para agradar  mulher que o homem gera a
industria, inventa o canto, a dana, a pintura, amenisa a linguagem com as
flores da poesia, traja com esmero, e torna affaveis e doces suas maneiras
e costumes? A mulher intellectual no existe s em si, existe nos outros
tambem; no se contenta com as suas creaes, instiga os outros a crear; e
 considerando reunido o que a alma da mulher pode tirar de si propria, e o
que a mulher concorre para as produces da alma do homem;  considerando
reunido num s ponto o que a mulher  em si e no homem, que eu a vejo to
sublime, to elevada, que, seno tivera o lado moral para a olhar, j por
este lhe podia chamar anjo.

A mulher moral porem  que  a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a ns
vejamos na sua condio de amante, de irm, de filha, de _mulher_ e de me;
ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou
contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem  sempre ella que
imprime a virtude ou o vicio no corao; ou a analysemos no seu throno, que
 na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a
vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do
amor, na madureza ser a consolao da alma, e na velhice ser a mestra da
virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos
reprehenda, que nos ame ou que nos aborrea, a mulher moral  a parte mais
augusta da creao.

--A mulher moral  o infinito-- disse um illustre escriptor[19]; e na
verdade s assim se pode definir o mysterio da mulher moral!

A mulher  o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher moral 
o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves
excepes, achal-a-heis na educao, isto , na mulher; vdes uma boa
aco? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que no haja
no mundo um s facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, no
seja a mulher:--os homens sero sempre o que as mulheres quizerem que
elles sejam-- disse _Rousseau_[20], e disse uma grande verdade; porque
antes que o homem seja cidado  filho primeiro. A me dos _Gracchos_ e dos
_Corneilles_ tinha uma alma nobre, grande e severa; a me de _Voltaire_ era
escarnecedora e de garridas maneiras; a de _Byron_, at nem os defeitos
physicos do filho escapavam  sua maldade; _Kant_ dizia que fra sua me
quem lhe lanara na alma o germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o
amor do Creador, explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza[21];
_Cuvier_ deveu a sua me os successos brilhantes da sua vida illustre[22];
_Barnave_ j com um p sobre o cadafalso bemdiz sua me, que lhe deu na
infancia o valor que alli o anima; _Lamartine_ aprendeu nas harmonias do
corao materno as harmonias da sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se aps
estes nomes to respeitaveis e to illustres  permittido citar o meu pobre
e desconhecido nome, sirva elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito
pouco, de bom que em mim tenho  unicamente a minha me,  a ella s que eu
o devo.

Que augusta no  pois a misso da mulher sobre a terra! Ah! que se
philosophos e poetas meditassem bem no que  a mulher, e, sobre tudo, no
que ella pode ser, no haveria um s que no visse nesse ente o osis
mimoso dos desertos da vida! Mas elles no curam de tal: arrancam
desapiedados as pennas alvissimas s azas do cherubim, e depois, vendo-a
assim to ao nivel das cousas da terra, descrem d'aquillo mesmo em que no
souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que  a
mulher, e depois julgae-a.

Em quanto no fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e
traioeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o
que pensais dizer da mulher como ella saiu das mos de Deos, quando viu que
no era bom que o homem vivesse s:--dizei embora o que quizerdes, mas da
mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que
derrameis, nunca podereis provar a maldade seno com aquellas razes com
que o citado Marquez da pea de Molire provava a maldade de _L'cole des
Femmes_-- elle est dtestable parce qu'elle est dtestable--[23].

Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, no occupa o logar que lhe a
natureza marcou, ahi os povos so escravos, a ignorancia  profunda, e os
costumes so barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, _veda-lhe_ a
entrada no co, prohibe-lhe a leitura dos livros religiosos, afasta-a do
tracto commum, e deixa-lhe s nos ferros do harem os erros da superstio e
os absurdos da feiticeria: que se segue d'aqui?--que a tyrannia  no
Oriente um principio, que a civilisao  nulla, e que a moral  uma
palavra sem significao. Cuidou o Musulmano que, fazendo da mulher uma
machina, tinha creado a felicidade para si; a felicidade s ella a ha de
crear, mas  mister que livre e desassombrada, rainha e no escrava, possa,
como a pomba da primavera, adejar sobre a cabea do homem, ensinar-lhe as
aguas mais puras onde deve matar a sde, e a relva mais macia onde se deve
assentar; s a mulher sabe, como a abelha, quaes so as flores que do mel,
mas no lhe ho de crestar as azas na chamma da impureza, que ento,
materialisado o amor, o homem e a mulher perdero a faisca da divindade que
os extremava do resto da creao;--ou  os povos se ho de embrutecer em
seus braos, ou civilisar a seus ps--[24]. No  com todos os pensamentos
cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a felicidade; o Oriente
no comprehendeu a mulher.

Que ter a filha do propheta para dar  alma do homem quando os sentidos
estiverem saciados?--a ignorancia, as paixes mesquinhas, as astucias, os
vicios todos da ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a
tristeza da escravido, ou as traies d'um inimigo.

E o amor? Oh! esse nunca; esse no sabe morar num calabouo.

      Ao cioso mahometano
    Que vale o fechado harem,
    Se amor de escrava a tyranno
    Do corao lhe no vem?
    Que importam centos de bellas,
    Se uma s de todas ellas
    Livre em seu gosto no ha?
    Que importa matar desejos,
    Que importam, louco! esses beijos,
    Se s vendidos t'os d?

      Com alma na d'esp'ranas,
    Como ha de a escrava saber
    Que alem de jogos e danas
    Tem mais gozos a mulher?
    D'esses gozos no sabidos
    Como ha de trazer-te enchidos
    Os dias que vo e vm?
    Se, dos paes perdida a trilha,
    Ella no sabe ser filha,
    Como ha de saber ser me?

      Embora os astros lhe apontes,
    Embora mostres os cos,
    E uma a uma lhe contes
    As maravilhas de Deos,
    Ha de dizer-te--que importa?
    Se eu tenho fechada a porta
    Que leva ao reino da luz?
    Que importa, se em vida e morte
    Sou proscripta, e minha sorte
    Nunca propicia reluz?

      L quando a dor te accommetta,
    Quando rir teu corao,
    As filhas do teu propheta
    Pranto e risos te daro.
    Ouvir co'os teus ouvidos,
    Sentir co'os teus sentidos,
    Viver no teu viver?
    Oh que no!--solta-lhe os ferros,
    Despe-lhe a alma dos teus erros,
    E a escrava ser mulher.


FIM


    [1]  crena muito antiga que umas pedras vermelhas, que se encontram
    na _fonte dos amores_, devem a sua cr ao sangue de D. Ignez de Castro.

    [2] No quero dizer que descreio das leis da _Acustica_; sei que ella
    no s explica, mas at consegue fazer _echos_:--a palavra _segredo_
    veiu aqui para symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos
    naturaes, em se o homem remontando um pouco, chega logo s _foras
    centripetas e centrifugas_, ou quelle celebre _opium facit dormire,
    quia habet virtutem dormitivam_.

    [3] Garrett

    [4] Cames.

    [5] Martim de Freitas.

    [6] S de Miranda.

    [7] D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra.

    [8] Este echo do jardim botanico de Coimbra repete um verso heroico
    inteiro.

    [9] A Rainha Sancta Isabel, mulher d'El-Rei D. Diniz.

    [10] _Mulieres homines non esse_. Dissert. anonym. d'Acidalius,--Paris
    1693, in 12.

    [11] Gregor. Turonens. Hist. Franc.

    [12] D'anciens philosophes et des mdecins, tels qu'Hippocrate,
    Aristote, ont ausai regard la femme comme un tre imparfait, un
    demi-homme. _Virey_--_De la Femme_, chap. 1.^er, pag. 15.

    [13] A. F. de Castilho--_Ciumes do Bardo_.

    [14] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas  Festa de Maio_.

    [15] _La critiq. de l'col des Femm._ Sc. 7.

    [16]  Sr.^a Marqueza d'........ uma das mais instruidas e amaveis
    damas que tenho visto, ouvi eu que em materia de ciume era permittido a
    um homem levar a sua colera at alguma pequena aco violenta. O sexo,
    a madureza da edade, a penetrao, e conhecimento do corao humano,
    que esta senhora possue, do-lhe direito a ser muito respeitada a sua
    sentena.

    [17] At _Plinio_ se no pejou de lhe chamar animal.

    [18] _La Critiq. de L'col. da Femm._--sc, 6.^e

    [19] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas  Festa de Maio_

    [20] _mile--Liv._ 5.

    [21] Schoen--_Biograph. de Kant._

    [22] _Memoires sur Georges Cuvier_--Mistr. Lee.

    [23] _La Critiq. de l'col. des Femm._ sc. 6.^e

    [24] Aim Martin--_Educat. des Mr. de Fam._.





End of the Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by Joo de Lemos

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